Fátima - 13 de Maio - Terra de Fé
 
Por Carlos Leite Ribeiro
 
 
Arte Final: Iara Melo

 
 
 
 
 


Fátima, que conhecemos razoavelmente bem, não deixa de nos surpreender a cada novo dia, a cada novo mês, a cada novo ano. Não se sendo nem crente nem peregrino é difícil, senão mesmo impossível, explicar o que leva a que pontualmente ali se concentrem maiores multidões de peregrinos, provenientes de todo o país e de todos os continentes. Muitos deles sujeitando-se a violências físicas que se não podem justificar e que, muitas vezes, muito dolorosamente se conseguem suportar.
Mas é espantoso o impacto dessas peregrinações e extraordinária a força das celebrações. Esta manhã a Cova da Iria é um mar de gente, envergando a solenidade de quem espera, de quem reza, de quem chora, de quem acredita. Sejam quais forem as circunstâncias, os locais ou os propósitos, o homem precisa de acreditar em qualquer coisa para que se motive, para que descubra uma razão para tudo o que pensa e para quanto faz.

          As estradas do Norte e Centro de Portugal, enchem-se de peregrinos a caminho de Fátima (Portugal). É impressionante a sua Fé, ao percorrerem, muitos deles, centenas de quilómetros. Mas lá seguem, ordeiramente e cantando, para na tarde do dia 12 de Maio estarem no Santuário Mariano de Nossa Senhora de Fátima, para as comemorações do 13 de Maio. O espectáculo da Procissão das Velas, na noite de 12 para 13, é deslumbrante. Só com a iluminação de velas e o andor de Nossa Senhora de Fátima passeando pelo meio. É inesquecível.

A PROCISSÃO DAS VELAS EM FÁTIMA - PORTUGAL

 

A MENSAGEM DE FÁTIMA

         Na passagem do segundo para o terceiro milénio, o Papa João Paulo II decidiu tornar público o texto da terceira parte do « segredo de Fátima ».
          Depois dos acontecimentos dramáticos e cruéis do século XX, um dos mais tormentosos da história do homem, com o ponto culminante no cruento atentado ao « doce Cristo na terra », abre-se assim o véu sobre uma realidade que faz história e a interpreta na sua profundidade segundo uma dimensão espiritual, a que é refractária a mentalidade actual, frequentemente eivada de racionalismo.
          A história está constelada de aparições e sinais sobrenaturais, que influenciam o desenrolar dos acontecimentos humanos e acompanham o caminho do mundo, surpreendendo crentes e descrentes. Estas manifestações, que não podem contradizer o conteúdo da fé, devem convergir para o objecto central do anúncio de Cristo: o amor do Pai que suscita nos homens a conversão e dá a graça para se abandonarem a Ele com devoção filial. Tal é a mensagem de Fátima, com o seu veemente apelo à conversão e à penitência, que leva realmente ao coração do Evangelho.
          Fátima é, sem dúvida, a mais profética das aparições modernas. A primeira e a segunda parte do « segredo », que são publicadas em seguida para ficar completa a documentação, dizem respeito antes de mais à pavorosa visão do inferno, à devoção ao Imaculado Coração de Maria, à segunda guerra mundial, e depois ao prenúncio dos danos imensos que a Rússia, com a sua defecção da fé cristã e adesão ao totalitarismo comunista, haveria de causar à humanidade.
          Em 1917, ninguém poderia ter imaginado tudo isto: os três pastorinhos de Fátima vêem, ouvem, memorizam, e Lúcia, a testemunha sobrevivente, quando recebe a ordem do Bispo de Leiria e a autorização de Nossa Senhora, põe por escrito.
          Para a exposição das primeiras duas partes do « segredo », aliás já publicadas e conhecidas, foi escolhido o texto escrito pela Irmã Lúcia na terceira memória, de 31 de Agosto de 1941; na quarta memória, de 8 de Dezembro de 1941, ela acrescentará qualquer observação.
 


