Hoje é considerado o Dia Nacional
da Poesia no Brasil, por nesta data
ter nascido o grande poeta brasileiro
Castro Alves.
Poeta - Castro Alves
POETA, às horas mortas que o cálice
azulado
— Da etérea flor — a noite —
debruça-se p'ra o mar,
E a pálida sonâmbula, cumprindo o
eterno fado,
As gazas transparentes espalha do
luar,
Eu vi-te ao clarão, trêmulo dos
astros lá n'altura
Pela janela aberta às virações
azuis,
— A amante sobre o peito sedento de
ternura,
A mente no infinito sedenta só de
luz.
Perto do candelabro teu Lamartine
terno
À tua espera abria as folhas de
cetim;
Mas tu lias no livro, onde escrevera
o Eterno
Letras — que são estrelas — no céu —
folha sem fim
Cismavas... de astro em astro teu
pensamento errava
Rasgando o reposteiro da seda azul
dos céus:
E teu ouvido atento... em êxtase
escutava
Nas virações da noite o respirar de
Deus.
O oceano de tua alma, do crânio
transbordando,
Enchia a natureza de sentimento e
amor,
As noites eram ninhos de amantes
s'ocultando,
O monte — um braço erguido em busca
do Senhor.
Nas selvas, nas neblinas o olhar
visionário
Via s'erguer fantasmas aqui...
ali... além,
P'ra ti era o cipreste — o dedo
mortuário
Com que o sepulcro aponta no espaço
ao longe... alguém
No cedro pensativo, que a sós no
descampado
Geme e goteja orvalhos ao sopro do
tufão,
Vias um triste velho — sozinho,
desprezado
Molhando a barba em prantos co'a
fronte para o chão.
Aqui — ondina louca — vogavas sobre
os mares —
Ali — silfo ligeiro — na murta ias
dormir,
Anjo — de algum cometa, que vaga
pelos ares,
Na cabeleira fúlgida brincavas a
sorrir.
Sublime panteísta, que amor em ti
resumes,
Sentes a alma de Deus na criação
brilhar!
Perfume — tu subias, de um anjo
entre os perfumes,
Ave do céu — nas nuvens teu ninho
ias buscar.
Canta, poeta, os hinos, com que o
silêncio acordas,
A natureza — é uma harpa presa nas
mãos de Deus.
O mundo passa... e mira o brilho
dessas cordas...
E o hino?... O hino apenas chega aos
ouvidos teus.
Todo o universo é um templo — o céu
a cúpula imensa,
Os astros — lampas de ouro no espaço
a cintilar,
A ventania — é o órgão que enche a
nave extensa,
Tu és o sacerdote da terra — imenso
altar.
Aos quatorze dias do mês de
março, no ano de 1847, nasceu
António Frederico de Castro Alves,
na fazenda Cabaceiras, a sete léguas
da vila de Curralinho, hoje cidade
da Bahia. Era filho do Dr. António
José Castro Alves e D. Clélia
Brasília de Castro Alves. Passou a
infância no sertão natal, e em 54
iniciou os estudos na capital
baiana. Aos dezesseis anos foi
mandado para o Recife. Ia completar
os preparatórios para se habilitar à
matrícula na Academia de Direito. A
liberdade aos 16 anos é coisa
perigosa. O poeta achou a cidade
insípida. Como ocupava os seus dias?
Disse-o em carta a um amigo da
Bahia: "Minha vida passo-a aqui numa
rede olhando o telhado, lendo pouco
fumando muito. O meu ‘cinismo passa
a misantropia. Acho-me bastante
afectado do peito, tenho sofrido
muito. Esta apatia mata-me. De vez
em quando vou à Soledade." Que era a
Soledade? Um bairro do Recife, onde
o poeta tinha uma namorada. O
resultado dessa vadiagem foi a
reprovação no exame de geometria.
Mas em 64 consegue o adolescente
matricular-se no Curso Jurídico. Se
era tido por mau estudante, já
começava a ser notado como poeta. Em
62 escrevera o poema "A Destruição
de Jerusalém", em 63 "Pesadelo",
"Meu Segredo", já inspirado pela
actriz Eugénia Câmara, "Cansaço",
"Noite de Amor", "A Canção do
Africano" e outros. Tudo isso era,
verdade seja, poesia muito ruim
ainda. O menino atirava alto. "A
poesia", dizia, "é um sacerdócio —
seu Deus, o belo — seu tributário, o
Poeta." O Poeta derramando sempre
uma lágrima sobre as dores do mundo.
