SEBO LITERÁRIO

Contos

autor

 
PÁGINA 15
(pág. final de CONTOS)
 

 

 

ESPÍRITO DE EQUIPA

Eram dez, apenas dez. E; no entanto, eram demais. Na Kirk Kirwang nunca eram admitidos todos os estagiários. Havia sempre exclusões. Era uma questão de princípio.
Todos eles queriam um lugar na Kirk Kirwang. Ardentemente, desesperadamente. Porque a Kirk Kirwang era a melhor empresa do mundo. Integrar os seus quadros constituía não só uma garantia de sucesso como uma honra. E, embora não fosse talhada para se trabalhar toda a vida – poucos o aguentavam! – constituia trampolim garantido para altos voos. Portanto, quem é que não desejava possuir no CV uns bons quatro ou cinco anos de Kirk Kirwang?...
A Kirk Kirwang vendia sabedoria. Presente em todo o mundo civilizado (e incivilizado também, desde que abonado por fundos beneméritos), com sede em Denver, Colorado, USA, existia havia mais de cem anos. O fundador descendera de uma família de emigrantes chineses, uma das muitas importadas em hordas para a construção do caminho de ferro. Fundara a Kirk Kirwang em plena febre do petróleo, em cuja técnica de extração se havia especializado. Depois, a pouco e pouco, a empresa florescera e fora abarcando mais e mais áreas de intervenção, até se tornar num autêntico polvo cognitivo
A Kirk Kirwang era imbatível. Apresentava invariavelmente as melhores propostas (embora raramente as mais económicas) e obtinha os melhores resultados. Note-se que a Kirk Kirwang era extremamente seletiva nos projetos a que se candidatava. Todavia, quando o fazia, trucidava os competidores. Dispunha dos mais conceituados especialistas nos mais diversos domínios – os “kirkall’s” – e garantia aos clientes um excelso e único denominador comum: revenue, profit, lucro! Como consequência, poucos se atreviam a concorrer com a Kirk Kirwang. E cada consultor da KK – sigla da Kirk Kirwang - era uma imagem da sobrepujança da empresa que representava.
Eram, pois, dez. Sete homens e três mulheres, candidatos a Kirkall’s, jovens e ambiciosos. Para ali estarem, cada um deles já tivera de ultrapassar várias etapas. A primeira, uma rigorosa análise curricular onde eram liminarmente recusados aqueles cujas habilitações e classificações académicas não fossem consideradas satisfatórias. A segunda, uma entrevista onde eram aquilatadas a aparência, a fluência da linguagem e a motivação, todos aspetos fundamentais. A aparência, em particular, era um fator decisivo na imagem de um consultor e a Kirk Kirwang era absolutamente intransigente nesse aspeto. Não se admitiam espécimes da raça humana fora de determinados padrões. A etapa seguinte consistira em estes psicotécnicos. Mas não quaisquer testes psicotécnicos. Para se ser admitido na Kirk Kirwang a exigência era grande e as provas eram tão difíceis que delas ninguém saía otimista. E finalmente, uma inspeção médica que incluía análises ao sangue, para a qual se era convocado sem aviso prévio.
Todavia, na ótica da Kirk Kirwang, estes trâmites eram ainda insuficientes. Por isso, os candidatos que ultrapassassem as etapas preliminares passavam a estagiários e eram objeto de uma ação de formação durante a qual seria avaliada a sua real capacidade de absorção da filosofia da KK. E este era o teste decisivo. Durante seis semanas, os dez estagiários seriam submetidos a um rigoroso processo de avaliação, no decorrer do qual eram aquilatados sob um miríade de vertentes. O talento de cada um seria quantificado mediante uma fórmula onde nenhum parâmetro era descurado. Todas as aptidões, competências e fatores intelectuais, comportamentais e anímicos contribuiriam com o seu peso específico para a classificação final. E nesta derradeira avaliação, verdadeira corrida de fundo após os sprints iniciais, muitos tombariam pelo caminho. As classificações do estágio seriam ordenadas por ordem decrescente e os candidatos que se situassem abaixo da linha de água seriam excluídos. Só aos melhores seria concedido o privilégio de integrar os quadros da Kirk Kirwang.
Os dez estagiários encontravam-se na sede nacional da KK, no décimo sétimo andar da Torre Amália, a mais alta de Lisboa. A Kirk Kirwang não fazia as coisas por menos. A sala de formação era uma divisão de paredes cinzentas e grandes janelas de vidro fumado, provida de todo o equipamento necessário. A localização, o andar alto e a dimensão avantajada das janelas permitiam uma soberba vista sobre a cidade. No entanto, o tom dos vidros escurecia a paisagem exterior fazendo-a adquirir um aspeto frio, desconsolado, de permanente inverno, contra o qual a obscura sala de formação parecia oferecer uma suave e acolhedora proteção. Nas paredes, viam-se serigrafias discretas e posters de bom gosto exibindo o logótipo da Kirk Kirwand -.dois “K” entrelaçados, parte de uma sólida cadeia sobre um fundo estelar com a lua em quarto crescente.
O estágio começara na véspera. À primeira hora da manhã, o responsável pelo Departamento de Formação viera falar da cultura da Kirk Kirwang aos candidatos. O Dr Ricardo Feio era um homem de quarenta anos, relativamente baixo, magro e um pouco calvo. Vestia um fato cinzento de bom corte, uma gravata sóbria e exibia uma barba preta e uns óculos de massa. Entrara na sala com desembaraço e durante meia hora falara-lhes sem secura mas também sem simpatia, espalhando pela sala um olhar inexpressivo, num tom tão neutral como o teria feito uma máquina. Somente no final da comunicação, se deixara levar por um comedido arrebatamento:
- Estão aqui para aprender o espírito da Kirk Kirwang – dissera enfaticamente – Não queremos excluir ninguém. Mas somente quem tiver capacidade para o abarcar nestas seis semanas integrará a nossa equipa. Um por todos e todos por um, é o nosso lema. Não muito original, confesso, mas que espelha uma inquestionável mensagem de fraternidade – e chegado a este ponto o Dr Ricardo Feio fizera uma pausa algo teatral enquanto percorria a assistência com o olhar.
- Na Kirk Kirwang somos todos irmãos!... – acabara por desferir - Espírito de equipa, solidariedade, confiança, eis o que é verdadeiramente importante!... Ninguém, por si só, é indispensável. Aliás, quem o for será dispensado. A KK não admite protagonismos baratos.
Então o Dr Ricardo Feio despedira-se um tanto bruscamente e desaparecera, deixando a audiência entre o perplexo e o desconfiado. Poucos minutos depois, entrara na sala uma senhora de idade indefinida, impecavelmente arranjada, também ela vestida de cinzento e com óculos de massa, que distribuíra um questionário pelas dez pequenas mesas onde se encontravam os dez estagiários.
- Têm quinze minutos para responder ao questionário – dissera com uma voz gutural, demasiado grave para uma mulher. E sentara-se na secretária em posição frontal, com as costas muito direitas, rabiscando um bloco com ar distraído.
Elsa era uma das estagiárias. Era uma criatura inteligente, pacífica e equilibrada. Concorrera à Kirk Kirwang para tentar a sua sorte e o facto de ter ultrapassado as fases preliminares incutira-lhe confiança. Não que fosse particularmente ambiciosa mas sabia aceitar um desafio.
Começara a ler o questionário e as perguntas pareceram-lhe assaz estranhas. Impossível responder sem se atolar num mar de dúvidas. E sentira-se ligeiramente contrafeita. Seria aquele questionário decisivo?...
Olhara de soslaio para os outros estagiários e verificara que observavam atentamente o papel. Se tinham dúvidas, não o deixavam transparecer. Estranho… Mas, seria esse o verdadeiro teste?... E pegando na caneta, relera a primeira pergunta. Todavia, voltara a hesitar. Então levantara os olhos e percebera que, da secretária, a senhora dos óculos de massa a olhava fixamente.
- Têm quinze minutos para responder ao questionário! – repetira na sua voz velada e seca, para o geral da sala. Todavia, Elsa percebera perfeitamente que a advertência só a ela era dirigida.
Isto começa mal, pensara, consciente de se ter feito notar pela negativa. E, com determinação, concentrara-se na primeira questão, uma pergunta de resposta múltipla:

