
SEBO LITERÁRIO
Benedita Azevedo
CRÔNICAS
página 3
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11. A SERESTA
Sobre as nuvens, o infinito circundado por montes brancos parecendo
neve; uma tênue linha contendo restos de fragmentos escurecidos lembra
as contenções nos rios poluídos. No meio uma vasta extensão azul-celeste
afigura-se a um lago. Flutuam à superfície pequenos montes etéreos.
Ao atingir três mil metros de altitude a aeronave distancia-se de Porto
Alegre e adentra em um campo nevado sobre retalhos de azul, quebrando a
monotonia leitosa de pouca profundidade no fundo azulado. Pequenas ondas
espalhadas pelo vento dão aparência trepidosa à imensidão, cheia de
espuma espalhada sobre a superfície diáfana. Uma abóbada azul escuro
circunda o avião, sendo que, na parte superior, o azul puro adquire um
tom plúmbeo profundo, enquanto o reflexo prateado do Sol nas nuvens
deixa a parte inferior azul-claro brilhante, dando um contraste digno de
um haicai. Na barra lateral, estufada de marfim, separando a parte
superior, pequenos relevos invadem o azul, dando lhe a aparência de
longa colcha rendada nas extremidades, com detalhes assimétricos
azulados, distribuídos ao longo da barra. A sensação de leveza da
aeronave dá-me a impressão de partilhar dos elementos da paisagem. Neste
momento, rendo homenagens a Santos Dumont e a todos aqueles que
trabalharam em prol da evolução deste meio de transporte do século XXI.
Entramos agora, numa área onde as montanhas de nuvens tornam-se densas e
parece uma cordilheira translúcida com depressões em azul. Alongando a
vista essas pequenas elevações vão se diluindo e transformam-se em um
vasto lago prateado pelos reflexos do sol das catorze horas e vinte
minutos.
O comandante acaba de anunciar a passagem sobre São Paulo e que em dez
minutos começaremos a baixar e pousaremos às catorze horas e quarenta e
cinco minutos. Junto veio o comunicado de chuva e trovoada sobre o Rio
de Janeiro.
Em pouco tempo a aeronave mergulha num denso sítio esfumaçado que não
nos deixa ver além do vidro cheio de gotículas estirando-se na direção
traseira, empurradas pela pressão do vento. Instintivamente, olho para
meu companheiro ao lado que, de olhos fechados ronca indiferente às
condições climáticas que nos deixam imerso a um aguaceiro nevado. Os
comissários de bordo conferem as portinholas dos bagageiros a ver se
estão travadas, o que, de certa forma me deixa preocupada. Estiro o
olhar na direção dos passageiros dos bancos laterais e percebo certa
inquietação. Continuamos imersos no nevoeiro líquido, ouvindo apenas o
ronco do avião. Olho o relógio. Catorze horas e quarenta minutos. A
aeronave baixa o que se percebe pela direção das gotículas no vidro,
alongando-se de baixo para cima. Parece-me mais tempo que o previsto.
Olho de novo o relógio. Catorze horas e cinqüenta minutos. Viro-me para
a janela, as gotas agora se alongam horizontalmente, sinal de que
paramos de descer. Os comissários de pé pelos corredores parecem de
prontidão. Os passageiros permanecem quietos. Alguns alongam o pescoço
perscrutando os companheiros e trocam olhares significativos. Mais uma
vez olho a vidraça da janela e vejo o alongamento das gotas em posição
horizontal. Fecho os olhos, cruzo as mãos sobre o colo e começo a rezar,
sem alarde, calmamente. Repetindo o pai-nosso e ave-maria cinco vezes,
em fieira. O chiado do microfone desliga-me da oração. O comunicado soou
objetivo e seco: Recebemos autorização para pousar. Dou uma espiada por
cima das poltronas, na direção da minha esquerda, e vejo alguns
sorrisos. Olho através do vidro e ainda não enxergo nada. As gotas
voltam a alongarem-se em linha inclinada para cima em direção à
traseira. Passo a mão na vidraça e posso vislumbrar o casario lá
embaixo. Desfaz-se o peso da minha inquietação. A aeronave avança em
meio a retalhos de nuvens envoltas em transparente nevoeiro que aumenta
a quantidade de gotas a alongarem-se na vidraça da janela. Quando o trem
de pouso toca o solo, meu marido que se mantivera o tempo todo calado de
olhos fechados, dá um profundo suspiro e exclama:
- Graças a Deus!!!
