Sebo - Adelina Velho da Palma-SONETOS

SEBO LITERÁRIO

SONETOS SATÍRICOS

autor

Adelina Velho da Palma

 

página 3

 

 

 

 

O ASTRÓLOGO


Formou-se em astros por correspondência
nunca os olhos ergueu pró firmamento,
diminuto é o seu conhecimento
e muito fraca a sua inteligência...

Graças a cunhas e certa aparência
administra um consultório de vento
no qual explora sem constrangimento
os que acreditam na sua ciência...

Desenha pretensas cartas astrais
faz previsões menos que triviais
dizendo-se um astrólogo humanista...

Mas não é mais que fraude badalada
que não sabe fazer nada de nada
exceto assim viver… como um chupista!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

O MAL DISPOSTO


Acorda sonolento e carrancudo
logo após fica tenso e apressado,
à mínima questão ruge zangado
e imita um cego-surdo-mudo...

Sai de casa alheado de tudo
o que não seja o seu mundo privado,
durante o dia vive encapsulado
numa lide quixotesca de entrudo…

Regressa de focinho derreado
cheio de caspa no couro cabeludo
e com o arcaboiço anquilosado...

No fim vai com falinhas de veludo
tentar parceiro pró sapateado
receoso de acabar em cornudo!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

A CRIA MALFORMADA


Tu bem sabes que essa cria não presta,
de semente bichosa foi gerada,
com seiva poluída alimentada
e medrou hipócrita e imodesta...

Tanto sabes, que buscas uma fresta
que, por entre a maldade descarada,
revele uma afeição desinteressada,
uma atitude sincera e honesta...

Se sabes!... Mas teu amor encabresta,
constrói castelos a partir de nada
enquanto a mente o coração contesta...

Esquece a cria infame e malformada!...
Aceita-lhe a natureza funesta
e ama as outras crias da ninhada!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

O INSETO

 
Teus olhos são ocelos de mosquito
talhados em polígonos cruéis,
as pernas, finas como dois cordéis
sustentam teu enfezado corpito...

Contudo, tu supões-te bem bonito
- o mais belo de todos os donzéis,
nem vês que de entre todos os papéis
o teu é o mais tolo e esquisito...

Malgrado a tua dimensão franzina,
graças à carapaça de quitina
manténs uma estrutura das mais toscas...

Mas digno tu não és de carabina!...
Hás de morrer da forma mais cretina
calcado sob um reles mata-moscas!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

A PRENDA


É uma prenda de quem não quer dar prenda
mas faz questão de comprar uma prenda
pra que quem a recebe como prenda
não possa dizer que não teve prenda...

É uma prenda de quem detesta a prenda
e detesta a quem se destina a prenda
e no ato de ofertar essa prenda
faz do rancor a sua maior prenda...

É uma prenda armadilhada de prenda
que apesar de disfarçada de prenda
constitui o oposto duma prenda...

É uma prenda pra quem recebe a prenda
perceber que do dador desta prenda
jamais receberá alguma prenda!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

O GRITADOR


Passas-te por dá cá aquela palha,
ficas trémulo, ofegante, vermelho,
- mas eu sei que és apenas um coelho
sem brio e sem coragem que te valha...

Gritas e ameaças quem trabalha
com maneiras de líder de grupelho,
- mas só ganhas parecer um fedelho
e mostrar que no fundo és um canalha!...

Não decides por ti nada de nada,
cingindo-te a propagar a estocada
daqueles que devias chefiar...

Mas teu destino há muito foi traçado
- serão teus cães de fila, lado a lado,
que amanhã te virão abocanhar!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

A METAMORFOSE


Sereno, bem disposto e sorridente
exalas um encanto irresistível
pautado por discurso compatível
com a educação mais excelente…

Mas se ligeira brisa de repente
esfria teu nariz hipersensível
dá-se em ti mutação, e tão terrível
que causa o mor espanto em toda a gente…

Tornas-te numa uma besta mui quadrada
de gesto tresloucado e voz airada
arrogante, ridículo e grosseiro…

Ah quão bizarra é a raça humana
que mistura na mesma porcelana
o bom e o mau, o nobre e o carroceiro!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

O IMPORTANTE


És importante, sim, muito importante,
de uma importância extraordinária,
que ofusca como uma luminária
mantendo a reles turba bem distante…

És duma tal maneira importante
que transcendes a escala planetária,
em órbita plenipotenciária
de arrogância, de usura e de desplante!...

Em boa verdade és tão importante
que não resta importância excedentária
para o mais meritório figurante…

Mas – ai de ti – a Glória é bem precária,
e qual buraco negro extravagante
acabarás numa implosão sumária...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

OS INGRATOS


Vorazes e bem mal-agradecidos,
direito julgam ter sempre a benesses
e à consecução dos seus interesses
subordinam afetos e partidos…

Rotulando os demais de bem supridos
calculam, organizam as quermesses
que disfarçam com mui divinas preces
pra lucrarem e serem aplaudidos…

Dão presentes inúteis e batidos
nessa exata medida do que são
e não de quem recebe os seus sortidos…

E apesar de mesquinha essa gestão
permanecem surpresos, ofendidos
se ouvirem de um alguém rotundo NÃO!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

 

O NEGÓCIO


Bolaste um negócio exclusivo
de uma certa forma original:
tanto quanto tu és especial,
tanto quanto ele é rebarbativo...

Pra lançar tal negócio putativo
fizeste promoções de carnaval,
deste sociedade ao Pai Natal,
arranjaste um fiador compassivo …

Mas ninguém sente o mínimo incentivo
pra comprar um burgesso virtual
imaginado a talhe compulsivo…

Portanto o teu negócio genial
não é útil,tampouco lucrativo,
e por isso só pode acabar mal...

Adelina Velho da Palma

 

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