“Qual a qualidade mais valorizada na KK?”

Com as seguintes respostas possíveis:

“A - Competência”
“B – Capacidade de liderança”
“C - Objetividade”
“D - Determinação”

Após alguns segundos de hesitação, Elsa decidira-se pela resposta C. A partir daí fora respondendo às perguntas quase sem pensar, uma a uma, seguindo uma espécie de faro instintivo sem qualquer explicação racional.
Exatamente quinze minutos depois de terem sido entregues, os questionários foram recolhidos, e os dez estagiários mandados embora. A formação propriamente dita começaria no dia seguinte.

Somente durante a primeira pausa da manhã, Elsa teve oportunidade de observar os nove colegas de estágio – ou deveria dizer adversários? - com alguma atenção. Depois de duas horas de formação sobre Gestão de Projetos, uma matéria que dominava na perfeição, sentia-se mais descontraída e otimista. Nada do que ouvira ao monitor constituíra novidade. Aliás, chegara até a responder em primeiro lugar e com acerto a algumas questões colocadas à turma. Por isso a sua disposição melhorara e quase já esquecera a triste figura que acreditava ter feito no dia anterior, a propósito do questionário.
A pequena antecâmara onde estavam as máquinas de comidas e bebidas era contígua à sala de formação e detinha o mesmo tipo de ambiente, cinzento e protetor. Elsa serviu-se de um café e apoiou-se numa das paredes enquanto o saboreava. De pé, os seus colegas sorviam as bebidas em silêncio. O gelo entre todos ainda não derretera.
A primeira pessoa que chamou a atenção de Elsa foi uma rapariga alta e magra, muito branca e bonita, de cabelo castanho, curto e ondulado. Trajava de preto. Apesar do seu inegável encanto, parecia pouco segura de si. Ao segurar no pequeno copo do café, a mão tremia-lhe ligeiramente. Elsa lembrou-se da entrevista a que fora submetida, na qual intuía ter passado à tangente devido ao seu escasso 1,60 m de altura. Claro que disfarçara a fraca figura usando um fato escuro de calça e casaco e umas botas de tacão bem alto que lhe davam uma silhueta longilínea. Além disso, penteara-se e maquilhara-se com cuidado, de forma a valorizar o rosto. O aspeto exterior era importantíssimo. Elsa sabia-o. E sentiu uma pontinha de inveja daquela rapariga com corpo de top model. Ela não tinha necessidade de artifícios. E Elsa teve consciência do incómodo na zona lombar que os saltos das botas que tinha nos pés lhe provocavam.
O olhar de Elsa vagueou pelos companheiros. Eram todos jovens. Havia mais uma rapariga, morena, vestida com elegância, mas com um ar apagado e distante. Todos os outros eram homens. De uma maneira geral eram bem parecidos e trajavam informalmente, embora com discrição. Um dos rapazes tinha feições achinesadas e ostentava um ar fechado, superior. Um outro era muito bonito, de olhos azuis e rosto moreno. Nos restantes, Elsa não descortinou qualquer característica digna de realce. Aliás, pensando bem, estarem ali era, por si só, uma situação de exceção. A Kirk Kirwang não abria as portas a qualquer pessoa.
Naturalmente intuitiva, Elsa era sensível ao inusitado da situação. Estavam todos tensos e tentavam proceder com a necessária cautela. Qualquer passo em falso poderia ser fatal. Por isso, mantinham-se expectantes, em guarda.
Poucos minutos depois o formador reapareceu. E a pausa do café terminou sem que alguém tivesse dito uma palavra. Quando Elsa reentrou na sala de formação, verificou que um dos colegas permanecera ali durante a pausa, entretido a estudar a documentação de suporte. Havia um marrão no grupo.

