SEBO LITERÁRIO

 

 

Ariovaldo Cavarzan
 

 

 
 
VERSO E PROSA
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Benditas
Ariovaldo Cavarzan


Insondáveis sentimentos
de afeto permeiam as
Almas Benditas,
tornando-as
repositórios de sonhos
e esperanças
das almas aflitas...

Partículas iluminadas
de carinho
pousam de mansinho
sobre elas
e ao seu derredor,
fazendo desabrochar flores,
que se espalham,
como se fossem
sorrisos

Benditas Almas,
iluminadas de cor e bondade,
clareando caminhos
aos que sentem
dor e saudade,
em infinitos desvãos,
de perigos e escuridão,
de tristezas e solidão...

Almas Benditas,
que em seu flutuar,
acima do bem e do mal,
são lenitivo de paz e esperança,
indicando a certa direção
do clarão entrevisto ao longe,
no frio da escuridão...

Benditas, sim, Benditas,
porque suas mãos
soerguem as aflitas almas,

à maneira de encharcados
restos de naufrágio
oferecidos à ânsia
das que se acham perdidas,
como se fossem
pequeninos pontos agitados,
na grandiosidade do mar...

Benditas Almas Iluminadas,
que oram pelos que sofrem,
que ouvem os seus gemidos,
que choram junto,
renovando sonhos,
mentes e corações,
num abraço bem apertado,
cicatrizando feridas,
reacendendo paixões
e apontando no rumo
de um novo bem querer,
de um novo amanhecer...

05/06/08
Ariovaldo Cavarzan

Canto de Primavera
Ariovaldo Cavarzan


Passeio o meu outono
na primavera de tua vida,
sensível às nuanças de cheiros,
claridades, cores e sabores,
a ressumbrar das flores
que enfeitam teu viver.

Inspiro cheiro de rosas,
gerânios, flores-do-campo,
de açucenas e de lírios,
entregando-me ao delírio,
ao recolher restos
desabados no chão,
para tornar perfumados
passados amores,
de idos caminhos percorridos,
em felicidade, carinho e alegria,
e em miríades bem formosas.

Recolho pétalas de lembrança,
despencadas ao chão,
inertes fragmentos de flores,
relembranças de
idealizados amores,
irrealizados ramalhetes,
umedecidos em
furtivas lágrimas de emoção,
feito pedaços liquefeitos,
brotados em fonte
de inexprimível paixão.

Passeio o meu outono
através da tua primavera,
renovando-me também,
qual fênix sem vida,
morta e outra vez renascida,
infensa aos espinhos,
de dores e desatinos,
entregue tão só
a relembranças
do que restou.

Entre o meu outono
e a tua primavera,
glacial e quase-eterno,
insinuou-se o intruso inverno,
mas ainda há canteiros semeados,
também mortos e outra vez revividos,
para enfeitar de luz,
cheiros, flores, cores e ternos amores
o meu coração.


Ariovaldo Cavarzan

Catarse
Ariovaldo Cavarzan


Era feito um frêmito,
etéreo e fugaz,
uma aragem,
uma vibração,
um hausto que arrepia,
uma compulsão.

Deixou impiedosa saudade,
mergulhada em noite escura,
feito tempestade
enfeitada de dor, vazia,
eis que foi volúpia, vontade, sonho, loucura,
grito abafado no peito,
soluço entrecortando pranto,
foi entrega e desamor.

Ficaram marcas de espinho,
de caule de extinta flor,
esturricado, cruel,
tombado em seu caminho,
eis que foi desatino,
procura, pesadelo, estupor.

Era feito brisa fresca,
vôo de pássaro em calmo céu,
eis que foi sonho, mergulho,
favo de doce mel,
galho impedindo queda,
no escuro abismo
de almas ao léu.

Foi bem-querer que equilibra,
sopro brando que afaga,
feito doce flutuar,
que acode o peito
e faz sonhar.

Foi visgo em coração arredio,
vagando entre o fim e o pulsar,
colado a apertado peito,
ansiando onda a navegar,
nas águas da ilusão sem jeito.

Ao ir-se embora,
legou cheiro de mar,
quebrando na fina areia,
eis que foi loucura, compulsão,
borrifo de lágrima molhando a face,
fímbria de janela
espancando a escuridão.

Foi alegria, gozo e paz,
e depois foi dor,
cometa riscando o espaço,
faiscante de luz e cor,
sem saber onde aportar.

Foi luar que filtra estrelas,
foi abraço, amasso,
entrega, acolhida,
desvario, desmaio,
despertar e adormecer,
eis que foi começo
de novo amanhecer.

Foi sentimento, entrega, paixão,
noite que se fez dia,
tênue linha de horizonte,
palpitante de emoção.

Foi flutuar sobre escolhos,
foi verdade e ilusão,
foi sombra benfazeja,
água fresca que sacia,
luz que se irradia,
eis que foi ternura e encantamento,
foi Amor...


