Sebo - Benedita Azevedo -Contos

SEBO LITERÁRIO

Benedita Azevedo

 

CONTOS

 

Glenn Miller e a dama do cabaré

 

As constantes crises do diabetes deixavam Raquel deprimida. E cada vez mais ela avaliava que seu casamento não valera a pena e lamentava-se com a irmã Lia o amor perdido na juventude. Tivera cinco filhos, e gostava muito deles, mas o marido não a fazia feliz. Segundo ela, sempre fora traída e precisava trabalhar muito, pois o dinheiro dele era gasto com as outras mulheres. Ela se via como a própria mulher do cabaré, daquela música do Chico Buarque.

                Nas ocasiões em que a crise batia forte, Raquel ia visitar a irmã, que a ouvia com carinho e paciência, pois sabia de suas queixas, e até as achava exageradas, porém, mesmo assim, procurava confortá-la. Algumas vezes lhe dizia que ela poderia estar sendo injusta com o marido, entretanto, Raquel insistia que seu casamento fora um erro, que se a prima não tivesse atravessado seu caminho, com certeza teria sido muito feliz com Jorge. O pior é que ele também não tinha sido feliz. Casara-se com uma moça muito jovem, de treze anos de idade, tiveram três filhos e se separaram. Ele acabou tornando-se alcoólatra.

 

Raquel à época tinha vinte anos. Estava preparando o enxoval e o noivo parecia apaixonado. Viviam em bailes e a música preferida deles era a da Claudinha Telles, “Estúpido Cupido”: Na hora do refrão, “oh, oh Cupido, vá longe de mim!”, eles faziam que não com o dedo um para o outro. Raquel quase se desmanchava de alegria. De uma hora para outra, contudo, ela começou a perceber as brincadeiras da prima com seu noivo. Pensou em falar com a tia, mas se achou meio ridícula de pensar tal bobagem. Afinal, a outra era apenas uma menina de doze anos. Concluiu que, na verdade, estava era enciumada com as atenções do noivo com a prima, uma criança... Acabou abandonando a idéia e continuou a rotina. Mas deixou de frequentar a casa da tia, passou meses sem aparecer.

As coisas pareciam normais, até que um dia o noivo chegou e disse que precisavam conversar, marcando um encontro. Ela imaginou que seria algo em relação ao casamento. Quem sabe resolvera fixar a data? Foram ao cinema e depois ao restaurante. Ao final do jantar ele começou elogiando-a, que ela era uma moça muito prendada, muito companheira e que qualquer homem seria um sortudo de encontrar alguém com tantas qualidades. Depois de amaciar, Jorge mandou a bomba: mas que, infelizmente, ele não era digno de uma pessoa tão especial. Precisava se afastar para colocar a cabeça no lugar, pois estava muito confuso.

Raquel levou um susto e ficou sem saber o que pensar. Perguntou se tinha feito alguma coisa que o aborrecesse. Ele disse que não. Que ela era a pessoa mais encantadora que conhecera, ele que não a merecia. Jorge a deixou em casa e se despediu com um beijo no rosto. Dois meses depois soube que ele se casara com a prima dela, às pressas, pois a “criança” estava grávida. O Cupido se fora mesmo, conforme ela cantava nos bailes!!  Parecia uma maldição?

À essa altura, Raquel se emocionou e perguntou à Lia se não se lembrava de Jorge, ele era alto, corpo esbelto, cabelos cortados rente, olhos azuis, pele muito branca, ressaltada pelo verde-oliva da farda do Exército. “Parecia o Marlon Brando”, exagerava a apaixonada. A irmã disse que se lembrava vagamente, já que mantivera pouco contato com ele, pois ela estudava em outra cidade.

Segundo Raquel, após ele se separar da mulher, Jorge viajou três mil quilômetros atrás dela, à procura da antiga noiva, da mulher maravilhosa, da pessoa mais encantadora que ele já conhecera. No entanto, era tarde. Ela já estava casada e tinha cinco filhos. O ex-noivo dissera-lhe que se arrependia de não lhe ter dado mais atenção e de nem ter permitido que ela argumentasse e tentasse convencê-lo. A irmã quis saber se já fazia muito tempo que Jorge a procurara. Raquel respondeu que ainda estava jovem e bonita, mas tinha que cuidar dos filhos, pois o marido saíra de casa, fora morar com outra mulher, e ela não queria se envolver com ninguém, principalmente com alguém que já a tinha abandonado uma vez. A imagem de ser a mulher do cabaré, da canção do Chico, voltava-lhe.

A amargura na voz de Raquel comoveu a irmã. Lia a abraçou e a convidou para tomar um chá. Foram até a cozinha e sentaram-se à mesa enquanto esperavam a água esquentar. Ela continuou a lamentação. Disse à irmã que no tempo em que esteve separada do marido apareceram vários pretendentes, inclusive um médico, mas naquele momento os filhos eram seu único objetivo. Depois, o marido resolvera voltar para casa. Ela aceitara, porque estava muito difícil cuidar das tarefas de mãe e de pai. Entretanto, perdera o encanto por ele. Parecia-lhe um estranho, que não lhe despertava nenhuma emoção.

Lia perguntou se a irmã tinha idéia do momento exato em que o casamento começara a esfriar. Ficou surpresa ao saber que Raquel nunca fora apaixonada pelo marido. Gostava dele, pois fora bastante convincente quando começaram a namorar, logo após o rompimento do noivado dela, mas não sentira aquele amor ardente que tivera por Jorge, e na verdade jamais o esquecera. A lembrança da figura ágil, alegre, de olhos azuis e a pele muito branca, contrastando com o verde-oliva do uniforme e o quepe caindo ligeiramente para a direita permanecia em suas retinas, tal qual uma foto na moldura ou um cartaz de cinema. Lágrimas desceram pelo rosto de Raquel.