Os três Pastorinhos


          A terceira parte do « segredo » foi escrita « por ordem de Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da (...) Santíssima Mãe », no dia 3 de Janeiro de 1944.
          O envelope selado foi guardado primeiramente pelo Bispo de Leiria. Para se tutelar melhor o « segredo », no dia 4 de Abril de 1957 o envelope foi entregue ao Arquivo Secreto do Santo Ofício. Disto mesmo, foi avisada a Irmã Lúcia pelo Bispo de Leiria.
          Segundo apontamentos do Arquivo, no dia 17 de Agosto de 1959 e de acordo com Sua Eminência o Cardeal Alfredo Ottaviani, o Comissário do Santo Ofício, Padre Pierre Paul Philippe OP, levou a João XXIII o envelope com a terceira parte do « segredo de Fátima ». Sua Santidade, « depois de alguma hesitação », disse: « Aguardemos. Rezarei. Far-lhe-ei saber o que decidi ».(1)
          Na realidade, a decisão do Papa João XXIII foi enviar de novo o envelope selado para o Santo Ofício e não revelar a terceira parte do « segredo ».
          Paulo VI leu o conteúdo com o Substituto da Secretaria de Estado, Sua Exmª Remª D. Ângelo Dell'Acqua, a 27 de Março de 1965, e mandou novamente o envelope para o Arquivo do Santo Ofício, com a decisão de não publicar o texto.
          João Paulo II, por sua vez, pediu o envelope com a terceira parte do « segredo », após o atentado de 13 de Maio de 1981. Sua Eminência o Cardeal Franjo Seper, Prefeito da Congregação, a 18 de Julho de 1981 entregou a Sua Ex.cia Rev.ma D. Eduardo Martínez Somalo, Substituto da Secretaria de Estado, dois envelopes: um branco, com o texto original da Irmã Lúcia em língua portuguesa; outro cor-de-laranja, com a tradução do « segredo » em língua italiana. No dia 11 de Agosto seguinte, o Senhor D. Martínez Somalo devolveu os dois envelopes ao Arquivo do Santo Ofício.(2)
          Como é sabido, o Papa João Paulo II pensou imediatamente na consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e compôs ele mesmo uma oração para o designado « Acto de Entrega », que seria celebrado na Basílica de Santa Maria Maior a 7 de Junho de 1981, solenidade de Pentecostes, dia escolhido para comemorar os 1600 anos do primeiro Concílio Constantinopolitano e os 1550 anos do Concílio de Éfeso. O Papa, forçadamente ausente, enviou uma radiomensagem com a sua alocução. Transcrevemos a parte do texto, onde se refere exactamente o acto de entrega:
          « Ó Mãe dos homens e dos povos, Vós conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo, acolhei o nosso brado, dirigido no Espírito Santo directamente ao vosso Coração, e abraçai com o amor da Mãe e da Serva do Senhor aqueles que mais esperam por este abraço e, ao mesmo tempo, aqueles cuja entrega também Vós esperais de maneira particular. Tomai sob a vossa protecção materna a família humana inteira, que, com enlevo afectuoso, nós Vos confiamos, ó Mãe. Que se aproxime para todos o tempo da paz e da liberdade, o tempo da verdade, da justiça e da esperança ». (3)
          Mas, para responder mais plenamente aos pedidos de Nossa Senhora, o Santo Padre quis, durante o Ano Santo da Redenção, tornar mais explícito o acto de entrega de 7 de Junho de 1981, repetido em Fátima no dia 13 de Maio de 1982. E, no dia 25 de Março de 1984, quando se recorda o facto pronunciado por Maria no momento da Anunciação, na Praça de S. Pedro, em união espiritual com todos os Bispos do mundo precedentemente « convocados », o Papa entrega ao Imaculado Coração de Maria os homens e os povos, com expressões que lembram as palavras ardorosamente  pronunciadas em 1981:
          « E por isso, ó Mãe dos homens e dos povos, Vós que conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós que sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo contemporâneo, acolhei o nosso clamor que, movidos pelo Espírito Santo, elevamos directamente ao vosso Coração: Abraçai, com amor de Mãe e de Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos.
          De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade.
          "À vossa protecção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus"! Não desprezeis as súplicas que se elevam de nós que estamos na provação! ».
          Depois o Papa continua com maior veemência e concretização de referências, quase comentando a Mensagem de Fátima nas suas predições infelizmente cumpridas:
          « Encontrando-nos hoje diante Vós, Mãe de Cristo, diante do vosso Imaculado Coração, desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos à consagração que, por nosso amor, o vosso Filho fez de Si mesmo ao Pai: "Eu consagro-Me por eles — foram as suas palavras — para eles serem também consagrados na verdade" (Jo 17, 19). Queremos unir-nos ao nosso Redentor, nesta consagração pelo mundo e pelos homens, a qual, no seu Coração divino, tem o poder de alcançar o perdão e de conseguir a reparação.
          A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história e que, de facto, despertou nos nossos tempos.
          Oh quão profundamente sentimos a necessidade de consagração pela humanidade e pelo mundo: pelo nosso mundo contemporâneo, em união com o próprio Cristo! Na realidade, a obra redentora de Cristo deve ser participada pelo mundo por meio da Igreja.
          Manifesta-o o presente Ano da Redenção: o Jubileu extraordinário de toda a Igreja.
          Neste Ano Santo, bendita sejais acima de todas as criaturas Vós, Serva do Senhor, que obedecestes da maneira mais plena ao chamamento Divino!
          Louvada sejais Vós, que estais inteiramente unida à consagração redentora do vosso Filho!
          Mãe da Igreja! Iluminai o Povo de Deus nos caminhos da fé, da esperança e da caridade! Iluminai de modo especial os povos dos quais Vós esperais a nossa consagração e a nossa entrega. Ajudai-nos a viver na verdade da consagração de Cristo por toda a família humana do mundo contemporâneo.
          Confiando-Vos, ó Mãe, o mundo, todos os homens e todos os povos, nós Vos confiamos também a própria consagração do mundo, depositando-a no vosso Coração materno.
          Oh Imaculado Coração! Ajudai-nos a vencer a ameaça do mal, que se enraíza tão facilmente nos corações dos homens de hoje e que, nos seus efeitos incomensuráveis, pesa já sobre a vida presente e parece fechar os caminhos do futuro! 

          Da fome e da guerra, livrai-nos!
          Da guerra nuclear, de uma autodestruição incalculável, e de toda a espécie de guerra, livrai-nos!
          Dos pecados contra a vida do homem desde os seus primeiros instantes, livrai-nos!
          Do ódio e do aviltamento da dignidade dos filhos de Deus, livrai-nos!
          De todo o género de injustiça na vida social, nacional e internacional, livrai-nos!
          Da facilidade em calcar aos pés os mandamentos de Deus, livrai-nos!
          Da tentativa de ofuscar nos corações humanos a própria verdade de Deus, livrai-nos!
          Da perda da consciência do bem e do mal, livrai-nos!
          Dos pecados contra o Espírito Santo, livrai-nos, livrai-nos!
          Acolhei, ó Mãe de Cristo, este clamor carregado do sofrimento de todos os homens! Carregado do sofrimento de sociedades inteiras!
          Ajudai-nos com a força do Espírito Santo a vencer todo o pecado: o pecado do homem e o "pecado do mundo", enfim o pecado em todas as suas manifestações.
          Que se revele uma vez mais, na história do mundo, a força salvadora infinita da Redenção: a força do Amor misericordioso! Que ele detenha o mal! Que ele transforme as consciências! Que se manifeste para todos, no vosso Imaculado Coração, a luz da Esperança! ».(4)
          A Irmã Lúcia confirmou pessoalmente que este acto, solene e universal, de consagração correspondia àquilo que Nossa Senhora queria: « Sim, está feita tal como Nossa Senhora a pediu, desde o dia 25 de Março de 1984 » (carta de 8 de Novembro de 1989). Por isso, qualquer discussão e ulterior petição não tem fundamento.
          Na documentação apresentada, para além das páginas manuscritas da Irmã Lúcia inserem-se mais quatro textos: 1) A carta do Santo Padre à Irmã Lúcia, datada de 19 de Abril de 2000; 2) Uma descrição do colóquio que houve com a Irmã Lúcia no dia 27 de Abril de 2000; 3) A comunicação lida, por encargo do Santo Padre, por Sua Eminência o Cardeal Ângelo Sodano, Secretário de Estado, em Fátima no dia 13 de Maio deste ano; 4) O comentário teológico de Sua Eminência o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
          Uma orientação para a interpretação da terceira parte do « segredo » tinha sido já oferecida pela Irmã Lúcia, numa carta dirigida ao Santo Padre a 12 de Maio de 1982, onde dizia:
          « A terceira parte do segredo refere-se às palavras de Nossa Senhora: "Se não, [a Rússia] espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas" (13-VII-1917).
          A terceira parte do segredo é uma revelação simbólica, que se refere a este trecho da Mensagem, condicionada ao facto de aceitarmos ou não o que a Mensagem nos pede: "Se atenderem a meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, etc".
          Porque não temos atendido a este apelo da Mensagem, verificamos que ela se tem cumprido, a Rússia foi invadindo o mundo com os seus erros. E se não vemos ainda, como facto consumado, o final desta profecia, vemos que para aí caminhamos a passos largos. Se não recuarmos no caminho do pecado, do ódio, da vingança, da injustiça atropelando os direitos da pessoa humana, da imoralidade e da violência, etc.
          E não digamos que é Deus que assim nos castiga; mas, sim, que são os homens que para si mesmos se preparam o castigo. Deus apenas nos adverte e chama ao bom caminho, respeitando a liberdade que nos deu; por isso os homens são responsáveis».
          A decisão tomada pelo Santo Padre João Paulo II de tornar pública a terceira parte do « segredo » de Fátima encerra um pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade, mas permeada pelo amor misericordioso de Deus e pela vigilância cuidadosa da Mãe de Jesus e da Igreja.
          Acção de Deus, Senhor da história, e corresponsabilidade do homem, no exercício dramático e fecundo da sua liberdade, são os dois alicerces sobre os quais se constrói a história da humanidade.
          Ao aparecer em Fátima, Nossa Senhora faz-nos apelo a estes valores esquecidos, a este futuro do homem em Deus, do qual somos parte activa e responsável.
          Tarcisio Bertone, SDB
          Arcebispo emérito de Vercelli
          Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé
          O « SEGREDO » DE FÁTIMA
          PRIMEIRA E SEGUNDA PARTE DO « SEGREDO » SEGUNDO A REDACÇÃO FEITA PELA IRMÃ LÚCIA NA « TERCEIRA MEMÓRIA », DE 31 DE AGOSTO DE 1941, DESTINADA AO BISPO DE LEIRIA-FÁTIMA 
           
