Carmo Vasconcelos

 

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Aphrodite e Eros (Pellegrini)

 

SONETOS DECASSÍLABOS

( 4ª pág. )

 

Mãos Enamoradas
Carmo Vasconcelos


Enlaçavam-se as mãos em alvoradas,
ébrias manhãs de sol, noites aluadas,
mas os astros fundiram-se, apagaram,
e as mãos, soltas, perdidas, se apartaram.

Seus corações, porém, sobreviveram
à escuridão que cegos os fizeram,
e em meio do desvario dessa cegueira,
cada um se arrastou por nova esteira.

Agora, rente aos cardos do caminho,
ambos os corações choram baixinho,
a sangrar no árduo piso dos escolhos…

Mas um dia, limpo o chão, secos os olhos,
há-de emergir das provas que venceram,
o reencontro das mãos que se perderam!


Carmo Vasconcelos

 

Marés Da Vida
Carmo Vasconcelos


Meu coração recorda ao ver-te assim,
quando os amenos ventos ondulavam
os teus cabelos negros que encimavam
a testa sábia e lisa tal cetim;

Quando em teu rosto suave de delfim,
dois olhos de condor audaz lançavam
p’los céus além, os sonhos que sonhavam,
jovens e ousados nos ideais sem fim.

Mas se as marés da vida te enrugaram
a lisa tez; cabelos te roubaram;
e sonhos ruíram nesse olhar cansado...

Meu coração revê-te, deslumbrado,
pela sapiência que emergiu florida
da murcha flor-beleza em despedida.


Carmo Vasconcelos

 

Maria  Das Flores
Carmo Vasconcelos


Doloridas violetas traz nos olhos,
pelos dedos escorrem-lhe martírios,
e, tal em novena, ardem-lhe quais círios,
no peito amante, pálidos abrolhos.

Por que, teimosa, inda cultiva flores;
paisagens coloridas de desejos
que sonha salpicadas de ígneos beijos?...
Se na hora da colheita, colhe dores!

Alimenta-as de amor e rubro sangue,
porém os caules, meros lambareiros,
saciados, deixam-na... sozinha e exangue.

Florista acorrentada à fantasia,
só tem a flor-saudade nos canteiros…
Mas o sonho ainda habita na Maria!


Carmo Vasconcelos

 

Maturidade
Carmo Vasconcelos


Mais ano, menos ano… Corre a idade!
Volta a mente aos caminhos da lembrança,
aos mimos e folguedos de criança,
aos arroubos da verde mocidade.

Tanta gente partindo, que saudade!
Tanta gente chegando, elos de esp'rança!
Trânsito humano neste tear que entrança
riso e pranto, a tecer maturidade.

E quantos sentimentos de permeio…
Pós d'oiro e areias, num intrincado enleio,
margens de um rio que ruma para a foz...

E amadurece, cônscia, a nossa voz,
enquanto a alma se apura, esmerilada,
buscando a paz nas águas da levada!


Carmo Vasconcelos

 

Metamorfose
Carmo Vasconcelos


Quando do reino eterno, inatingível,
baixar esse fatídico decreto
que levará minh’ alma indestrutível
e meus chorosos vestirá de preto...

Terá meu corpo a terra por morada,
tornado pó por mágica alquimia
da terra-madre, a poderosa fada,
que o mudará em flor um certo dia.

E enquanto plos espaços luminosos,
perdida por lonjuras que nem meço,
minh’alma roga a Deus por curta viagem...

Vão colorindo as vestes os chorosos,
que cedo esquecerão da minha imagem,
e eu vou chegando ao pouso que mereço.


Carmo Vasconcelos

 

Meu  Novo Amor
Carmo Vasconcelos


Chegas-me de surpresa neste Inverno!
Como me adivinhaste assim tão só,
mordendo da saudade o amargo pó,
roçando o cio nas grades deste inferno?

Quem te mandou?... Demónio ou zelo de anjos?
Trazes dos deuses, néctar nos teus beijos,
no mel da voz, hipnóticos harpejos,
mescla de harpas e cítaras com banjos!

Mas... não sei se te quero ou mando embora,
se me entrelaço ao róseo desta aurora
ou se me entrego às sombras do poente...

Somar bisado arco-íris na memória,
dos tais que chuva intrusa rouba a glória?...
– Não sei, meu novo amor, sinceramente!


Carmo Vasconcelos

 

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