Fátima - 13 de Maio - Terra de Fé
Por
Carlos Leite Ribeiro
Arte Final: Iara
Melo

Fátima, que
conhecemos razoavelmente bem, não deixa de nos
surpreender a cada novo dia, a cada novo mês, a cada
novo ano. Não se sendo nem crente nem peregrino é
difícil, senão mesmo impossível, explicar o que leva
a que pontualmente ali se concentrem maiores
multidões de peregrinos, provenientes de todo o país
e de todos os continentes. Muitos deles
sujeitando-se a violências físicas que se não podem
justificar e que, muitas vezes, muito dolorosamente
se conseguem suportar.
Mas é espantoso o impacto dessas peregrinações e
extraordinária a força das celebrações. Esta manhã a
Cova da Iria é um mar de gente, envergando a
solenidade de quem espera, de quem reza, de quem
chora, de quem acredita. Sejam quais forem as
circunstâncias, os locais ou os propósitos, o homem
precisa de acreditar em qualquer coisa para que se
motive, para que descubra uma razão para tudo o que
pensa e para quanto faz.
As estradas do Norte e Centro de Portugal,
enchem-se de peregrinos a caminho de Fátima
(Portugal). É impressionante a sua Fé, ao
percorrerem, muitos deles, centenas de quilómetros.
Mas lá seguem, ordeiramente e cantando, para na
tarde do dia 12 de Maio estarem no Santuário Mariano
de Nossa Senhora de Fátima, para as comemorações do
13 de Maio. O espectáculo da Procissão das Velas, na
noite de 12 para 13, é deslumbrante. Só com a
iluminação de velas e o andor de Nossa Senhora de
Fátima passeando pelo meio. É inesquecível.

A PROCISSÃO DAS VELAS EM FÁTIMA -
PORTUGAL
Na passagem do segundo para o terceiro
milénio, o Papa João Paulo II decidiu tornar público
o texto da terceira parte do « segredo de Fátima ».
Depois dos acontecimentos dramáticos e
cruéis do século XX, um dos mais tormentosos da
história do homem, com o ponto culminante no cruento
atentado ao « doce Cristo na terra », abre-se assim
o véu sobre uma realidade que faz história e a
interpreta na sua profundidade segundo uma dimensão
espiritual, a que é refractária a mentalidade
actual, frequentemente eivada de racionalismo.
A história está constelada de aparições e
sinais sobrenaturais, que influenciam o desenrolar
dos acontecimentos humanos e acompanham o caminho do
mundo, surpreendendo crentes e descrentes. Estas
manifestações, que não podem contradizer o conteúdo
da fé, devem convergir para o objecto central do
anúncio de Cristo: o amor do Pai que suscita nos
homens a conversão e dá a graça para se abandonarem
a Ele com devoção filial. Tal é a mensagem de
Fátima, com o seu veemente apelo à conversão e à
penitência, que leva realmente ao coração do
Evangelho.
Fátima é, sem dúvida, a mais profética das
aparições modernas. A primeira e a segunda parte do
« segredo », que são publicadas em seguida para
ficar completa a documentação, dizem respeito antes
de mais à pavorosa visão do inferno, à devoção ao
Imaculado Coração de Maria, à segunda guerra
mundial, e depois ao prenúncio dos danos imensos que
a Rússia, com a sua defecção da fé cristã e adesão
ao totalitarismo comunista, haveria de causar à
humanidade.
Em 1917, ninguém poderia ter imaginado
tudo isto: os três pastorinhos de Fátima vêem,
ouvem, memorizam, e Lúcia, a testemunha
sobrevivente, quando recebe a ordem do Bispo de
Leiria e a autorização de Nossa Senhora, põe por
escrito.
Para a exposição das primeiras duas partes
do « segredo », aliás já publicadas e conhecidas,
foi escolhido o texto escrito pela Irmã Lúcia na
terceira memória, de 31 de Agosto de 1941; na quarta
memória, de 8 de Dezembro de 1941, ela acrescentará
qualquer observação.
Os três Pastorinhos

A terceira parte do « segredo » foi
escrita « por ordem de Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor
Bispo de Leiria e da (...) Santíssima Mãe », no dia
3 de Janeiro de 1944.
O envelope selado foi guardado
primeiramente pelo Bispo de Leiria. Para se tutelar
melhor o « segredo », no dia 4 de Abril de 1957 o
envelope foi entregue ao Arquivo Secreto do Santo
Ofício. Disto mesmo, foi avisada a Irmã Lúcia pelo
Bispo de Leiria.
Segundo apontamentos do Arquivo, no dia 17
de Agosto de 1959 e de acordo com Sua Eminência o
Cardeal Alfredo Ottaviani, o Comissário do Santo
Ofício, Padre Pierre Paul Philippe OP, levou a João
XXIII o envelope com a terceira parte do « segredo
de Fátima ». Sua Santidade, « depois de alguma
hesitação », disse: « Aguardemos. Rezarei.
Far-lhe-ei saber o que decidi ».(1)
Na realidade, a decisão do Papa João XXIII
foi enviar de novo o envelope selado para o Santo
Ofício e não revelar a terceira parte do « segredo
».
Paulo VI leu o conteúdo com o Substituto
da Secretaria de Estado, Sua Exmª Remª D. Ângelo
Dell'Acqua, a 27 de Março de 1965, e mandou
novamente o envelope para o Arquivo do Santo Ofício,
com a decisão de não publicar o texto.
João Paulo II, por sua vez, pediu o
envelope com a terceira parte do « segredo », após o
atentado de 13 de Maio de 1981. Sua Eminência o
Cardeal Franjo Seper, Prefeito da Congregação, a 18
de Julho de 1981 entregou a Sua Ex.cia Rev.ma D.