          Integrada no texto de Rita Almeida Carvalho, intitulado Fátima e Salazar, a seguinte cronologia que passamos a apresentar.
          CRONOLOGIA
          1917
          Maio, 13- Primeira alegada aparição da Senhora de Fátima aos pastores Francisco, Jacinta e Lúcia.
          Outubro, 13- Uma multidão de 60000 a 80000 pessoas reúne-se na Cova da Iria para assistir à "dança do sol".
          Novembro - Inicia-se o processo canónico preliminar de inquirição, com os interrogatórios aos alegados videntes. Durará até Abril de 1919.
          Novembro, 7- Revolução Russa, constituição dum governo com maioria bolchevique.
          1918
          Novembro, 11- Assinatura do Armistício que põe fim à I Guerra Mundial.
          Novembro, 18- Greve geral convocada pela União Operária Nacional.
          1919
          Abril - Inicia-se na Cova da Iria a construção duma pequena capela.
          Abril, 4- Morre Francisco, vítima da pneumónica.
          1920
          Março, 2- Morre Jacinta, vítima da pneumónica.
          Agosto, 15- D. José Alves Correia da Silva é nomeado novo bispo de Leiria.
          1921
          Junho - Lúcia entra no recolhimento do Vilar.
          Outubro, 13- Celebração na Cova da Iria da primeira missa autorizada por Correia da Silva.
          1922
          Março, 6- A capela da Cova da Iria é destruída por uma bomba. A sua reconstrução irá iniciar-se em Dezembro.
          Maio, 13- Missa de desagravo pelo atentado bombista. Grande aumento do afluxo de peregrinos.
          Outubro, 29- Nomeação de Mussolini para a chefia do governo.
          1926
          Maio, 28- Golpe de Estado, início da ditadura.
          1927
          Outubro - Correia da Silva adquire para a diocese os terrenos da Cova da Iria.
          1928
          Abril, 27- António de Oliveira Salazar assume a pasta das Finanças.
          Maio, 13- Inicia-se a construção da Basílica na Cova da Iria.
          1929
          Acordo de Latrão entre Mussolini e a Igreja.
          Maio, 13- Carmona e Salazar deslocam-se a Fátima.
          1930
          Outubro, 13- Carta pastoral do bispo de Leiria defendendo Fátima contra as suspeições de fraude.
          1933
          Janeiro, 31- Nomeação de Hitler para a chefia do governo.
          Julho, 20- Assinatura da Concordata entre Pacelli, futuro Pio XII, e o governo alemão.
          1936
          A instâncias do bispo de Leiria, Lúcia terá iniciado a redacção das suas "Memórias". Ficarão concluídas em 1941.
          Julho, 18- Putsch franquista, início da Guerra Civil de Espanha.
          1938
          Maio, 13- Às habituais comemorações de Fátima associam-se manifestações de júbilo pelas vitórias franquistas na Guerra Civil de Espanha.
          1939
          Setembro, 1- Início da II Guerra Mundial.
          1940
          Maio, 7- Assinatura da Concordata entre o Vaticano e o governo português.
          1941
          Junho, 22- Ataque da Alemanha à URSS.
          1942
          Outubro, 31- Em discurso transmitido pela Rádio Vaticano e pela Emissora Nacional portuguesa, Pio XII refere-se favoravelmente a Fátima.
          Dezembro, 24- Homilia de Natal de Pio XII, evitando mencionar o extermínio dos judeus pelos nazis.
          1946
          Lúcia entrega ao bispo de Leiria uma carta contendo o "terceiro segredo". A carta fica fechada no cofre da diocese. Será enviada para o Arquivo do Santo Ofício, no Vaticano, em 1957.
          Maio, 12- O cardeal Bento Masella, enviado a Fátima por Pio XII, é recebido em Portugal com honras de chefe de Estado.
          1955
          Janeiro, 22- Comemorações das bodas de prata do bispo de Leiria, com a presença de Craveiro Lopes, Salazar e membros do governo.
          1958
          Março, 13- Morre D. José Alves Correia da Silva, que fora o mais activo promotor do reconhecimento do alegado milagre e ao longo de 38 anos de gestão diocesana de Leiria se tornara conhecido como "bispo de Fátima".
          Maio, 13- Com a campanha presidencial de Delgado em pano de fundo, os militares fiéis a Salazar comparecem em Fátima em número muito maior do que nos anos anteriores.
          1961
          Julho, 7- O papa João XXIII manifesta informalmente ao embaixador português preocupação com a eventualidade de se "fazer dizer à irmã Lúcia (...) mais do que ela estaria em condições de dizer", nomeadamente em relação à Rússia.
          1964
          O papa Paulo VI visita a União Indiana, causando o desagrado do governo português.
          Setembro, 17- No Vaticano o embaixador português é pela primeira vez sondado sobre o efeito compensatório que poderia ter uma visita do papa a Portugal.
          1965
          Maio, 13- O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Fernando Cento, vem a Portugal e louva Portugal "nação sempre fidelíssima".
          Maio, 14- O MNE, Franco Nogueira, discursa em tom de reconciliação num banquete oferecido ao enviado papal.
          1967
          Maio, 13- Visita do papa Paulo VI a Fátima.
          1981
          Outubro, 13- Atentado de Ali Agca, militante turco de extrema-direita, contra o papa João Paulo II em Roma.
          2000
          Maio, 13- João Paulo II procede em Fátima à beatificação de Francisco e Jacinta. O cardeal Angel Sodano declara que o "terceiro segredo" consistia na previsão do atentado de Ali Agca.
           
