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ESPÍRITO DE
EQUIPA
Eram dez, apenas dez. E; no entanto, eram demais. Na
Kirk Kirwang nunca eram admitidos todos os
estagiários. Havia sempre exclusões. Era uma questão
de princípio.
Todos eles queriam um lugar na Kirk Kirwang.
Ardentemente, desesperadamente. Porque a Kirk
Kirwang era a melhor empresa do mundo. Integrar os
seus quadros constituía não só uma garantia de
sucesso como uma honra. E, embora não fosse talhada
para se trabalhar toda a vida – poucos o aguentavam!
– constituia trampolim garantido para altos voos.
Portanto, quem é que não desejava possuir no CV uns
bons quatro ou cinco anos de Kirk Kirwang?...
A Kirk Kirwang vendia sabedoria. Presente em todo o
mundo civilizado (e incivilizado também, desde que
abonado por fundos beneméritos), com sede em Denver,
Colorado, USA, existia havia mais de cem anos. O
fundador descendera de uma família de emigrantes
chineses, uma das muitas importadas em hordas para a
construção do caminho de ferro. Fundara a Kirk
Kirwang em plena febre do petróleo, em cuja técnica
de extração se havia especializado. Depois, a pouco
e pouco, a empresa florescera e fora abarcando mais
e mais áreas de intervenção, até se tornar num
autêntico polvo cognitivo
A Kirk Kirwang era imbatível. Apresentava
invariavelmente as melhores propostas (embora
raramente as mais económicas) e obtinha os melhores
resultados. Note-se que a Kirk Kirwang era
extremamente seletiva nos projetos a que se
candidatava. Todavia, quando o fazia, trucidava os
competidores. Dispunha dos mais conceituados
especialistas nos mais diversos domínios – os
“kirkall’s” – e garantia aos clientes um excelso e
único denominador comum: revenue, profit, lucro!
Como consequência, poucos se atreviam a concorrer
com a Kirk Kirwang. E cada consultor da KK – sigla
da Kirk Kirwang - era uma imagem da sobrepujança da
empresa que representava.
Eram, pois, dez. Sete homens e três mulheres,
candidatos a Kirkall’s, jovens e ambiciosos. Para
ali estarem, cada um deles já tivera de ultrapassar
várias etapas. A primeira, uma rigorosa análise
curricular onde eram liminarmente recusados aqueles
cujas habilitações e classificações académicas não
fossem consideradas satisfatórias. A segunda, uma
entrevista onde eram aquilatadas a aparência, a
fluência da linguagem e a motivação, todos aspetos
fundamentais. A aparência, em particular, era um
fator decisivo na imagem de um consultor e a Kirk
Kirwang era absolutamente intransigente nesse
aspeto. Não se admitiam espécimes da raça humana
fora de determinados padrões. A etapa seguinte
consistira em estes psicotécnicos. Mas não quaisquer
testes psicotécnicos. Para se ser admitido na Kirk
Kirwang a exigência era grande e as provas eram tão
difíceis que delas ninguém saía otimista. E
finalmente, uma inspeção médica que incluía análises
ao sangue, para a qual se era convocado sem aviso
prévio.
Todavia, na ótica da Kirk Kirwang, estes trâmites
eram ainda insuficientes. Por isso, os candidatos
que ultrapassassem as etapas preliminares passavam a
estagiários e eram objeto de uma ação de formação
durante a qual seria avaliada a sua real capacidade
de absorção da filosofia da KK. E este era o teste
decisivo. Durante seis semanas, os dez estagiários
seriam submetidos a um rigoroso processo de
avaliação, no decorrer do qual eram aquilatados sob
um miríade de vertentes. O talento de cada um seria
quantificado mediante uma fórmula onde nenhum
parâmetro era descurado. Todas as aptidões,
competências e fatores intelectuais, comportamentais
e anímicos contribuiriam com o seu peso específico
para a classificação final. E nesta derradeira
avaliação, verdadeira corrida de fundo após os
sprints iniciais, muitos tombariam pelo caminho. As
classificações do estágio seriam ordenadas por ordem
decrescente e os candidatos que se situassem abaixo
da linha de água seriam excluídos. Só aos melhores
seria concedido o privilégio de integrar os quadros
da Kirk Kirwang.
Os dez estagiários encontravam-se na sede nacional
da KK, no décimo sétimo andar da Torre Amália, a
mais alta de Lisboa. A Kirk Kirwang não fazia as
coisas por menos. A sala de formação era uma divisão
de paredes cinzentas e grandes janelas de vidro
fumado, provida de todo o equipamento necessário. A
localização, o andar alto e a dimensão avantajada
das janelas permitiam uma soberba vista sobre a
cidade. No entanto, o tom dos vidros escurecia a
paisagem exterior fazendo-a adquirir um aspeto frio,
desconsolado, de permanente inverno, contra o qual a
obscura sala de formação parecia oferecer uma suave
e acolhedora proteção. Nas paredes, viam-se
serigrafias discretas e posters de bom gosto
exibindo o logótipo da Kirk Kirwand -.dois “K”
entrelaçados, parte de uma sólida cadeia sobre um
fundo estelar com a lua em quarto crescente.
O estágio começara na véspera. À primeira hora da
manhã, o responsável pelo Departamento de Formação
viera falar da cultura da Kirk Kirwang aos
candidatos. O Dr Ricardo Feio era um homem de
quarenta anos, relativamente baixo, magro e um pouco
calvo. Vestia um fato cinzento de bom corte, uma
gravata sóbria e exibia uma barba preta e uns óculos
de massa. Entrara na sala com desembaraço e durante
meia hora falara-lhes sem secura mas também sem
simpatia, espalhando pela sala um olhar
inexpressivo, num tom tão neutral como o teria feito
uma máquina. Somente no final da comunicação, se
deixara levar por um comedido arrebatamento:
- Estão aqui para aprender o espírito da Kirk
Kirwang – dissera enfaticamente – Não queremos
excluir ninguém. Mas somente quem tiver capacidade
para o abarcar nestas seis semanas integrará a nossa
equipa. Um por todos e todos por um, é o nosso lema.
Não muito original, confesso, mas que espelha uma
inquestionável mensagem de fraternidade – e chegado
a este ponto o Dr Ricardo Feio fizera uma pausa algo
teatral enquanto percorria a assistência com o
olhar.
- Na Kirk Kirwang somos todos irmãos!... – acabara
por desferir - Espírito de equipa, solidariedade,
confiança, eis o que é verdadeiramente
importante!... Ninguém, por si só, é indispensável.
Aliás, quem o for será dispensado. A KK não admite
protagonismos baratos.
Então o Dr Ricardo Feio despedira-se um tanto
bruscamente e desaparecera, deixando a audiência
entre o perplexo e o desconfiado. Poucos minutos
depois, entrara na sala uma senhora de idade
indefinida, impecavelmente arranjada, também ela
vestida de cinzento e com óculos de massa, que
distribuíra um questionário pelas dez pequenas mesas
onde se encontravam os dez estagiários.
- Têm quinze minutos para responder ao questionário
– dissera com uma voz gutural, demasiado grave para
uma mulher. E sentara-se na secretária em posição
frontal, com as costas muito direitas, rabiscando um
bloco com ar distraído.