Eduardo Martínez Somalo, Substituto da Secretaria de
Estado, dois envelopes: um branco, com o texto
original da Irmã Lúcia em língua portuguesa; outro
cor-de-laranja, com a tradução do « segredo » em
língua italiana. No dia 11 de Agosto seguinte, o
Senhor D. Martínez Somalo devolveu os dois envelopes
ao Arquivo do Santo Ofício.(2)
Como é sabido, o Papa João Paulo II pensou
imediatamente na consagração do mundo ao Imaculado
Coração de Maria e compôs ele mesmo uma oração para
o designado « Acto de Entrega », que seria celebrado
na Basílica de Santa Maria Maior a 7 de Junho de
1981, solenidade de Pentecostes, dia escolhido para
comemorar os 1600 anos do primeiro Concílio
Constantinopolitano e os 1550 anos do Concílio de
Éfeso. O Papa, forçadamente ausente, enviou uma
radiomensagem com a sua alocução. Transcrevemos a
parte do texto, onde se refere exactamente o acto de
entrega:
« Ó Mãe dos homens e dos povos, Vós
conheceis todos os seus sofrimentos e as suas
esperanças, Vós sentis maternalmente todas as lutas
entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que
abalam o mundo, acolhei o nosso brado, dirigido no
Espírito Santo directamente ao vosso Coração, e
abraçai com o amor da Mãe e da Serva do Senhor
aqueles que mais esperam por este abraço e, ao mesmo
tempo, aqueles cuja entrega também Vós esperais de
maneira particular. Tomai sob a vossa protecção
materna a família humana inteira, que, com enlevo
afectuoso, nós Vos confiamos, ó Mãe. Que se aproxime
para todos o tempo da paz e da liberdade, o tempo da
verdade, da justiça e da esperança ». (3)
Mas, para responder mais plenamente aos
pedidos de Nossa Senhora, o Santo Padre quis,
durante o Ano Santo da Redenção, tornar mais
explícito o acto de entrega de 7 de Junho de 1981,
repetido em Fátima no dia 13 de Maio de 1982. E, no
dia 25 de Março de 1984, quando se recorda o facto
pronunciado por Maria no momento da Anunciação, na
Praça de S. Pedro, em união espiritual com todos os
Bispos do mundo precedentemente « convocados », o
Papa entrega ao Imaculado Coração de Maria os homens
e os povos, com expressões que lembram as palavras
ardorosamente pronunciadas em 1981:
« E por isso, ó Mãe dos homens e dos
povos, Vós que conheceis todos os seus sofrimentos e
as suas esperanças, Vós que sentis maternalmente
todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as
trevas, que abalam o mundo contemporâneo, acolhei o
nosso clamor que, movidos pelo Espírito Santo,
elevamos directamente ao vosso Coração: Abraçai, com
amor de Mãe e de Serva do Senhor, este nosso mundo
humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de
inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e
dos povos.
De modo especial Vos entregamos e
consagramos aqueles homens e aquelas nações que
desta entrega e desta consagração têm
particularmente necessidade.
"À vossa protecção nos acolhemos, Santa
Mãe de Deus"! Não desprezeis as súplicas que se
elevam de nós que estamos na provação! ».
Depois o Papa continua com maior veemência
e concretização de referências, quase comentando a
Mensagem de Fátima nas suas predições infelizmente
cumpridas:
« Encontrando-nos hoje diante Vós, Mãe de
Cristo, diante do vosso Imaculado Coração,
desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos à
consagração que, por nosso amor, o vosso Filho fez
de Si mesmo ao Pai: "Eu consagro-Me por eles — foram
as suas palavras — para eles serem também
consagrados na verdade" (Jo 17, 19). Queremos
unir-nos ao nosso Redentor, nesta consagração pelo
mundo e pelos homens, a qual, no seu Coração divino,
tem o poder de alcançar o perdão e de conseguir a
reparação.
A força desta consagração permanece por
todos os tempos e abrange todos os homens, os povos
e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das
trevas é capaz de despertar no coração do homem e na
sua história e que, de facto, despertou nos nossos
tempos.
Oh quão profundamente sentimos a
necessidade de consagração pela humanidade e pelo
mundo: pelo nosso mundo contemporâneo, em união com
o próprio Cristo! Na realidade, a obra redentora de
Cristo deve ser participada pelo mundo por meio da
Igreja.
Manifesta-o o presente Ano da Redenção: o
Jubileu extraordinário de toda a Igreja.
Neste Ano Santo, bendita sejais acima de
todas as criaturas Vós, Serva do Senhor, que
obedecestes da maneira mais plena ao chamamento
Divino!
Louvada sejais Vós, que estais
inteiramente unida à consagração redentora do vosso
Filho!
Mãe da Igreja! Iluminai o Povo de Deus nos
caminhos da fé, da esperança e da caridade! Iluminai
de modo especial os povos dos quais Vós esperais a
nossa consagração e a nossa entrega. Ajudai-nos a
viver na verdade da consagração de Cristo por toda a
família humana do mundo contemporâneo.
Confiando-Vos, ó Mãe, o mundo, todos os
homens e todos os povos, nós Vos confiamos também a
própria consagração do mundo, depositando-a no vosso
Coração materno.
Oh Imaculado Coração! Ajudai-nos a vencer
a ameaça do mal, que se enraíza tão facilmente nos
corações dos homens de hoje e que, nos seus efeitos
incomensuráveis, pesa já sobre a vida presente e
parece fechar os caminhos do futuro!
Da fome e da guerra, livrai-nos!
Da guerra nuclear, de uma autodestruição
incalculável, e de toda a espécie de guerra,
livrai-nos!
Dos pecados contra a vida do homem desde
os seus primeiros instantes, livrai-nos!
Do ódio e do aviltamento da dignidade dos
filhos de Deus, livrai-nos!
De todo o género de injustiça na vida
social, nacional e internacional, livrai-nos!
Da facilidade em calcar aos pés os
mandamentos de Deus, livrai-nos!
Da tentativa de ofuscar nos corações
humanos a própria verdade de Deus, livrai-nos!
Da perda da consciência do bem e do mal,
livrai-nos!
Dos pecados contra o Espírito Santo,
livrai-nos, livrai-nos!
Acolhei, ó Mãe de Cristo, este clamor
carregado do sofrimento de todos os homens!
Carregado do sofrimento de sociedades inteiras!
Ajudai-nos com a força do Espírito Santo a
vencer todo o pecado: o pecado do homem e o "pecado
do mundo", enfim o pecado em todas as suas
manifestações.
Que se revele uma vez mais, na história do
mundo, a força salvadora infinita da Redenção: a
força do Amor misericordioso! Que ele detenha o mal!
Que ele transforme as consciências! Que se manifeste
para todos, no vosso Imaculado Coração, a luz da
Esperança! ».(4)
A Irmã Lúcia confirmou pessoalmente que
este acto, solene e universal, de consagração
correspondia àquilo que Nossa Senhora queria: « Sim,
está feita tal como Nossa Senhora a pediu, desde o
dia 25 de Março de 1984 » (carta de 8 de Novembro de
1989). Por isso, qualquer discussão e ulterior
petição não tem fundamento.
Na documentação apresentada, para além das
páginas manuscritas da Irmã Lúcia inserem-se mais
quatro textos: 1) A carta do Santo Padre à Irmã
Lúcia, datada de 19 de Abril de 2000; 2) Uma
descrição do colóquio que houve com a Irmã Lúcia no
dia 27 de Abril de 2000; 3) A comunicação lida, por
encargo do Santo Padre, por Sua Eminência o Cardeal
Ângelo Sodano, Secretário de Estado, em Fátima no
dia 13 de Maio deste ano; 4) O comentário teológico
de Sua Eminência o Cardeal Joseph Ratzinger,
Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
Uma orientação para a interpretação da
terceira parte do « segredo » tinha sido já
oferecida pela Irmã Lúcia, numa carta dirigida ao
Santo Padre a 12 de Maio de 1982, onde dizia:
« A terceira parte do segredo refere-se às
palavras de Nossa Senhora: "Se não, [a Rússia]
espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo
guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão
martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer,
várias nações serão aniquiladas" (13-VII-1917).
A terceira parte do segredo é uma
revelação simbólica, que se refere a este trecho da
Mensagem, condicionada ao facto de aceitarmos ou não
o que a Mensagem nos pede: "Se atenderem a meus
pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz; se
não, espalhará os seus erros pelo mundo, etc".