Apesar das circunstâncias peculiares, o clima de gelo não durou muito tempo. Decorrida uma semana, já todos se conheciam. Pelo menos, sabiam o nome uns dos outros. A formação prosseguia num ritmo exigente versando os mais variados assuntos e o horário intensivo não deixava margem para folgas. Às vezes não havia tempo para fazer tudo o que estava estipulado e era necessário levar trabalho para casa. Trabalho esse que, no dia seguinte, era alvo de uma apresentação por parte de um dos estagiários, escolhido ao acaso pelo formador. Por outro lado, na aprendizagem, era dado um grande enfoque ao espírito de equipa. Em todos as matérias havia que consolidar os conhecimentos adquiridos produzindo delivrables coletivos. Deste modo, todos os dias eram propostos exercícios para cuja resolução se constituíam grupos de trabalho. No entanto, para além da mera aquisição de conhecimentos, o verdadeiro objetivo era avalizar a capacidade de entrosamento de cada um.
Os formadores, na sua esmagadora maioria jovens do sexo masculino, de voz bem colocada, incisivos e trajando de cinzento, não se cansavam de repetir:
- Os que aprendem mais depressa devem ajudar os outros!...
- Lembrem-se de que, no futuro, vão ter de trabalhar uns com os outros!...
- O individualismo é totalmente contrário ao espírito da KK!...
Conscientes desta mensagem, todos os estagiários mostravam uma total disponibilidade para cooperarem mutuamente. Havia que saber ensinar e que saber aprender. O que nem sempre era fácil, dado todos estarem cientes de que aquele clima amigável mais não era que uma fachada para a mais terrível das competições. Todos eles queriam um lugar na KK. Mas a KK não abraçaria todos. Somente os melhores.
Como é evidente, cada um reagia à pressão à sua maneira. Havia quem, embora colaborando com os outros, não deixasse de se evidenciar. Havia também quem, por prudência, se mantivesse no maior recato. E havia o meio-termo.
Elsa adaptara-se bem ao ritmo exigido. Ganhara até alguma vivacidade. Às vezes não resistia a lançar a meia voz um ou outro comentário mais incisivo, a fim de deixar entrever o seu real valor. Todavia, estava longe de ser a mais aguerrida. Dois dos rapazes, Tomás e André, destacavam-se claramente. Era óbvia uma tática competição entre ambos, que só não enfatizavam mais devido à necessidade de demonstrar o famigerado espírito de grupo. Claro que os seus ditos perspicazes vinham sempre a propósito e as suas opiniões eram expressas com subtileza mas, mesmo assim, era notória a sua craveira superior. Nos intervalos, faziam o possível por monopolizar a atenção do formador. Por outro lado, quaisquer que fossem os seus parceiros de momento, estavam sempre à procura de alguém que precisasse de ajuda. Às vezes colocavam uma ou outra dúvida e até se permitiam ser esclarecidos. Então, aprendiam rapidamente e agradeciam. Era os espécimes perfeitos.
Existia também quem evidenciasse alguma lentidão e levasse sempre trabalho para casa. O rapaz de feições achinesadas, Zhu Lei, era um deles. Calado, concentrado, não era comunicativo e expunha as suas ideias com um relativo embaraço. Não obstante, Elsa não se deixava enganar. Ali não havia ninguém estúpido. Depois de todos os testes a que haviam sido submetidos, aqueles que ali chegavam eram já o creme de la creme. Seria um erro subestimar os adversários - um erro crasso e primário. E até o chinês, com a sua fleuma, podia ser um adversário de respeito. Ademais, talvez fosse aparentado ao fundador…
Malgrado o clima de extrema competição, alguns membros do grupo esforçavam-se por que fossem criados laços entre eles. Afinal, iriam ser colegas na KK. Pelo menos alguns de entre eles. Havia sempre quem propusesse um almoço coletivo num dos restaurantes do Centro Comercial Galápagos, que se situava nos andares mais baixos da Torre Amália. Aliás, o escasso tempo de que dispunham para almoçar não lhes permitiria incursões mais longínquas.
Essas refeições proporcionavam uma ligeira descontração e os que nelas participavam ficavam a conhecer-se um pouco melhor. A estagiária alta e branca chamava-se Laura e, embora não fosse expansiva, às vezes falava com Elsa. Em contrapartida, a terceira rapariga, Filomena, era pouco dada a convívio e isolava-se sistematicamente.
O rapaz bonito, Alfredo, era simpatiquíssimo Às vezes almoçava com Elsa e, sem ultrapassar a barreira da boa educação, dava indícios de se interessar por ela. Pelo menos tentava inteirar-se da sua vida privada. Elsa sentia-se lisonjeada. Nunca na vida fora alvo das atenções de um homem tão bonito. No entanto, um flirt com um colega de estágio estava fora de questão. Pelo menos enquanto não soubessem quem, efetivamente, ingressaria na Kirk Kirwang. Porque na KK o romance era terminantemente proibido. Espírito de equipa sim, envolvimento não!...
O estágio ia decorrendo num crescendo de exigência quando, certa manhã, um dos estagiários – o marrão - não apareceu. Ninguém pareceu ligar muita importância ao ocorrido. Provavelmente o faltoso tivera algum assunto inadiável para tratar. No entanto, à tarde, continuava sem dar sinal de vida, o que começou a causar uma certa estranheza. Teria sido excluído ainda antes do fim do estágio?...
Durante a pausa a meio da tarde, Elsa, tomada de um súbito assomo de coragem, acercou-se do formador que era razoavelmente acessível e inquiriu:
- Sabe o que é que se passa com o nosso colega que não apareceu?
- Sei – respondeu o homem de cinzento, com um sorriso forçado – Ele desistiu. Já não vem mais.
- Oh! Mas porquê?... – perguntou Elsa com espontaneidade. Porém, de imediato, percebeu a tolice da pergunta. Decerto fora excluído. E sentiu-se invadida por uma onda de contentamento. Exclusão ou desistência o certo é que era menos um adversário. Porém, logo a seguir, teve um rebate de consciência. Era uma pessoa bem formada, incapaz de se alegrar com a infelicidade alheia!... E sentiu-se vagamente envergonhada pelos próprios pensamentos. No entanto, foi com um redobrado entusiasmo que, naquele resto de tarde, se entregou às tarefas que lhe haviam sido destinadas.

Uma semana depois, era já patente o cansaço nos rostos dos estagiários. Até quando aguentariam aquele ritmo? No entanto, ninguém dava parte de fraco e, mesmo nos mútuos desabafos, existia um certo retraimento. As condições em que se encontravam na KK não eram propícias à abertura de espírito. E, não obstante, era isso que lhes era exigido.
Apesar de resistente por natureza, Elsa sentia-se extenuada. Os fins de semana mal davam para recuperar do cansaço acumulado durante a semana. No entanto, quando se olhava ao espelho, parecia-lhe que disfarçava bem a fadiga. O pior era a dor nas costas devida aos saltos altos. Porém, nada podia fazer contra isso a não ser aplicar um emplastro na zona dorida.
Em Laura, o abatimento era particularmente visível. Estava mais pálida do que nunca e, comparado com a cor da tez, o seu cabelo parecia demasiado castanho, artificial, como se não lhe pertencesse.
Um dia, à hora do almoço, quando se encontravam as duas sentadas na mesa de um pequeno restaurante à espera da comida, Laura deixou escapar um suspiro. Admirada, Elsa encarou a colega:
- Então?... Tudo bem?... – inquiriu amavelmente.
- Tudo bem?!... Não brinque comigo!... Elsa, sinto-me estourada. Não sei quanto tempo mais vou aguentar este ritmo! E, no entanto, preciso tanto deste emprego…
- Disparate! Claro que vai aguentar. – Elsa sentia-se na obrigação de dar alento à colega. Afinal de contas, as mulheres estavam em minoria e tinham de marcar presença.
- Oh, não sei não!... – E Laura fixou em Elsa uns olhos cansados - Sabe que o nosso colega Artur foi corrido porque tinha mentido acerca da idade?...
- O quê?...
- É o que consta. Um dos rapazes, o Paulo, encontrou-o um dia destes. Artur tinha escrito no CV que contava 25 anos de idade quando na realidade tinha 27. Ele alegou que foi um simples engano, aliás facilmente corrigível em face do BI, mas o Dr Ricardo Feio disse que não admitia lapsos. Além disso, a KK só admite…
- Sim, eu sei – atalhou Elsa – a KK só admite pessoal até aos 25 anos, quando ainda não tem vícios e pode ser facilmente moldável à filosofia da casa – e Elsa tentou sorrir – onde é que eu já ouvi isto?!...
- Oh, não brinque!... Acho perfeitamente absurdo o Artur ter sido excluído por um motivo destes!...
- Ele arriscou…
- Pois foi. Arriscou e perdeu…
Elsa atentou na face da colega. Estava visivelmente nervosa. Parecia preocupada em demasia com o caso de Artur. Afinal, não havia motivo para pensar que o mesmo lhe viesse a suceder. A não ser que… E Elsa encarou Laura com firmeza:
- Laura, você disse toda a verdade no CV?...
- Sim – respondeu Laura, com pouca convicção. Mas Elsa não era parva e percebeu que a outra escondia qualquer coisa.
- De certeza?...
- Sim. No CV não menti. E, no entanto…
Elsa intuiu que a outra ia finalmente confessar-se. Já não precisava de dizer mais nada:
- Sabe – acabou por dizer Laura – este cabelo não é meu. Pintei-o antes da primeira entrevista
Ao escutar estas palavras, Elsa riu abertamente.
- Mas porquê, Laura, porquê?...
- Oh, é que eu sou loura, muito loura. E tive receio de que me recusassem liminarmente por esse facto. Então, num impulso, pintei o cabelo. E agora não sei o que hei de fazer. Não me apetece ter de continuar a pintar o cabelo todas as semanas. Todavia, se eles descobrem que sou loura…
Elsa estava perplexa: Perdera a vontade de rir.
- Laura, colorir o cabelo não é pregar nenhuma mentira. No entanto, pelo sim pelo não, o melhor é continuar a pintá-lo até ao fim do estágio.
- Acha?... Não sei… – e Laura levou o copo à boca e engoliu um pouco de água – sabe, sinto-me como se os estivesse a enganar. Preciso de me acalmar e de ver como vou resolver o problema…

