SEBO LITERÁRIO

 

 

Ariovaldo Cavarzan
 

 

 
 
VERSO E PROSA
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Te Amo
Ariovaldo Cavarzan


Como a claridade, que escancara
cada novo dia,
te amo.

Como a melodia que soa
ao embalo gostoso das horas,
te amo...

Como a calma beleza
que ressumbra em teu olhar,
como o sol, a chuva, a noite,
e cada novo amanhecer,
meu coração bate acelerado e feliz,
porque te amo.

Agosto/2008
(Atualizado e apartado de Ciranda Poética reunindo 30 participantes, sob a coordenação de Naida Terra, do mês de agosto de 2008)

Ariovaldo Cavarzan

 

Liberdade
Ariovaldo Cavarzan


Do rés do chão de navios,
ecoavam negros murmúrios,
em cadência de tantãs e atabaques,
prenunciando tristes augúrios.

Ai!... ia e vinha o lamento,
da caixa escura a vogar,
mareando cabeças e fazendo chorar.

A tal infindo singrar,
sobreveio duro trato ao chão,
no manejo de enxada e enxadão,
na longa noite da escravidão.

Troncos, terreiros, correntes,
senzalas, sinhás, senhores,
catres, chibatas, feitores,
em vão intentavam a revolta vergar.

Lanhos em lombos sulcados,
sonhos de liberdade faziam jorrar,
maculando açoites de maldades,
feito soluços que não queriam cessar.

Cotas de dor repartidas,
flagrantes de crueldades vertidas,
em boletos de eterno pagar.

Liberdade, de quantos Palmares irás precisar?

Canta enfim o campo em flor,
de uma heróica gente a dor,
que se de aflição chorava outrora o canto,
de alegria exulta agora o pranto,
na liberdade que um dia viu raiar.

Campinas, 13/05/2011
Ariovaldo Cavarzan

 

Decreto do Dia dos Namorados
Ariovaldo Cavarzan


Aos doze dias do mês de junho, de todos os anos e de todo o sempre, fica decretado que a frase “Felizes para sempre...” passa a ter a seguinte redação: “Felizes, para sempre se amarão.”
Justificativa: Relações a dois resultam de preciosos momentos de escolha, consolidando-se em instantes de convergência de vontades entre parceiros, a compartilhar vibrações de empatia, afeição, amizade, paixão e cumplicidade, ingredientes essenciais para que prospere o acalentado amor, verdadeiro e para sempre.
De considerar, também, que uniões entre pessoas, devem firmar-se em raízes de espiritualidade, transcendentais ao plano das cogitações meramente materiais, impondo-se como compromissos de eternidade.
O código secreto que se faz revelar nas entrelinhas, tanto na frase ora modificada, como nas relações a dois, pode ser decifrado numa só palavra: "Felicidade",
nomeadora da seara sobre a qual os que se escolhem deitarão sementes de tolerância e bondade, respeito e perdão, humildade e paciência, compreensão e companhia, cumplicidade e proteção, fraternidade e parceria, carinho e admiração, fé, esperança e amizade.
Dessa semeadura, nascerão flores, que enfeitarão canteiros ao longo da jornada e que nunca deverão ser colhidas, de forma a emoldurar de colores e beleza o caminho já palmilhado e ensejar a que, quando um ou outro sentir vontade de
dar-se um tempo, a fim de respirar fundo e olhar à retaguarda, possa contemplar o lindo jardim já plantado.
A ninguém será dado vivenciar e doar amor verdadeiro, se não vibrar em Felicidade, eis que relações a dois carecem de ser compartilhadas, recicladas, findas e outra vez retomadas, feito degraus de uma escada, a melhorar parceiros, ao final de cada chegada.
Amor, maduro e real, é construção cotidiana, enfeitada de desafios a serem vencidos sem indecisões, feito alavancas de vida, a modificar pessoas
e moldar corações.
Quando o Criador nos propõe desafios ao longo da jornada, às vezes em forma de angústia, outras de dor, atua como cuidador a demonstrar-nos a todos o Seu infinito amor, eis que dificuldades são oportunidades de abreviar a escalada.
"Sempre" é outra palavra-mágica a ser decifrada, se cotejada com a brevidade da vida, que a todos nos foi outorgada, eis que, se à eternidade comparada, não passará de um átimo, um relâmpago, uma faísca elétrica descarregada, feito fatos de vida passados, que embora pareçam ontem, ficaram bem longe, na estrada.
Importa não adiar expressões de afeto, como "não tenha medo", "eu estou aqui, do seu lado", "você pode contar comigo", "vai dar tudo certo", "você vai conseguir", "eu lhe darei proteção", "eu cuidarei de você...", ou como a doce pergunta a ser sempre compartilhada: "Eu estou fazendo você feliz?".
Porque, a fugacidade da vida está a indicar que, daqui a pouco, poderá ser tarde demais.
Felizes, para sempre se amarão.
Revogam-se as disposições em contrário.