Porque não temos atendido a este apelo da
Mensagem, verificamos que ela se tem cumprido, a
Rússia foi invadindo o mundo com os seus erros. E se
não vemos ainda, como facto consumado, o final desta
profecia, vemos que para aí caminhamos a passos
largos. Se não recuarmos no caminho do pecado, do
ódio, da vingança, da injustiça atropelando os
direitos da pessoa humana, da imoralidade e da
violência, etc.
E não digamos que é Deus que assim nos
castiga; mas, sim, que são os homens que para si
mesmos se preparam o castigo. Deus apenas nos
adverte e chama ao bom caminho, respeitando a
liberdade que nos deu; por isso os homens são
responsáveis».
A decisão tomada pelo Santo Padre João
Paulo II de tornar pública a terceira parte do «
segredo » de Fátima encerra um pedaço de história,
marcado por trágicas veleidades humanas de poder e
de iniquidade, mas permeada pelo amor misericordioso
de Deus e pela vigilância cuidadosa da Mãe de Jesus
e da Igreja.
Acção de Deus, Senhor da história, e
corresponsabilidade do homem, no exercício dramático
e fecundo da sua liberdade, são os dois alicerces
sobre os quais se constrói a história da humanidade.
Ao aparecer em Fátima, Nossa Senhora
faz-nos apelo a estes valores esquecidos, a este
futuro do homem em Deus, do qual somos parte activa
e responsável.
Tarcisio Bertone, SDB
Arcebispo emérito de Vercelli
Secretário da Congregação para a Doutrina
da Fé
O « SEGREDO » DE FÁTIMA
PRIMEIRA E SEGUNDA PARTE DO « SEGREDO »
SEGUNDO A REDACÇÃO FEITA PELA IRMÃ LÚCIA NA «
TERCEIRA MEMÓRIA », DE 31 DE AGOSTO DE 1941,
DESTINADA AO BISPO DE LEIRIA-FÁTIMA
Integrada no texto de Rita Almeida
Carvalho, intitulado Fátima e Salazar, a seguinte
cronologia que passamos a apresentar.
CRONOLOGIA
1917
Maio, 13- Primeira alegada aparição da
Senhora de Fátima aos pastores Francisco, Jacinta e
Lúcia.
Outubro, 13- Uma multidão de 60000 a 80000
pessoas reúne-se na Cova da Iria para assistir à
"dança do sol".
Novembro - Inicia-se o processo canónico
preliminar de inquirição, com os interrogatórios aos
alegados videntes. Durará até Abril de 1919.
Novembro, 7- Revolução Russa, constituição
dum governo com maioria bolchevique.
1918
Novembro, 11- Assinatura do Armistício que
põe fim à I Guerra Mundial.
Novembro, 18- Greve geral convocada pela
União Operária Nacional.
1919
Abril - Inicia-se na Cova da Iria a
construção duma pequena capela.
Abril, 4- Morre Francisco, vítima da
pneumónica.
1920
Março, 2- Morre Jacinta, vítima da
pneumónica.
Agosto, 15- D. José Alves Correia da Silva
é nomeado novo bispo de Leiria.
1921
Junho - Lúcia entra no recolhimento do
Vilar.
Outubro, 13- Celebração na Cova da Iria da
primeira missa autorizada por Correia da Silva.
1922
Março, 6- A capela da Cova da Iria é
destruída por uma bomba. A sua reconstrução irá
iniciar-se em Dezembro.
Maio, 13- Missa de desagravo pelo atentado
bombista. Grande aumento do afluxo de peregrinos.
Outubro, 29- Nomeação de Mussolini para a
chefia do governo.
1926
Maio, 28- Golpe de Estado, início da
ditadura.
1927
Outubro - Correia da Silva adquire para a
diocese os terrenos da Cova da Iria.
1928
Abril, 27- António de Oliveira Salazar
assume a pasta das Finanças.
Maio, 13- Inicia-se a construção da
Basílica na Cova da Iria.
1929
Acordo de Latrão entre Mussolini e a
Igreja.
Maio, 13- Carmona e Salazar deslocam-se a
Fátima.
1930
Outubro, 13- Carta pastoral do bispo de
Leiria defendendo Fátima contra as suspeições de
fraude.
1933
Janeiro, 31- Nomeação de Hitler para a
chefia do governo.
Julho, 20- Assinatura da Concordata entre
Pacelli, futuro Pio XII, e o governo alemão.
1936
A instâncias do bispo de Leiria, Lúcia
terá iniciado a redacção das suas "Memórias".
Ficarão concluídas em 1941.
Julho, 18- Putsch franquista, início da
Guerra Civil de Espanha.
1938
Maio, 13- Às habituais comemorações de
Fátima associam-se manifestações de júbilo pelas
vitórias franquistas na Guerra Civil de Espanha.
1939
Setembro, 1- Início da II Guerra Mundial.
1940
Maio, 7- Assinatura da Concordata entre o
Vaticano e o governo português.
1941
Junho, 22- Ataque da Alemanha à URSS.
1942
Outubro, 31- Em discurso transmitido pela
Rádio Vaticano e pela Emissora Nacional portuguesa,
Pio XII refere-se favoravelmente a Fátima.
Dezembro, 24- Homilia de Natal de Pio XII,
evitando mencionar o extermínio dos judeus pelos
nazis.
1946
Lúcia entrega ao bispo de Leiria uma carta
contendo o "terceiro segredo". A carta fica fechada
no cofre da diocese. Será enviada para o Arquivo do
Santo Ofício, no Vaticano, em 1957.
Maio, 12- O cardeal Bento Masella, enviado
a Fátima por Pio XII, é recebido em Portugal com
honras de chefe de Estado.
1955
Janeiro, 22- Comemorações das bodas de
prata do bispo de Leiria, com a presença de Craveiro
Lopes, Salazar e membros do governo.
1958
Março, 13- Morre D. José Alves Correia da
Silva, que fora o mais activo promotor do
reconhecimento do alegado milagre e ao longo de 38
anos de gestão diocesana de Leiria se tornara
conhecido como "bispo de Fátima".
Maio, 13- Com a campanha presidencial de
Delgado em pano de fundo, os militares fiéis a
Salazar comparecem em Fátima em número muito maior
do que nos anos anteriores.
1961
Julho, 7- O papa João XXIII manifesta
informalmente ao embaixador português preocupação
com a eventualidade de se "fazer dizer à irmã Lúcia
(...) mais do que ela estaria em condições de
dizer", nomeadamente em relação à Rússia.
1964
O papa Paulo VI visita a União Indiana,
causando o desagrado do governo português.
Setembro, 17- No Vaticano o embaixador
português é pela primeira vez sondado sobre o efeito
compensatório que poderia ter uma visita do papa a
Portugal.
1965
Maio, 13- O secretário de Estado do
Vaticano, cardeal Fernando Cento, vem a Portugal e
louva Portugal "nação sempre fidelíssima".