Rio de Janeiro, 12-11-2007
Benedita Azevedo
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12. AMOR PLATÔNICO
Amor platônico, secreto, mas que alimenta e faz a vida tomar um novo
sentido diante do vazio da alma desejosa de afeto. A fantasia torna-se
tão real que muda o rumo da vida. Dá força para enfrentar desafios e
surpreender o próprio enamorado.
Após superar grandes problemas, situações desafiadoras no dia a dia,
Laura atingira um patamar jamais imaginado. Era uma jovem senhora de
trinta e dois anos que retornava à terra natal após dez anos de
ausência. Conseguira trabalho no colégio mais conceituado da capital.
A princípio trabalharia no turno da manhã. Conseguiu aulas em mais duas
escolas. Pouco tempo depois foi convocada àquele colégio para trabalhar
em horário integral. Quase não acreditou na proposta recebida.
Na reunião inicial para apresentação da nova diretora do primário,
função que exerceria a partir dali, no turno vespertino, sentou-se ao
lado do Diretor Geral, que era um frade sem hábito, elegantemente
vestido.
Seu coração estava aos pulos. Era uma mudança muito rápida. Lecionava em
escolas públicas estaduais e municipais, onde a remuneração era menos de
um terço do que ganharia agora. Após expor todos os itens da pauta o
diretor disse aos trinta professores, que esperava a colaboração de
todos com a nova diretora.
Algumas resistências aconteceram, principalmente, da diretoria anterior.
Mas, tudo acabou dando certo. Recebeu carta branca para resolver
qualquer problema com pais e professores.
Convivendo diariamente com o diretor começou a perceber certo interesse
por parte dele pelo andamento dos trabalhos. Os elogios durante as
reuniões. Um toque disfarçado no braço, o interesse pela maneira que ela
se vestia, de como atendia os pais e professores. Tudo isso, despertou
em Laura um interesse além do normal pelo trabalho. As aulas da manhã
eram das sete as doze e a direção do primário das treze às dezessete e
trinta. Ela estava sempre ali na hora certa. Já ia para casa pensando em
voltar no outro dia. Sempre querendo fazer tudo para agradar o diretor.
Planejava com cuidado todas as atividades e recebia todo apoio para sua
execução. Inventava projetos de implantação de novas atividades e sempre
era atendida. Quanto mais ela trabalhava e era aplaudida pelos
resultados, mas acreditava que era uma pessoa especial para o diretor.
Fazia tudo que lhe era solicitado além da carga horária: ensaios,
passeios e excursões com alunos, ela sempre estava à disposição. Tudo
lhe parecia fácil e nunca se cansava de trabalhar.
Tinha pressa de chegar ao colégio, mas era penoso ao final do horário
voltar para casa. Chegou a lamentar o fato de o diretor ser um frade e
ela uma senhora casada, mesmo que o marido fosse sequelado pela
meningite e um derrame, ela respeitava aquele compromisso assumido
dentro do preceito filosófico do " até que a morte os separe". Os dois
nunca trocaram nenhuma palavra sobre o assunto. Acabado o tempo
permitido para ele ficar naquela unidade escolar, foi para outro Estado.
Ela continuou a trabalhar com o mesmo empenho, mas não com o mesmo
entusiasmo.
Praia do Anil, 14 / 02 / 2009
Benedita Azevedo
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13. TRAGÉDIA DA 13 DE MAIO, EU PODERIA ESTAR LÁ...
Rio de Janeiro, sexta-feira, 03 de fevereiro, 17 horas... Na Cinelândia
a galera festeja a vida nos bares e restaurantes da redondeza. O
Amarelinho estende seus domínios atravessando a rua com mesas e cadeiras
lotadas pela clientela animada. Aos pés da Biblioteca Nacional, do
Teatro Municipal e Museu Nacional os cariocas e turistas passam horas e
horas curtindo o lado bom da vida.