          Primeira mensagem do Pontífice sobre Fátima recorda devoção polaca
          O Santuário de Fátima divulgou domingo a primeira mensagem trocada com João Paulo II, então como arcebispo de Cracóvia, em que este recorda a devoção do povo polaco pela mensagem Mariana.
          Dirigindo-se ao então bispo de Leiria-Fátima, D. João Pereira Venâncio, o arcebispo de Cracóvia, D. Karol Wojtyla, escrevia que não poderia estar presente nas comemorações dos 50 anos das Aparições, em 1967.
          "Vossa Excelência conhece a devoção do povo polaco à Santíssima Virgem. Sem dúvida que todos compartilhamos aqui os vossos sentimentos nobres e calorosos durante o vosso grande Cinquentenário", refere a missiva, assinada pelo futuro Papa João Paulo II, que faleceu sábado.

           Depois, já Papa e meses após o atentado que sofreu a 13 de Maio de 1981, João Paulo II afirmou numa eucaristia que devia a sua vida a Nossa Senhora de Fátima e visitou mesmo o Santuário em 1982, viagem que repetiu por mais duas ocasiões.

 


          Nas cerimónias deste dia, foi colocado na Capelinha das Aparições um quadro representando João Paulo II inclinado junto da imagem de Nossa Senhora de Fátima, que foi oferecido pelos doentes da Diocese do Funchal.
          Este quadro, que tem estado exposto na recepção da Reitoria do Santuário de Fátima, foi elaborado com base numa fotografia tirada em 1981 na Clínica Gemelli, em Roma, após o atentado de 13 de Maio desse ano.
CONGREGAÇÃO PARA AS CAUSAS DOS SANTOS
HOMILIA DO CARDEAL JOSÉ SARAIVA MARTINS
          Santuário de Fátima na Cova da Iria
          13 de Maio de 2003
          Em.mo Senhor Cardeal Patriarca
          Ex.mos Irmãos no Episcopado
          Estimados Sacerdotes,
          Religiosos e Religiosas
          Caríssimos Irmãos e Irmãs em Cristo
          O Evangelho, que ouvimos, convida-nos a meditar o mistério da maternidade da Virgem, Mãe de Deus e nossa Mãe, à qual Jesus Crucificado disse: "Mulher eis o teu filho" e, dirigindo-se ao discípulo amado, que a todos nos representava, acrescentou: "Eis a tua mãe" (Jo 19, 26-27).
          A partir da hora da cruz, "o discípulo recebeu-a em sua casa" (Jo 19, 27), isto é, acolheu-a como sua, em nosso nome. Maria, a mulher por excelência, a nova Eva, sendo Mãe da Cabeça que trouxe no seu seio virginal, tornou-se também, a partir da hora da cruz, por vontade e em virtude do testamento espiritual e dos méritos do Redentor, a Mãe dos crentes e da Igreja, a Mãe amantíssima de todos os redimidos.
          Esta nova maternidade espiritual e mística de Maria é o reflexo e o prolongamento da maternidade divina que a elevou sobre todas as criaturas.
          Maria nunca nos abandona. Continua, a nosso favor, a sua missão de intercessão junto de Deus e, com o exemplo, as palavras e as manifestações da sua bondade, pede-nos, como em Caná: "Fazei tudo o que Ele (Jesus Cristo, meu Filho) vos disser" (Jo 2, 5).
          As aparições e os apelos de Nossa Senhora, há 86 anos, aqui em Fátima, constituem um eco, um sinal e um prolongamento da solicitude materna daquela que nos exorta a ouvir e a seguir Jesus, desejosa da plena redenção dos filhos confiados pelo Crucificado ao seu coração maternal.
          Os apelos da Virgem, por meio dos pastorinhos, à fé, à oração, à penitência, a ouvir e a seguir, a amar e a desagravar Deus Nosso Senhor, são expressões da solicitude materna manifestada já durante a sua vida terrena, em Nazaré, em Caná, no Calvário e no Cenáculo, no dia de Pentecostes, onde Maria se encontrava reunida com a Igreja na fé e na oração.
          A Mensagem de Fátima contém apelos da mais candente actualidade. Sublinho quatro: a fé viva e testemunhada, a conversão, a paz e a esperança.
          1. O primeiro é um insistente apelo à fé, contagiante, vigorosa e irradiante dos três pastorinhos: uma fé vivida em profundidade nas formas mais simples da sua expressão.
          A sociedade de hoje é levedada por múltiplos fermentos e correntes culturais que põem em perigo os próprios fundamentos da fé cristã. Uma crescente e desenfreada secularização leva muitos a pensar e a viver como se Deus não existisse ou então a contentar-se com uma vaga religiosidade, incapaz de se confrontar com o problema da verdade e com o dever da coerência. De tudo isto deriva um crescente obscurecimento do sentido transcendente da existência humana, um relativismo ético difuso e uma gradual perda do sentido do pecado, já denunciada por Pio XII: "o pecado do século é a perda do sentido do pecado" (Pio XII, Disc. e Rad., VIII, 1946, 288; cf. João Paulo II, Reconciliatio et poenitentia, 1989, 18).
          Mesmo entre os baptizados que se confessam cristãos, nota-se uma grande apatia, uma falta de coerência, uma desarmonia entre a fé e o agir quotidiano, uma infidelidade aos valores e aos princípios que deveriam nortear e modelar a nossa vida. Falando dessa incoerência, desse dissídio entre a fé e o agir, o Concílio Vaticano II constatou que: "este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo" (Gaudium et spes, 43 ).
          É neste contexto de secularização e de indiferença religiosa que se insere o apelo da Mãe de Deus a viver em plenitude e com renovado fervor o inestimável dom da fé recebida no Baptismo, de forma a que ela penetre e ilumine toda a nossa existência e oriente todas as opções fundamentais da nossa vida, para, deste modo, nos tornarmos testemunhas fidedignas do amor de Deus entre os homens.
          Como notava Paulo VI, "aos mestres, o homem contemporâneo prefere escutar os que testemunham, e se escuta os mestres é porque testemunham" (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, 41; cf. Paulo VI, Insegnamenti, XlI [1974] pp. 895-896). "As palavras convencem, mas os exemplos arrastam". O homem de hoje desconfia das palavras; quer factos. E é por isso que observa com interesse, atenção e até com admiração os que testemunham.