Maio, 14- O MNE, Franco Nogueira, discursa
em tom de reconciliação num banquete oferecido ao
enviado papal.
1967
Maio, 13- Visita do papa Paulo VI a
Fátima.
1981
Outubro, 13- Atentado de Ali Agca,
militante turco de extrema-direita, contra o papa
João Paulo II em Roma.
2000
Maio, 13- João Paulo II procede em Fátima
à beatificação de Francisco e Jacinta. O cardeal
Angel Sodano declara que o "terceiro segredo"
consistia na previsão do atentado de Ali Agca.
Primeira mensagem do Pontífice sobre
Fátima recorda devoção polaca
O Santuário de Fátima divulgou domingo a
primeira mensagem trocada com João Paulo II, então
como arcebispo de Cracóvia, em que este recorda a
devoção do povo polaco pela mensagem Mariana.
Dirigindo-se ao então bispo de
Leiria-Fátima, D. João Pereira Venâncio, o arcebispo
de Cracóvia, D. Karol Wojtyla, escrevia que não
poderia estar presente nas comemorações dos 50 anos
das Aparições, em 1967.
"Vossa Excelência conhece a devoção do
povo polaco à Santíssima Virgem. Sem dúvida que
todos compartilhamos aqui os vossos sentimentos
nobres e calorosos durante o vosso grande
Cinquentenário", refere a missiva, assinada pelo
futuro Papa João Paulo II, que faleceu sábado.
Depois, já Papa e meses após o atentado
que sofreu a 13 de Maio de 1981, João Paulo II
afirmou numa eucaristia que devia a sua vida a Nossa
Senhora de Fátima e visitou mesmo o Santuário em
1982, viagem que repetiu por mais duas ocasiões.

Nas cerimónias deste dia, foi colocado na
Capelinha das Aparições um quadro representando João
Paulo II inclinado junto da imagem de Nossa Senhora
de Fátima, que foi oferecido pelos doentes da
Diocese do Funchal.
Este quadro, que tem estado exposto na
recepção da Reitoria do Santuário de Fátima, foi
elaborado com base numa fotografia tirada em 1981 na
Clínica Gemelli, em Roma, após o atentado de 13 de
Maio desse ano.
CONGREGAÇÃO PARA AS CAUSAS DOS SANTOS
HOMILIA DO CARDEAL JOSÉ SARAIVA MARTINS
Santuário de Fátima na Cova da Iria
13 de Maio de 2003
Em.mo Senhor Cardeal Patriarca
Ex.mos Irmãos no Episcopado
Estimados Sacerdotes,
Religiosos e Religiosas
Caríssimos Irmãos e Irmãs em Cristo
O Evangelho, que ouvimos, convida-nos a
meditar o mistério da maternidade da Virgem, Mãe de
Deus e nossa Mãe, à qual Jesus Crucificado disse:
"Mulher eis o teu filho" e, dirigindo-se ao
discípulo amado, que a todos nos representava,
acrescentou: "Eis a tua mãe" (Jo 19, 26-27).
A partir da hora da cruz, "o discípulo
recebeu-a em sua casa" (Jo 19, 27), isto é,
acolheu-a como sua, em nosso nome. Maria, a mulher
por excelência, a nova Eva, sendo Mãe da Cabeça que
trouxe no seu seio virginal, tornou-se também, a
partir da hora da cruz, por vontade e em virtude do
testamento espiritual e dos méritos do Redentor, a
Mãe dos crentes e da Igreja, a Mãe amantíssima de
todos os redimidos.
Esta nova maternidade espiritual e mística
de Maria é o reflexo e o prolongamento da
maternidade divina que a elevou sobre todas as
criaturas.
Maria nunca nos abandona. Continua, a
nosso favor, a sua missão de intercessão junto de
Deus e, com o exemplo, as palavras e as
manifestações da sua bondade, pede-nos, como em Caná:
"Fazei tudo o que Ele (Jesus Cristo, meu Filho) vos
disser" (Jo 2, 5).
As aparições e os apelos de Nossa Senhora,
há 86 anos, aqui em Fátima, constituem um eco, um
sinal e um prolongamento da solicitude materna
daquela que nos exorta a ouvir e a seguir Jesus,
desejosa da plena redenção dos filhos confiados pelo
Crucificado ao seu coração maternal.
Os apelos da Virgem, por meio dos
pastorinhos, à fé, à oração, à penitência, a ouvir e
a seguir, a amar e a desagravar Deus Nosso Senhor,
são expressões da solicitude materna manifestada já
durante a sua vida terrena, em Nazaré, em Caná, no
Calvário e no Cenáculo, no dia de Pentecostes, onde
Maria se encontrava reunida com a Igreja na fé e na
oração.
A Mensagem de Fátima contém apelos da mais
candente actualidade. Sublinho quatro: a fé viva e
testemunhada, a conversão, a paz e a esperança.
1. O primeiro é um insistente apelo à fé,
contagiante, vigorosa e irradiante dos três
pastorinhos: uma fé vivida em profundidade nas
formas mais simples da sua expressão.
A sociedade de hoje é levedada por
múltiplos fermentos e correntes culturais que põem
em perigo os próprios fundamentos da fé cristã. Uma
crescente e desenfreada secularização leva muitos a
pensar e a viver como se Deus não existisse ou então
a contentar-se com uma vaga religiosidade, incapaz
de se confrontar com o problema da verdade e com o
dever da coerência. De tudo isto deriva um crescente
obscurecimento do sentido transcendente da
existência humana, um relativismo ético difuso e uma
gradual perda do sentido do pecado, já denunciada
por Pio XII: "o pecado do século é a perda do
sentido do pecado" (Pio XII, Disc. e Rad., VIII,
1946, 288; cf. João Paulo II, Reconciliatio et
poenitentia, 1989, 18).
Mesmo entre os baptizados que se confessam
cristãos, nota-se uma grande apatia, uma falta de
coerência, uma desarmonia entre a fé e o agir
quotidiano, uma infidelidade aos valores e aos
princípios que deveriam nortear e modelar a nossa
vida. Falando dessa incoerência, desse dissídio
entre a fé e o agir, o Concílio Vaticano II
constatou que: "este divórcio entre a fé que
professam e o comportamento quotidiano de muitos
deve ser contado entre os mais graves erros do nosso
tempo" (Gaudium et spes, 43 ).
É neste contexto de secularização e de
indiferença religiosa que se insere o apelo da Mãe
de Deus a viver em plenitude e com renovado fervor o
inestimável dom da fé recebida no Baptismo, de forma
a que ela penetre e ilumine toda a nossa existência
e oriente todas as opções fundamentais da nossa
vida, para, deste modo, nos tornarmos testemunhas
fidedignas do amor de Deus entre os homens.
Como notava Paulo VI, "aos mestres, o
homem contemporâneo prefere escutar os que
testemunham, e se escuta os mestres é porque
testemunham" (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, 41; cf.
Paulo VI, Insegnamenti, XlI [1974] pp. 895-896). "As
palavras convencem, mas os exemplos arrastam". O
homem de hoje desconfia das palavras; quer factos. E
é por isso que observa com interesse, atenção e até
com admiração os que testemunham.