Tendo eu voltado ao Rio de Janeiro, hoje, depois de passar vinte e três
dias no Maranhão, onde fui tomar posse como membro fundador da Academia
Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (AICLA), estava curiosa para
ver o local onde desabaram três prédios, à Rua 13 de Maio. Senti uma
estranha sensação ao me aproximar do local. Em 2006, quando procurava
apartamentos ou sala para comprar, no centro, com o objetivo de ali
fazer as reuniões do Grêmio de haicai que estava organizando e outras
atividades docentes, o corretor, José Azevedo, me levou para ver ali,
perto da Cinelândia, uma sala, mas, já a tinham vendido. Naquele dia,
fiquei chateada, pois, o local me parecia ideal para o que eu pretendia,
dar aulas particulares de Português e fazer as reuniões do Grêmio.
Quando pensei em comprar um pequeno apartamento nas imediações da
Cinelândia, não pretendia morar nele, mas ter um local no centro da
cidade para lecionar, pois, acabara de me aposentar e estava com
dificuldade de desacelerar.
Comprei o apartamento à Rua Evaristo da Veiga, mas, sempre que passava
pela Rua 13 de Maio e olhava o prédio com sacada arredondada, mais
central que o Evaristo da Veiga, pensava que aquele local, ao lado do
Teatro Municipal, seria mais bem localizado para as reuniões do grêmio,
pois com o tempo desisti das aulas.
Entretanto, hoje, ao parar ali em frente aos prédios desabados, minhas
pernas tremeram, um estranho arrepio percorreu minha coluna e senti
tontura. Apoiei-me na proteção que isolava o local e agradeci a Deus por
não ter comprado ali o meu imóvel.
Benedita Azevedo
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14. DEIXE AFLORAR A CRIANÇA QUE HÁ EM VOCÊ
Olhando as pequenas árvores do quintal, ao sol da manhã e a casa do
vizinho ao fundo, recordo o dia em que as plantamos. Christian é um
amante da natureza e prefere viver aqui, na Praia do Anil, a ficar na
cidade do Rio de Janeiro.
Quando chegamos encontramos mil metros quadrados de terreno cheio de
lixo. Era a lixeira dos vizinhos e de outros moradores do local. Mesmo
depois do terreno limpo e murado, o lixo era jogado para dentro do
quintal. Fizemos um muro de 3m de altura. Ainda assim, durante um bom
tempo encontrávamos sacolas com lixo no gramado.
Logo que chegamos, contratamos um caçambeiro para limpar o terreno.
Foram tiradas várias carradas de detritos, depois fizemos um gramado
respeitando o desnível do terreno. Mas, aquele espaço sem nada nos
incomodava. A princípio plantamos várias goiabeiras, que nos disseram
cresciam e frutificavam rápido. Depois, à medida que comíamos as frutas
compradas na feira, Christian plantava em saquinhos plásticos. Um dia,
debaixo de chuva fina, resolvemos que era hora de transplantar e regar
aquelas mudas. A rega era feita diariamente. As primeiras frutas que
colhemos depois das goiabas e do açaí, plantados antes, foram acerola,
amora e mamão; no ano seguinte, o cajá-manga e abricó; mais um ano e
tínhamos caqui e manga espada e no ano passado comemos as primeiras
tangerinas e o primeiro cupuaçu.
Assim, tal as frutas do quintal, tudo na vida tem seu tempo certo, sua
hora de acontecer. Assim como devemos respeitar o desnível do terreno
para que a água não represe e provoque erosões, assim também, devemos
respeitar os limites de cada pessoa. Assim como cada planta tem sua hora
de frutificar, também as pessoas têm o seu momento de crescer. Não
devemos acelerar o amadurecimento de uma criança, tirando-lhe a hora de
brincar e lhe ensinando conteúdos inadequados para sua capacidade
cognitiva. Seria tal qual transformar cupuaçu em goiaba. A goiaba
frutificou no meu quintal em dois anos e cupuaçu em 12. Não há como
acelerar a frutificação em dois.
Crianças não devem ser instigadas pelos responsáveis a aprenderem
conteúdos inadequados para sua idade, como por exemplo, as capitais do
Brasil com três, quatro anos e serem exibidas para os amigos. Com isso
poderemos embaralhar seu desenvolvimento, torná-los confusos e perderão
a ordem normal de seu crescimento. Depois de atrapalhar essa fase das
crianças, dificilmente tais responsáveis percebem o mal que fizeram e
procuram ajuda de um profissional competente, para limpar o lixo
depositado em seu cérebro. Deixam que sejam incorporados à sua memória e
sem o acompanhamento correto, caminhem como árvores estéreis que nunca
frutificam.