Poucos dias depois teve início uma formação específica em informática. Quando os estagiários entraram na sala de formação, logo de manhã, havia um laptop em cima de cada uma das pequenas mesas.
- Cada um de vós vai entrar no sistema digitando a respetiva password – orientou o formador.
As passwords haviam sido fornecidas alguns dias antes, a cada um, dentro de um envelope fechado. Foi com prazer que Elsa retirou o envelope da sua pasta de executiva e digitou a sua password no laptop que tinha à frente. Gostava de informática e sempre era uma maneira de descansar das matérias pesadas que lhes estavam a ser lecionadas havia três semanas.
- Já toda a gente entrou no sistema?... – inquiriu o formador, ao fim de um ou dois minutos.
- Sim – ouviu-se, num coro mais ou menos assíncrono.
Porém, do fundo da sala, saiu uma voz discordante:
- Peço desculpa mas estou com um pequeno problema…
Elsa olhou para trás e viu um dos rapazes, com um ar ligeiramente atrapalhado.
- Não consegue entrar? – perguntou o formador, enquanto se dirigia, solícito, por entre as mesas, para o aluno em dificuldades. – Já introduziu a password?...
O tom de voz do rapaz baixou um pouco:
- É que… não me lembro da password. Pensei que tinha guardado o envelope na carteira mas agora não o acho…
A expressão do formador endureceu:
- Perdeu a password?...
- Bem… - hesitou o rapaz.
- Perdeu a password?... – repetiu o formador enfaticamente. Então, o rosto do rapaz adquiriu uma expressão resoluta:
– Sim, perdi. Peço desculpa mas perdi.
O formador deu meia volta e retrocedeu a passo lento para o seu lugar. Uma vez aí, dirigiu-se ao geral da turma:
- Caros candidatos – proferiu num tom glacial – eis aqui um exemplo daquilo que nunca, mas NUNCA, pode acontecer. Na Kirk Kirwang as passwords são sagradas. Dão acesso a informação que pode ir de reservada, passando por confidencial, até muito secreta. Por isso têm de ser memorizadas, os envelopes onde são transmitidas destruídos e nunca, sob pretexto algum, escritas ou reveladas seja a quem for. Muito menos perdidas!...
A sala em peso escutava em silêncio. Pelo canto do olho, Elsa vislumbrou o rapaz que perdera a password e percebeu que empalidecera.
- Acompanhe-me por favor – disse o formador dirigindo-se ao faltoso. Este levantou-se e os dois saíram da sala.
- Coitado! – exclamou Tomás, um dos crânios da turma.
Todavia, quando Elsa olhou ao redor, não se apercebeu de nenhuma expressão de verdadeira contrição. O que viu foi calma, alívio, quase satisfação. Era mais um competidor que ficava fora de combate.

A tensão continuava num crescendo. Era agora tão palpável que dir-se-ia poder ser cortada à faca. Sujeitos a uma permanente avaliação em que o espírito de equipa era um fator decisivo, todos queriam, simultaneamente, mostrar ser melhores que os outros. Agora, dado já haver uma certa confiança com os formadores, alguns estagiários tentavam dar-lhes manteiga. De uma forma subtil, é certo, mas, mesmo assim, indisfarçável. Nas pausas da formação, ficavam muitas vezes dentro da sala a tirar pseudo dúvidas com a clara intenção de se auto promoverem.
Por sua vez, Zhu Lei colara-se a Tomás. O que este dizia aquele secundava. E, nos intervalos, seguia-o como um cordeirinho. Quanto a Tomás, parecia aceitar a companhia do outro sem contrariedade. Zhu Lei era uma pessoa apagada, sem hipótese de ofuscar a sua estrela.
Tinham decorrido quatro semanas de formação quando o Dr Ricardo Feio voltou a usar da palavra junto à turma de estagiários. Com o irrepreensível fato cinzento e os inevitáveis óculos de massa, dirigiu-se ao auditório no mesmo tom inexpressivo do discurso inicial. E, desta vez, a sua mensagem foi ainda mais breve:
- O vosso período de formação está a chegar à fase decisiva. Devo dizer-vos que estou muito satisfeito com o feed back que tenho tido a vosso respeito. Tirando os dois casos lamentáveis, já erradicados do nosso seio – e o Dr Ricardo Feio fez uma careta e fungou – todos vós tendes espírito de equipa e autonomia nas doses certas. Até agora têm revelado todas as qualidades de trabalho necessárias para ingressarem na Kirk Kirwang e se tornarem Kirkall – e, dito isto, fez uma pausa enquanto percorria a assistência com o olhar.
- Porém – continuou - falta ainda esclarecer uma questão importantíssima! -.E fez uma nova pausa – Falta saber se são capazes de manter uma verdadeira postura de consultor!...
Ao escutar estas palavras, Elsa sentiu-se arrefecer. Que quereria ele dizer ao certo? Abanou a cabeça e pensou: agora é que começa a verdadeira guerra. Até aqui estivemos só a limpar e a lubrificar as armas...
- Alguma dúvida? – perguntou o Dr Ricardo Feio, com um olhar imperturbável por detrás dos óculos de massa.
Como resposta, ninguém esboçou o mais pequeno gesto.
Os formadores dedicaram o resto do dia a explicar o que se entendia por “postura de consultor”. A maneira de andar, a maneira de vestir, a maneira de dialogar e a linguagem propriamente dita, tudo tinha de ser moldado de acordo com determinados padrões. E, por incrível que parecesse, estas facetas eram tão ou mais importantes que os conhecimentos e aptidões propriamente ditos. Todavia, o perfil ideal não era explicitado com muita objetividade. Havia que se ser natural, diziam. Mas não demasiado. Discreto diziam, mas não demasiado. Simpático diziam, mas não demasiado. Acima de tudo, tinha de se pairar acima do comum dos mortais. E, no entanto, era preciso ser genuíno. Quem fingia, não o conseguiria fazer indefinidamente.
Elsa tentava captar a mensagem. Mas havia sempre algo que lhe escapava. No entanto, perdera os complexos. Sabia que a sua inteligência nada ficava a dever à dos outros. E, malgrado o cansaço, sentia despertar no cérebro uma inusitada clarividência, que, até então, estivera insuspeitamente escondida. Sim, era capaz de aprender qualquer coisa! Até a confusa e escorregadia postura de consultor!...