Elsa era uma das estagiárias. Era uma criatura
inteligente, pacífica e equilibrada. Concorrera à
Kirk Kirwang para tentar a sua sorte e o facto de
ter ultrapassado as fases preliminares incutira-lhe
confiança. Não que fosse particularmente ambiciosa
mas sabia aceitar um desafio.
Começara a ler o questionário e as perguntas
pareceram-lhe assaz estranhas. Impossível responder
sem se atolar num mar de dúvidas. E sentira-se
ligeiramente contrafeita. Seria aquele questionário
decisivo?...
Olhara de soslaio para os outros estagiários e
verificara que observavam atentamente o papel. Se
tinham dúvidas, não o deixavam transparecer.
Estranho… Mas, seria esse o verdadeiro teste?... E
pegando na caneta, relera a primeira pergunta.
Todavia, voltara a hesitar. Então levantara os olhos
e percebera que, da secretária, a senhora dos óculos
de massa a olhava fixamente.
- Têm quinze minutos para responder ao questionário!
– repetira na sua voz velada e seca, para o geral da
sala. Todavia, Elsa percebera perfeitamente que a
advertência só a ela era dirigida.
Isto começa mal, pensara, consciente de se ter feito
notar pela negativa. E, com determinação,
concentrara-se na primeira questão, uma pergunta de
resposta múltipla:
“Qual a qualidade mais valorizada na KK?”
Com as seguintes respostas possíveis:
“A - Competência”
“B – Capacidade de liderança”
“C - Objetividade”
“D - Determinação”
Após alguns segundos de hesitação, Elsa decidira-se
pela resposta C. A partir daí fora respondendo às
perguntas quase sem pensar, uma a uma, seguindo uma
espécie de faro instintivo sem qualquer explicação
racional.
Exatamente quinze minutos depois de terem sido
entregues, os questionários foram recolhidos, e os
dez estagiários mandados embora. A formação
propriamente dita começaria no dia seguinte.
Somente durante a primeira pausa da manhã, Elsa teve
oportunidade de observar os nove colegas de estágio
– ou deveria dizer adversários? - com alguma
atenção. Depois de duas horas de formação sobre
Gestão de Projetos, uma matéria que dominava na
perfeição, sentia-se mais descontraída e otimista.
Nada do que ouvira ao monitor constituíra novidade.
Aliás, chegara até a responder em primeiro lugar e
com acerto a algumas questões colocadas à turma. Por
isso a sua disposição melhorara e quase já esquecera
a triste figura que acreditava ter feito no dia
anterior, a propósito do questionário.
A pequena antecâmara onde estavam as máquinas de
comidas e bebidas era contígua à sala de formação e
detinha o mesmo tipo de ambiente, cinzento e
protetor. Elsa serviu-se de um café e apoiou-se numa
das paredes enquanto o saboreava. De pé, os seus
colegas sorviam as bebidas em silêncio. O gelo entre
todos ainda não derretera.
A primeira pessoa que chamou a atenção de Elsa foi
uma rapariga alta e magra, muito branca e bonita, de
cabelo castanho, curto e ondulado. Trajava de preto.
Apesar do seu inegável encanto, parecia pouco segura
de si. Ao segurar no pequeno copo do café, a mão
tremia-lhe ligeiramente. Elsa lembrou-se da
entrevista a que fora submetida, na qual intuía ter
passado à tangente devido ao seu escasso 1,60 m de
altura. Claro que disfarçara a fraca figura usando
um fato escuro de calça e casaco e umas botas de
tacão bem alto que lhe davam uma silhueta
longilínea. Além disso, penteara-se e maquilhara-se
com cuidado, de forma a valorizar o rosto. O aspeto
exterior era importantíssimo. Elsa sabia-o. E sentiu
uma pontinha de inveja daquela rapariga com corpo de
top model. Ela não tinha necessidade de artifícios.
E Elsa teve consciência do incómodo na zona lombar
que os saltos das botas que tinha nos pés lhe
provocavam.
O olhar de Elsa vagueou pelos companheiros. Eram
todos jovens. Havia mais uma rapariga, morena,
vestida com elegância, mas com um ar apagado e
distante. Todos os outros eram homens. De uma
maneira geral eram bem parecidos e trajavam
informalmente, embora com discrição. Um dos rapazes
tinha feições achinesadas e ostentava um ar fechado,
superior. Um outro era muito bonito, de olhos azuis
e rosto moreno. Nos restantes, Elsa não descortinou
qualquer característica digna de realce. Aliás,
pensando bem, estarem ali era, por si só, uma
situação de exceção. A Kirk Kirwang não abria as
portas a qualquer pessoa.
Naturalmente intuitiva, Elsa era sensível ao
inusitado da situação. Estavam todos tensos e
tentavam proceder com a necessária cautela. Qualquer
passo em falso poderia ser fatal. Por isso,
mantinham-se expectantes, em guarda.
Poucos minutos depois o formador reapareceu. E a
pausa do café terminou sem que alguém tivesse dito
uma palavra. Quando Elsa reentrou na sala de
formação, verificou que um dos colegas permanecera
ali durante a pausa, entretido a estudar a
documentação de suporte. Havia um marrão no grupo.
Apesar das circunstâncias peculiares, o clima de
gelo não durou muito tempo. Decorrida uma semana, já
todos se conheciam. Pelo menos, sabiam o nome uns
dos outros. A formação prosseguia num ritmo exigente
versando os mais variados assuntos e o horário
intensivo não deixava margem para folgas. Às vezes
não havia tempo para fazer tudo o que estava
estipulado e era necessário levar trabalho para
casa. Trabalho esse que, no dia seguinte, era alvo
de uma apresentação por parte de um dos estagiários,
escolhido ao acaso pelo formador. Por outro lado, na
aprendizagem, era dado um grande enfoque ao espírito
de equipa. Em todos as matérias havia que consolidar
os conhecimentos adquiridos produzindo delivrables
coletivos. Deste modo, todos os dias eram propostos
exercícios para cuja resolução se constituíam grupos
de trabalho. No entanto, para além da mera aquisição
de conhecimentos, o verdadeiro objetivo era avalizar
a capacidade de entrosamento de cada um.
Os formadores, na sua esmagadora maioria jovens do
sexo masculino, de voz bem colocada, incisivos e
trajando de cinzento, não se cansavam de repetir:
- Os que aprendem mais depressa devem ajudar os
outros!...
- Lembrem-se de que, no futuro, vão ter de trabalhar
uns com os outros!...
- O individualismo é totalmente contrário ao
espírito da KK!...
Conscientes desta mensagem, todos os estagiários
mostravam uma total disponibilidade para cooperarem
mutuamente. Havia que saber ensinar e que saber
aprender. O que nem sempre era fácil, dado todos
estarem cientes de que aquele clima amigável mais
não era que uma fachada para a mais terrível das
competições. Todos eles queriam um lugar na KK. Mas
a KK não abraçaria todos. Somente os melhores.
Como é evidente, cada um reagia à pressão à sua
maneira. Havia quem, embora colaborando com os
outros, não deixasse de se evidenciar. Havia também
quem, por prudência, se mantivesse no maior recato.
E havia o meio-termo.
