Carmo Vasconcelos

 

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Afrodite, Pã e Eros - Museu Nacional de Arqueologia de Atenas

 

SONETOS DECASSÍLABOS

( 1ª Pág, )

 

A Arte De Viver
Carmo Vasconcelos


Nem sempre é fácil a arte de viver...
Renúncia exige em meio de sacrifícios;
há que fechar os olhos pra não ver
a falsidade eivada de artifícios;

Calar os sapos rente ao coração,
riscar da mente abruptos desenganos,
de orgulho e brios, sem mágoa, abrirmos mão,
e dar amor a crentes e profanos!

Essa a palavra ouvida à cristandade:
amar o nosso irmão, qual Jesus Cristo
que já na cruz, abençoa o Judas falso!

Mas desse exemplo longe, eu preces alço
pra que essa luz me toque enquanto existo
e possa ser-me leve a Eternidade!


Carmo Vasconcelos

 

A Beleza Do Poema
Carmo Vasconcelos


Poema é masculino e, tal qual homem,
dispensa enfeite fútil, atavio...
Se basta de nobreza, como um rio,
para que eterno e doce amante o tomem.

Poema não requer traje de gala,
pode até ter andrajo de pedinte,
vem-lhe do cerne a luz que dá requinte
e natural encanto ao que ele fala.

Humilde, sem vaidade, vê-se ao espelho
no reflectivo olhar de quem o lê,
e é dele que recebe o seu conselho.

Se há brilho nesse olhar, ele então crê
que ao mundo vale a pena se mostrar,
seja qual for a veste que envergar!


Carmo Vasconcelos

 

A Transição
Carmo Vasconcelos


Sábias são as trombetas do Senhor,
soltas da pauta as notas terminais
que chamam para o além um dos mortais
onde o espera um futuro redentor.

Aí cessarão de vez todas as mágoas,
da mente e alma e, também, do corpo as dores,
aos seus olhos mostrado filme e actores
do rio da cena finda, extintas águas.

Livre da escravidão da carne densa,
só espírito de luz em claridade,
a vivência finita ele repensa…

E tomados seus erros por lição,
consciente das acções em vanidade,
se prepara p’ra nova encarnação.


Carmo Vasconcelos

 

Adeus Ano Velho!
Carmo Vasconcelos


Desculpa se de ti não me despeço,
velho dois mil e onze – em largos actos,
com lenços de saudade, acenos gratos,
pois deixas negro rasto que nem meço!

Seja teu sucessor mais justo, eu peço,
que impeça do poder sujos contratos
aviltantes do povo, que em destratos
ensandece, de mil fomes possesso!

Traga o novo reinado, luz e pão,
alçada no seu ceptro, a mãe justiça,
ao jovem o trabalho, e a honra ao ancião!

Às crianças, saúde, educação,
respeito ao povo na sua dura liça,
Amor e Paz a cada coração!


Carmo Vasconcelos

 

Alternâncias
Carmo Vasconcelos


Vens pra mim, ora em prantos ora em riso,
e eu choro ou rio, vibrante de emoção;
arbusto sou prostrado plo granizo,
ou girassol em vénia ao astro-verão.

Se vens montado em vagas alterosas,
contigo, então, mergulho até funduras;
se emerges em espumas bonançosas,
entrelaço-te em ondas de ternuras.

E quando as asas se alçam no teu peito,
espero o teu regresso em beatitude,
que amor não desnorteia pela altitude…

Sei que virás, voo raso, até meu leito!
E é nesse roçar de asas que declamam
os versos imortais, todos que se amam!


Carmo Vasconcelos

 

Amor
Carmo Vasconcelos


Que o amor é chama breve, diz quem não
sentiu queimar na pele esse calor,
que mesmo quando esfria, recende a dor
da viva cicatriz no coração.

E é mais forte esse amor que resvalou
por vagas insuspeitas, alterosas,
do que aquele que em ondas amorosas
sereno, ao nosso lado navegou.

É chama que distante não se afaga,
mas brilha iridescente e não se apaga
mantendo aceso o nosso sentimento...

Brilho que anula a luz do entendimento,
e porque inatingível se agudiza,
faz-se chama perene e se eterniza!


Carmo Vasconcelos

 

 

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