Poucos dias depois, Laura apareceu com o cabelo pintado de louro. Ficava lindíssima. Sim, aquela era a sua cor de cabelo. E não houve ninguém – homem ou mulher – que não tivesse sustido a respiração quando ela, logo de manhã, deu entrada na pequena antecâmara onde, todos os dias, os estagiários aguardavam a chegada do formador.
Todavia Elsa, antes de entrarem na sala, aproximou-se dela e segredou-lhe:
- Que se passa?... Foi picada por alguma mosca?...
A outra abanou a cabeça e respondeu baixinho:
- Já não aguentava mais. Tinha de pintar as raízes do cabelo de três em três dias!... Uma estafa – e encolheu os ombros -. Seja o que Deus quiser!...
- Assim vai ser, realmente… - respondeu Elsa, estranhamente apreensiva.
No entanto, o dia decorreu sem acontecimentos de realce. Elsa começava a crer que a atitude de Laura não teria consequências quando, ao fim da tarde, um formador que havia uma semana não viam, iniciou a sua preleção de uma maneira insólita:
- Meus caros, é importante que saibam que nós na Kirk Kirwang não apreciamos mudanças de visual repentinas.
Dito isto permaneceu de pé, calado, com as mãos atrás das costas, com o sobrolho carregado. Os seus olhos não descolavam da estagiária loura. Meu Deus, pensou Elsa, a esta hora já toda a gente na KK deve saber que Laura pintava o cabelo! Ela vai ser excluída!... E não resistiu a olhar para a colega que tão corajosamente decidira acabar com uma mentira. Entretanto, o formador permanecia imóvel. Parecia uma estátua viva. A sala estava no mais absoluto silêncio. Havia suspense no ar. A qualquer momento ia acontecer qualquer coisa.
E então, de repente, aconteceu. Laura ergueu-se devagar, vestiu o casaco, agarrou na pasta e encaminhou-se para a saída. Quando passou ao pé de Elsa os olhos das duas encontraram-se. Foi uma despedida silenciosa. Depois Laura alcançou a porta e saíu, sem dizer uma palavra. Sem sequer olhar para trás.
Decorreram mais alguns segundos e só então o formador voltou a usar da palavra:
- Como eu ia dizendo, gostamos de soluções de continuidade. Nada de gestos bruscos, clivagens ou disrupções!...
E, pela primeira vez desde o início do estágio, Elsa teve dificuldade em prestar atenção ao que ouvia. Sentia o coração acelerado e uma vaga tristeza que só a muito custo conseguiu controlar. E, durante uns breves segundos, ser admitida na Kirk Kirwang deixou de lhe parecer assim tão atrativo.

Estavam reduzidos a sete. Todavia, ninguém estava seguro. E o conteúdo da formação era cada vez mais abstruso e difícil de interpretar. Sobretudo, de aplicar.
Eram-lhes distribuídos questionários sobre questionários, a que tinham de responder em tempos absurdamente curtos. Decerto, por detrás, a verdadeira intenção seria não permitir que pensassem nas respostas.
Por outro lado, a tensão continuava a crescer. O cansaço era patente em todos os rostos. A sala de formação já não parecia acolhedora. Antes se assemelhava a uma imensa cela de tortura de um algoz alienígena, que falasse uma língua desconhecida e que, por consequência, não houvesse qualquer hipótese de ser entendido. Que pretendia ao certo a KK avaliar? Até onde ia a resistência física e psicológica de cada um?...
Elsa carburava a poder de cafés. As dores nas costas devidas aos saltos altos incomodavam-na cada vez mais. Se entrasse na KK teria de arranjar outra solução para a sua fraca figura!... Todavia, nem lhe passava pela cabeça desistir. Pelo contrário, habitualmente pacífica, descobrira dentro de si um fogo interior que lhe era desconhecido. As dificuldades e a prolongada tensão a que se encontrava submetida haviam-na dotado de uma vontade férrea.
Certo dia, a meio da semana, logo a seguir ao almoço, encontrava-se na antecâmara dos comes e bebes quando reparou que o rapaz achinesado, Zhu Lei, levava um pequeno copo de café na mão, que obsequiosamente foi oferecer a Tomás. Este já se encontrava dentro da sala de formação e aceitou o precioso líquido com naturalidade. Elsa sorriu. Tomás era mesmo assim. Considerava-se tão bom que aceitava todas as mordomias como se lhe fossem devidas.
A formação começou pouco depois e, passados uns dez minutos, o formador mandou os estagiários constituírem três grupos de trabalho. Ajeitaram-se as mesas, de acordo com os elementos de cada grupo, e Elsa formou par com Tomás.
Começaram a trabalhar de acordo com as orientações recebidas. Todavia, Elsa começou a estranhar o companheiro. Ao contrário do habitual, Tomás parecia apático. Os olhos fechavam-se-lhe contra vontade. Parecia esgotado.
- Que tem você?... Sente-se bem?... – acabou Elsa por lhe perguntar.
- Não sei… Sinto a cabeço pesada. Parece que vou desmaiar… – respondeu Tomás com voz sumida. E, sem qualquer aviso prévio, pousou lentamente a cabeça em cima da mesa e não mais se mexeu.
- Tomás, acorde!... – E Elsa sacudiu-o, primeiro suavemente, depois com alguma brusquidão. Porém, tudo foi inútil. Tomás adormecera profundamente.
Elsa olhou ao redor apreensiva, mas já toda a gente tinha percebido o que acontecera.
- Que se passa aí? – perguntou o formador. E aproximou-se de Elsa e de Tomás que dormia a sono solto com a cabeça em cima da mesa.
- O Tomás adormeceu – respondeu Elsa, sentindo-se uma idiota chapada.
Ouviram-se risinhos. O formador, porém, falou com cara de poucos amigos.
- Ele está a dormir?!... Que disparate é este?...
- Está sim. E não consigo acordá-lo – e, a título de exemplo, Elsa voltou a abanar Tomás que não tugiu nem mugiu.
O formador tomou o pulso a Tomás e encostou o ouvido junto da cara deste.
- De facto, está ferrado no sono!... – disse. E, não se dando por achado, integrou Elsa noutro grupo, do qual fazia parte Zhu Lei e Alfredo, e prosseguiu a formação como se o estagiário adormecido não estivesse presente.
Elsa fez menção de se concentrar no problema proposto e percebeu que os seus novos companheiros de grupo tentavam fazer o mesmo. Mas Alfredo estava claramente perturbado. Quando a Zhu Lei, permanecia enigmático como sempre. Todavia, a certa altura, Elsa julgou notar nos olhos do rapaz achinesado um brilho inusitado. E só então se lembrou do café que este fora oferecer ao estagiário mais brilhante da turma.