Elsa adaptara-se bem ao ritmo exigido. Ganhara até
alguma vivacidade. Às vezes não resistia a lançar a
meia voz um ou outro comentário mais incisivo, a fim
de deixar entrever o seu real valor. Todavia, estava
longe de ser a mais aguerrida. Dois dos rapazes,
Tomás e André, destacavam-se claramente. Era óbvia
uma tática competição entre ambos, que só não
enfatizavam mais devido à necessidade de demonstrar
o famigerado espírito de grupo. Claro que os seus
ditos perspicazes vinham sempre a propósito e as
suas opiniões eram expressas com subtileza mas,
mesmo assim, era notória a sua craveira superior.
Nos intervalos, faziam o possível por monopolizar a
atenção do formador. Por outro lado, quaisquer que
fossem os seus parceiros de momento, estavam sempre
à procura de alguém que precisasse de ajuda. Às
vezes colocavam uma ou outra dúvida e até se
permitiam ser esclarecidos. Então, aprendiam
rapidamente e agradeciam. Era os espécimes
perfeitos.
Existia também quem evidenciasse alguma lentidão e
levasse sempre trabalho para casa. O rapaz de
feições achinesadas, Zhu Lei, era um deles. Calado,
concentrado, não era comunicativo e expunha as suas
ideias com um relativo embaraço. Não obstante, Elsa
não se deixava enganar. Ali não havia ninguém
estúpido. Depois de todos os testes a que haviam
sido submetidos, aqueles que ali chegavam eram já o
creme de la creme. Seria um erro subestimar os
adversários - um erro crasso e primário. E até o
chinês, com a sua fleuma, podia ser um adversário de
respeito. Ademais, talvez fosse aparentado ao
fundador…
Malgrado o clima de extrema competição, alguns
membros do grupo esforçavam-se por que fossem
criados laços entre eles. Afinal, iriam ser colegas
na KK. Pelo menos alguns de entre eles. Havia sempre
quem propusesse um almoço coletivo num dos
restaurantes do Centro Comercial Galápagos, que se
situava nos andares mais baixos da Torre Amália.
Aliás, o escasso tempo de que dispunham para almoçar
não lhes permitiria incursões mais longínquas.
Essas refeições proporcionavam uma ligeira
descontração e os que nelas participavam ficavam a
conhecer-se um pouco melhor. A estagiária alta e
branca chamava-se Laura e, embora não fosse
expansiva, às vezes falava com Elsa. Em
contrapartida, a terceira rapariga, Filomena, era
pouco dada a convívio e isolava-se sistematicamente.
O rapaz bonito, Alfredo, era simpatiquíssimo Às
vezes almoçava com Elsa e, sem ultrapassar a
barreira da boa educação, dava indícios de se
interessar por ela. Pelo menos tentava inteirar-se
da sua vida privada. Elsa sentia-se lisonjeada.
Nunca na vida fora alvo das atenções de um homem tão
bonito. No entanto, um flirt com um colega de
estágio estava fora de questão. Pelo menos enquanto
não soubessem quem, efetivamente, ingressaria na
Kirk Kirwang. Porque na KK o romance era
terminantemente proibido. Espírito de equipa sim,
envolvimento não!...
O estágio ia decorrendo num crescendo de exigência
quando, certa manhã, um dos estagiários – o marrão -
não apareceu. Ninguém pareceu ligar muita
importância ao ocorrido. Provavelmente o faltoso
tivera algum assunto inadiável para tratar. No
entanto, à tarde, continuava sem dar sinal de vida,
o que começou a causar uma certa estranheza. Teria
sido excluído ainda antes do fim do estágio?...
Durante a pausa a meio da tarde, Elsa, tomada de um
súbito assomo de coragem, acercou-se do formador que
era razoavelmente acessível e inquiriu:
- Sabe o que é que se passa com o nosso colega que
não apareceu?
- Sei – respondeu o homem de cinzento, com um
sorriso forçado – Ele desistiu. Já não vem mais.
- Oh! Mas porquê?... – perguntou Elsa com
espontaneidade. Porém, de imediato, percebeu a
tolice da pergunta. Decerto fora excluído. E
sentiu-se invadida por uma onda de contentamento.
Exclusão ou desistência o certo é que era menos um
adversário. Porém, logo a seguir, teve um rebate de
consciência. Era uma pessoa bem formada, incapaz de
se alegrar com a infelicidade alheia!... E sentiu-se
vagamente envergonhada pelos próprios pensamentos.
No entanto, foi com um redobrado entusiasmo que,
naquele resto de tarde, se entregou às tarefas que
lhe haviam sido destinadas.
Uma semana depois, era já patente o cansaço nos
rostos dos estagiários. Até quando aguentariam
aquele ritmo? No entanto, ninguém dava parte de
fraco e, mesmo nos mútuos desabafos, existia um
certo retraimento. As condições em que se
encontravam na KK não eram propícias à abertura de
espírito. E, não obstante, era isso que lhes era
exigido.
Apesar de resistente por natureza, Elsa sentia-se
extenuada. Os fins de semana mal davam para
recuperar do cansaço acumulado durante a semana. No
entanto, quando se olhava ao espelho, parecia-lhe
que disfarçava bem a fadiga. O pior era a dor nas
costas devida aos saltos altos. Porém, nada podia
fazer contra isso a não ser aplicar um emplastro na
zona dorida.
Em Laura, o abatimento era particularmente visível.
Estava mais pálida do que nunca e, comparado com a
cor da tez, o seu cabelo parecia demasiado castanho,
artificial, como se não lhe pertencesse.
Um dia, à hora do almoço, quando se encontravam as
duas sentadas na mesa de um pequeno restaurante à
espera da comida, Laura deixou escapar um suspiro.
Admirada, Elsa encarou a colega:
- Então?... Tudo bem?... – inquiriu amavelmente.
- Tudo bem?!... Não brinque comigo!... Elsa,
sinto-me estourada. Não sei quanto tempo mais vou
aguentar este ritmo! E, no entanto, preciso tanto
deste emprego…
- Disparate! Claro que vai aguentar. – Elsa
sentia-se na obrigação de dar alento à colega.
Afinal de contas, as mulheres estavam em minoria e
tinham de marcar presença.
- Oh, não sei não!... – E Laura fixou em Elsa uns
olhos cansados - Sabe que o nosso colega Artur foi
corrido porque tinha mentido acerca da idade?...
- O quê?...
- É o que consta. Um dos rapazes, o Paulo,
encontrou-o um dia destes. Artur tinha escrito no CV
que contava 25 anos de idade quando na realidade
tinha 27. Ele alegou que foi um simples engano,
aliás facilmente corrigível em face do BI, mas o Dr
Ricardo Feio disse que não admitia lapsos. Além
disso, a KK só admite…
- Sim, eu sei – atalhou Elsa – a KK só admite
pessoal até aos 25 anos, quando ainda não tem vícios
e pode ser facilmente moldável à filosofia da casa –
e Elsa tentou sorrir – onde é que eu já ouvi
isto?!...
- Oh, não brinque!... Acho perfeitamente absurdo o
Artur ter sido excluído por um motivo destes!...