A linguagem do testemunho é a mais
compreensível e convincente para o homem do nosso
tempo. Mas tal testemunho exige fidelidade absoluta
aos valores humanos profundamente enraizados no
tecido social e cultural do povo português: exige o
respeito do ser humano, que vale pelo que é e não
pelo que tem; o respeito da sua transcendente
dignidade e direitos fundamentais; a rejeição do
relativismo ético que "tira à convivência civil todo
e qualquer ponto seguro de referência e radicalmente
a priva do reconhecimento da verdade"; exige a
defesa da família como sociedade natural fundada no
matrimónio; o acolhimento e o respeito pela vida
desde a concepção até ao seu termo natural. O
cristão está plenamente consciente de que, à luz da
fé, o "não da Igreja ao aborto é um sim à vida, um
sim à bondade original da criação, um sim à família,
primeira célula de esperança na qual Deus se compraz,
convidando-a a tornar-se igreja doméstica" (Synodus
Episcoporum Nuntius, 2001, pág. 43).
A força que o leva a ser testemunha
corajosa do Evangelho e dos seus valores, o cristão
vai encontrá-la na vivência duma profunda vida
interior, no intenso amor a Cristo a quem deve abrir
de par em par as portas do coração, na graça
sacramental, especialmente na graça da Reconciliação
e da Eucaristia e, finalmente, na oração tão
calorosamente recomendada em Fátima, pelo Anjo e por
Nossa Senhora que na quarta aparição pediu aos
videntes: "Rezai, rezai muito".
2. O segundo apelo de Nossa Senhora é o
apelo à conversão, à penitência. Logo na primeira
aparição, Ela pergunta aos três pastorinhos se
querem oferecer-se e suportar todos os sofrimentos
que Deus lhes mandar "como acto de reparação pelos
pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela
conversão dos pecadores".
Converter-se a Deus é voltar a Ele,
aproximar-se da Sua santidade, lançar-se de novo,
como o filho pródigo, nos braços do Pai; é
reconquistar a alegria perdida, a alegria de ser
salvos (Sl 51, 14), coisa que muitos dos homens do
nosso tempo já não sabem saborear.
Converter-se é manter com Deus uma atitude
de amorosa escuta, como Samuel: "Falai, Senhor, que
o vosso servo escuta" (1 Sm 3, 10 ).
E Deus não fala só através da Bíblia e da
Igreja, mas também através da história, por meio dos
acontecimentos, grandes ou pequenos, que constituem
o tecido da nossa vida. Depende de nós, reconhecer
ou não em tudo isso a voz do Senhor. É esta a
maneira de agir de Deus, já no Antigo Testamento:
Ele revela-se e guia o Seu povo por meio dos eventos
suscitados por Ele mesmo com essa finalidade.
Mas não se pode ouvir Deus, sem nele e à
luz do Evangelho, escutar a voz dos irmãos, o grito
dos pobres e dos marginalizados, o gemido dos
oprimidos, o choro dos doentes e desesperados, de
forma a encontrarem ressonância no nosso coração e
respostas adequadas no nosso agir. Significa ter em
relação a eles sentimentos de verdadeira
solidariedade e de participação nas suas
preocupações materiais e espirituais.
Ninguém, por exemplo, pode ficar
indiferente ao drama da fome e da pobreza extrema de
tantos milhões de homens, numa época em que a
humanidade tem, como nunca, nas suas mãos, os
instrumentos aptos para operar uma justa partilha. É
inadmissível que, como afirmam observadores
competentes da economia mundial, 80% da população do
planeta viva com 20% apenas dos seus recursos e que
um bilião e duzentos milhões de pessoas sejam
constrangidas a" viver" com menos de um euro por
dia.
Como também ninguém pode ficar indiferente
ao grave problema dos refugiados e dos emigrantes
que, por causa das guerras, da opressão política ou
discriminação económica, ou por outro qualquer
motivo, são obrigados a abandonar a própria terra e
a própria família para procurar trabalho e
tranquilidade (Syn. Ep. Nuntius, 43). Ser solidários
com o sofrimento destes nossos irmãos faz também
parte da conversão.
3. Não menos importante e nem menos actual
é o apelo que a Virgem faz à paz. Pede aos
pastorinhos para que se reze "para obter a paz do
mundo e o fim da guerra" (a primeira guerra mundial
então em curso ) e promete-lhes que, se for
satisfeito este seu pedido, "haverá paz".
Também hoje, se respira uma crescente
exigência de concórdia e de paz, num mundo cada vez
mais interdependente, com uma rede global de trocas
e comunicações mas em que, infelizmente, assistimos
à exasperação de conflitos crónicos como os da Terra
Santa, do Médio Oriente e de outras regiões da
terra. A tudo isto vem juntar-se o terrorismo
internacional nas suas novas e assustadoras
dimensões (João Paulo II, Disc. ao Parl. ital.,
15.11.2002).
A história ensina que na origem das
guerras estão sempre situações intoleráveis de
injustiça e a negação de certos valores, sem os
quais, como diz o Papa João Paulo II "uma democracia
facilmente se converte em totalitarismo descarado ou
dissimulado, como demonstra a história do século XX
apenas terminado" (Supl., 96; Disc. Parl. ital., l.c.).
A justiça, acompanhada da forma de amor que é o
perdão, é o pilar insubstituível da verdadeira paz.
Sem ela, não pode haver paz, que é fruto e obra da
justiça opus justitiae pax como diz o profeta Isaías
(cf. Is 32, 1.7).
Na senda da Encíclica Pacem in terris do
Beato João XXIII, o Papa João Paulo II, na Mensagem
para o Dia Mundial da Paz deste ano, apontou como
condições essenciais da paz quatro exigências
concretas da alma humana: a verdade, a justiça, o
amor e a liberdade. Já na Mensagem do ano anterior,
2002, o mesmo João Paulo II nos ensinava que "não há
paz sem justiça e não há justiça sem perdão".
Os conflitos que afligem o mundo de hoje e
são fonte de indizíveis sofrimentos para tantos
nossos irmãos, exortam a consciência dos cristãos a
empenhar-se e a rezar pela paz. E rezar pela paz
significa, como diz o Papa, "abrir o coração humano
à irrupção do poder renovador de Deus, pois só Ele
pode criar aberturas para a paz, lá onde parece
haver só obstáculos e oclusões; só Ele pode
consolidar e alargar a solidariedade da família
humana, não obstante longas histórias de divisões e
de lutas. Rezar pela paz significa rezar pela
justiça, por uma melhor distribuição dos bens da
terra" (João Paulo II, Mensagem da Paz de 2001, n.
18).

A oração mais eficaz para obter a paz é a
do Rosário a que o Santo Padre dedicou este ano.