Agora eram apenas seis. As sucessivas baixas tinham agravado a perceção, no íntimo de cada um, de que a competição estava mais feroz do que nunca. Insensivelmente, a formação dificultava-se. Dada a sua incapacidade de fixar tudo o que lhes era ministrado, Elsa tinha momentos de desânimo. Todavia, eram cada vez mais raros. A força interior que despertara dentro dela impedia-a de desistir. Sentia-se noutro mundo, mergulhada numa espécie de torpor com vida própria, que a guiava e conduzia rumo a um objetivo muito preciso, que ainda não entrevira.
Amiúde o cansaço vencia-a. Todavia, pouco depois renascia das cinzas, como se lhe fosse impossível fugir a um equilíbrio pré-programado que o seu intelecto orquestrava independentemente da sua vontade.
Fazia agora grupo permanente com Zhu Lei e Alfredo. Mas, enquanto o chinês a intimidava, o galanteador enfastiava-a. Elsa tinha razões para crer que os seus momentos de angústia eram compartilhados pelos restantes estagiários. No entanto, tal como ela, tudo faziam para não o deixar transparecer. Às vezes pensava que os seus receios eram infundados. Provavelmente todos os que haviam resistido até ali estavam apurados. Decerto, o fundador da Kirk Kirwang não fora tão elitista quando procedera à contratação dos “macacos” para treparem aos derricks!...
Haviam começado dez. Agora eram apenas seis. No entanto, Elsa tinha a íntima convicção de que ainda havia um estagiário a mais. Quem seria a próxima vítima da seleção da KK?...
Mas as coisas precipitaram-se de forma trágica e imprevisível. Dois dias depois, Elsa dirigiu-se para a Torre Amália a uma hora matutina, anterior à de maior afluência de tráfego, a fim de se juntar com os seus companheiros de grupo de forma a finalizarem um trabalho que teriam de entregar ao formador. Cada um ficara com uma determinada incumbência e era necessário consolidar as três componentes antes do início da formação.
Quando Elsa entrou na sala, apenas Zhu Lei estava lá. E sentiu-se subitamente contrariada.
- O Alfredo?... – perguntou.
Zhu Lei encolheu os ombros:
- Não sei. Ainda não chegou.
- Estranho… - murmurou Elsa.
- Vamos ao trabalho?... – instou-a Zhu Lei – já não temos muito tempo…
- Que remédio… - desabafou Elsa, a quem Zhu Lei, desde o episódio do súbito adormecimento de Tomás, provocava um certo mal estar.
Sentaram-se e começaram a trabalhar. Elsa estava com dificuldade em concentrar-se. Porém, fez das tripas coração a fim de não dar parte de fraca diante de Zhu Lei. Havia algo de sinistro naquele rapaz de olhinhos oblíquos e boca trocista, que nunca proferia uma palavra em tom mais alto que outra.
Por outro lado, que teria acontecido a Alfredo?... Devia haver uma razão forte para ter faltado ao combinado. E por que razão o chinês não manifestava qualquer apreensão com o ocorrido?... Não parecia minimamente preocupado com o facto do colega ter faltado à palavra.
Elsa tentava afastar este e outros pensamentos da sua mente atribulada quando entrou na sala a senhora de fato cinzento e óculos de massa que costumava tratar dos questionários:
- Dra Elsa Borges?...
- Sou eu – respondeu Elsa, sem perceber.
- Tem uma chamada.
Admirada, Elsa seguiu a senhora até ao hall de entrada da KK, onde uma secretária lhe estendeu um telefone:
- Está lá?...
- Elsa, é o Alfredo. Não tinha o seu número de telemóvel de forma que tive de telefonar para aí e pedir que a chamassem… - a voz do rapaz denotava uma inequívoca perturbação.
- Alfredo, passa-se alguma coisa?...
- O meu pai morreu esta noite.
- O quê?!
- Sim. Foi de repente.
- Lamento muito, Alfredo – respondeu a rapariga sem saber mais o que dizer – Lamento muitíssimo. Posso fazer alguma coisa?...
- Por favor, avise a KK de que hoje e amanhã não poderei estar presente no estágio.
- Com certeza.
Desligaram e Elsa, contrafeita, encaminhou-se para a sala de formação. Entretanto já haviam chegado os restantes elementos e a rapariga tratou de lhes comunicar a infeliz ocorrência. Todavia, foi incapaz de descortinar a mínima reação nos rostos dos companheiros. Pareciam autómatos insensíveis.
- E agora? – acabou por perguntar André, que assumira o papel de líder destacado da turma desde a saída de Tomás.
- Penso que devemos mandar uma coroa de flores em nosso nome – respondeu Elsa.
- Oh, não me estava a referir a isso. Referia-me ao Alfredo…
Mas não acabou a frase pois o formador acabara de entrar na sala.
- Bons dias! – proferiu com energia, saudando a turma, enquanto esperava que se sentassem – Quem vai ser o primeiro a apresentar o trabalho?... – E os seus olhos percorreram os cinco estagiários – Elsa! Faça favor!...
Elsa levantou-se e balbuciou:
- Lamento informar que o meu grupo não pôde concluir o trabalho proposto.
O formador franziu o cenho:
- E porquê?... Pode saber-se?...
Antes de responder, Elsa respirou fundo a fim de colocar a voz sem tremuras:
- O pai do nosso colega Alfredo faleceu e ele não fez a parte que lhe competia. Aliás, hoje e amanhã ele não poderá comparecer à formação.
- Oh, coitado!.., Que aborrecimento!... – o formador parecia sinceramente contrito. Ter-se-ia humanizado?...
- Pois é! Pobre rapaz!... – rematou Elsa, sem saber se se devia sentar ou continuar de pé.
- Que aborrecimento! Que aborrecimento! – repetiu o formador, como um disco riscado.
Elsa olhou o homem com estranheza. Por acaso?... Mas não, seria demasiado desumano…
- Já sei! – proferiu o homem, como se tivesse sido atingido por uma ideia luminosa – O Alfredo pode completar o trabalho durante o dia e enviá-lo por fax!... Vou pedir para o contactarem.
Abismada, Elsa encarou o homem.
- Não creio que seja possível… – balbuciou – Vejamos… O pai dele faleceu esta noite!...
O formador encolheu os ombros.
- Se ele não entregar o trabalho hoje, serei forçado a excluí-lo…
Elsa fitou o formador como teria olhado para um alienígena, mas este sustentou-lhe o olhar sem pestanejar.
- Faça como quiser! – acabou por exclamar Elsa. E deixou-se cair na cadeira, sem energia.
Nenhum dos outros estagiários pronunciou uma só palavra. E Alfredo foi excluído.

