SEBO LITERÁRIO

 

 

Ariovaldo Cavarzan
 

 

 
 
VERSO E PROSA
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Ouve...
Ariovaldo Cavarzan


Ouve...

Lá fora,
o silêncio.
É a solidão
das coisas que
adormecem.

Repara...

Aqui dentro,
nós.
Corações angustiados,
ansiando preencher
este nada
que somos.

Pondera...

Enquanto não
houver paz
em nossas vidas,
continuaremos sendo
nós,
aqui dentro.

E as coisas permanecerão
solitárias e adormecidas,
em silêncio,
lá fora.

Ouve...

Itapira, 1967
Ariovaldo Cavarzan

 

Saudade
Ariovaldo Cavarzan


Saudade de amor
é como beira de abismo,
perigosa, escura e fria,
apertando o nó da dor.

Sonhos, gorjeios de aves,
musicando céu de emoção,
feito cinzéis bem suaves,
que modelam coração.

Não há instante na vida
mais cruel e arrasador,
que o de alma em precipício,
a ensaiar despedida,
plantando a saudade
mais doída.

15/09/2010
Ariovaldo Cavarzan

 

A Pedra Afastada
Ariovaldo Cavarzan


Não mais a turba enfezada,
a populacha, a multidão,
a agressão tresloucada,
o clamor, a crucificação.

Ora a paz no sepulcro entreaberto,
a vibração de Amor, a ressurreição.

A morte, no vão da pedra enquistada,
transmudou-se em vida iluminada,
a gravitar em pulsantes lampejos,
espancando a escuridão.

Alcandorada alma levita,
por sobre o fundo grotão,
rogando ao Pai compaixão,
em perdão à humana desdita,
por carência de amor no coração.

Sublimes mãos que se exalçam,
sob nuvens de algodão,
ascendendo ao firmamento,
em mansuetude e perdão.

Num até sempre acenado,
sem tristeza e sem adeus,
regressa, enfim, o Filho Amado,
aos amorosos braços de Deus.

Vida em martírio vivida,
em tristeza, em solidão,
amor ressumbrado e vertido,
na cruz, em infinda paixão.

Suave brisa farfalha o etéreo manto,
feito sopro de carinho,
em madeixas de Irmão do caminho,
fazendo secar todo o pranto.

Vida reviva em verdade,
fraternal legado, doação,
amor que excede a maldade,
imortalidade sobrevinda à aflição,
luz reacesa na escuridão.

Havia um corpo ali.

Pelo vão da pedra afastada,
deixou-se evolar a Luz,
em lição eternal recitada,
pelo divino Mestre, Jesus.

Campinas, 21/03/2012
Ariovaldo Cavarzan

 

Lenda do Sol e da Lua
Ariovaldo Cavarzan



Conta-se que, nos primórdios dos tempos,
ordenou ao Sol o Criador, que declarasse
à Lua todo o seu amor.
O Sol, então, assim se fez revelar:
"Em minhas tardias auroras, me encontrarás escondido
por trás dos everestes do mundo, tornando imperturbável
a apoteose do teu luar, ao derramar derradeiras
réstias de luz, festejando a minha chegada.
"Serei tua fonte inspiradora, teu modelo e teu fanal,
e serás minha musa encantada,
em noites enluaradas, a propagar claridades
aos confins semeados de estrelas.
"Partilharemos um jogo de brincadeiras,
quando te acercares de mim e eu de ti.
"Vez ou outra, te esconderás nos himalaias do mundo,
para não empanar minha soberana presença.
"Espargirei luz e calor, aquecendo almas nervosas,
acalentando cenários de pelejas, em enredos de
ganâncias e desamores, até ver outra vez restaurada
a esperança.

"Depois, lentamente me afastarei, para de novo legar-te
o frio escuro da noite, a fim de que sobre ele faças
resplandecer tua delicada presença, lenindo feridas
de amores, dores e partidas, embalando anseios,
em afagos de sonhos e ternas paixões.
"Restarão indícios de felicidade e tristeza,
no pulsar descompassado dos corações românticos,
aconchegados em teu sublime regaço.
"Perceberás suspiros e prantos na dor dos perdidos,
dos fracos, dos desvalidos, e dos órfãos de amores idos.
"No bailado desconexo das borboletas,
descobrirás o mesmo princípio que sustém os voos
das aves, no céu, telegrafando a eterna mensagem
da vida.
"Pirilampos acenderão estrelas, em noites de lua cheia
e aves marinhas arriscarão vertigens sobre cristas
de ondas, desenhando os altos e baixos das
humanas vicissitudes.
"Tua encantada luz adornará o ir e vir das águas
que farão restar espuma por sobre as rochas,
feito sussurros brotados em searas de fé,
ou borrifos a escorrer em faces ansiosas,
iguais lágrimas vertidas em miragens e solidões.

"De tempos em tempos, algum cometa atrevido
se imiscuirá entre nós, tentando roubar a cena
nas noites do teu luar, coriscando fugazes visitas,
como fugazes serão as humanas ilusões.
"Impassível, seguirei contemplando os insanos
volteios do mundo, orbitando ao redor de mim,
imantado à tua magnética e romântica presença,
compondo o claro-escuro das viventes almas,
confusas entre o sonho e o real.
Por fim, encenaremos juntos o espetáculo de
nossos eclipses, saindo de cena para novamente voltar,
para provar ser possível deixar-se morrer
para outra vez renascer,
feito almas que jamais deixarão de se amar.


11/01/2011
Ariovaldo Cavarzan

 

 Lenda dos Fios d'água
Ariovaldo Cavarzan


Conta-se que há muito tempo, viajores cansados buscaram refazimento,
à sombra de um caramanchão, para contar relembranças,
ouvindo o cantar de fios d'água, a levar pra bem longe esperanças,
guardadas no coração.
Vida que esvai e que escorre, é feito fio d'água guiado em leito de pedra,
acidentado, fresco e curvo, ora cristalino e ora turvo, a arrastar nuanças de bem e de mal querer, ou sonhos que nunca se quer esquecer.
Impossível convergir a um só curso, fios afluentes a deslizar paralelos, eis que um mesmo destino um dia os irá misturar.
Impensável fundí-los num só, se a cada qual ficou decidida
diversa e especial caminhada, às vezes cumprida
em mesma e acidentada jornada.
Seguem alegres os fios d'água, ora abraçando ondulações
em seus leitos de pedra, ora deslizando em calmarias de profundos grotões e ora despencando em decepções.
Importa seguir enfeitados do colorido de flores e borboletas,
em seus bailados desajeitados e em algazarras brincalhonas da passarada,
que a sede ali vem saciar, eis que todos devem seguir a voar.
Escorram cantantes fios d'água, em sinas de nunca voltar,
sonhando um sonho sem mágoa, esperando um dia poder se juntar
ao murmúrio festivo das águas do mar.

14/04/2010
Ariovaldo Cavarzan

 

Livro de Visitas

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