          A linguagem do testemunho é a mais compreensível e convincente para o homem do nosso tempo. Mas tal testemunho exige fidelidade absoluta aos valores humanos profundamente enraizados no tecido social e cultural do povo português: exige o respeito do ser humano, que vale pelo que é e não pelo que tem; o respeito da sua transcendente dignidade e direitos fundamentais; a rejeição do relativismo ético que "tira à convivência civil todo e qualquer ponto seguro de referência e radicalmente a priva do reconhecimento da verdade"; exige a defesa da família como sociedade natural fundada no matrimónio; o acolhimento e o respeito pela vida desde a concepção até ao seu termo natural. O cristão está plenamente consciente de que, à luz da fé, o "não da Igreja ao aborto é um sim à vida, um sim à bondade original da criação, um sim à família, primeira célula de esperança na qual Deus se compraz, convidando-a a tornar-se igreja doméstica" (Synodus Episcoporum Nuntius, 2001, pág. 43).
          A força que o leva a ser testemunha corajosa do Evangelho e dos seus valores, o cristão vai encontrá-la na vivência duma profunda vida interior, no intenso amor a Cristo a quem deve abrir de par em par as portas do coração, na graça sacramental, especialmente na graça da Reconciliação e da Eucaristia e, finalmente, na oração tão calorosamente recomendada em Fátima, pelo Anjo e por Nossa Senhora que na quarta aparição pediu aos videntes: "Rezai, rezai muito".
          2. O segundo apelo de Nossa Senhora é o apelo à conversão, à penitência. Logo na primeira aparição, Ela pergunta aos três pastorinhos se querem oferecer-se e suportar todos os sofrimentos que Deus lhes mandar "como acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores".
          Converter-se a Deus é voltar a Ele, aproximar-se da Sua santidade, lançar-se de novo, como o filho pródigo, nos braços do Pai; é reconquistar a alegria perdida, a alegria de ser salvos (Sl 51, 14), coisa que muitos dos homens do nosso tempo já não sabem saborear.
          Converter-se é manter com Deus uma atitude de amorosa escuta, como Samuel: "Falai, Senhor, que o vosso servo escuta" (1 Sm 3, 10 ).
          E Deus não fala só através da Bíblia e da Igreja, mas também através da história, por meio dos acontecimentos, grandes ou pequenos, que constituem o tecido da nossa vida. Depende de nós, reconhecer ou não em tudo isso a voz do Senhor. É esta a maneira de agir de Deus, já no Antigo Testamento: Ele revela-se e guia o Seu povo por meio dos eventos suscitados por Ele mesmo com essa finalidade.
          Mas não se pode ouvir Deus, sem nele e à luz do Evangelho, escutar a voz dos irmãos, o grito dos pobres e dos marginalizados, o gemido dos oprimidos, o choro dos doentes e desesperados, de forma a encontrarem ressonância no nosso coração e respostas adequadas no nosso agir. Significa ter em relação a eles sentimentos de verdadeira solidariedade e de participação nas suas preocupações materiais e espirituais.
          Ninguém, por exemplo, pode ficar indiferente ao drama da fome e da pobreza extrema de tantos milhões de homens, numa época em que a humanidade tem, como nunca, nas suas mãos, os instrumentos aptos para operar uma justa partilha. É inadmissível que, como afirmam observadores competentes da economia mundial, 80% da população do planeta viva com 20% apenas dos seus recursos e que um bilião e duzentos milhões de pessoas sejam constrangidas a" viver" com menos de um euro por dia.
          Como também ninguém pode ficar indiferente ao grave problema dos refugiados e dos emigrantes que, por causa das guerras, da opressão política ou discriminação económica, ou por outro qualquer motivo, são obrigados a abandonar a própria terra e a própria família para procurar trabalho e tranquilidade (Syn. Ep. Nuntius, 43). Ser solidários com o sofrimento destes nossos irmãos faz também parte da conversão.
          3. Não menos importante e nem menos actual é o apelo que a Virgem faz à paz. Pede aos pastorinhos para que se reze "para obter a paz do mundo e o fim da guerra" (a primeira guerra mundial então em curso ) e promete-lhes que, se for satisfeito este seu pedido, "haverá paz".
          Também hoje, se respira uma crescente exigência de concórdia e de paz, num mundo cada vez mais interdependente, com uma rede global de trocas e comunicações mas em que, infelizmente, assistimos à exasperação de conflitos crónicos como os da Terra Santa, do Médio Oriente e de outras regiões da terra. A tudo isto vem juntar-se o terrorismo internacional nas suas novas e assustadoras dimensões (João Paulo II, Disc. ao Parl. ital., 15.11.2002).
          A história ensina que na origem das guerras estão sempre situações intoleráveis de injustiça e a negação de certos valores, sem os quais, como diz o Papa João Paulo II "uma democracia facilmente se converte em totalitarismo descarado ou dissimulado, como demonstra a história do século XX apenas terminado" (Supl., 96; Disc. Parl. ital., l.c.). A justiça, acompanhada da forma de amor que é o perdão, é o pilar insubstituível da verdadeira paz. Sem ela, não pode haver paz, que é fruto e obra da justiça opus justitiae pax como diz o profeta Isaías (cf. Is 32, 1.7).
          Na senda da Encíclica Pacem in terris do Beato João XXIII, o Papa João Paulo II, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, apontou como condições essenciais da paz quatro exigências concretas da alma humana: a verdade, a justiça, o amor e a liberdade. Já na Mensagem do ano anterior, 2002, o mesmo João Paulo II nos ensinava que "não há paz sem justiça e não há justiça sem perdão".
          Os conflitos que afligem o mundo de hoje e são fonte de indizíveis sofrimentos para tantos nossos irmãos, exortam a consciência dos cristãos a empenhar-se e a rezar pela paz. E rezar pela paz significa, como diz o Papa, "abrir o coração humano à irrupção do poder renovador de Deus, pois só Ele pode criar aberturas para a paz, lá onde parece haver só obstáculos e oclusões; só Ele pode consolidar e alargar a solidariedade da família humana, não obstante longas histórias de divisões e de lutas. Rezar pela paz significa rezar pela justiça, por uma melhor distribuição dos bens da terra" (João Paulo II, Mensagem da Paz de 2001, n. 18).

 


          A oração mais eficaz para obter a paz é a do Rosário a que o Santo Padre dedicou este ano. Nossa Senhora recomendou-o várias vezes nas aparições aqui na Cova da Iria: "Rezai o Terço todos os dias para obter a paz para o mundo", pediu Nossa Senhora aos pastorinhos. O Rosário é, de facto, "uma oração orientada por sua natureza para a paz, porque consiste na contemplação de Cristo, Príncipe da Paz e "nossa paz" (Ef 2,14). Ao mesmo tempo que nos faz fixar os olhos em Cristo, a oração do Rosário torna-nos construtores de paz no mundo" (RVM, 40).
          Em boa hora se iniciou pois a recitação diária do Terço a partir deste Santuário e transmitido pela Rádio Renascença para todo o Portugal.
          4. Finalmente a Mãe de Deus fez, em Fátima, um apelo à esperança. A sua mensagem de amor não podia deixar de ser também uma mensagem de esperança. E, de facto, as suas palavras são um vigoroso apelo àquela esperança que é dom Pascal do Senhor (cf. Syn. Ep. Nuntius), à esperança que renova radicalmente a história, dando-lhe um sabor e uma beleza nova, cujo alicerce inabalável é Cristo.
          Apesar das muitas sombras que pairam sobre o mundo, são também muitos os sinais de esperança. Com efeito, ao lado de tantas tragédias e do egoísmo dos projectos humanos sem transcendência, por parte de pessoas e grupos, nota-se, hoje, um crescente desejo de espiritualidade, de comunhão e de colaboração; assiste-se a uma séria procura do sentido e da qualidade de vida a todos os níveis, mesmo espiritual; e, não obstante a progressiva indiferença religiosa, "o mundo paradoxalmente procura Deus através de caminhos imprevistos e sente necessidade dele" (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, 76). Donde se conclui que o homem tem saudade de Deus.
          Pode, por vezes, parecer que prevalecem as forças do mal, mas o cristão, que lê os acontecimentos à luz do mistério Pascal, sabe que acabará por triunfar a terna misericórdia de Deus: "Onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5, 20); sabe que o mundo em que vivemos será um dia, "realmente transformado num mundo em que as aspirações mais nobres do coração humano poderão ser satisfeitas" (João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2001, n. 6), no mundo de que fala a primeira Leitura da Missa que estamos celebrando.
          Todos nós somos chamados para a "construção" deste novo mundo, mais justo, mais humano e por isso mesmo, mais cristão: vivendo e anunciando com coragem o Evangelho da esperança, que é o Evangelho do Magnificat, o Evangelho de Maria, o Evangelho da Branca Senhora de Fátima, spes nostra: a esperança nossa e do mundo.
Jacinta Marto
          O Segredo de Jacinta, a admirável vidente de Fátima
          Jacinta era uma criança quando Nossa Senhora apareceu. Entra na História aos sete anos, precisamente na idade que habitualmente se costuma indicar como a do começo da vida consciente e da razão. Em que medida uma criatura dessa idade é capaz de praticar a virtude? E de praticá-la de modo heróico?
          A história da espiritualidade católica tem exemplos surpreendentes de santidade a pouca idade: Santa Maria Goretti, martirizada aos 11 anos com plena consciência do que fazia; São Domingos Sávio, que morreu aos 15 anos.
          Jacinta – e seu irmão Francisco – depois de um rigoroso processo em Roma, tiveram reconhecidas suas virtudes heróicas, podendo ser venerados privadamente como santos. Qual o segredo da santidade de Jacinta? O tema vem ocupando actualmente a atenção dos católicos e merece ser conhecido por nossos leitores.
          Atílio Faoro
          Jamais se vira, naquele lugar, uma coisa igual: 70 mil pessoas, vindas de todas as partes de Portugal, estão reunidas, sob a chuva, no local que se chama Cova da Iria. O que aconteceu?
          Estamos no dia 13 de Outubro de 1917. A duras penas, os três pastorinhos tentam varar a multidão rumo a suas pequenas casas em Aljustrel. A menor das crianças - nossa Jacinta - é conduzida através de atalhos por um soldado, que a protege das manifestações de entusiasmo de pessoas que desejam vê-la e dirigir-lhe a palavra. Milhares de perguntas, pedidos de oração e intercessões. Conversões, lágrimas de alegria...
          As crianças – Lúcia, Francisco e Jacinta - não prestam atenção na multidão reunida, a qual presenciara o milagre do sol ao final da última aparição. Suas mentes estão tomadas pela sublimidade e pelo esplendor do extraordinário fato sobrenatural que há pouco acabam de contemplar. A Senhora do Céu, com quem haviam falado seis vezes, acabava de realizar o milagre prometido... 
          Desapego quanto a louvores dos homens 
          Jacinta Marto, com apenas sete anos de idade, é dotada de seriedade marcante. A fronte franzida indica profunda preocupação. Os olhos, que ainda reflectem maravilhosamente o brilho do que haviam contemplado, estão contraídos mas calmos, indicando uma alma inclinada ao recolhimento.
          O que dizer desta fisionomia? Talvez Jacinta se esteja lembrando dos penosos caminhos percorridos anteriormente em meio ao desprezo, aos impropérios e até aos golpes daqueles que agora estão no meio da multidão. Não, a alegria do momento não a impressiona, ela conhece bem a inconstância do espírito humano. Sua vontade está posta em Deus, no cumprimento de Sua vontade, de tal modo que, depois das aparições, levou verdadeiramente a vida de uma grande santa. A Congregação para a Causa dos Santos constatou: sua vontade era inteiramente submissa à de Deus. Como seria útil, principalmente para os nossos dias, conhecer a vida desta criança. 
          A caminho da santidade 
          No espaço de tempo que vai dos sete aos dez anos, em que suportou heroicamente o fardo da doença que a levaria à morte, Jacinta trilhou o caminho da santidade. Já nessa tão precoce idade conheceu profundamente a realidade da vida. Sua existência foi curta, porém repleta de acontecimentos extraordinários e até mesmo fascinantes. A descrição deles extrapolaria os limites deste artigo. Temos que nos cingir aos traços marcantes de sua alma, a algumas cenas de sua vida e mencionar alguns testemunhos.
          O caminho da santidade, a que já nos referimos, esta menina o percorreu de tal maneira que seus pais e parentes chegaram a exclamar a respeito dela e dos outros dois videntes: "É um mistério que não dá para compreender. São crianças como outras quaisquer. No entanto, percebe-se nelas qualquer coisa de extraordinário!" Sim, o que havia de extraordinário nessas crianças que as pessoas (até hoje!) não conseguem entender?
          Quem foi Jacinta Marto? Última de uma grande prole, nasceu em 11 de março de 1910. De natureza meiga, era uma criança como as outras. Brincava, cantava, tinha seus defeitos maiores ou menores, o seu temperamento e, naturalmente, suas preferências... até 13 de maio de 1917. 
          Oração e sacrifícios resgatam pecadores 
          Depois desse dia, empreendeu Jacinta uma mudança interior profunda, uma conversão de sua vida como Nossa Senhora tinha pedido. As palavras de Maria Santíssima impregnaram de modo indelével sua alma e passaram a ser o conteúdo, o ideal de sua vida. Mais ainda, colocou esse ideal em prática.
          "Fazei penitência pelos pecadores! Muitos vão para o inferno porque ninguém reza e se sacrifica por eles." - Tais palavras encontraram profunda ressonância em Jacinta. E com que inquebrantável vontade fazia ela penitência! Aqui vão mencionados alguns exemplos desta jovem e já grande santa. Ela não hesitava em frequentemente jejuar um dia inteiro, sem nada comer ou beber, dando alegremente seu pão às crianças pobres. Em outros dias, comia justamente aquilo que mais detestava. Trazia como penitência uma corda em torno da cintura. Nada, nenhum sacrifício lhe parecia demasiado grande, tratando-se da salvação das almas! 
          O pecado e o Céu em sua espiritualidade 
          De fato, pode-se dizer que a espiritualidade de Jacinta funda-se nos pedidos formulados por Nossa Senhora. Ela contém dois aspectos importantes: 1) claro conceito do pecado; 2) noção muito definida da beleza sobrenatural do Céu. Exactamente dois pontos em relação aos quais nossa época está imensamente distante.
          Não se fala mais em pecado. Esta palavra está sendo omitida na catequese e banida do pensamento das pessoas. Juntamente com isso, vai sendo também eliminada necessariamente a ideia do próprio Deus! Pois, de que outra coisa se trata senão da honra divina que é ofendida pelo pecado?
          Estreitamente relacionado com esse pensamento vem o segundo ponto: a noção clara da beleza sobrenatural do Céu. Quanto mais intensamente uma alma tem essa noção do sobrenatural celeste, tanto mais fácil será sua correspondência às solicitações da Mãe de Deus. Jacinta é um exemplo concreto arrebatador de tal correspondência. A mensagem de sua vida convida-nos a reconhecer esses aspectos da mensagem de Nossa Senhora e torná-los o eixo orientador de nossas vidas. 
          Enormes penitências salvaram muitas almas 
          Profundamente impressionada pela visão do inferno e pelo mistério da eternidade, Jacinta não poupou nenhum sacrifício visando a conversão dos pecadores. Em sua doença -- uma tuberculose que a levou à morte -- oferecia principalmente suas dores: "Sim, eu sofro, porém ofereço tudo pelos pecadores, para desagravar o Imaculado Coração de Maria. Ó Jesus, agora podeis salvar muitos pecadores porque este sacrifício é muito grande".
          Todos os que conheciam Jacinta sentiam certo respeito por ela. Lúcia, sua prima, escreve: "Jacinta era também aquela a quem, me parece, a Santíssima Virgem deu a maior plenitude de graças, conhecimento de Deus e da virtude. Ela parecia reflectir em tudo a presença de Deus."
          Mesmo na sua dolorosa moléstia mostrava-se sempre paciente, sem reclamações, inteiramente despretensiosa. Conduta que não correspondia ao seu carácter natural. O que possibilitava a essa criança a prática de tal fortaleza e manifestar semelhante comportamento?
          A própria Jacinta dá resposta a essa pergunta em sua exclamação: "Gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora que nunca me canso de dizer que Os amo. Quando eu digo isso muitas vezes, parece-me que tenho um lume no peito, mas não me queima!" O amor ardente a Jesus e Maria! Este foi o amor que transformou Jacinta e que fez dela uma cópia fiel das virtudes da Virgem Santíssima. 
          Último sacrifício: na morte, isolamento 
          Tão heróica foi a morte quanto a vida de Jacinta, num hospital de Lisboa, inteiramente sozinha. Este fato foi objecto de uma das últimas previsões recebidas por Jacinta, directamente de Nossa Senhora. Com que coragem conservou a menina este pensamento! Deixemo-la narrar esta profecia, por ela confiada a Lúcia:
          "Nossa Senhora disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver, nem aos meus pais; que depois de sofrer muito, morro sozinha; mas que não tenha medo, que me vai lá Ela me buscar para o Céu."
          Nossa Senhora anunciou também o dia e a hora em que deveria morrer. Quatro dias antes, a Santíssima Virgem tirou-lhe todas as dores. Como ninguém esteve presente nesse grandioso momento, podemos apenas imaginar a cena. Como terá sido a recepção deste pequeno lírio no Céu? Diante de Nossa Senhora, aquele rosto virginal não estará mais contraído pelo sofrimento, mas resplandecente em presença d’Aquele que foi o Fundamento de sua vida: "Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro do peito e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!"
          De que maneira o conhecimento da vida de Jacinta actua sobre as almas, pode-se deduzir das palavras do postulador das Causas de Beatificação dela e de seu irmão Francisco: "Nunca na História da Igreja duas crianças foram tão conhecidas e estimadas quanto Francisco e Jacinta. Elas têm trazido inúmeras almas para o caminho da perfeição".
          Desejamos que a vida de Jacinta tenha no Brasil grande divulgação para a salvação das almas e o breve triunfo do Imaculado Coração de Maria!
          "Sua entrega à vontade de Deus foi total" - Decreto da Santa Sé declara as virtudes de Jacinta
          A 13 de Maio de 1989, um decreto da Congregação para a Causa dos Santos, assinado pelo Cardeal Angelo Felici, declarou a heroicidade das virtudes da Serva de Deus Jacinta Martos.
          O documento, lembrando as palavras de Nosso Senhor "Se não fizerdes como um destes pequeninos não entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18,3), afirma que Jacinta "correspondendo sem reservas à graça divina realizou rapidamente uma grande perfeição na imitação de Cristo e voluntariamente consumiu sua breve existência pela glória de Deus, cooperando na salvação das almas mediante fervorosa oração e assídua penitência".
          Depois de resumir sua vida, o decreto declara que "sua entrega à vontade de Deus foi total", o esforço "para corresponder ao amor e às graças de Deus foi constante", dando provas de "possuir em alto grau as virtudes teologias e as virtudes da prudência, justiça, temperança, humildade, sinceridade e modéstia".
          Na mesma data, a Santa Sé declarou as virtudes do Servo de Deus Francisco Marto, irmão de Jacinta.
          A morte de Lúcia
          Fevereiro 15, 2005
          Grito
          Desculpem-me mas hoje eu tenho de fazer este grito: FÁTIMA NÃO È UMA HISTÓRIA DE TANGA!!
          Faleceu a irmã Lúcia, e muito se tem escrito sobre ela e Fátima, e fico abismado de ver tanta gente a tecer as mais duras críticas dizendo que não passa de invenções de "tretas" que Fátima só foi inventada para o negócio, ou para efeitos políticos, que Fátima apenas revela a nossa fraca cultura.
          Eu afirmo que Fátima não é uma história inventada por 3 crianças. Apenas porque não vi não posso acreditar?? Só acreditas naquilo que vês??
          Amigos acredito em Fátima não estive lá mas o meu bisavô esteve. Tenho relatos escritos pelos filhos dele (Manuel Vicente Marques) contando o que aconteceu naquela manhã onde o "sol bailou". Digo-vos o meu bisavô não era mentiroso ! Acredito! Claro que existe agora muito negócio, que a história do segredo apenas mantinha as pessoas no "suspensa", etc... Mas a mensagem da Nossa Senhora aos pastorinhos é tão simples: Arrependermo-nos dos nossos pecados, rezar o terço. È só isto, uma mensagem simples para o bem.
          Quem são eles?
          JACINTA MARTO
          Nasceu em Aljustrel, no dia 11 de Março de 1910. Morreu santamente em 20 de Fevereiro de 1920, no Hospital de D. Estefânia, em Lisboa, depois de uma longa e dolorosa doença, oferecendo todos os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores, pela paz no mundo e pelo Santo Padre.
          Em 12 de Setembro de 1935 foi solenemente trasladado o seu cadáver do jazigo da família do Barão de Alvaiázere, em Vila Nova de Ourém, para o cemitério de Fátima, e colocado junto dos restos mortais do seu irmãozinho Francisco.
          No dia 1 de Maio de 1951, efectuou-se, com a maior simplicidade, a trasladação dos restos mortais de
          Jacinta para o novo sepulcro preparado na Basílica da Cova da Iria, lado poente.
          FRANCISCO MARTO
          Nasceu em 11 de Junho de 1908, em Aljustrel. Faleceu santamente no dia 4 de Abril de 1919, na casa de seus pais. Muito sensível e contemplativo, orientou toda a sua oração e penitência para "consolar a Nosso Senhor".
          Os seus restos mortais ficaram sepultados no cemitério paroquial até ao dia 13 de Março de 1952, data em que foram trasladados para a Basílica da Cova da Iria, lado nascente.
          LÚCIA DE JESUS
          A principal protagonista das Aparições nasceu em 22 de Março de 1907, em Aljustrel, paróquia de Fátima. Em 17 de Junho de 1921, ingressou no Asilo de Vilar (Porto), dirigido pelas religiosas de Santa Doroteia.
          Depois foi para Tuy, onde tomou o hábito, com o nome de Maria Lúcia das Dores. Fez a profissão religiosa de votos temporários em 3 de Outubro de 1928 e, em 3 de Outubro de 1934, a de votos perpétuos. No dia 25 de Março de 1948, transferiu-se para Coimbra, onde ingressou no Carmelo de Santa Teresa, tomando o nome de Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado. No dia 31 de Maio de 1949, fez a sua profissão de votos solenes.
          A Irmã Lúcia veio a Fátima várias vezes: em 22 de Maio de 1946; em 13 de Maio de 1967; em 1981, para dirigir, no Carmelo, um trabalho pictórico sobre as Aparições; em 13 de Maio de 1982 e 13 de Maio de 1991. Faleceu Domingo 13 de Fevereiro de 2005.
          A portuguesa mais importante do século, Lúcia foi o exemplo da simplicidade que Nossa Senhora, quis destacar quando se revelou àquelas crianças, pastoras, pobres e analfabetas, insistindo na vantagem da oração no século da alienação material e dos massacres.
           Porque Fátima é isto: Simplicidade, Oração, Perdão.
           A história:
         A 13 de Maio de 1917, três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, hoje diocese de Leiria-Fátima. Chamavam-se Lúcia de Jesus, de 10 anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus primos, de 9 e 7 anos. Por volta do meio dia, depois de rezarem o terço, como habitualmente faziam, entretinham-se a construir uma pequena casa de pedras soltas, no local onde hoje se encontra a Basílica. De repente, viram uma luz brilhante; julgando ser um relâmpago, decidiram ir-se embora, mas, logo abaixo, outro clarão iluminou o espaço, e viram em cima de uma pequena azinheira (onde agora se encontra a Capelinha das Aparições), uma "Senhora mais brilhante que o sol", de cujas mãos pendia um terço branco.
          A Senhora disse aos três pastorinhos que era necessário rezar muito e convidou-os a voltarem à Cova da Iria durante mais cinco meses consecutivos, no dia 13 e àquela hora. As crianças assim fizeram, e nos dias 13 de Junho, Julho, Setembro e Outubro, a Senhora voltou a aparecer-lhes e a falar-lhes, na Cova da Iria. A 19 de Agosto, a aparição deu-se no sítio dos Valinhos, a uns 500 metros do lugar de Aljustrel, porque, no dia 13, as crianças tinham sido levadas pelo Administrador do Concelho, para Vila Nova de Ourém. Na última aparição, a 13 de Outubro, estando presentes cerca de 70.000 pessoas, a Senhora disse-lhes que era a "Senhora do Rosário" e que fizessem ali uma capela em Sua honra. Depois da aparição, todos os presentes observaram o milagre prometido às três crianças em Julho e Setembro: o sol, assemelhando-se a um disco de prata, podia fitar-se sem dificuldade e girava sobre si mesmo como uma roda de fogo, parecendo precipitar-se na terra. Posteriormente, sendo Lúcia religiosa de Santa Doroteia, Nossa Senhora apareceu-lhe novamente em Espanha (10 de Dezembro de 1925 e 15 de Fevereiro de 1926, no Convento de Pontevedra, e na noite de 13/14 de Junho de 1929, no Convento de Tuy), pedindo a devoção dos cinco primeiros sábados (rezar o terço, meditar nos mistérios do Rosário, confessar-se e receber a Sagrada Comunhão, em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria) e a Consagração da Rússia ao mesmo Imaculado Coração. Este pedido já Nossa Senhora o anunciara em 13 de Julho de 1917, na parte já revelada do chamado "Segredo de Fátima". Anos mais tarde, a Ir. Lúcia conta ainda que, entre Abril e Outubro de 1916, tinha aparecido um Anjo aos três videntes, por três vezes, duas na Loca do Cabeço e outra junto ao poço do quintal da casa de Lúcia, convidando-os à oração e penitência. Desde 1917, não mais cessaram de ir à Cova da Iria milhares e milhares de peregrinos de todo o mundo, primeiro nos dias 13 de cada mês, depois nos meses de férias de Verão e Inverno, e agora cada vez mais nos fins de semana e no dia-a-dia, num montante anual de quatro milhões.
 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal
 

 

 

 

 

Criação e Arte Final: Iara Melo

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