- Ele arriscou…
- Pois foi. Arriscou e perdeu…
Elsa atentou na face da colega. Estava visivelmente
nervosa. Parecia preocupada em demasia com o caso de
Artur. Afinal, não havia motivo para pensar que o
mesmo lhe viesse a suceder. A não ser que… E Elsa
encarou Laura com firmeza:
- Laura, você disse toda a verdade no CV?...
- Sim – respondeu Laura, com pouca convicção. Mas
Elsa não era parva e percebeu que a outra escondia
qualquer coisa.
- De certeza?...
- Sim. No CV não menti. E, no entanto…
Elsa intuiu que a outra ia finalmente confessar-se.
Já não precisava de dizer mais nada:
- Sabe – acabou por dizer Laura – este cabelo não é
meu. Pintei-o antes da primeira entrevista
Ao escutar estas palavras, Elsa riu abertamente.
- Mas porquê, Laura, porquê?...
- Oh, é que eu sou loura, muito loura. E tive receio
de que me recusassem liminarmente por esse facto.
Então, num impulso, pintei o cabelo. E agora não sei
o que hei de fazer. Não me apetece ter de continuar
a pintar o cabelo todas as semanas. Todavia, se eles
descobrem que sou loura…
Elsa estava perplexa: Perdera a vontade de rir.
- Laura, colorir o cabelo não é pregar nenhuma
mentira. No entanto, pelo sim pelo não, o melhor é
continuar a pintá-lo até ao fim do estágio.
- Acha?... Não sei… – e Laura levou o copo à boca e
engoliu um pouco de água – sabe, sinto-me como se os
estivesse a enganar. Preciso de me acalmar e de ver
como vou resolver o problema…
Poucos dias depois teve início uma formação
específica em informática. Quando os estagiários
entraram na sala de formação, logo de manhã, havia
um laptop em cima de cada uma das pequenas mesas.
- Cada um de vós vai entrar no sistema digitando a
respetiva password – orientou o formador.
As passwords haviam sido fornecidas alguns dias
antes, a cada um, dentro de um envelope fechado. Foi
com prazer que Elsa retirou o envelope da sua pasta
de executiva e digitou a sua password no laptop que
tinha à frente. Gostava de informática e sempre era
uma maneira de descansar das matérias pesadas que
lhes estavam a ser lecionadas havia três semanas.
- Já toda a gente entrou no sistema?... – inquiriu o
formador, ao fim de um ou dois minutos.
- Sim – ouviu-se, num coro mais ou menos assíncrono.
Porém, do fundo da sala, saiu uma voz discordante:
- Peço desculpa mas estou com um pequeno problema…
Elsa olhou para trás e viu um dos rapazes, com um ar
ligeiramente atrapalhado.
- Não consegue entrar? – perguntou o formador,
enquanto se dirigia, solícito, por entre as mesas,
para o aluno em dificuldades. – Já introduziu a
password?...
O tom de voz do rapaz baixou um pouco:
- É que… não me lembro da password. Pensei que tinha
guardado o envelope na carteira mas agora não o
acho…
A expressão do formador endureceu:
- Perdeu a password?...
- Bem… - hesitou o rapaz.
- Perdeu a password?... – repetiu o formador
enfaticamente. Então, o rosto do rapaz adquiriu uma
expressão resoluta:
– Sim, perdi. Peço desculpa mas perdi.
O formador deu meia volta e retrocedeu a passo lento
para o seu lugar. Uma vez aí, dirigiu-se ao geral da
turma:
- Caros candidatos – proferiu num tom glacial – eis
aqui um exemplo daquilo que nunca, mas NUNCA, pode
acontecer. Na Kirk Kirwang as passwords são
sagradas. Dão acesso a informação que pode ir de
reservada, passando por confidencial, até muito
secreta. Por isso têm de ser memorizadas, os
envelopes onde são transmitidas destruídos e nunca,
sob pretexto algum, escritas ou reveladas seja a
quem for. Muito menos perdidas!...
A sala em peso escutava em silêncio. Pelo canto do
olho, Elsa vislumbrou o rapaz que perdera a password
e percebeu que empalidecera.
- Acompanhe-me por favor – disse o formador
dirigindo-se ao faltoso. Este levantou-se e os dois
saíram da sala.
- Coitado! – exclamou Tomás, um dos crânios da
turma.
Todavia, quando Elsa olhou ao redor, não se
apercebeu de nenhuma expressão de verdadeira
contrição. O que viu foi calma, alívio, quase
satisfação. Era mais um competidor que ficava fora
de combate.
A tensão continuava num crescendo. Era agora tão
palpável que dir-se-ia poder ser cortada à faca.
Sujeitos a uma permanente avaliação em que o
espírito de equipa era um fator decisivo, todos
queriam, simultaneamente, mostrar ser melhores que
os outros. Agora, dado já haver uma certa confiança
com os formadores, alguns estagiários tentavam
dar-lhes manteiga. De uma forma subtil, é certo,
mas, mesmo assim, indisfarçável. Nas pausas da
formação, ficavam muitas vezes dentro da sala a
tirar pseudo dúvidas com a clara intenção de se auto
promoverem.
Por sua vez, Zhu Lei colara-se a Tomás. O que este
dizia aquele secundava. E, nos intervalos, seguia-o
como um cordeirinho. Quanto a Tomás, parecia aceitar
a companhia do outro sem contrariedade. Zhu Lei era
uma pessoa apagada, sem hipótese de ofuscar a sua
estrela.
Tinham decorrido quatro semanas de formação quando o
Dr Ricardo Feio voltou a usar da palavra junto à
turma de estagiários. Com o irrepreensível fato
cinzento e os inevitáveis óculos de massa,
dirigiu-se ao auditório no mesmo tom inexpressivo do
discurso inicial. E, desta vez, a sua mensagem foi
ainda mais breve:
- O vosso período de formação está a chegar à fase
decisiva. Devo dizer-vos que estou muito satisfeito
com o feed back que tenho tido a vosso respeito.
Tirando os dois casos lamentáveis, já erradicados do
nosso seio – e o Dr Ricardo Feio fez uma careta e
fungou – todos vós tendes espírito de equipa e
autonomia nas doses certas. Até agora têm revelado
todas as qualidades de trabalho necessárias para
ingressarem na Kirk Kirwang e se tornarem Kirkall –
e, dito isto, fez uma pausa enquanto percorria a
assistência com o olhar.
- Porém – continuou - falta ainda esclarecer uma
questão importantíssima! -.E fez uma nova pausa –
Falta saber se são capazes de manter uma verdadeira
postura de consultor!...
Ao escutar estas palavras, Elsa sentiu-se arrefecer.
Que quereria ele dizer ao certo? Abanou a cabeça e
pensou: agora é que começa a verdadeira guerra. Até
aqui estivemos só a limpar e a lubrificar as
armas...
- Alguma dúvida? – perguntou o Dr Ricardo Feio, com
um olhar imperturbável por detrás dos óculos de
massa.
Como resposta, ninguém esboçou o mais pequeno gesto.
Os formadores dedicaram o resto do dia a explicar o
que se entendia por “postura de consultor”. A
maneira de andar, a maneira de vestir, a maneira de
dialogar e a linguagem propriamente dita, tudo tinha
de ser moldado de acordo com determinados padrões.
E, por incrível que parecesse, estas facetas eram
tão ou mais importantes que os conhecimentos e
aptidões propriamente ditos. Todavia, o perfil ideal
não era explicitado com muita objetividade. Havia
que se ser natural, diziam. Mas não demasiado.
