Carmo Vasconcelos

 

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Vénus Mercúrio e Cupido - Chaperon-Apollon

 

SONETOS DECASSÍLABOS

( 2ª pág. )

 

 

Ao Dia Da Mulher
(Em 3ª feira de Carnaval)
Carmo Vasconcelos


Adeus ao carnaval já dei faz tempo,
despedida que a vida aligeirou,
hoje o recordo como um ante-tempo
deste que mais bonito me alcançou.

Ler um jornal, um livro, que prazer!
Olhar no céu, sem pressa, o sol se pôr,
sentir a liberdade de escolher
da vida, o que ela oferta com amor!

Uma flor, uma rima, uma canção,
no beijo que nos vai do coração,
doce, sereno e meigo, ao bem-querer.

Assim, estilizada esta escultura,
hoje é mais que botão, fruta madura,
num outro carnaval, de mais Mulher!


Carmo Vasconcelos

 

Asa - Gémea
Carmo Vasconcelos


Flanar em bando evita a prematura
desistência que nossos voos permeia,
porém, essa asa-gémea que se anseia
é das mentes aladas sã natura.

E o bando que em conjunto nos protege
da solidão total do voo gorado,
não minimiza em nós o par sonhado,
o pássaro dif’rente que a alma elege.

S'inda guardas do sonho o real enfeite,
d'alvas nuvens rasgares com deleite,
ao lado do teu par imaginado…

Vem descobrir meu poiso recatado,
encontra o golpe d’asa atrás do monte,
e juntos rasgaremos o horizonte!


Carmo Vasconcelos

 

Certeza  Que…
Carmo Vasconcelos


Quando te fores, Poeta, deste mundo,
e no Além retomares tua morada,
terás papel azul, tinta estrelada,
e teu verso há-de fluir do mais profundo!

Farás poemas na sombra d’asas puras,
secundado por liras divinais,
e se na Terra ecoaram magistrais,
no Éden hão-de atingir ideais alturas!

Chegar-nos-ão por halos vibratórios,
com cheiros de açucenas ou jasmins,
que inundarão das almas os confins…

E delas surgirão os repertórios
de vero Amor e Paz, por ti cantados,
que deixarás no mundo perpetuados!


Carmo Vasconcelos

 

De Menina a Mulher
Carmo Vasconcelos


De menina-botão a mulher-flor,
desabrochaste por decretos santos,
de irisado matiz hauriste a cor,
e ornada de asas, redobraste encantos.

Avezinha sagaz, voando em espantos,
o mundo descobriste ao teu redor,
pisaste o vale, alçaste a picos tantos,
e elegeste o meio-céu, teu corredor.

Não quiseste ser águia lá na altura,
nem pássaro na pedra enlodaçada,
assisada, pairaste na planura.

De lá emanas trinados de doçura,
mater do amor, vestal no céu talhada,
Ave-Mulher, plasmada de ternura!


Carmo Vasconcelos

 

Desencanto
Carmo Vasconcelos


Talvez fora melhor eu jurar votos,
no hábito esquecer tão funesto amor,
e envolta na brancura do Senhor,
amar somente a Deus e seus devotos.

Os versos inflamados que inventei
em noites de ilusões embevecidas,
são hoje folhas mortas, ressequidas,
ao chão da Primavera que sonhei.

E como eles agora se esfumaram,
depois que em chamas céus atravessaram,
pra diluírem o gelo das tuas dores.

Para quê, esse fogo dissipaste,
ao vento da traição que lhe lançaste,
se hoje amornas em pálidos amores?


Carmo Vasconcelos

 

Estrela-Guia
(Aos meus filhos)
Carmo Vasconcelos


Quando um dia, filhos meus, eu vos deixar,
não chorem por meu corpo já cansado,
que já não pode ter-vos ao cuidado,
se é tempo de partir e descansar.

Revejam-me no céu, já estrela-guia,
que do alto vos protege e por vós zela,
seguindo vossos passos, sentinela,
a adoçar-vos a mágoa que angustia.

Espalhem minhas cinzas pelo mar,
que sempre vossos pés virei beijar,
em ondas segredantes de carinho.

E em seus murmúrios, hão-de ouvir, baixinho,
vindo da profundeza dos corais,
que zelo e amor de mãe são imortais!


Carmo Vasconcelos

 

 

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