Sebo - Adelina Velho da Palma-SONETOS

SEBO LITERÁRIO

POEMAS EM REDONDILHA MAIOR

autor

Adelina Velho da Palma

 

 

página 6

 

 

 

 

HINO À MATEMÁTICA




Eu canto a tua beleza
ó rainha das ciências,
fora de ti a certeza
é apenas aparências...

Toda tu és perfeição
de lógica inabalável,
abstracta inspiração,
sempiterna, invariável!

Enquanto as outras ciências
vivem de investigação,
tu dispensas experiências
só da mente és construção!

Por isso foste a primeira
e tudo a ti se reduz,
nasceste desta maneira:
- Agora faça-se a luz!

És feita de absoluto
e por isso és intangível,
para tudo tens soluto
somente tu és credível!

A lógica em ti reside,
fora de ti nada a tem,
por isso só quem decide
com base em ti o faz bem...

Sobrepões-te ao que é vulgar,
pairas sobre o que é real,
mas consegues modelar
mais que qualquer material...

E apesar de imutável
derivas constantemente,
evoluindo notável
de ti mesma dependente!

Ninguém deixas indiferente,
geras emoção a esmo:
ódio de quem te é temente,
quem te entende, ama-te mesmo!...

 

Adelina Velho da Palma

 

 

 

 

 

AS TIAS


Falam alto e com voz grossa
pra chamar a atenção,
no seu espírito não esboça
recato ou educação!...

Discursam com arrogância
para toda a gente ouvir,
e mesmo a meia distância
é impossível fugir...

E as palavras proferidas
nunca têm relevância,
são ideias repetidas
sem rigor nem substância...

Todos tratam por “você”
mesmo a família chegada,
seu juízo não prevê
chamada diferenciada...

E até os queridos filhos
para o gene honrarem bem
seguem atentos os trilhos:
chamam “tia” à própria mãe!

Aspeto característico
desde a roupa à maquilhagem,
quase que trazem um dístico
que as distingue na paisagem...

Usualmente o cabelo
é comprido e com madeixas,
por muito que esteja belo
dele têm sempre queixas...

Estão sempre muito adornadas
anéis e pulseiras mil,
que tilintam encantadas
numa atitude imbecil…

Habitam em certas áreas
geográficas balizadas,
com migrações temporárias
para zonas demarcadas...

Bem raramente trabalham
pois nada sabem fazer,
mas às vezes desencalham
um emprego de lazer...

São tacanhas de cabeça
nem lêem uma brochura,
mas participam à beça
nos eventos da cultura!...

São cristãs na aparência
cumprem ritos a preceito,
mas a sua vera essência
é de egoísmo e despeito...

Os interesses que as guiam
são dinheiro e posição,
e quando alguém auxiliam
é por pura ostentação...

Têm muitas amizades
que nunca são verdadeiras,
e mútuas rivalidades
entrechocam-se matreiras...

Apesar de detentoras
de sofrível patamar,
têm admiradoras
que as querem sempre imitar!...

Mais haveria a contar
sobre as belas personagens,
mas não quero ultrapassar
do poema as suas margens...

Mas vou registando tudo
destes seres e seus humores,
pois apaixona-me o estudo
de espécies inferiores...

Adelina Velho da Palma

Quadra retirada da versão incluída no Inspiratrix I

 

 

 

 

 

 

A FESTA DE ANIVERSÁRIO



Vão chegando os convidados
uns mais cedo outros mais tarde,
vêm lestos, animados,
saúdam-se com alarde...

Descarregam os casacos
as malas e as carteiras,
sujam tapetes e tacos,
patinham as tijoleiras...

A desculpa pró festejo
é uns anos celebrar
mas é um ótimo ensejo
da casa nova mostrar...

O aniversariante
é abraçado e beijado
com abraço sufocante
e com beijo cuspinhado!...

Presente dispendioso
é mostrado a toda a gente
por quem o deu orgulhoso
numa ostentação patente...

Presente mais baratucho
tem de ser bem disfarçado
pra ser tido por um luxo
sem um sorriso forçado...

Espreita-se às escondidas
pra ver o que é que se come
pra avaliar se as comidas
justificaram a fome!...

Mas enquanto se não come
regala beber sem rede
porque além da dita fome
também se traz muita sede!...

Patés, queijos e salgados
atraem a atenção
prontamente devorados
com grande sofreguidão!...

E depois de saciado
o apetite mais urgente
respira-se aliviado
repara-se em toda a gente...

Começa-se a conversar
formando vários grupinhos
fala-se de viajar
dos empregos, dos vizinhos...

Logo depois é servido
o conduto principal
mais ou menos repetido
por demais substancial...

As conversas esmorecem
enquanto os queixos ruminam
os vinhos desaparecem
os beberrões desatinam...

A seguir chega o esperado
pospasto de doçaria
no estômago atafulhado
inda cabe uma iguaria...

Já todos estão repletos
barrigas a rebentar
ficam sentados, quietos
jiboias a hibernar...

E por fim chega o momento
de os parabéns entoar
faz-se o frete sem alento
cai mal não participar...

O bolo de anos fatal
ainda há que provar
é achado divinal
mas ninguém o quer bisar...

E começa a debandada
pois já nada há que interesse
só quem tem sede assanhada
é que de partir se esquece...

A anfitriã diz adeus
a todos com um sorriso
mas jura pelo seu deus
pró ano ter mais juízo...

No fim vai-se avaliar
qual a verba mais subida
se é o custo do jantar
se a oferta recebida!...

Nada mais há a dizer
as festas são mesmo assim
ser convidado é prazer
dá-las… labuta sem fim...

E mesmo sendo provável
apanhar uma estopada
sinto-me uma miserável
quando não sou convidada!...

Adelina Velho da Palma

 

 

 

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