Discreto diziam, mas não demasiado. Simpático
diziam, mas não demasiado. Acima de tudo, tinha de
se pairar acima do comum dos mortais. E, no entanto,
era preciso ser genuíno. Quem fingia, não o
conseguiria fazer indefinidamente.
Elsa tentava captar a mensagem. Mas havia sempre
algo que lhe escapava. No entanto, perdera os
complexos. Sabia que a sua inteligência nada ficava
a dever à dos outros. E, malgrado o cansaço, sentia
despertar no cérebro uma inusitada clarividência,
que, até então, estivera insuspeitamente escondida.
Sim, era capaz de aprender qualquer coisa! Até a
confusa e escorregadia postura de consultor!...
Poucos dias depois, Laura apareceu com o cabelo
pintado de louro. Ficava lindíssima. Sim, aquela era
a sua cor de cabelo. E não houve ninguém – homem ou
mulher – que não tivesse sustido a respiração quando
ela, logo de manhã, deu entrada na pequena
antecâmara onde, todos os dias, os estagiários
aguardavam a chegada do formador.
Todavia Elsa, antes de entrarem na sala,
aproximou-se dela e segredou-lhe:
- Que se passa?... Foi picada por alguma mosca?...
A outra abanou a cabeça e respondeu baixinho:
- Já não aguentava mais. Tinha de pintar as raízes
do cabelo de três em três dias!... Uma estafa – e
encolheu os ombros -. Seja o que Deus quiser!...
- Assim vai ser, realmente… - respondeu Elsa,
estranhamente apreensiva.
No entanto, o dia decorreu sem acontecimentos de
realce. Elsa começava a crer que a atitude de Laura
não teria consequências quando, ao fim da tarde, um
formador que havia uma semana não viam, iniciou a
sua preleção de uma maneira insólita:
- Meus caros, é importante que saibam que nós na
Kirk Kirwang não apreciamos mudanças de visual
repentinas.
Dito isto permaneceu de pé, calado, com as mãos
atrás das costas, com o sobrolho carregado. Os seus
olhos não descolavam da estagiária loura. Meu Deus,
pensou Elsa, a esta hora já toda a gente na KK deve
saber que Laura pintava o cabelo! Ela vai ser
excluída!... E não resistiu a olhar para a colega
que tão corajosamente decidira acabar com uma
mentira. Entretanto, o formador permanecia imóvel.
Parecia uma estátua viva. A sala estava no mais
absoluto silêncio. Havia suspense no ar. A qualquer
momento ia acontecer qualquer coisa.
E então, de repente, aconteceu. Laura ergueu-se
devagar, vestiu o casaco, agarrou na pasta e
encaminhou-se para a saída. Quando passou ao pé de
Elsa os olhos das duas encontraram-se. Foi uma
despedida silenciosa. Depois Laura alcançou a porta
e saíu, sem dizer uma palavra. Sem sequer olhar para
trás.
Decorreram mais alguns segundos e só então o
formador voltou a usar da palavra:
- Como eu ia dizendo, gostamos de soluções de
continuidade. Nada de gestos bruscos, clivagens ou
disrupções!...
E, pela primeira vez desde o início do estágio, Elsa
teve dificuldade em prestar atenção ao que ouvia.
Sentia o coração acelerado e uma vaga tristeza que
só a muito custo conseguiu controlar. E, durante uns
breves segundos, ser admitida na Kirk Kirwang deixou
de lhe parecer assim tão atrativo.
Estavam reduzidos a sete. Todavia, ninguém estava
seguro. E o conteúdo da formação era cada vez mais
abstruso e difícil de interpretar. Sobretudo, de
aplicar.
Eram-lhes distribuídos questionários sobre
questionários, a que tinham de responder em tempos
absurdamente curtos. Decerto, por detrás, a
verdadeira intenção seria não permitir que pensassem
nas respostas.
Por outro lado, a tensão continuava a crescer. O
cansaço era patente em todos os rostos. A sala de
formação já não parecia acolhedora. Antes se
assemelhava a uma imensa cela de tortura de um algoz
alienígena, que falasse uma língua desconhecida e
que, por consequência, não houvesse qualquer
hipótese de ser entendido. Que pretendia ao certo a
KK avaliar? Até onde ia a resistência física e
psicológica de cada um?...
Elsa carburava a poder de cafés. As dores nas costas
devidas aos saltos altos incomodavam-na cada vez
mais. Se entrasse na KK teria de arranjar outra
solução para a sua fraca figura!... Todavia, nem lhe
passava pela cabeça desistir. Pelo contrário,
habitualmente pacífica, descobrira dentro de si um
fogo interior que lhe era desconhecido. As
dificuldades e a prolongada tensão a que se
encontrava submetida haviam-na dotado de uma vontade
férrea.
Certo dia, a meio da semana, logo a seguir ao
almoço, encontrava-se na antecâmara dos comes e
bebes quando reparou que o rapaz achinesado, Zhu
Lei, levava um pequeno copo de café na mão, que
obsequiosamente foi oferecer a Tomás. Este já se
encontrava dentro da sala de formação e aceitou o
precioso líquido com naturalidade. Elsa sorriu.
Tomás era mesmo assim. Considerava-se tão bom que
aceitava todas as mordomias como se lhe fossem
devidas.
A formação começou pouco depois e, passados uns dez
minutos, o formador mandou os estagiários
constituírem três grupos de trabalho. Ajeitaram-se
as mesas, de acordo com os elementos de cada grupo,
e Elsa formou par com Tomás.
Começaram a trabalhar de acordo com as orientações
recebidas. Todavia, Elsa começou a estranhar o
companheiro. Ao contrário do habitual, Tomás parecia
apático. Os olhos fechavam-se-lhe contra vontade.
Parecia esgotado.
- Que tem você?... Sente-se bem?... – acabou Elsa
por lhe perguntar.
- Não sei… Sinto a cabeço pesada. Parece que vou
desmaiar… – respondeu Tomás com voz sumida. E, sem
qualquer aviso prévio, pousou lentamente a cabeça em
cima da mesa e não mais se mexeu.
- Tomás, acorde!... – E Elsa sacudiu-o, primeiro
suavemente, depois com alguma brusquidão. Porém,
tudo foi inútil. Tomás adormecera profundamente.
Elsa olhou ao redor apreensiva, mas já toda a gente
tinha percebido o que acontecera.
- Que se passa aí? – perguntou o formador. E
aproximou-se de Elsa e de Tomás que dormia a sono
solto com a cabeça em cima da mesa.
- O Tomás adormeceu – respondeu Elsa, sentindo-se
uma idiota chapada.
Ouviram-se risinhos. O formador, porém, falou com
cara de poucos amigos.
- Ele está a dormir?!... Que disparate é este?...
- Está sim. E não consigo acordá-lo – e, a título de
exemplo, Elsa voltou a abanar Tomás que não tugiu
nem mugiu.
O formador tomou o pulso a Tomás e encostou o ouvido
junto da cara deste.
- De facto, está ferrado no sono!... – disse. E, não
se dando por achado, integrou Elsa noutro grupo, do
qual fazia parte Zhu Lei e Alfredo, e prosseguiu a
formação como se o estagiário adormecido não
estivesse presente.