Ariovaldo Cavarzan

O Cordeiro e o Punhal
Ariovaldo Cavarzan


Dava para ouvir, ao longe, um triste canto de ave noturna, no quase escuro da noite, que começava a chegar.
A biquinha ficava na parte mais baixa da gleba, chamada pastinho, e seu olho d'água escorria de um cano fincado em pequena parede, fazendo transbordar um tanque e seguindo serpenteando, em gravidade, na direção da rua de terra batida.
Uma pequena horta circundava a nascente e era toda cercada, para impedir eventuais incursões das poedeiras, carijós e vermelhas, e de outros bichos criados soltos, entre arvoredos, terreiros e primitivas construções, sobre um tapete de folhas caídas.
Entre o pastinho e o chiqueiro, quase tocava o céu um enorme jaracatiá, de tronco grosso e recoberto de espinhos, enfeitado lá em cima por cachos desabrochados de uma espécie de paina, cuja alvura lhe outorgava ares encanecidos de espécime anciã.
Para a manhã seguinte daquele meio de semana, o Patriarca havia programado sacrificar um cordeiro, seguindo à risca antigo ritual, semelhante a execução consumada em requintes de crueldade.
O brilho intenso das estrelas espalhava manchas brancas no céu, contrastando com o negrume da noite postada, convocando vagalumes e grilos para um balé coreografado entre árvores, ao embalo de coaxares e cricrilares, que compunham o cenário e a trilha sonora do sono, que já se impunha aos corpos cansados.
Logo ao amanhecer, o cordeiro escolhido foi emboscado, tendo as patas traseiras amarradas, para facilitar que fosse dependurado num galho, em posição vertical, até a hora do martírio final.
Após a caneca de café com leite, o pedaço de pão amanhecido e a fatia de polenta, assada em chapa de fogão a lenha, o Patriarca afiou a fina lâmina de um punhal numa pedra guardada, arregaçou as mangas da camisa, ajeitou o chapéu, cuspiu para o lado o toco de cigarro de palha, que fazia rolar de um canto ao outro da boca e aproximou-se, decisivo, da presa, que se agitava em esgares de estertor e pavor, pressentindo o instante fatal.
Pequena e curiosa platéia aguardava o esguicho do sangue, pela fenda a ser aberta na jugular.
Foi quando dos olhos do pobre cordeiro escorreram lágrimas de desespero, fazendo frustrar a consumação da degola.
Por um átimo, o Patriarca estancou, afagou com a mão a cabeça do condenado, olhou para o céu de um sol recém apontado, e ordenou a soltura da presa, ensejando a que desabasse ao chão e, aos pulos, desaparecesse por entre a vegetação.
Bem perto dali, ouviam-se grunhidos entrecortando a respiração escandalosa dos porcos, segregados no chiqueiro da pequena propriedade, ex-candidatos ao mesmo fim.
A partir desse dia, nunca mais se viu função alguma ser outorgada à lâmina fina e afiada daquele punhal.
Estava chegando mais um Dia de Natal.

Ariovaldo Cavarzan

A era do amor
Ariovaldo Cavarzan


Silenciem-se remorsos e murmúrios de saudade, eis que é chegada a era da felicidade.
Em lugar de masmorras, semeiem-se jardins, e onde vicejem dores, que ressumbrem doces perfumes de amores.
Que suaves augúrios encham o ar, e arrepios festivos façam vibrar de alegria almas que se tinham incapazes de amar.
Que se busquem refrigério em frondosas sombras recortadas no caminho, e na água fresca brotada em nascentes de fé, até que o manto estrelado da noite se faça de novo estender, unificando tudo e restaurando a paz.
Através do tênue fio que se insere entre o sonho e o real, escorrem paixões, tentando embalar corações acima do bem e do mal.
Perdigueiros aboiam patos em campos de flores, e despossuídos grafitam guernicas de bonança em muros esburacados, ensaiando cenários de banquetes de restos.
Pregoeiros de amanheceres felizes exercem seus misteres, e já vai longe o barco das perdidas ilusões, singrando águas calmas em rios de recordações.
Imperioso manter-se em jornada, a sós ou de mãos dadas, eis que os riscos se esvaem em desvãos da caminhada, e já vem perto a hora da chegada.
Um frêmito de realidade faz estancar quixotescos moinhos de vento, ao olhar aturdido de patifes e heróis.
Árias de regozijo, fazem bailar maledicências e bondades, feito sonhos transmudados em folhas, sopradas num mesmo e delicado dançar.
Das entranhas da Terra, do fogo, do ar e das águas do mar, emergem tempos de verdades, desfazendo grilhões que aprisionavam irremediáveis vontades.
É chegada, enfim, a doce e ansiada era do amor.

24/03/2010
Ariovaldo Cavarzan

 

Livro de Visitas

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