Nossa Senhora recomendou-o várias vezes nas
aparições aqui na Cova da Iria: "Rezai o Terço todos
os dias para obter a paz para o mundo", pediu Nossa
Senhora aos pastorinhos. O Rosário é, de facto, "uma
oração orientada por sua natureza para a paz, porque
consiste na contemplação de Cristo, Príncipe da Paz
e "nossa paz" (Ef 2,14). Ao mesmo tempo que nos faz
fixar os olhos em Cristo, a oração do Rosário
torna-nos construtores de paz no mundo" (RVM, 40).
Em boa hora se iniciou pois a recitação
diária do Terço a partir deste Santuário e
transmitido pela Rádio Renascença para todo o
Portugal.
4. Finalmente a Mãe de Deus fez, em
Fátima, um apelo à esperança. A sua mensagem de amor
não podia deixar de ser também uma mensagem de
esperança. E, de facto, as suas palavras são um
vigoroso apelo àquela esperança que é dom Pascal do
Senhor (cf. Syn. Ep. Nuntius), à esperança que
renova radicalmente a história, dando-lhe um sabor e
uma beleza nova, cujo alicerce inabalável é Cristo.
Apesar das muitas sombras que pairam sobre
o mundo, são também muitos os sinais de esperança.
Com efeito, ao lado de tantas tragédias e do egoísmo
dos projectos humanos sem transcendência, por parte
de pessoas e grupos, nota-se, hoje, um crescente
desejo de espiritualidade, de comunhão e de
colaboração; assiste-se a uma séria procura do
sentido e da qualidade de vida a todos os níveis,
mesmo espiritual; e, não obstante a progressiva
indiferença religiosa, "o mundo paradoxalmente
procura Deus através de caminhos imprevistos e sente
necessidade dele" (Paulo VI, Evangelii nuntiandi,
76). Donde se conclui que o homem tem saudade de
Deus.
Pode, por vezes, parecer que prevalecem as
forças do mal, mas o cristão, que lê os
acontecimentos à luz do mistério Pascal, sabe que
acabará por triunfar a terna misericórdia de Deus:
"Onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5,
20); sabe que o mundo em que vivemos será um dia,
"realmente transformado num mundo em que as
aspirações mais nobres do coração humano poderão ser
satisfeitas" (João Paulo II, Mensagem para o Dia
Mundial da Paz de 2001, n. 6), no mundo de que fala
a primeira Leitura da Missa que estamos celebrando.
Todos nós somos chamados para a
"construção" deste novo mundo, mais justo, mais
humano e por isso mesmo, mais cristão: vivendo e
anunciando com coragem o Evangelho da esperança, que
é o Evangelho do Magnificat, o Evangelho de Maria, o
Evangelho da Branca Senhora de Fátima, spes nostra:
a esperança nossa e do mundo.
Jacinta Marto
O Segredo de Jacinta, a admirável vidente
de Fátima
Jacinta era uma criança quando Nossa
Senhora apareceu. Entra na História aos sete anos,
precisamente na idade que habitualmente se costuma
indicar como a do começo da vida consciente e da
razão. Em que medida uma criatura dessa idade é
capaz de praticar a virtude? E de praticá-la de modo
heróico?
A história da espiritualidade católica tem
exemplos surpreendentes de santidade a pouca idade:
Santa Maria Goretti, martirizada aos 11 anos com
plena consciência do que fazia; São Domingos Sávio,
que morreu aos 15 anos.
Jacinta – e seu irmão Francisco – depois
de um rigoroso processo em Roma, tiveram
reconhecidas suas virtudes heróicas, podendo ser
venerados privadamente como santos. Qual o segredo
da santidade de Jacinta? O tema vem ocupando
actualmente a atenção dos católicos e merece ser
conhecido por nossos leitores.
Atílio Faoro
Jamais se vira, naquele lugar, uma coisa
igual: 70 mil pessoas, vindas de todas as partes de
Portugal, estão reunidas, sob a chuva, no local que
se chama Cova da Iria. O que aconteceu?
Estamos no dia 13 de Outubro de 1917. A
duras penas, os três pastorinhos tentam varar a
multidão rumo a suas pequenas casas em Aljustrel. A
menor das crianças - nossa Jacinta - é conduzida
através de atalhos por um soldado, que a protege das
manifestações de entusiasmo de pessoas que desejam
vê-la e dirigir-lhe a palavra. Milhares de
perguntas, pedidos de oração e intercessões.
Conversões, lágrimas de alegria...
As crianças – Lúcia, Francisco e Jacinta -
não prestam atenção na multidão reunida, a qual
presenciara o milagre do sol ao final da última
aparição. Suas mentes estão tomadas pela sublimidade
e pelo esplendor do extraordinário fato sobrenatural
que há pouco acabam de contemplar. A Senhora do Céu,
com quem haviam falado seis vezes, acabava de
realizar o milagre prometido...
Desapego quanto a louvores dos homens
Jacinta Marto, com apenas sete anos de
idade, é dotada de seriedade marcante. A fronte
franzida indica profunda preocupação. Os olhos, que
ainda reflectem maravilhosamente o brilho do que
haviam contemplado, estão contraídos mas calmos,
indicando uma alma inclinada ao recolhimento.
O que dizer desta fisionomia? Talvez
Jacinta se esteja lembrando dos penosos caminhos
percorridos anteriormente em meio ao desprezo, aos
impropérios e até aos golpes daqueles que agora
estão no meio da multidão. Não, a alegria do momento
não a impressiona, ela conhece bem a inconstância do
espírito humano. Sua vontade está posta em Deus, no
cumprimento de Sua vontade, de tal modo que, depois
das aparições, levou verdadeiramente a vida de uma
grande santa. A Congregação para a Causa dos Santos
constatou: sua vontade era inteiramente submissa à
de Deus. Como seria útil, principalmente para os
nossos dias, conhecer a vida desta criança.
A caminho da santidade
No espaço de tempo que vai dos sete aos
dez anos, em que suportou heroicamente o fardo da
doença que a levaria à morte, Jacinta trilhou o
caminho da santidade. Já nessa tão precoce idade
conheceu profundamente a realidade da vida. Sua
existência foi curta, porém repleta de
acontecimentos extraordinários e até mesmo
fascinantes. A descrição deles extrapolaria os
limites deste artigo. Temos que nos cingir aos
traços marcantes de sua alma, a algumas cenas de sua
vida e mencionar alguns testemunhos.
O caminho da santidade, a que já nos
referimos, esta menina o percorreu de tal maneira
que seus pais e parentes chegaram a exclamar a
respeito dela e dos outros dois videntes: "É um
mistério que não dá para compreender. São crianças
como outras quaisquer. No entanto, percebe-se nelas
qualquer coisa de extraordinário!" Sim, o que havia
de extraordinário nessas crianças que as pessoas
(até hoje!) não conseguem entender?
Quem foi Jacinta Marto? Última de uma
grande prole, nasceu em 11 de março de 1910. De
natureza meiga, era uma criança como as outras.
Brincava, cantava, tinha seus defeitos maiores ou
menores, o seu temperamento e, naturalmente, suas
preferências... até 13 de maio de 1917.