"É que", acrescentava, "para chorar
as dores pequenas, Deus criou a
afeição, para chorar a humanidade —
a poesia." Mas, no dia 9 de Novembro
de 1864, ao toque da meia-noite, na
soteia em que morava, o poeta, que
sem dúvida se balançava na rede,
fumando muito, sentiu doer-lhe o
peito, e um pressentimento sinistro
passou-lhe na alma. Pela primeira
vez ia beber inspiração nas fontes
da grande poesia: essa a importância
do poema "Mocidade e Morte" na obra
de ?????. Uma dor individual, dessas
para as quais "Deus criou a
afeição", despertou no poeta os
acentos supremos, que ele depois
saberá estender às dores da
humanidade, aos sofrimentos dos
negros escravos (O Navio Negreiro),
ao martírio de todo um continente
(Vozes d'África). Não era mais o
menino que brincava de poesia, era
já o poeta-condor, que iniciava os
seus voos nos céus da verdadeira
poesia. Naquela mesma noite escreve
o poema, tema pessoal, logo alargado
na antítese mocidade-morte, a
mocidade borbulhante de génio,
sedenta de justiça, de amor e de
glória, dolorosamente frustrada pela
morte sete anos depois. A versão
primitiva do Poema foi conservada em
autógrafo, documento precioso porque
revela duas coisas: o poeta não se
contentava com a forma em que lhe
saíam os versos no primeiro momento
da inspiração; na tarefa de os
corrigir e completar procedia com
segura intuição e fino gosto.
Cotejada a primeira versão com a que
foi publicada pelo poeta em São
Paulo, por volta de 68-69,
verifica-se que todas as emendas
foram para melhor. Baste um exemplo:
o sexto verso da segunda oitava era
na primeira versão "Adornada" com os
prantos do arrebol, substituído na
definitiva por "Que" banharam de
prantos as alvoradas, verso que
forma com o anterior um dístico de
raro sortilégio verbal.
"vem! formosa mulher — camélia
pálida,
Que banharam de pranto as
alvoradas".
Quase a meio do curso, em 67,
o poeta, apaixonado pela portuguesa
Eugénia Câmara, parte com ela para a
Bahia, onde faz representar um mau
drama em prosa — "Gonzaga" ou a
"Revolução de Minas". Era sua
intenção concluir o bacharelato em
São Paulo, aonde chegou no ano
seguinte. A sua passagem pelo Rio
assinalou-se pelos mesmos triunfos
já alcançados em Pernambuco. Em São
Paulo, nos fins de 68, feriu-se num
pé com um tiro acidental por ocasião
de uma caçada, do que resultou longa
enfermidade, em que teve o poeta que
se submeter a várias intervenções
cirúrgicas e finalmente à amputação
do pé. O depauperamento das forças
conduziu-o à tuberculose pulmonar, a
que sucumbiu em 71 no sertão de sua
província natal. Antes de regressar
a ela, publicara, em 70, o livro
"Espumas Flutuantes", cantos por ele
definidos como rebentando por vezes,
ao estalar fatídico do látego da
desgraça", reflectindo por vezes "o
prisma fantástico da ventura ou do
entusiasmo".
No "O Navio Negreiro" evocava
o poeta os sofrimentos dos negros na
travessia da África para o Brasil.
Sabe-se que os infelizes vinham
amontoados no porão e só subiam ao
convés uma vez ao dia para o
exercício higiénico, a dança forçada
sob o chicote dos capatazes. Em 70
cumpre distinguir o lírico amoroso,
que se exprimia quase sempre sem
ênfase e às vezes com exemplar
simplicidade, como no formoso quadro
do poema "Adormecida", o poeta
descritivo, pintando com admirável
verdade e poesia a nossa paisagem,
tal em "O Crepúsculo Sertanejo",
cumpre distingui-lo do épico social
desmedindo-se em violentas
antíteses, em retumbantes
onomatopeias. A este último aspecto
há que levar em conta a intenção
pragmática dos seus cantos, escritos
para serem declamados na praça
pública, em teatros ou grandes salas
—, verdadeiros discursos de
poeta-tribuno. E há que reconhecer
nele, mau grado os excessos e o
mau-gosto ocasional, a maior força
verbal e a inspiração mais generosa
de toda a poesia brasileira.
Em fevereiro de 1870 seguiu
para Curralinho para melhorar a
tuberculose que se agravara, viveu
na fazenda Santa Isabel, em
Itaberaba. Em setembro, voltou para
Salvador. Ainda leria, em outubro,
«A cachoeira de Paulo Afonso» para
um grupo de amigos, e lançou
«Espumas flutuantes». Mas pouco
durou. Sua última aparição em púbico
foi em 10 de fevereiro de 1871 numa
récita beneficente. Morreu às três e
meia da tarde, no solar da família
no Sodré, Salvador, Bahia, em 6 de
Julho de 1871.Seus escritos póstumos
incluem apenas um volume de versos:
A Cachoeira de Paulo Afonso (1876),
Os Escravos (1883) e, mais tarde,
Hinos do Equador (1921). É um dos
patronos da Academia Brasileira de
Letras (cadeira número 7)
Por ser um dos grandes
expoentes da poesia romântica no
Brasil é que Castro Alves é
homenageado até hoje.
Trabalho e pesquisa de Carlos
Leite Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal