SEBO LITERÁRIO

 

 

Ariovaldo Cavarzan
 

 

 
 
VERSO E PROSA
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Lenda do Amor , do Ódio e da Dor
Ariovaldo Cavarzan


Conta-se que nos primórdios da construção das palavras, ocupou-se o artesão em separar apenas seis letras, para com elas representar os extremos dos humanos sentimentos: o Amor e o ódio.
Ao concebê-las assim, paradoxais e incompatíveis, cuidou de acomodar em ambas uma mesma e única letra, a fim de que, para todo o sempre restassem entrelaçadas, conforme a gênese que inspirou suas criações.

 

A m o r
     d
     i
      o


A partir de então, o Amor passou a pairar acima do ódio, deixando-se exaurir através da única letra igual entre ambos, feito gotejar de lágrimas, a escorrer ao encontro do chão.
Com o passar do tempo, tornou-se inevitável conceber outra palavra, para representar a filha dileta dessa co-relação: a dor.
Dedicou-se então o artesão a ajustar nova estrutura entre elas, passando a monossílaba dor, por mais leve, a equilibrar-se de cima para baixo, apoiando-se na última casa do Amor, enquanto a pesada ódio a seguir cadente da penúltima, a fim de render-se à evidência de que, atuando por sobre ela e o Amor, passaria a existir para todo o sempre a dor.

 

            d
            o
A m o r
     d
     i
      o


Firmou-se assim a grande e eterna lição:
Enquanto a dor se equilibra no Amor
e nele se faz apoiar,
o ódio dele se faz derramar,
intentando fazê-lo findar.

Campinas, 26/07/2012
Ariovaldo Cavarzan

 

Pipas na parede
Ariovaldo Cavarzan


Eram de diversos tamanhos e variados matizes de verde, azul, amarelo e vermelho, farfalhando ao sopro da brisa fresca da manhã, penduradas em pequenos pregos fincados na parede, ao lado do espelho.
Eram rabicós, ou com longas caudas e rabichos laterais, para maior equilíbrio, quando içadas ao céu.
As etapas de criação iam do recorte do papel manteiga, ao afilamento das varetas de bambu e sua fixação, com pedacinhos de papel untados em cola de farinha, eis que quase nunca se podia contar com a goma arábica essencial.
A arte mais importante consistia em vergar no ângulo certo a vareta do meio, de forma que pudesse ficar um pouco arqueada, depois que a pipa estivesse toda colada, efeito que se conseguia com um discreto enrolar da linha nas extremidades da vareta, no exato ponto onde já se achava amarrada, ensejando a que, com suavidade e elegância, a pipa pudesse ser empinada.
Era com a maior alegria que se aguardava o dia seguinte, a ser vivenciado entre meninos de pés descalços, calças puídas e bufantes, sustidas em suspensórios que se cruzavam nas costas, no melhor estilo pinto calçudo.
A simples contemplação das pipas, na parede da casa, constituia ingrediente infalível ao bom sono da noite, povoado de sonhos que enfeitavam o amanhã.
Outra criação encantada era a maquininha, espécie de carretel esculpido em tabuinhas de madeira, encaixadas em forma de cruz e trespassadas por grosso arame a lhes servir de manivela, tudo apoiado em pequenas ripas de madeira, dispostas em sustentações laterais e em base retangular.
A linha dez ainda não conhecia a maldade do cerol e o dia seguinte já se prenunciava com nova e inesquecível competição, após o café preto e a fatia de pão, para ver quem empinava mais alto a pipa, façanha às vezes somente atestada pelo teor da umidade trazida de volta por aquelas recolhidas de seus passeios às cercanias das nuvens, eis que tinham por limite apenas o céu.
Vez ou outra, a barriga da pipa era o destino de bilhetinhos, que subiam saracoteantes pela linha, levando registros de sonhos de meninos.