Apesar da incontornável satisfação por se encontrarem prestes a cortar a meta, o episódio da eliminação de Alfredo não deixou de se repercutir negativamente no rendimento da turma de estagiários, agora reduzida a cinco unidades. Somente André, o sabichão, ainda patenteava alguma vivacidade. Faltava apenas uma semana de formação e o esgotamento era generalizado. A tal ponto que um dos formadores lhes chamou a atenção:
- Que se passa?... O vosso rendimento está a descer!... Na Kirk Kirwang queremos pessoas de fibra, energéticas e resistentes. Vamos agora entrar na reta final. Vai-vos ser pedido um último trabalho que consolide os conhecimentos adquiridos. Se continuarem assim…
Se continuarmos assim, pensou Elsa, adeus Kirk Kirwang, adeus curriculum, adeus futuro brilhante. E sentiu uma grande revolta crescer dentro de si. Ela já havia provado ser uma resistente, que diabo! Havia de conseguir juntar os cacos de si mesma e cortar a meta de corpo inteiro!...
Durante a pausa que se seguiu dobrou a dose de café e jurou a si própria não se deixar ir abaixo. Olhou ao redor e a sua boca abriu-se num sorriso de sarcasmo. A hostilidade pairava no ar. Espírito de equipa?!... Eles odiavam-se! Nem sempre fora assim mas, ao fim de cinco semanas de uma tensão insuportável, qualquer deles pisaria com agrado o cadáver do colega do lado.
Este pensamento fez Elsa estremecer. Sempre se conhecera branda e serena. Como era possível que tais cogitações lhe perpassassem o cérebro, dantes plácido e tranquilo?...
Já não havia refeições coletivas. À hora do almoço e ao fim da tarde cada um seguia o seu caminho. E os diálogos limitavam-se ao estritamente necessário para o cumprimento das tarefas prescritas.

Faltavam quatro dias para o término da formação quando algo de insólito aconteceu. Elsa, cansadíssima, sentada num dos cubículos da casa de banho das senhoras, teve um momento de descontração e adormeceu. Acordou-a um diálogo entre duas mulheres que, provavelmente, junto ao espelho, retocavam a maquilhagem. Não dando conta da presença de Elsa, falaram sem constrangimentos.
- Estes estão quase a dar as últimas! Coitados!... Às vezes até tenho pena… – dizia uma delas.
- Oh, não tenhas!... – respondeu a outra, em cuja voz Elsa julgou reconhecer a mulher dos questionários – lembra-te de que todos passam pelo mesmo… - e deu uma gargalhada - És uma sentimental!...
- Talvez seja… Porém, tenho um dó particular destes! Se soubessem que só há três vagas…
- Deixa-te disso. A Kirk Kirwang é assim mesmo – rematou a voz familiar.
- Já se sabe quem fica?
- Sim. Os três rapazes.
- Coitadas das moças! – rematou a sentimental.
Elsa manteve-se sem fazer o mínimo ruído. Quase nem respirava, para não dar a conhecer a sua presença. E só abandonou o cubículo depois de se ter certificado de que estava completamente só.
Elsa era uma pessoa bem formada, incapaz de um gesto indigno. No entanto, uma ideia pouco ortodoxa fervilhava no seu espírito.

Nessa noite, Elsa desceu à garagem da Torre Amália, onde parqueava o carro. Sabia que a outra rapariga, Filomena, com quem, para além dos trabalhos de grupo, não trocara mais de uma dúzia de palavras, também deixava ali a viatura. Elsa já a vira por ali várias vezes e reconhecia-lhe o carro. Olhou ao redor e esperou.
Aguardava havia poucos minutos, quando Filomena entrou na garagem e se dirigiu para o seu carro. Já tinha a chave na mão e ia enfiá-la na fechadura quando Elsa lhe saiu ao caminho.
- Espere! – disse Elsa.
Filomena efetuou um instintivo movimento de recuo.
- Sim?... Que se passa?... – A rapariga não podia estar mais surpresa.
- Preciso de falar consigo – disse Elsa, esforçando-se por parecer simpática.
A outra hesitou:
- É que estou com pressa e…
Elsa impacientou-se:
- É importante para si entrar na Kirk Kirwang?...
- Claro!... – e a expressão de Filomena desanuviou-se um pouco.
- Então acho que é do seu interesse ouvir o que tenho para lhe dizer…
- Seja – respondeu Filomena, vencida. E abriu as portas do carro – Entre, se faz favor.
Entraram e acomodaram-se. Elsa manteve-se calada durante uns segundos. Sentia-se muito cansada e não lhe apetecia falar mais que o estritamente necessário.
- Você deve estar admirada por eu querer falar consigo… - começou por dizer.
- Com efeito, estou.
- Não esteja! – E o rosto de Elsa adquiriu uma certa vivacidade – o que eu tenho para lhe dizer é de vital importância para as duas.
A voz traía-lhe a ansiedade de forma que respirou fundo. Filomena continuou calada.
- O que se passa é o seguinte. Eu soube, de fonte segura, que a Kirk Kirwang só tem três vagas. E vamos ser nós as excluídas.
- Mas… Como é que você soube?...
- Não interessa. Mas sei. Acredite que sei.
Elsa fez uma pausa, e só então Filomena reagiu:
- Acredito em si. Somos mulheres. Hoje estamos livres de compromissos e temos uma disponibilidade total, mas amanhã podemos engravidar e adeus entrega total à Kirk Kirwang.
- Exatamente – concordou Elsa.
- Mas, quanto a isso, não podemos fazer nada!… - Filomena perdera a apatia e mostrava-se claramente interessada.
- Aí é que se engana! Tive uma ideia brilhante para eliminar dois dos nossos competidores. Mas preciso da sua colaboração…
- Quem são os alvos?... – quis saber Filomena.
Elsa, a pacífica Elsa, brindou Filomena com um olhar duro, implacável. E respondeu sem hesitações.
- O Paulo e o André. Com o chinês não me meto. Deve estar bem encostado.
Filomena percebeu o que a outra queria dizer. Também a ela Zhu Lei provocava um indefetível mal-estar. No entanto, em relação ao que a colega lhe propunha, hesitou. Era uma pessoa bem formada e aquele ato repugnava à sua consciência. E, no entanto, também ela sentia os bons princípios enfraquecidos por tão longo período de tensão. Por isso, inquiriu.
- Qual é a sua ideia?...
- Muito simples. Sabotar as participações deles no trabalho final. Temos de arranjar maneira de cada uma de nós formar grupo com um deles. Depois, é só dar o golpe de forma certeira. E tem de ser simultâneo. Só com os dois fora de combate é que podemos ter a certeza de que podemos ser futuras “kirkall”!...
E Elsa, com desembaraço, explicou a Filomena o que tinha em mente.

