Sebo - Benedita Azevedo -Contos

SEBO LITERÁRIO

Benedita Azevedo

 

CONTOS

 

O SORRISO DA PROFESSORA

 

Com a morte do marido, Susana encerrou um capítulo doloroso de sua vida, mas não de fracassos. A década que ficava para trás foi de muito sofrimento, muito trabalho e grandes vitórias. Forjou a própria essência no desespero de ver um ente querido definhando, com a presença de dois jovens que precisavam desabrochar para a vida, apesar da tristeza constante de ver o pai deles sobre uma cama, doente. Estavam juntos, enfrentando tudo com dignidade, respeito e carinho.

        Os dissabores daqueles dez anos foram encarados com naturalidade e tratados com seriedade. Dentro de suas possibilidades, fez tudo o que era possível para manter o equilíbrio da família. Os filhos viveram cada fase de suas vidas com harmonia e compreensão. Cada assunto era tratado com equilíbrio e firmeza.

       Certa vez, Susana não hesitou em pegar o filho pelo braço e ir até a namorada que pretendia casar-se com ele, aos dezoito anos, mesmo sem concluir os estudos e desempregado. Mostrou aos pais dela que tinha um projeto para seus filhos e que ele não estava preparado para assumir uma família. A mãe da namorada enfrentou-a e disse que sua família o assumiria. Susana ficou decepcionada e voltou preocupada, pois conhecia bem o filho e sabia que teria um futuro promissor, desde que não se precipitasse num casamento precoce.

Em casa, conversou com ele, mostrou os prós e os contras que poderiam advir daquela precipitação e, principalmente, da perda da autonomia que poderia ter para tomar as próprias decisões. Dependente dos pais da namorada ele seria sempre um subalterno, um pau-mandado.

      Ao final, ela disse ao filho que não voltaria a comentar aquele assunto. Que, com a doença do pai, ele muito cedo começara a enfrentar junto com ela os problemas da família e que era admirado por todos por ser um rapaz equilibrado. Mas era diferente a responsabilidade que dividia com a mãe e a irmã na administração das coisas da casa, com o dinheiro da mãe, e a submissão de um casamento para depender do sogro, um fazendeiro mau-humorado. Afirmou que confiava na formação que dera a ele.

     Pouco depois, o colégio onde ela lecionava a inscreveu num Seminário de Educadores Maristas, no Rio de Janeiro. O filho e a filha cuidariam de tudo nos vinte dias que passaria fora. Susana ficou hospedada no Convento Assunção, em Santa Teresa. Foi nessa ocasião que, no convívio com muitos educadores, percebeu que a vida era maravilhosa e que até ali tinha se anulado em razão dos filhos e da doença do marido. A viagem a despertara para uma nova realidade. Sentiu que ainda era jovem, 38 anos, e tinha uma vida inteira pela frente. Aqueles dez anos de luta foram sua preparação para caminhar com mais tranqüilidade. Os filhos estavam concluindo o 2º grau e fariam o vestibular no ano seguinte. Susana percebeu que era uma mulher independente e livre para refazer a vida, se quisesse, mas seus filhos ainda eram a sua prioridade, queria cuidar deles sem a interferência de ninguém. Queria vê-los formados e assumindo as próprias responsabilidades. Esperava que o filho acordasse e não estragasse seu futuro com a proposta indecente dos pais da namorada para se casar sem ter completado a formação. Era apenas um adolescente que ainda não sabia o que estava fazendo.

Na volta a casa, todos perceberam um novo brilho no olhar de Susana. Alguns amigos perguntaram se estava namorando, pois a transformação era visível. Até o diretor do colégio comentou que ela voltara mais animada. Ela atribuiu a leveza aos novos conhecimentos e ao convívio com quase cem professores de todo o Brasil. Levou tempo para perceber que a rotina com o marido doente acabara havia dois anos. A morte libertou a ambos.

Os alunos também perceberam a mudança de sua professora de Português e Literatura. Um dia, ela escrevia no quadro o esquema das escolas literárias quando foi surpreendida pela declaração à queima-roupa de um aluno novo, vindo do Paraná: “Professora, a senhora sabia que é muito enxuta?” O silêncio tomou conta da sala de 45 adolescentes. Todos prenderam a respiração. Susana engoliu em seco, encarou o jovem loiro de olhos azuis, um ano mais novo que seu filho, e respondeu tranquilamente: “Sei, Paraná. Obrigada pelo elogio... Anote o esquema do quadro. É matéria de prova.” As respirações da classe voltaram com a resposta serena da mestre.

Enquanto dirigia de volta, ela ia pensando no que acontecera e nas observações dos colegas, de que estava mais bonita depois do seminário. Respirou fundo, sentiu-se plena de juventude e, ao chegar, olhou-se no espelho da sala. Falou alto, sem perceber que o filho chegara à porta: “Realmente, estou bem para meus 38 anos.” O filho explodiu de alegria, levantou-a no colo e rodopiaram pelo quarto. Ele disse que ela era a melhor mãe do mundo e nem parecia ter um filho tão grande e forte. Riram juntos.

A mãe o abraçou com carinho e perguntou o que acontecera, pois ele deveria estar no colégio. Ele disse que precisava lhe contar que conseguira um estágio remunerado, no laboratório de análise clínica do colégio, e que terminara o namoro. Só queria estudar e passar no vestibular.

Susana ficou muito feliz e tornaram a se abraçar. Com a cabeça apoiada nas costas largas do filho, ela fechou os olhos e liberou o suspiro que vinha prendendo desde a visita à casa dos agora ex-futuros sogros. Mentalmente, agradeceu: “Obrigado, Senhor.”

Ela ainda não sabia, mas um louro de olhos azuis, mais velho, estava para entrar na sua vida. Um belo crianção.

Voltou a sorrir, segurando a lágrima de felicidade.

 

Praia do Anil, 02 de abril de 2010.

 

 

 

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