Comovida, Lia não sabia o que dizer para animar a irmã. Falou que Raquel precisava se concentrar nos filhos, que todos estavam muito bem, tinha um neto lindo. Insistiu que precisava tirar partido daquilo que a vida lhe oferecera, que seus filhos eram maravilhosos... De repente, Raquel secou os olhos com as mãos e disse, quase áspera, que a irmã não sabia de nada. Que a sua angústia era ainda maior pelo fato de ter descoberto, recentemente, que seu segundo filho estava com Aids. Por que a vida fora tão cruel com ela? Por que logo o seu filho? Tanto que orientara dos riscos e dos cuidados que deveriam ter. E agora estava ali, sem saber o que fazer diante de tal fatalidade.

Andava ansiosa, também, porque Jorge, o amor inesquecível de juventude, descobriu seu novo telefone e já ligara várias vezes, deixando-a preocupada de que o marido notasse alguma coisa. Embora não o amasse como gostaria, era-lhe grata por lhe ajudar a cuidar dos filhos. Sua carência afetiva ia sendo preenchida, dando-lhe forças para lidar com a tragédia que estava enfrentando. Ela acabou cedendo aos argumentos e pedidos de perdão do marido e iniciaram um lento e tateante retorno. Mas a realidade voltava-lhe, batia-lhe forte no peito e latejava-lhe nos ouvidos. Por mais de três vezes ela o viu atender o celular e, afastando-se, sussurrar com a pessoa do outro lado. Quem seria? Por que ele sempre dizia que eram os irmãos, um amigo ou outra pessoa que ela não conhecia? Por que os sussurros? Seria a maldita amante, por quem ele abandonara a família? E agora? Ela devia aproveitar e aceitar os argumentos de Jorge de que os dois só seriam felizes juntos?

Lia, ficou imaginando o que poderia dizer para amenizar o sofrimento da irmã.  De um lado, a doença do filho, do outro, o fantasma da traição do marido e o ex-noivo a lhe telefonar implorando um encontro, mas também este a traíra. Um conflito que não queria para si. Naquela altura da narrativa, Raquel recebeu o telefonema do filho mais velho avisando que o pai sofrera um enfarto e estava no hospital. Ela foi correndo para lá. Não adiantou, o enfarte fora fulminante.

Os telefonemas de Jorge continuavam. Raquel estava arrasada. Agora, com sentimento de culpa pelo tempo em que rejeitara o marido, mesmo depois de seu retorno. Porém, a cada vez que ouvia a voz do ex-noivo sentia uma revolução interior. Então, achou que deveria lhe dar uma chance. Ela também precisava sentir-se beijada e abraçada por seu astro hollywoodiano. Só de pensar suspirava e amortecia, por momentos, a dura realidade. Os bons tempos do “oh, oh, Cupido” voltavam e ela ouvia, de fato, os acordes metálicos e vibrantes dos bailes e da animada orquestra de Glenn Miller. Era o Paraíso! Raquel volteava dançando sozinha pela sala, de olhos fechados, os braços imaginariamente abraçando seu “Marlon Brando”. Nem se importava de parecer ridícula beijando o ar.

A morte do marido aconteceu logo agora, que ele a estava ajudando a lidar com a Aids do filho. Ela teria o direito de compensar aquela dor com um aconchego ou devia encarar dois sofrimentos de uma só vez, pedindo a Jorge que se afastasse? Ou tudo não passava de medo de que o passado a jogasse para o alto novamente? O que uma mulher deve fazer nesta situação? Raquel era a própria dama do cabaré do Chico, cercada de homens, mas sem conseguir se entregar a nenhum deles de verdade. “Cadê o Cupido? Ele se foi?”

Um grande amor do passado pode voltar como se nada houvesse acontecido? Não seria melhor ter permanecido na fantasia dos bons tempos? Dúvidas, muitas dúvidas. Talvez seja melhor uma vida sem grandes emoções.

A morte do marido, os telefonemas de Jorge e as dúvidas acabaram por lhe provocar uma grave crise de hiperglicemia, que a levou ao hospital. Os filhos, aflitos, pediram ajuda à tia.

Ao sair do hospital, Raquel foi levada por Lia e os filhos para a casa desta, a fim de a afastarem um pouco das lembranças do marido. Conversavam na sala de visitas quando a campainha tocou. Lia atendeu. De imediato reconheceu Jorge. De fato, lembrava um astro de cinema. O tipo era mesmo bonito! Ele estava preocupado e queria  notícias de sua ex-noiva. Lia o levou à sala e, em seguida, saiu com os sobrinhos, para deixarem a mãe à vontade com o amigo.

Fechando a porta atrás de si, Lia ainda pode ouvir Jorge, ajoelhado ao pé do sofá, pedindo a Raquel que o deixasse cuidar dela e dos filhos. Queria recompensá-la por todo o sofrimento que lhe causara. Raquel finalmente acedeu. Era o que ela queria mesmo. Um beijo selou o reencontro. Sorrindo, Glenn Miller entrou na sala com sua orquestra completa e encheu o ambiente com o som vibrante e alegre das músicas que tantos bailes e sonhos embalaram. Claudinha Telles cantava alegre no outro canto, se requebrando ao som do rock. Marlon Brando estava lindo como nunca! Os bons tempos voltaram!!!! A felicidade, enfim!!!!

Mais ou menos um ano depois. Raquel diz à Lia que Jorge, algumas vezes, passou a atender o celular sussurrando e se afastando dela. A irmã suspirou fundo. Fechou os olhos e pensou: “Ai, ai. Vai começar tudo de novo. Será verdade ou é o ciúme alucinatório de minha irmã?

 

 

 

 para O SORRISO DA PROFESSORA