Elsa fez menção de se concentrar no problema
proposto e percebeu que os seus novos companheiros
de grupo tentavam fazer o mesmo. Mas Alfredo estava
claramente perturbado. Quando a Zhu Lei, permanecia
enigmático como sempre. Todavia, a certa altura,
Elsa julgou notar nos olhos do rapaz achinesado um
brilho inusitado. E só então se lembrou do café que
este fora oferecer ao estagiário mais brilhante da
turma.
Agora eram apenas seis. As sucessivas baixas tinham
agravado a perceção, no íntimo de cada um, de que a
competição estava mais feroz do que nunca.
Insensivelmente, a formação dificultava-se. Dada a
sua incapacidade de fixar tudo o que lhes era
ministrado, Elsa tinha momentos de desânimo.
Todavia, eram cada vez mais raros. A força interior
que despertara dentro dela impedia-a de desistir.
Sentia-se noutro mundo, mergulhada numa espécie de
torpor com vida própria, que a guiava e conduzia
rumo a um objetivo muito preciso, que ainda não
entrevira.
Amiúde o cansaço vencia-a. Todavia, pouco depois
renascia das cinzas, como se lhe fosse impossível
fugir a um equilíbrio pré-programado que o seu
intelecto orquestrava independentemente da sua
vontade.
Fazia agora grupo permanente com Zhu Lei e Alfredo.
Mas, enquanto o chinês a intimidava, o galanteador
enfastiava-a. Elsa tinha razões para crer que os
seus momentos de angústia eram compartilhados pelos
restantes estagiários. No entanto, tal como ela,
tudo faziam para não o deixar transparecer. Às vezes
pensava que os seus receios eram infundados.
Provavelmente todos os que haviam resistido até ali
estavam apurados. Decerto, o fundador da Kirk
Kirwang não fora tão elitista quando procedera à
contratação dos “macacos” para treparem aos derricks!...
Haviam começado dez. Agora eram apenas seis. No
entanto, Elsa tinha a íntima convicção de que ainda
havia um estagiário a mais. Quem seria a próxima
vítima da seleção da KK?...
Mas as coisas precipitaram-se de forma trágica e
imprevisível. Dois dias depois, Elsa dirigiu-se para
a Torre Amália a uma hora matutina, anterior à de
maior afluência de tráfego, a fim de se juntar com
os seus companheiros de grupo de forma a finalizarem
um trabalho que teriam de entregar ao formador. Cada
um ficara com uma determinada incumbência e era
necessário consolidar as três componentes antes do
início da formação.
Quando Elsa entrou na sala, apenas Zhu Lei estava
lá. E sentiu-se subitamente contrariada.
- O Alfredo?... – perguntou.
Zhu Lei encolheu os ombros:
- Não sei. Ainda não chegou.
- Estranho… - murmurou Elsa.
- Vamos ao trabalho?... – instou-a Zhu Lei – já não
temos muito tempo…
- Que remédio… - desabafou Elsa, a quem Zhu Lei,
desde o episódio do súbito adormecimento de Tomás,
provocava um certo mal estar.
Sentaram-se e começaram a trabalhar. Elsa estava com
dificuldade em concentrar-se. Porém, fez das tripas
coração a fim de não dar parte de fraca diante de
Zhu Lei. Havia algo de sinistro naquele rapaz de
olhinhos oblíquos e boca trocista, que nunca
proferia uma palavra em tom mais alto que outra.
Por outro lado, que teria acontecido a Alfredo?...
Devia haver uma razão forte para ter faltado ao
combinado. E por que razão o chinês não manifestava
qualquer apreensão com o ocorrido?... Não parecia
minimamente preocupado com o facto do colega ter
faltado à palavra.
Elsa tentava afastar este e outros pensamentos da
sua mente atribulada quando entrou na sala a senhora
de fato cinzento e óculos de massa que costumava
tratar dos questionários:
- Dra Elsa Borges?...
- Sou eu – respondeu Elsa, sem perceber.
- Tem uma chamada.
Admirada, Elsa seguiu a senhora até ao hall de
entrada da KK, onde uma secretária lhe estendeu um
telefone:
- Está lá?...
- Elsa, é o Alfredo. Não tinha o seu número de
telemóvel de forma que tive de telefonar para aí e
pedir que a chamassem… - a voz do rapaz denotava uma
inequívoca perturbação.
- Alfredo, passa-se alguma coisa?...
- O meu pai morreu esta noite.
- O quê?!
- Sim. Foi de repente.
- Lamento muito, Alfredo – respondeu a rapariga sem
saber mais o que dizer – Lamento muitíssimo. Posso
fazer alguma coisa?...
- Por favor, avise a KK de que hoje e amanhã não
poderei estar presente no estágio.
- Com certeza.
Desligaram e Elsa, contrafeita, encaminhou-se para a
sala de formação. Entretanto já haviam chegado os
restantes elementos e a rapariga tratou de lhes
comunicar a infeliz ocorrência. Todavia, foi incapaz
de descortinar a mínima reação nos rostos dos
companheiros. Pareciam autómatos insensíveis.
- E agora? – acabou por perguntar André, que
assumira o papel de líder destacado da turma desde a
saída de Tomás.
- Penso que devemos mandar uma coroa de flores em
nosso nome – respondeu Elsa.
- Oh, não me estava a referir a isso. Referia-me ao
Alfredo…
Mas não acabou a frase pois o formador acabara de
entrar na sala.
- Bons dias! – proferiu com energia, saudando a
turma, enquanto esperava que se sentassem – Quem vai
ser o primeiro a apresentar o trabalho?... – E os
seus olhos percorreram os cinco estagiários – Elsa!
Faça favor!...
Elsa levantou-se e balbuciou:
- Lamento informar que o meu grupo não pôde concluir
o trabalho proposto.
O formador franziu o cenho:
- E porquê?... Pode saber-se?...
Antes de responder, Elsa respirou fundo a fim de
colocar a voz sem tremuras:
- O pai do nosso colega Alfredo faleceu e ele não
fez a parte que lhe competia. Aliás, hoje e amanhã
ele não poderá comparecer à formação.
- Oh, coitado!.., Que aborrecimento!... – o formador
parecia sinceramente contrito. Ter-se-ia
humanizado?...
- Pois é! Pobre rapaz!... – rematou Elsa, sem saber
se se devia sentar ou continuar de pé.
- Que aborrecimento! Que aborrecimento! – repetiu o
formador, como um disco riscado.
Elsa olhou o homem com estranheza. Por acaso?... Mas
não, seria demasiado desumano…
- Já sei! – proferiu o homem, como se tivesse sido
atingido por uma ideia luminosa – O Alfredo pode
completar o trabalho durante o dia e enviá-lo por
fax!... Vou pedir para o contactarem.
Abismada, Elsa encarou o homem.
- Não creio que seja possível… – balbuciou –
Vejamos… O pai dele faleceu esta noite!...
O formador encolheu os ombros.
- Se ele não entregar o trabalho hoje, serei forçado
a excluí-lo…
Elsa fitou o formador como teria olhado para um
alienígena, mas este sustentou-lhe o olhar sem
pestanejar.