Por outro lado, pessoas que tiveram orientação adequada para seus
padrões, de repente, se associam a outras, que, se julgando muito
esperta e dona da verdade, tolhe todas suas manifestações, num controle
tão extremo que chega a manipular presentes, correspondência da família,
maneira de pensar e até o que falar. Essa pessoa somatiza problemas na
vesícula, pressão alta, gastrite, diverticulite, diabetes e caminha rumo
a um AVC ou infarto se também não se libertar.
Portanto, na vida tudo tem de fluir naturalmente. Não deixe que o
represamento de suas emoções cause erosões em seu físico, em sua alma,
seu ânimo de viver e ser feliz. Deixe a criança que existe em você
correr entre as árvores, comer amora às margens do rio, andar descalço
na areia, soltar pipa no quintal, andar de bicicleta e ter amigos,
muitos amigos. A fraqueza das pessoas está em se deixar manipular e
viver a vida do outro não a sua. Deixar que a beleza da paisagem natural
perdesse suas sombras repousastes no terreno desnivelado, mas limpo,
cultivado e produtivo.
Benedita Azevedo
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15. OLHE ALÉM DA JANELA
A harmonia da paisagem vista da janela, nos faz pensar na grandeza e
perfeição da obra do criador do universo. Árvores diferentes compõem
este quadro que nos encanta o olhar. Goiabeiras com frutas maduras, ipês
sem flores nesta época, laranjeiras da pérsia com os primeiros frutos e
amoreiras carregada em preto e vermelho; tangerineira com dois ninhos de
pássaros entre espinhos afiados e o pé de cajá-manga plantado na mesma
data que as outras, mas que tem o dobro de altura; o caquizeiro baixinho
com galhos caídos pelo peso dos frutos e o pé de manga-espada esticando
as folhas novas da ponta dos galhos sobre os pés de acerola; o cajueiro
adernado sobre o pé de abacate que se curva para dar passagem e se lança
sobre a moita de manacá ao lado do pé de aveloz. O pé de flamboyant
espalha-se sobre o portão e toca o azul do céu. Tudo isso, sobre o
gramado recém aparado em outra tonalidade de verde e as sombras das
árvores e da construção completando o quadro que dá uma sensação de paz.
Tal qual o quadro descrito, um grupo de pessoas, na empresa, na família
ou na sociedade, cada um tem sua personalidade, cada um tem sua função e
as individualidades precisam ser respeitadas para que haja harmonia.
Cada um no seu devido lugar exercendo as funções que lhe são confiadas.
Não é possível transformar abacate em manga, assim como, não podemos
manipular a vontade e ação dos outros para assumir a nossa
personalidade. Quando isso acontece é como se, de repente, quiséssemos
colher pequenas amoras entre os espinhos pontiagudos da tangerineira.
Acabaríamos deixando de saborear os doces frutos pretinhos pelo medo de
sermos feridos pelos seus espinhos.
Na vida todos nós temos o nosso papel, assim como o pé de cajá-manga,
plantado no mesmo dia que os outros esticou-se e atingiu o dobro de
altura dos outros, assim também, muitas vezes, recebemos oportunidades
iguais na família, na empresa, na sociedade. Mas, cada um tem sua
capacidade psico-social diferente. Uns permanecem marcando passo numa
eterna rotina aceitando isso como vontade de Deus; outros se apaixonam
pelo que fazem e dedicam-se de corpo e alma, conquistando confiabilidade
e admiração de uns e inveja de outros; outros ainda, se inquietam,
reclamam de tudo e de todos, querendo direitos iguais àqueles que se
dedicam e acabam incomodando todo mundo e quebrando a harmonia do
ambiente como um raio que caísse no meio da paisagem, numa manhã de sol.
Portanto, olhando além das diferenças individuais, podemos viver em
harmonia desde que, cada um exerça o seu papel, respeitando os limites
dos outros, para um crescimento harmônios onde quer que estejamos.
Benedita Azevedo
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