Sempre que pendurava pipas na parede da casa, o filho do Patriarca fazia transcender sua imagem, de caprichoso artesão e pai amoroso de filhos do seu coração, a quem ensinava segredos de pipas, linhas, bilhetinhos, maquininhas e colas de farinha.
Importante era não deixar a pipa dar cabeçadas, pegar carona em ventanias, forçar muito para cima, inclinar-se para baixo, perder altitude, ou mesmo projetar-se, em parafuso, de encontro ao chão.
A linha tinha que ser presa a um ponto certo da barriga, um pouquinho acima do meio, feito situações de lida que nos fazem equilibrar entre o partir e o ficar.
Do chão do terreiro, era solta ou recolhida a linha mensageira, em tenteios manuais e manobras de carretilha, movida a manivela de arame.
Às vezes, rompia-se a linha, levando consigo sonhos e trabalho de quase uma noite inteira, umedecidos em lágrimas de meninos que já se ajustavam a choros de futuros sonhos de vida, sonhados na contemplação de paredes de muitos pregos, fincados para pendurar Volpis, Henrys, Aldemires e Ínos.
Mas quadros não são pipas e não farfalham ao sopro da brisa fresca das manhãs.

29/01/2010
Ariovaldo Cavarzan

 

Eu Quis
Ariovaldo Cavarzan


Dos embates da lida,
eu quis a vivência;
da verdade,
a inteira aparência,
como luz a aclarar
umbrais de inocência.

De dores e amores,
eu quis sapiência
e entre paz e temores,
a fé sem ausência.

Ante incertezas,
eu quis inquietação,
buscando erigir na esperança,
a força do meu coração.

Quis em escarpas por caminho,
enredar fardos de provações,
e também suspirar sozinho,
para sentir brisa fresca,
em suaves dosséis de emoções.

Quis semear e ver florescer
frutos de serena vontade,
aflorados em calmaria
de searas de bondade.

Quis sorver ares
de bonança e ansiedade,
de espera e inquietação,
buscando entender,
nos mistérios da saudade,
os descompassos do meu coração.

Quis saciar-me na luz,
irradiar, ser fanal, farol,
quis sofrer, quis amar,
transcender, flutuar,
e em janelas de sol
debruçar.

Quis firmeza de fé,
e em acalantos de amor,
a paz alcançar.

Quis ser sábio e humilde,
paciente e destemido,
feito planta de esperança
que o açoite da ventania
não consegue vergar.

Quis ser forte,
calmo, sereno, heróico,
mesmo diante da morte,
para sentir-me estóico,
protetor, ajudante, cuidador,
despenseiro de amor,
e alcançar norte de vencedor,
mesmo que para isso
preciso fosse chorar.

E para bem prover
esse todo meu querer,
do bem Alto uma voz sentenciou:
Vai!
E o amoroso Deus Criador,
simplesmente me fez
Pai.


Ariovaldo Cavarzan

 

Teatro e Vida
Ariovaldo Cavarzan


Fantasmas vagueiam por sobre a contrita platéia:
Sófocles, Carmen, Otelo, Aída,
Quasimodo, Nabuco, Medéia...

Deuses e mitos coreografam um balé
de fogos fátuos,
bruxuleando a cândida canção
da eterna clonagem da vida.

Do proscênio à platéia,
um mudo calafrio paralisa e faz pasmar,
os rendidos à hipnótica claridade
que ressumbra de sobre a ribalta,
olhos fitos no palco,
sonhando o sonho dos mascarados,
dos infelizes e desesperados,
no lapso do abrir e fechar da cortina,
sem perceber o paradoxo da própria sina.

A cada nova função, em cenários de alegria e dor,
de guerra e paz, despojamento e esplendor,
teatro e vida mais e mais se confundem,
contrapondo patifes e heróis,
num mesmo e tresloucado ato:
tragédia, drama, comédia,
canto, ópera, canção...

Personagens anônimos,
mártires, ídolos e espectantes, atônitos,
brandem clandestinas armas,
imitando bastidores de vida e emoções,
alheios a frisas, camarotes e balcões.

Espíritos líricos levitam
por sobre ensombrecidas cabeças,
quais ondulantes e esgarçados
retalhos de luz,
esvaindo aos suspiros gelados do ar.

É Sísifo voltando,
para ordenar o rito da apoteose:
o recomeço do sublime dom de esperar.
- 2 -
Ato, cena, aplauso, vaia.
Colorida gambiarra ofusca,
acima da ribalta.