- Faça como quiser! – acabou por exclamar Elsa. E
deixou-se cair na cadeira, sem energia.
Nenhum dos outros estagiários pronunciou uma só
palavra. E Alfredo foi excluído.
Apesar da incontornável satisfação por se
encontrarem prestes a cortar a meta, o episódio da
eliminação de Alfredo não deixou de se repercutir
negativamente no rendimento da turma de estagiários,
agora reduzida a cinco unidades. Somente André, o
sabichão, ainda patenteava alguma vivacidade.
Faltava apenas uma semana de formação e o
esgotamento era generalizado. A tal ponto que um dos
formadores lhes chamou a atenção:
- Que se passa?... O vosso rendimento está a
descer!... Na Kirk Kirwang queremos pessoas de
fibra, energéticas e resistentes. Vamos agora entrar
na reta final. Vai-vos ser pedido um último trabalho
que consolide os conhecimentos adquiridos. Se
continuarem assim…
Se continuarmos assim, pensou Elsa, adeus Kirk
Kirwang, adeus curriculum, adeus futuro brilhante. E
sentiu uma grande revolta crescer dentro de si. Ela
já havia provado ser uma resistente, que diabo!
Havia de conseguir juntar os cacos de si mesma e
cortar a meta de corpo inteiro!...
Durante a pausa que se seguiu dobrou a dose de café
e jurou a si própria não se deixar ir abaixo. Olhou
ao redor e a sua boca abriu-se num sorriso de
sarcasmo. A hostilidade pairava no ar. Espírito de
equipa?!... Eles odiavam-se! Nem sempre fora assim
mas, ao fim de cinco semanas de uma tensão
insuportável, qualquer deles pisaria com agrado o
cadáver do colega do lado.
Este pensamento fez Elsa estremecer. Sempre se
conhecera branda e serena. Como era possível que
tais cogitações lhe perpassassem o cérebro, dantes
plácido e tranquilo?...
Já não havia refeições coletivas. À hora do almoço e
ao fim da tarde cada um seguia o seu caminho. E os
diálogos limitavam-se ao estritamente necessário
para o cumprimento das tarefas prescritas.
Faltavam quatro dias para o término da formação
quando algo de insólito aconteceu. Elsa,
cansadíssima, sentada num dos cubículos da casa de
banho das senhoras, teve um momento de descontração
e adormeceu. Acordou-a um diálogo entre duas
mulheres que, provavelmente, junto ao espelho,
retocavam a maquilhagem. Não dando conta da presença
de Elsa, falaram sem constrangimentos.
- Estes estão quase a dar as últimas! Coitados!...
Às vezes até tenho pena… – dizia uma delas.
- Oh, não tenhas!... – respondeu a outra, em cuja
voz Elsa julgou reconhecer a mulher dos
questionários – lembra-te de que todos passam pelo
mesmo… - e deu uma gargalhada - És uma
sentimental!...
- Talvez seja… Porém, tenho um dó particular destes!
Se soubessem que só há três vagas…
- Deixa-te disso. A Kirk Kirwang é assim mesmo –
rematou a voz familiar.
- Já se sabe quem fica?
- Sim. Os três rapazes.
- Coitadas das moças! – rematou a sentimental.
Elsa manteve-se sem fazer o mínimo ruído. Quase nem
respirava, para não dar a conhecer a sua presença. E
só abandonou o cubículo depois de se ter certificado
de que estava completamente só.
Elsa era uma pessoa bem formada, incapaz de um gesto
indigno. No entanto, uma ideia pouco ortodoxa
fervilhava no seu espírito.
Nessa noite, Elsa desceu à garagem da Torre Amália,
onde parqueava o carro. Sabia que a outra rapariga,
Filomena, com quem, para além dos trabalhos de
grupo, não trocara mais de uma dúzia de palavras,
também deixava ali a viatura. Elsa já a vira por ali
várias vezes e reconhecia-lhe o carro. Olhou ao
redor e esperou.
Aguardava havia poucos minutos, quando Filomena
entrou na garagem e se dirigiu para o seu carro. Já
tinha a chave na mão e ia enfiá-la na fechadura
quando Elsa lhe saiu ao caminho.
- Espere! – disse Elsa.
Filomena efetuou um instintivo movimento de recuo.
- Sim?... Que se passa?... – A rapariga não podia
estar mais surpresa.
- Preciso de falar consigo – disse Elsa,
esforçando-se por parecer simpática.
A outra hesitou:
- É que estou com pressa e…
Elsa impacientou-se:
- É importante para si entrar na Kirk Kirwang?...
- Claro!... – e a expressão de Filomena
desanuviou-se um pouco.
- Então acho que é do seu interesse ouvir o que
tenho para lhe dizer…
- Seja – respondeu Filomena, vencida. E abriu as
portas do carro – Entre, se faz favor.
Entraram e acomodaram-se. Elsa manteve-se calada
durante uns segundos. Sentia-se muito cansada e não
lhe apetecia falar mais que o estritamente
necessário.
- Você deve estar admirada por eu querer falar
consigo… - começou por dizer.
- Com efeito, estou.
- Não esteja! – E o rosto de Elsa adquiriu uma certa
vivacidade – o que eu tenho para lhe dizer é de
vital importância para as duas.
A voz traía-lhe a ansiedade de forma que respirou
fundo. Filomena continuou calada.
- O que se passa é o seguinte. Eu soube, de fonte
segura, que a Kirk Kirwang só tem três vagas. E
vamos ser nós as excluídas.
- Mas… Como é que você soube?...
- Não interessa. Mas sei. Acredite que sei.
Elsa fez uma pausa, e só então Filomena reagiu:
- Acredito em si. Somos mulheres. Hoje estamos
livres de compromissos e temos uma disponibilidade
total, mas amanhã podemos engravidar e adeus entrega
total à Kirk Kirwang.
- Exatamente – concordou Elsa.
- Mas, quanto a isso, não podemos fazer nada!… -
Filomena perdera a apatia e mostrava-se claramente
interessada.
- Aí é que se engana! Tive uma ideia brilhante para
eliminar dois dos nossos competidores. Mas preciso
da sua colaboração…
- Quem são os alvos?... – quis saber Filomena.
Elsa, a pacífica Elsa, brindou Filomena com um olhar
duro, implacável. E respondeu sem hesitações.
- O Paulo e o André. Com o chinês não me meto. Deve
estar bem encostado.
Filomena percebeu o que a outra queria dizer. Também
a ela Zhu Lei provocava um indefetível mal-estar. No
entanto, em relação ao que a colega lhe propunha,
hesitou. Era uma pessoa bem formada e aquele ato
repugnava à sua consciência. E, no entanto, também
ela sentia os bons princípios enfraquecidos por tão
longo período de tensão. Por isso, inquiriu.
- Qual é a sua ideia?...
- Muito simples. Sabotar as participações deles no
trabalho final. Temos de arranjar maneira de cada
uma de nós formar grupo com um deles. Depois, é só
dar o golpe de forma certeira. E tem de ser
simultâneo. Só com os dois fora de combate é que
podemos ter a certeza de que podemos ser futuras “kirkall”!...
E Elsa, com desembaraço, explicou a Filomena o que
tinha em mente.
