Sebo - Benedita Azevedo -Contos

SEBO LITERÁRIO

Benedita Azevedo

 

CONTOS

 

PERDIDAS NA ESTRADA

 

Naquele ano, como tivesse deixado o colégio no turno da tarde, convencida por um casal amigo de que poderia ganhar muito dinheiro, com o lançamento, na praça, de um produto americano, a professora Solange formou uma equipe de vendas e passou a gerenciá-la. Recrutou professores das escolas onde trabalhava e durante seis meses ficou entre o 2º e 5º lugares, a nível nacional. A gerente que a recrutou estava sempre no 1º lugar.

Cada pessoa da sua equipe que recrutasse um número x de vendedoras, também passaria a gerente, e, durante seis meses, ela ganhava uma porcentagem sobre a venda daquele grupo e tinha de dar treinamento à nova equipe, assim como recebia da sua gerente e lhe pagava uma porcentagem.

A pirâmide chegou a uma de suas irmãs, que formou um grupo na cidade onde morava. Alice, a coordenadora regional foi com Solange treinar o novo grupo num domingo e precisavam estar de volta no mesmo dia, já que tinham reunião semanal de todas as equipes na segunda-feira cedo, na sede da empresa, na capital.  Aquela seria a quarta equipe remanescente de seu grupo. Em três meses ganhara três vezes mais do que na escola. Sua casa ganhara piso, portas, cortinas e móveis novos. Chegava a entregar dois marajós lotados de encomendas, na sexta feira. Não tinha tempo de separar os pedidos e pagava um salário mínimo para que seu filho e a esposa o fizessem às quintas feiras à noite. Até então tinha atingido todos os objetivos propostos pela distribuidora. E já participara de dois congressos nacionais. Uma semana em Águas de Lindóia, em São Paulo e outra no Rio de Janeiro, no Hotel Nacional.

Solange não estava no seu carro, que ficara na revisão. Teriam de ir de ônibus, que saía apenas uma vez por dia, da rodovia. Na volta para São Luís, após a reunião, perderam o da rodoviária e foram com a irmã da professora tentar apanhar um na rodovia. E quem disse que aparecia algum? Desanimadas a quatrocentos quilômetros de casa, quase meia noite, surgiu um ônibus ao longe na estrada. A irmã disse que ele as levaria até Peritoró e de lá seria mais fácil apanhar outro para a capital.

Elas sentaram-se nos dois únicos assentos vagos. Cansadas, logo adormeceram. Acordaram com o motorista anunciando que os passageiros teriam vinte minutos para tomar café. Estavam justamente em Peritoró. Quase passaram do ponto! Era quase uma hora. Desceram e dirigiram-se ao balcão, onde perguntaram a que horas teria ônibus para São Luís. Souberam que só dali a duas horas. Ficaram desconsoladas. Iriam chegar a casa às cinco da manhã. Alice ficou desesperada e comentou que seria difícil fazer a reunião às nove horas.

Solange perguntou se ela não tinha ninguém que a substituísse numa emergência. Ela disse que o marido o fazia, mas que, no dia anterior não se sentira bem, pois tinha problemas cardíacos. A companheira sugeriu que ela o avisasse, por telefone, do atraso do ônibus, o que foi feito de imediato. Alice quis saber se Solange queria telefonar e ficou sabendo que ela morava sozinha.

Procuraram um lugar para sentar. Não tinha. As poucas cadeiras do lugar estavam ocupadas. Sentaram-se na calçada. A coordenadora pediu à companheira que não comentasse nada com o marido dela e que para todos os efeitos estavam em Bacabal e o ônibus se atrasou.

Solange estava muito cansada. As nádegas ficaram dormentes no contato com o cimento duro. Levantou-se, deu uma volta, massageou o bumbum e voltou a sentar-se. Alice dormia com a cabeça apoiada no colo.

A professora estava desconfortável. Foi até o balcão e pediu um café. Conferiu o relógio. Faltava mais de uma hora para o ônibus chegar. Sentiu-se angustiada, mas procurou se controlar. Sua companheira apareceu e também pediu um café. Solange comentou, o que pensariam seus alunos se a vissem sentada na calçada, às duas horas da manhã, perdida na estrada.

A coordenadora deu uma gargalhada tão espalhafatosa que acordou os que dormiam sentados nas cadeiras. E também fez seu comentário: Veja só onde vieram parar duas senhoras elegantes, que acabam de voltar de um seminário no Rio de Janeiro, uma semana no Hotel Nacional, sentadas aqui, em um lugar do qual  nunca  ouviram falar!

Solange recriminou-se por dar treinamento no domingo. Disse que isso deveria ser feito durante a semana ou no sábado. Assim, poderiam viajar pela manhã, sem o desconforto daquela viagem maluca. Alice disse que, infelizmente, não poderia durante a semana, pois tinha muito que fazer, e não poderiam deixar a irmã da professora, com aquelas mulheres todas, mais uma semana sem trabalhar.

Solange comunicou que não teria condições físicas para ir à reunião das nove e pediu à coordenadora que explicasse a seus grupos a razão da sua falta. Ela disse que de jeito nenhum comentaria o acontecido, diria que ela estava doente.

Solange bateu na madeira e pediu que Deus a livrasse de doenças, mas como poderia chegar às cinco e meia e estar na reunião às nove? Disse que tomaria um banho e dormiria até o meio-dia. Ainda bem que estava de férias no colégio, festejou.

Alice disse que o marido as apanharia na rodoviária e deixariam Solange em casa, pois era passagem.

O ônibus saiu de Peritoró às três horas. Teriam duas horas de viagem até à rodoviária de São Luís. Só iriam chegar às cinco. Vencidas pelo cansaço, adormeceram logo que sentaram nas poltronas. Só acordaram quando chegaram ao destino, pouco antes do previsto.

Solange abriu o portão da sua casa, no Maranhão Novo, às cinco da manhã. Entrou, largou a bagagem na sala e deitou do jeito que estava. Acordou às oito horas com o toque do telefone. Era da parte de Alice pedindo que lhe avisassem para não faltar à reunião de jeito nenhum, acontecera algo muito sério. Levantou-se, fez alongamento, tomou banho, telefonou para o mecânico trazer o carro e tomou um café reforçado. Pegou no escritório a sacola com o kit de mostruário e saiu. Eram oito horas e trinta minutos. A distribuição não era longe. Ao estacionar o carro percebeu um movimento estranho à porta.

Pegou a sacola e se aproximou. As gerentes estavam todas nervosas. Ela perguntou ao secretário o que estava acontecendo para tamanho alvoroço. Ele contou que o marido da coordenadora sofrera um infarto fulminante e ela estava com ele no hospital. Deixara para Solange o roteiro para que dirigisse a Assembléia e que começasse na hora certa, pois às segundas feiras, às nove horas, no mundo inteiro, respeitando as diferenças de fusos horários, acontecia a Assembléia. Não deveria fazer nenhum comentário sobre o assunto e fazer de conta que nada acontecera.

 

Praia do Anil, Magé – RJ, 21/03/2010

 

 

 

 para AMOR PLATÔNICO