Oração e sacrifícios resgatam pecadores
Depois desse dia, empreendeu Jacinta uma
mudança interior profunda, uma conversão de sua vida
como Nossa Senhora tinha pedido. As palavras de
Maria Santíssima impregnaram de modo indelével sua
alma e passaram a ser o conteúdo, o ideal de sua
vida. Mais ainda, colocou esse ideal em prática.
"Fazei penitência pelos pecadores! Muitos
vão para o inferno porque ninguém reza e se
sacrifica por eles." - Tais palavras encontraram
profunda ressonância em Jacinta. E com que
inquebrantável vontade fazia ela penitência! Aqui
vão mencionados alguns exemplos desta jovem e já
grande santa. Ela não hesitava em frequentemente
jejuar um dia inteiro, sem nada comer ou beber,
dando alegremente seu pão às crianças pobres. Em
outros dias, comia justamente aquilo que mais
detestava. Trazia como penitência uma corda em torno
da cintura. Nada, nenhum sacrifício lhe parecia
demasiado grande, tratando-se da salvação das
almas!
O pecado e o Céu em sua espiritualidade
De fato, pode-se dizer que a
espiritualidade de Jacinta funda-se nos pedidos
formulados por Nossa Senhora. Ela contém dois
aspectos importantes: 1) claro conceito do pecado;
2) noção muito definida da beleza sobrenatural do
Céu. Exactamente dois pontos em relação aos quais
nossa época está imensamente distante.
Não se fala mais em pecado. Esta palavra
está sendo omitida na catequese e banida do
pensamento das pessoas. Juntamente com isso, vai
sendo também eliminada necessariamente a ideia do
próprio Deus! Pois, de que outra coisa se trata
senão da honra divina que é ofendida pelo pecado?
Estreitamente relacionado com esse
pensamento vem o segundo ponto: a noção clara da
beleza sobrenatural do Céu. Quanto mais intensamente
uma alma tem essa noção do sobrenatural celeste,
tanto mais fácil será sua correspondência às
solicitações da Mãe de Deus. Jacinta é um exemplo
concreto arrebatador de tal correspondência. A
mensagem de sua vida convida-nos a reconhecer esses
aspectos da mensagem de Nossa Senhora e torná-los o
eixo orientador de nossas vidas.
Enormes penitências salvaram muitas almas
Profundamente impressionada pela visão do
inferno e pelo mistério da eternidade, Jacinta não
poupou nenhum sacrifício visando a conversão dos
pecadores. Em sua doença -- uma tuberculose que a
levou à morte -- oferecia principalmente suas dores:
"Sim, eu sofro, porém ofereço tudo pelos pecadores,
para desagravar o Imaculado Coração de Maria. Ó
Jesus, agora podeis salvar muitos pecadores porque
este sacrifício é muito grande".
Todos os que conheciam Jacinta sentiam
certo respeito por ela. Lúcia, sua prima, escreve:
"Jacinta era também aquela a quem, me parece, a
Santíssima Virgem deu a maior plenitude de graças,
conhecimento de Deus e da virtude. Ela parecia
reflectir em tudo a presença de Deus."
Mesmo na sua dolorosa moléstia mostrava-se
sempre paciente, sem reclamações, inteiramente
despretensiosa. Conduta que não correspondia ao seu
carácter natural. O que possibilitava a essa criança
a prática de tal fortaleza e manifestar semelhante
comportamento?
A própria Jacinta dá resposta a essa
pergunta em sua exclamação: "Gosto tanto de Nosso
Senhor e de Nossa Senhora que nunca me canso de
dizer que Os amo. Quando eu digo isso muitas vezes,
parece-me que tenho um lume no peito, mas não me
queima!" O amor ardente a Jesus e Maria! Este foi o
amor que transformou Jacinta e que fez dela uma
cópia fiel das virtudes da Virgem Santíssima.
Último sacrifício: na morte, isolamento
Tão heróica foi a morte quanto a vida de
Jacinta, num hospital de Lisboa, inteiramente
sozinha. Este fato foi objecto de uma das últimas
previsões recebidas por Jacinta, directamente de
Nossa Senhora. Com que coragem conservou a menina
este pensamento! Deixemo-la narrar esta profecia,
por ela confiada a Lúcia:
"Nossa Senhora disse-me que vou para
Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver,
nem aos meus pais; que depois de sofrer muito, morro
sozinha; mas que não tenha medo, que me vai lá Ela
me buscar para o Céu."
Nossa Senhora anunciou também o dia e a
hora em que deveria morrer. Quatro dias antes, a
Santíssima Virgem tirou-lhe todas as dores. Como
ninguém esteve presente nesse grandioso momento,
podemos apenas imaginar a cena. Como terá sido a
recepção deste pequeno lírio no Céu? Diante de Nossa
Senhora, aquele rosto virginal não estará mais
contraído pelo sofrimento, mas resplandecente em
presença d’Aquele que foi o Fundamento de sua vida:
"Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o
lume que tenho cá dentro do peito e a fazer-me
gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de
Maria!"
De que maneira o conhecimento da vida de
Jacinta actua sobre as almas, pode-se deduzir das
palavras do postulador das Causas de Beatificação
dela e de seu irmão Francisco: "Nunca na História da
Igreja duas crianças foram tão conhecidas e
estimadas quanto Francisco e Jacinta. Elas têm
trazido inúmeras almas para o caminho da perfeição".
Desejamos que a vida de Jacinta tenha no
Brasil grande divulgação para a salvação das almas e
o breve triunfo do Imaculado Coração de Maria!
"Sua entrega à vontade de Deus foi total"
- Decreto da Santa Sé declara as virtudes de Jacinta
A 13 de Maio de 1989, um decreto da
Congregação para a Causa dos Santos, assinado pelo
Cardeal Angelo Felici, declarou a heroicidade das
virtudes da Serva de Deus Jacinta Martos.
O documento, lembrando as palavras de
Nosso Senhor "Se não fizerdes como um destes
pequeninos não entrareis no Reino dos Céus" (Mt
18,3), afirma que Jacinta "correspondendo sem
reservas à graça divina realizou rapidamente uma
grande perfeição na imitação de Cristo e
voluntariamente consumiu sua breve existência pela
glória de Deus, cooperando na salvação das almas
mediante fervorosa oração e assídua penitência".
Depois de resumir sua vida, o decreto
declara que "sua entrega à vontade de Deus foi
total", o esforço "para corresponder ao amor e às
graças de Deus foi constante", dando provas de
"possuir em alto grau as virtudes teologias e as
virtudes da prudência, justiça, temperança,
humildade, sinceridade e modéstia".
Na mesma data, a Santa Sé declarou as
virtudes do Servo de Deus Francisco Marto, irmão de
Jacinta.
A morte de Lúcia
Fevereiro 15, 2005
Grito
Desculpem-me mas hoje eu tenho de fazer
este grito: FÁTIMA NÃO È UMA HISTÓRIA DE TANGA!!
Faleceu a irmã Lúcia, e muito se tem
escrito sobre ela e Fátima, e fico abismado de ver
tanta gente a tecer as mais duras críticas dizendo
que não passa de invenções de "tretas" que Fátima só
foi inventada para o negócio, ou para efeitos
políticos, que Fátima apenas revela a nossa fraca
cultura.