Finalmente chegou o dia tão esperado do fim do
estágio. O pesadelo estava a chegar ao fim. Os cinco
candidatos apresentaram-se logo de manhã e
aguardaram na sala de formação. Em todos era patente
o nervosismo à exceção de Zhu Lei.
Havia-lhes sido dito que o Dr Ricardo Feio falaria
com cada um deles individualmente. O primeiro a ser
chamado foi André. Os outros quatro aguardaram sem
proferir uma palavra. Quando este regressou, dez
minutos depois, vinha extremamente abatido. Elsa
olhou para Filomena e esta piscou um dos olhos quase
impercetivelmente. Nenhuma das duas abriu a boca.
- Então?... – perguntou Paulo, ansioso.
- Fui excluído!...
- Como?... – perguntou Zhu Lei. Até ele estava
admirado.
Mas André estava em choque. Sempre tão seguro de si,
era agora a imagem viva do desânimo:
– Não percebo… Não percebo… - balbuciava.
Poucos minutos depois, Elsa foi chamada. Seguiu a
senhora de fato cinzento e óculos de massa através
de um corredor e foi introduzida num imenso
gabinete.
Um homem estava sentado à secretária. Não o Dr
Ricardo Feio, mas um indivíduo imponente, de aspeto
irrepreensível, também ele vestido de cinzento e com
óculos de massa. Quando Elsa entrou apontou-lhe a
cadeira que tinha na frente.
- Elsa Borges? – inquiriu numa voz possante com o
seu quê de musical.
- Sim, sou eu – respondeu Elsa.
O homem ergueu-se, sorriu e apertou-lhe a mão como
um cavalheiro.
- Sou o Dr Gustavo Leal, responsável máximo pela
Kirk Kirwang em Portugal. Devem ter-lhe dito que
teria a sua entrevista final com o Dr Ricardo Feio.
Está admirada por não ser recebida por ele?
- Sim – respondeu Elsa, com simplicidade. Que
quereria aquilo dizer? Na Kirk Kirwang nada era o
que parecia.
Mas o Dr Gustavo Leal prosseguiu imperturbável:
- Como sabe, a Kirk Kirwang raramente admite
senhoras para integrarem as fileiras de “Kirkall”…
Ao escutar estas palavras, Elsa sentiu um baque
interior. Meu Deus!, pensou, tanto esforço e
sacrifício para nada!...
Mas o Dr Gustavo Leal prosseguiu sem se dar conta da
sua perturbação.
- No entanto, depois de ponderar todos os parâmetros
recolhidos durante a formação, decidimos abrir uma
exceção – e a sua boca abriu-se num inesperado
sorriso - Muitos parabéns! Você foi escolhida para
integrar os nossos quadros!
- Quê?... Como?... – Elsa receava não estar a
perceber.
- Estou a dizer-lhe que foi admitida na Kirk Kirwang.
- Oh, obrigado.
- Oh, não me agradeça. O seu perfil adequa-se na
perfeição. Você revelou todas as aptidões
necessárias, a começar por uma extraordinária
vontade de vencer.
E o chefe máximo fez uma pausa e a sua expressão
endureceu:
- Posso garantir-lhe que as pessoas selecionadas são
as que demonstraram de forma cabal possuírem o fogo
interior necessário para trucidar os adversários. Na
prática, um “kirkall” tem de ser capaz de o fazer. A
Kirk Kirwang é uma empresa vencedora. E, para tanto,
precisa de vencedores nas suas fileiras. E, se há
vencedores, tem de haver vencidos!...
À medida que o grande chefe falava, Elsa ia
arrefecendo. Trucidar os adversários?... Que
conversa era aquela?...
Mas o Dr Gustavo Leal fixou Elsa com intensidade e
prosseguiu:
- Sei tudo o que se passou na vossa formação –
frisou - Tudo! Sei a iniciativa que teve a coragem
de assumir. Sei a forma magistral como arrastou a
outra estagiária para sua cúmplice. Sei a habilidade
com que conseguiu substituir trechos subscritos
pelos seus colegas por outros que continham ideias
erróneas embebidas com mestria!...
Elsa estava atónita. Desejava saber como é que o Dr
Gustavo Leal podia estar ao corrente daqueles factos,
mas não tinha coragem de o questionar. Todavia, como
se adivinhasse o seu pensamento, aquele perguntou:
- Está admirada por eu saber tudo isto?...
Elsa acenou afirmativamente.
- Pois é muito simples. A Kirk Kirwang é a empresa
do mundo que mais investe na seleção dos seus
consultores. Por isso, para além dos formadores,
conta com uma Equipa de Supervisores. Os estagiários
não os veem. Nem sabem quem são. Mas estão
constantemente debaixo da sua estreita vigilância.
Todas as suas palavras são gravadas. Todos os seus
gestos são filmados. E, claro está, não há nada que
introduzam ou executem nos computadores de formação
da KK que não seja analisado a pente fino. Por isso,
sabemos tudo.
Elsa sentiu o sangue afluir-lhe às faces.
- Que pretendem de mim, ao certo? – conseguiu
articular, com um súbito pressentimento.
- Que mantenha a mesma iniciativa, o mesmo espírito
de equipa!...
Elsa fixou o interlocutor sem pestanejar:
- Espírito de equipa?... – murmurou.
- Sim, Elsa – esclareceu o indivíduo com um ar
subitamente paternal – Espírito de equipa com a
própria Kirk Kirwang! Alguém tem de fazer certo tipo
de trabalhos… Aliás, devo dizer-lhe que são os mais
bem pagos!... Por isso é tão grande o rigor na
seleção dos candidatos.
Elsa susteve a respiração. Tinha compreendido. Tinha
sido escolhida não por ser a melhor mas por ser a
pior, capaz de atraiçoar colegas e esmagar
competidores. A Kirk Kirwang não queria os melhores,
queria os piores, os que fossem capazes de servir de
carrascos sem hesitação nem remorso. A despeito do
alardeado espírito de equipa, os mais capacitados
haviam eliminado os outros. E ela passara no
teste!...
- Posso saber quem são os outros selecionados?...
Gustavo Leal soltou uma gargalhada.
- Precisa mesmo que lhe diga?... Não o sabe já?...
Elsa olhou-o com cumplicidade. Um súbito fogo tomava
conta do seu peito. Um fogo que ela já se acostumara
a sentir, desde que pela primeira vez pisara o chão
da Kirk Kirwang. Só que agora era mais forte, mais
incontornável. Já não era a mesma. Ninguém saía
incólume de uma experiência como aquela. Os fins
justificavam os meios. Fora a primeira vez que
praticara um ato condenável. Perpetrara o crime sem
qualquer remorso. E a sensação que daí retirara não
lhe desagradara. Agora, conhecia a embriaguez da
verdadeira adrenalina. E, de súbito, sentiu-se cheia
de energia, fria e cortante como uma lâmina, capaz
de dominar o mundo.
- Percebeu bem que funções lhe estão destinadas? –
perguntou o chefe máximo.
- Muito bem - respondeu.
- E que me diz?... Aceita?...
Durante apenas um segundo Elsa olhou pela janela a
cidade acinzentada e inóspita. Depois o seu olhar
fixou-se na parede, em dois “K” entrelaçados sobre
um fundo estelar.
- Aceito!
Adelina Velho da Palma
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