Campinas, 12 de junho
Ariovaldo Cavarzan

 

O Beato
Ariovaldo Cavarzan


Com as palmas das mãos voltadas ao alto, abeirou-se o beato da língua d’água que vai desmaiar em espuma, na areia.
Descompassado batuque de tralhas, fazia ecoar estertores de vida, ressoando solidões de amores, deixadas em trilhas perdidas, que o tempo apagou.
Braços erguidos e olhar perdido no céu, murmurou o pobre devoto clamores vazios, em furtivos abraços e volteios vadios, coreografando intimista escarcéu.
Promíscuas lágrimas vertiam, diluídas na cumplicidade de borrifos de areia e sal.
- Arrependei-vos, ó almas pecadoras! Clamava o místico por vez derradeira, feito perjúrio, ou maldição, entoada em caixa de ressonância de maltratada dentição e em moldura de desgrenhadas madeixas.
Ultimava-se ali nova apoteose de lida, na eternal e quixotesca batalha do bem contra o mal, perdida no sonho de um dia deixar-se render à grandeza do mar, qual desdenhado filete de rio, a serpentear, sem volta, em pedregoso leito de estio.
Passantes anônimos, nem de longe suspeitavam da cena que ali se estava a presenciar.
Ao longe, intrépido guarda-vidas acalmava aflições, em bem afastada imprudência, ao sabor de águas mais fundas.
Que cruéis circunstâncias relegam andarilhos ao viver marginal, reféns de andrajos e sarjetas, embaixo de pontes e de línguas d’água que desmaiam em espuma, em vai e vem sem final?
A brisa soprada do mar fez destrambelhar o maltrapilho chapéu, como se acudisse ao apelo das ondas, desejosas de um novo troféu.
De um solavanco, ajeitou o penitente os bagulhos que lhe dançavam às costas, limpou com as mãos o caldo das lágrimas que lhe pingavam da face, cambaleou três passos para trás, dobrou os joelhos, olhou para o céu e confiou-se ao derradeiro rito de purificação.
Asas deltas desenhavam ousadias no ar, enquanto gaivotas, em algazarra, ensaiavam vertigens em voos rasantes, prenunciando o fim.
Um terminal suspiro franqueou, por fim, ao peregrino, a esperada viagem de volta ao grande e divinal aconchego.
Restaram moldados na areia o leito e o dossel em que repousou o piedoso, até afinal desprender-se ao encontro do céu.
O ir e vir das ondas por sobre o corpo inerte, outorgou-lhe ar majestoso, próprio dos protagonistas anônimos de tragédias que somente a vida consegue contar.
Um agitado balé de alevinos selou a homenagem da paz, há tanto sonhada.

16/01/2012
Ariovaldo Cavarzan

 

Devagarinho
Ariovaldo Cavarzan


Transbordam claridades
em cascatas de luzes.
Do alto, escorrem melodias
de suave esplendor,
saciando ansiedades,
porque é chegada
a hora do amor.

Finas e perfumadas gotas
chuviscam sobre nós,
feito vapores de saudades,
voltando para festejar
nosso momento a sós.

Esvai-se em sonho a vida,
em teias de amores e seduções,
tricotando alegrias e partidas,
em esperas de instantes
de vivenciar as paixões.

(De que vale a lida,
em suas viagens
nas asas da ilusão,
se não se sentir palpitar
a esperança no coração?)

Enfim, a alcandorada hora
de para longe a solidão espantar,
em compassos de agora
e em mitigadas vontades,
para o momento eternizar.

Quedamos sensíveis ao escorrer
de melodias de suave esplendor
e ao transbordar de claridades
em cascatas de luz e cor.

É chegado o instante em que
nosso amor se esparrama,
debaixo de perfumado chuvisco,
de evaporadas saudades,
causando arrepios.

Bem devagarinho.


Ariovaldo Cavarzan

 

Livro de Visitas

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