Finalmente chegou o dia tão esperado do fim do estágio. O pesadelo estava a chegar ao fim. Os cinco candidatos apresentaram-se logo de manhã e aguardaram na sala de formação. Em todos era patente o nervosismo à exceção de Zhu Lei.
Havia-lhes sido dito que o Dr Ricardo Feio falaria com cada um deles individualmente. O primeiro a ser chamado foi André. Os outros quatro aguardaram sem proferir uma palavra. Quando este regressou, dez minutos depois, vinha extremamente abatido. Elsa olhou para Filomena e esta piscou um dos olhos quase impercetivelmente. Nenhuma das duas abriu a boca.
- Então?... – perguntou Paulo, ansioso.
- Fui excluído!...
- Como?... – perguntou Zhu Lei. Até ele estava admirado.
Mas André estava em choque. Sempre tão seguro de si, era agora a imagem viva do desânimo:
– Não percebo… Não percebo… - balbuciava.
Poucos minutos depois, Elsa foi chamada. Seguiu a senhora de fato cinzento e óculos de massa através de um corredor e foi introduzida num imenso gabinete.
Um homem estava sentado à secretária. Não o Dr Ricardo Feio, mas um indivíduo imponente, de aspeto irrepreensível, também ele vestido de cinzento e com óculos de massa. Quando Elsa entrou apontou-lhe a cadeira que tinha na frente.
- Elsa Borges? – inquiriu numa voz possante com o seu quê de musical.
- Sim, sou eu – respondeu Elsa.
O homem ergueu-se, sorriu e apertou-lhe a mão como um cavalheiro.
- Sou o Dr Gustavo Leal, responsável máximo pela Kirk Kirwang em Portugal. Devem ter-lhe dito que teria a sua entrevista final com o Dr Ricardo Feio. Está admirada por não ser recebida por ele?
- Sim – respondeu Elsa, com simplicidade. Que quereria aquilo dizer? Na Kirk Kirwang nada era o que parecia.
Mas o Dr Gustavo Leal prosseguiu imperturbável:
- Como sabe, a Kirk Kirwang raramente admite senhoras para integrarem as fileiras de “Kirkall”…
Ao escutar estas palavras, Elsa sentiu um baque interior. Meu Deus!, pensou, tanto esforço e sacrifício para nada!...
Mas o Dr Gustavo Leal prosseguiu sem se dar conta da sua perturbação.
- No entanto, depois de ponderar todos os parâmetros recolhidos durante a formação, decidimos abrir uma exceção – e a sua boca abriu-se num inesperado sorriso - Muitos parabéns! Você foi escolhida para integrar os nossos quadros!
- Quê?... Como?... – Elsa receava não estar a perceber.
- Estou a dizer-lhe que foi admitida na Kirk Kirwang.
- Oh, obrigado.
- Oh, não me agradeça. O seu perfil adequa-se na perfeição. Você revelou todas as aptidões necessárias, a começar por uma extraordinária vontade de vencer.
E o chefe máximo fez uma pausa e a sua expressão endureceu:
- Posso garantir-lhe que as pessoas selecionadas são as que demonstraram de forma cabal possuírem o fogo interior necessário para trucidar os adversários. Na prática, um “kirkall” tem de ser capaz de o fazer. A Kirk Kirwang é uma empresa vencedora. E, para tanto, precisa de vencedores nas suas fileiras. E, se há vencedores, tem de haver vencidos!...
À medida que o grande chefe falava, Elsa ia arrefecendo. Trucidar os adversários?... Que conversa era aquela?...
Mas o Dr Gustavo Leal fixou Elsa com intensidade e prosseguiu:
- Sei tudo o que se passou na vossa formação – frisou - Tudo! Sei a iniciativa que teve a coragem de assumir. Sei a forma magistral como arrastou a outra estagiária para sua cúmplice. Sei a habilidade com que conseguiu substituir trechos subscritos pelos seus colegas por outros que continham ideias erróneas embebidas com mestria!...
Elsa estava atónita. Desejava saber como é que o Dr Gustavo Leal podia estar ao corrente daqueles factos, mas não tinha coragem de o questionar. Todavia, como se adivinhasse o seu pensamento, aquele perguntou:
- Está admirada por eu saber tudo isto?...
Elsa acenou afirmativamente.
- Pois é muito simples. A Kirk Kirwang é a empresa do mundo que mais investe na seleção dos seus consultores. Por isso, para além dos formadores, conta com uma Equipa de Supervisores. Os estagiários não os veem. Nem sabem quem são. Mas estão constantemente debaixo da sua estreita vigilância. Todas as suas palavras são gravadas. Todos os seus gestos são filmados. E, claro está, não há nada que introduzam ou executem nos computadores de formação da KK que não seja analisado a pente fino. Por isso, sabemos tudo.
Elsa sentiu o sangue afluir-lhe às faces.
- Que pretendem de mim, ao certo? – conseguiu articular, com um súbito pressentimento.
- Que mantenha a mesma iniciativa, o mesmo espírito de equipa!...
Elsa fixou o interlocutor sem pestanejar:
- Espírito de equipa?... – murmurou.
- Sim, Elsa – esclareceu o indivíduo com um ar subitamente paternal – Espírito de equipa com a própria Kirk Kirwang! Alguém tem de fazer certo tipo de trabalhos… Aliás, devo dizer-lhe que são os mais bem pagos!... Por isso é tão grande o rigor na seleção dos candidatos.
Elsa susteve a respiração. Tinha compreendido. Tinha sido escolhida não por ser a melhor mas por ser a pior, capaz de atraiçoar colegas e esmagar competidores. A Kirk Kirwang não queria os melhores, queria os piores, os que fossem capazes de servir de carrascos sem hesitação nem remorso. A despeito do alardeado espírito de equipa, os mais capacitados haviam eliminado os outros. E ela passara no teste!...
- Posso saber quem são os outros selecionados?...
Gustavo Leal soltou uma gargalhada.
- Precisa mesmo que lhe diga?... Não o sabe já?...
Elsa olhou-o com cumplicidade. Um súbito fogo tomava conta do seu peito. Um fogo que ela já se acostumara a sentir, desde que pela primeira vez pisara o chão da Kirk Kirwang. Só que agora era mais forte, mais incontornável. Já não era a mesma. Ninguém saía incólume de uma experiência como aquela. Os fins justificavam os meios. Fora a primeira vez que praticara um ato condenável. Perpetrara o crime sem qualquer remorso. E a sensação que daí retirara não lhe desagradara. Agora, conhecia a embriaguez da verdadeira adrenalina. E, de súbito, sentiu-se cheia de energia, fria e cortante como uma lâmina, capaz de dominar o mundo.
- Percebeu bem que funções lhe estão destinadas? – perguntou o chefe máximo.
- Muito bem - respondeu.
- E que me diz?... Aceita?...
Durante apenas um segundo Elsa olhou pela janela a cidade acinzentada e inóspita. Depois o seu olhar fixou-se na parede, em dois “K” entrelaçados sobre um fundo estelar.
- Aceito!

Adelina Velho da Palma

 

veja tambem da autora:

 
autora              Publicações            anexo
 

 

 

ÍNDICE DE SEBOS

 

Registre sua opinião no

Livro de Visitas: