SEBO LITERÁRIO

 

 

António José Barradas Barroso

(Tiago)
 

 

 
 
Alentejo...
... minha saudade
 
SONETOS
 
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Pintura alentejana
António Barroso


Quando a vista se perde na distância
Dos campos de arco íris coloridos,
Dos torrões secos sobem as fragrâncias
Das flores vestidas de tons garridos.

Do céu, de azul pintado em abundância,
Jorram ouros que embotam os sentidos
Duma paz que recua à nossa infância,
Momentos de sossego, tempos idos.

Nas veredas da terra a que pertenço,
Que correm vales e sobem outeiros,
Passam, vistosas, alegres moçoilas,

Na cabeça, o chapéu cobrindo o lenço,
Saias atadas, braços bem trigueiros
Levando rubros ramos de papoilas.

António Barroso

 
 

Cantoras do Alentejo
António Barroso


Ai como é bom ouvir o rouxinol
Logo de manhã, ao romper da aurora,
O céu, de azul pintado tem mais sol
E a seara brilha mais a cada hora.

Gorjeio de tenor que é um farol,
Como o tom laranja cobrindo a flora,
Chamando companheiros ao arrebol
Que se estende por esses campos fora.

E as aves, de amarelo e verde escuro,
Postadas nas ramagens ou num muro,
Vestidas da paleta do pintor,

Vão todas entoando uma canção
Com tanta alma, doçura e emoção,
Que fazem do trinar canção de amor.

António Barroso

 
 

Seara ondulante
António Barroso


Lança-se à terra a semente da vida,
Pede-se à chuva que alimente o grão,
Na alma, a esperança já vê, renascida,
A fé numa planta que traz mais pão.

Nasce a doce erva, de verde vestida,
Forma-se a espiga a pedir protecção
Ao sol que veste a nudez atrevida
De ouros luzentes do quente verão.

E a brisa, por vezes, transforma em mar
As copas do trigo ondulando ao ar
Esperando o parto que se avizinha.

E o corpo ávido do pão que já vem,
Agradece a Deus, longe, no além,
Farta dádiva que já se adivinha.

António Barroso

 
 

Renascer da vida
António Barroso


Acabou-se o estio, vem a invernia,
Os ramos vão ficando desfolhados
De sonhos, de ilusões, de fantasia,
Que irão cobrir o chão de tons dourados.

Mas do céu caiem chuvas de alegria,
São lágrimas de ninfas encantadas,
E em cada dia nasce um novo dia,
Em cada manhã nova madrugada.

E as musas dos poetas fazem roda,
Inventam nova dança, nova moda,
Fartas, cansadas de tão longa espera,

E as sementes, ocultas nos torrões,
Despertando dum sonho em convulsões,
Florescem nos vergéis da Primavera.

António Barroso

 
 

Varejando…
António Barroso


Com mãos que tremem dum frio agreste,
Os homens vão varejando a azeitona,
Batem ramos de oliveira campestre
E os frutos tombam em telas de lona.

Atrás, apanhando em mato silvestre
Olivas que aterram fora da zona,
Seguem mulheres com dedos de mestre,
Enchendo as canastas até à tona.

Já a caminho do lagar, bem perto,
Os carros de mulas seguem pejados
Calcando a estrada, caminho do povo,

E à hora do almoço, farnel aberto,
O pão com chouriço, dos cestos tirados,
Já lembram tibornas de azeite novo.

António Barroso

 
 

O meu avô
António Barroso


Dois livros, meu avô, somente tinha
No monte, muito perto da ribeira,
Lusíadas que lia p´la tardinha
E a Bíblia Sagrada à cabeceira.

E mal sabendo ler, nada o detinha
De me fazer sentar à sua beira
E dizer-me, de cor, muito certinha,
A estrofe que sabia de primeira.

E hoje, que tanto tempo é já passado,
Não lhe posso dizer muito obrigado
Por tudo o que me fez, pelo que sou

Porque, a muito custo, muito trabalho,
Aprendi a ser homem, e o que valho
Foi seguindo o querer do meu avô.

António Barroso

Livro de Visitas

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