Mágicos, palhaços, atores,
protagonistas, regentes, tenores,
autores, assistentes, diretores, figurantes,
ressurgem em seleta emoção.

É o teatro que imita a vida?
Não!
É a própria vida
vibrando ao compasso
de eterna emoção.

18/03/2011
Ariovaldo Cavarzan

 

Meu céu, cheio de estrelas
Ariovaldo Cavarzan


Às vezes, fico imaginando como haveria de ser bom, se um dia eu pudesse transformar o teto do meu quarto de dormir, num pontilhado de pequenas estrelas, cometas, naves espaciais, planetas, luas e sóis, que se tornassem visíveis quando a última lâmpada se apagasse e a noite viesse me chamar para o repouso do corpo e o espairecimento da alma.
Seriam pequenos pontos luminosos ali espalhados, de propósito, para dar-me a impressão de estar repousando ao ar livre e de alma também liberta para voar, contemplando o espaço infinito e sonhando os sonhos dos corações apaixonados.
Entre as estrelas, uma certamente haveria especial, por representar, a um só tempo, meu ponto de apoio e repositório de minha paz e meus pavores, de minhas angústias e meus humores, de minhas alegrias e meus temores.
Quando, às vezes, me pegasse desperto, entre os sobressaltos de madrugadas mal dormidas, o que certamente faria, em primeiro lugar, seria procurar pela minha estrela querida, para com ela trocar confidências de desapontamentos, incertezas, decepções, alegrias e tristezas, para, quem sabe, com a ajuda dela, conseguir compor com serenidade o cenário do novo dia que estivesse por chegar.
E, quando me visse novamente caminhando pelos muitos caminhos da vida, que eu pudesse seguir sempre em frente, imaginando que, embora em plena luz do dia, aquela linda estrela do teto do meu quarto de dormir, haveria de estar me acompanhando, concorrendo com a sua luz para a claridade de um novo dia e velando para que os desafios de minhas andanças se transformassem em lições capazes de me modificar, a cada dia, numa pessoa um pouco melhor.
Se assim pudesse acontecer, certamente o meu coração se abriria para o entendimento de que a felicidade verdadeira somente se concretiza ante a certeza da existência de algo ou alguém, capaz de estar sempre por perto da gente, velando por nossos passos, por nossa vida.
De que a existência de cada um, na face da Terra, não pode prescindir de um ponto de apoio, um ombro, um abraço amigo, uma afinidade verdadeira, um carinho, um amor acalentado e generoso.
De que pessoas são como estrelas que marcam presença incessante em nossas vidas, plantando lembranças eternas em nossos corações.
De que é indispensável sentir-se bem por estar perto de alguém, nem que seja através de uma simples lembrança, uma vibração.
E sempre que me visse ante os umbrais de uma nova noite, e enquanto o sono não me fizesse prostrar, cuidaria de também entregar-me a lembranças gostosas de amores absolutos e carinhos verdadeiros, às vezes permutados sob um céu cheio de estrelas, como aquele que bem poderia estar reproduzido no teto do meu quarto de dormir.
Deixar-me-ia levar por reminiscências de arrepios e adrenalinas que somente os amantes verdadeiros conseguem experimentar.
E a cada novo dia, sentir-me-ia renascido e pronto para seguir em frente em meus insondáveis caminhos, destemido e disposto para enfrentar e vencer todos os desafios.
E guardaria comigo a acalentada imagem de minha estrela querida, meu ponto de apoio, sempre pronta para me acudir em noites insones e em dias de caminhadas sem temor.
Tornaria sempre presente a lembrança de sua luminescência envolvente, silenciosa e boa, e de sua imagem querida, gravada para sempre em meu coração.
E voltaria a me imaginar liberto para navegar através do meu céu, pontilhado de estrelas, sempre visíveis, para me asserenar em madrugadas de sobressaltos e dias de alegrias e incertezas, nunca deixando que eu me sentisse só.
E se tudo isso pudesse mesmo acontecer assim, a cada nova noite, eu certamente não veria a hora de apagar as luzes do meu quarto de dormir.


29/03/2007
Ariovaldo Cavarzan

 

Livro de Visitas

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