Carmo Vasconcelos

 

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 Hades Carregando Persephone- Bernini

 

SONETOS DECASSÍLABOS

( 3ª pág. )

 

 

Evasão
Carmo Vasconcelos


No silêncio e na paz da natureza,
de toda a sensação eu me desligo,
extasiando-me apenas na beleza
deste divino mundo onde me abrigo.

Mergulhada no verde onde me deito,
sou pedra, folha morta abandonada,
e d’alma em evasão eu me deleito,
por ser no todo imenso um quase nada.

E é neste bem-estar doce em quietude,
que, saudosa, relembro a mansuetude
do sacrossanto lar primevo e antigo…

Basto-me do ar que sorvo e está comigo,
e qual erva que símplice brotou,
nada mais quero ou peço… Apenas sou!


Carmo Vasconcelos

 

Fidelidade
Carmo Vasconcelos


Amigo, hoje é teu dia, me apresso a ver-te,
visto asas, e a distância não me impede
de, lesta, voar pra ti, pra que se aperte
nossa amizade, sem que trama a enrede.

Mesmo que adormecida na aparência,
ela semelhe ter perdido o enleio
(por muito dividida na vivência)
descrê do véu que a nubla de permeio.

Que eu galgo montes, vales, mesmo oceanos,
pra que sintas ao peito o forte abraço
deste nó que não lasseia ao vir dos anos…

Que seja maré viva e consentida,
por corda firme atada em forte laço,
enquanto for em nós, pulsante, a vida!


Carmo Vasconcelos

 

Fogo-Preso
Carmo Vasconcelos


Tenho um poema atado na garganta,
como uma espinha aguda atravessada,
cingido ao fogo-preso que o não canta,
hirta a língua, pla verve não largada.

E a mágoa que bebi, por não ser pouca,
pela afronta, de fel envenenada,
põe ressaca de gelo em minha boca,
pela amarga revolta não gritada.

Porém, se ao rubro a mágoa se agiganta,
deitada ao gelo, vê-se desmanchada,
e porque lisa… a pena já não espanta.

E liquefeito o mote, então sustido,
corre a mágoa na verve deslaçada,
vai-se a espinha, e o poema é engolido!


Carmo Vasconcelos

 

Halloween, Halloween!
Carmo Vasconcelos


Está chegando a noite do Halloween!
Cuidados há que ter-se nessa festa...
Que plo meio da alegria, espreita a fresta
pla qual pode escapar mal que germine...

Que há bruxas e vassouras inocentes
na noite dos bruxedos que se esgarçam,
misturadas co’as más que se disfarçam
de serafins do bem que iludem crentes!

E das luas negras baixam feiticeiras,
afrodisíacos e poções fatais,
que enganam os mais crédulos mortais...

Seja a noite de alegres brincadeiras,
e as bruxas mascaradas, verdadeiras
fadas boas, de feitiços divinais!


Carmo Vasconcelos

 

Hoje
Carmo Vasconcelos


Por hoje decidi ficar comigo,
a mente nua, despida de sensores,
tal um amplo celeiro, ausente o trigo,
ou coração liberto, sem temores.

Por hoje só pretendo a liberdade,
dispersa a luz total do pensamento,
ao ponto de expulsar qualquer saudade
e sombra de paixão ou desalento.

Por hoje vou dar rédea solta à estúrdia,
unir-me à multidão alucinada,
misturar minha voz co’as da balbúrdia!

Beber, amar, cegando a culpa e o juiz!
Da fascinante noite, irmã, e aluada,
ser astro sem memória… Ser feliz!


Carmo Vasconcelos

 

Já Fui…
Carmo Vasconcelos


Já fui… Não serei mais a complacente!
Rompi co’a tese alvar do faz-de-conta,
cansei de aparentar a lassa tonta
pra dar sono de paz a falsa gente.

Na negativa firme, inabalável,
sem engolir dilemas, reticências,
darei meu não pra incómodas cedências,
meu claro sim, somente ao desejável!

Ficar… Não ficarei a contra-gosto!
E calma no repúdio darei fora
a quem traga ao meu ser pranto e desgosto!

D’alma leve, sem peso que a atormente,
serei, por fim, inteira desde agora!
Já fui… Não serei mais a complacente!


Carmo Vasconcelos

 

 

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