Carmo Vasconcelos

 

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O Fauno Dormindo - Harriet Hosmer

 

SONETOS DECASSÍLABOS

( 5ª pág. )

 

 

Meus Dilemas
Carmo Vasconcelos


Vinganças recalcadas, raivas tortas,
desfeitas ilusões, irados ais,
faço desses mesquinhos os jograis
de um amansado coro em horas mortas.

Devolvo assim ao mundo meus dilemas,
limados os impulsos da emoção,
pra que nunca me renda à escravidão
de um ego turbulento e seus esquemas.

E a pena é meu encosto, meu bordão,
escora dessa voz inda imperfeita
que rouba dos mortais a salvação…

E em verso… a dura pedra moldo em gemas,
e afronto o aleivoso ego co’a desfeita
de rever-se humildado em meus poemas.


Carmo Vasconcelos

 

Mulher Fatal
Carmo Vasconcelos


Pobre mulher fatal e tão vazia!
Fêmea ondulante em rendas e cetim,
avis rara, boneca de pasquim,
toda ela é simulacro e fantasia.

Madeixas coloridas, rubra boca,
olhos em alvo, a todos dizer sim,
fez do viver um álgido festim
imersa em vanidade e estima pouca.

Já lhe ferem a pele os gestos ávidos
dos machos esfomeados de luxúria
ante o seu corpo de êxtases impávidos!

Vendeu-se a troco reles de prazer,
e agora, corpo gasto e d’alma espúria,
só deseja partir... Pra renascer!


Carmo Vasconcelos

 

Musa Amada
Carmo Vasconcelos


Por que me tentas ora que estou cheia
do verde dia que a minha mente enrama
– tecedura da vida que me chama
aos elos da terrena e crucial teia?

Acerta o teu relógio, musa amada,
que de versos agora estou vazia,
não te marquei encontro, poesia,
espera-me logo à noite enluarada!

Preciso se me faz beijo de estrelas;
abraço do universo que me inspira;
astros a copular co'a minha lira!

Se extasiada me vires p'las janelas,
vem então, musa amada, meiga e nua,
e ao teu toque d’amor me farei tua!


Carmo Vasconcelos

 

Mutação
Carmo Vasconcelos


P’lo golpe inesperado, houve um momento
que se entranhou na minha natureza,
e adulterou meus genes-sentimento,
causticando sem dó minha inteireza.

Da mutação, um novo ser nasceu:
mulher transfigurada em pedra dura.
Mudança singular, porque perdeu
a angelical pureza da doçura.

Amargou na sua essência d’alma dócil,
trocada a veste cálida da crença,
pla gélida armadura da indif’rença.

Firme e petrificada, tal um fóssil,
defende-se, intocável e transida,
sem ânsia de calor que a traga à vida!


Carmo Vasconcelos

 

Não Chores, Poesia !
Carmo Vasconcelos


Não chores, poesia, minhas ausências,
se na tristeza em lágrimas te deixo…
Porque breve é meu aparto e meu desleixo
na urgência de abraçar outras carências.

São desta vida esparsa as contingências,
que me afastam de ti, divinal eixo,
levando-me a rolar, inquieto seixo,
por areias rendilhadas de envolvências.

Mas sempre volto, amada flor, e ajoelho
com alma de menina arrependida,
a pôr-te aos pés meus versos de amor velho.

E tu serás, das flores mais dilectas,
a eleita que levada na partida,
hei-de plantar no azul astral dos poetas!


Carmo Vasconcelos

 

Naquela  Tarde …
Carmo Vasconcelos


Naquela tarde rubra de calor,
embebedados de sol, mentes loucas,
tu sorveste e eu sorvi desse licor,
a degelar os frios nas nossas bocas.

Não foram vãos, nem sequer coisas poucas,
esses arroubos tensos, em tremor,
lava de amor parindo em vozes roucas,
sôfregos beijos mitigando o ardor.

Agora a noite cai… Na escuridão
me alumiam os teus olhos na lembrança
do sonho que aqueceu meu coração

Só peço, amor, de novo essa emoção
de olhar teus olhos verdes de bonança
ardendo em tempestades de paixão!


Carmo Vasconcelos

 

 

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