Eu afirmo que Fátima não é uma história
inventada por 3 crianças. Apenas porque não vi não
posso acreditar?? Só acreditas naquilo que vês??
Amigos acredito em Fátima não estive lá
mas o meu bisavô esteve. Tenho relatos escritos
pelos filhos dele (Manuel Vicente Marques) contando
o que aconteceu naquela manhã onde o "sol bailou".
Digo-vos o meu bisavô não era mentiroso ! Acredito!
Claro que existe agora muito negócio, que a história
do segredo apenas mantinha as pessoas no "suspensa",
etc... Mas a mensagem da Nossa Senhora aos
pastorinhos é tão simples: Arrependermo-nos dos
nossos pecados, rezar o terço. È só isto, uma
mensagem simples para o bem.
Quem são eles?
JACINTA MARTO
Nasceu em Aljustrel, no dia 11 de Março de
1910. Morreu santamente em 20 de Fevereiro de 1920,
no Hospital de D. Estefânia, em Lisboa, depois de
uma longa e dolorosa doença, oferecendo todos os
seus sofrimentos pela conversão dos pecadores, pela
paz no mundo e pelo Santo Padre.
Em 12 de Setembro de 1935 foi solenemente
trasladado o seu cadáver do jazigo da família do
Barão de Alvaiázere, em Vila Nova de Ourém, para o
cemitério de Fátima, e colocado junto dos restos
mortais do seu irmãozinho Francisco.
No dia 1 de Maio de 1951, efectuou-se, com
a maior simplicidade, a trasladação dos restos
mortais de
Jacinta para o novo sepulcro preparado na
Basílica da Cova da Iria, lado poente.
FRANCISCO MARTO
Nasceu em 11 de Junho de 1908, em
Aljustrel. Faleceu santamente no dia 4 de Abril de
1919, na casa de seus pais. Muito sensível e
contemplativo, orientou toda a sua oração e
penitência para "consolar a Nosso Senhor".
Os seus restos mortais ficaram sepultados
no cemitério paroquial até ao dia 13 de Março de
1952, data em que foram trasladados para a Basílica
da Cova da Iria, lado nascente.
LÚCIA DE JESUS
A principal protagonista das Aparições
nasceu em 22 de Março de 1907, em Aljustrel,
paróquia de Fátima. Em 17 de Junho de 1921,
ingressou no Asilo de Vilar (Porto), dirigido pelas
religiosas de Santa Doroteia.
Depois foi para Tuy, onde tomou o hábito,
com o nome de Maria Lúcia das Dores. Fez a profissão
religiosa de votos temporários em 3 de Outubro de
1928 e, em 3 de Outubro de 1934, a de votos
perpétuos. No dia 25 de Março de 1948, transferiu-se
para Coimbra, onde ingressou no Carmelo de Santa
Teresa, tomando o nome de Irmã Maria Lúcia de Jesus
e do Coração Imaculado. No dia 31 de Maio de 1949,
fez a sua profissão de votos solenes.
A Irmã Lúcia veio a Fátima várias vezes:
em 22 de Maio de 1946; em 13 de Maio de 1967; em
1981, para dirigir, no Carmelo, um trabalho
pictórico sobre as Aparições; em 13 de Maio de 1982
e 13 de Maio de 1991. Faleceu Domingo 13 de
Fevereiro de 2005.
A portuguesa mais importante do século,
Lúcia foi o exemplo da simplicidade que Nossa
Senhora, quis destacar quando se revelou àquelas
crianças, pastoras, pobres e analfabetas, insistindo
na vantagem da oração no século da alienação
material e dos massacres.
Porque Fátima é isto: Simplicidade,
Oração, Perdão.
A história:
A 13 de Maio de 1917, três crianças
apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria,
freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém,
hoje diocese de Leiria-Fátima. Chamavam-se Lúcia de
Jesus, de 10 anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus
primos, de 9 e 7 anos. Por volta do meio dia, depois
de rezarem o terço, como habitualmente faziam,
entretinham-se a construir uma pequena casa de
pedras soltas, no local onde hoje se encontra a
Basílica. De repente, viram uma luz brilhante;
julgando ser um relâmpago, decidiram ir-se embora,
mas, logo abaixo, outro clarão iluminou o espaço, e
viram em cima de uma pequena azinheira (onde agora
se encontra a Capelinha das Aparições), uma "Senhora
mais brilhante que o sol", de cujas mãos pendia um
terço branco.
A Senhora disse aos três pastorinhos que
era necessário rezar muito e convidou-os a voltarem
à Cova da Iria durante mais cinco meses
consecutivos, no dia 13 e àquela hora. As crianças
assim fizeram, e nos dias 13 de Junho, Julho,
Setembro e Outubro, a Senhora voltou a aparecer-lhes
e a falar-lhes, na Cova da Iria. A 19 de Agosto, a
aparição deu-se no sítio dos Valinhos, a uns 500
metros do lugar de Aljustrel, porque, no dia 13, as
crianças tinham sido levadas pelo Administrador do
Concelho, para Vila Nova de Ourém. Na última
aparição, a 13 de Outubro, estando presentes cerca
de 70.000 pessoas, a Senhora disse-lhes que era a
"Senhora do Rosário" e que fizessem ali uma capela
em Sua honra. Depois da aparição, todos os presentes
observaram o milagre prometido às três crianças em
Julho e Setembro: o sol, assemelhando-se a um disco
de prata, podia fitar-se sem dificuldade e girava
sobre si mesmo como uma roda de fogo, parecendo
precipitar-se na terra. Posteriormente, sendo Lúcia
religiosa de Santa Doroteia, Nossa Senhora
apareceu-lhe novamente em Espanha (10 de Dezembro de
1925 e 15 de Fevereiro de 1926, no Convento de
Pontevedra, e na noite de 13/14 de Junho de 1929, no
Convento de Tuy), pedindo a devoção dos cinco
primeiros sábados (rezar o terço, meditar nos
mistérios do Rosário, confessar-se e receber a
Sagrada Comunhão, em reparação dos pecados cometidos
contra o Imaculado Coração de Maria) e a Consagração
da Rússia ao mesmo Imaculado Coração. Este pedido já
Nossa Senhora o anunciara em 13 de Julho de 1917, na
parte já revelada do chamado "Segredo de Fátima".
Anos mais tarde, a Ir. Lúcia conta ainda que, entre
Abril e Outubro de 1916, tinha aparecido um Anjo aos
três videntes, por três vezes, duas na Loca do
Cabeço e outra junto ao poço do quintal da casa de
Lúcia, convidando-os à oração e penitência. Desde
1917, não mais cessaram de ir à Cova da Iria
milhares e milhares de peregrinos de todo o mundo,
primeiro nos dias 13 de cada mês, depois nos meses
de férias de Verão e Inverno, e agora cada vez mais
nos fins de semana e no dia-a-dia, num montante
anual de quatro milhões.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro - Marinha
Grande - Portugal

Criação e Arte Final:
Iara Melo
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