Carmo Vasconcelos

 

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Antoine-Jean Gros (1771-1835) -Bacchus and Ariadne

 

SONETOS DECASSÍLABOS

( 9ª pág. )

 

 

Sons Cruzados
Carmo Vasconcelos


Ouço teu grito agudo, tal o meu,
sons cruzados, vagando no horizonte,
quiçá irmãos na dor que ambos tangeu;
na agonia que enrugou deles a fronte.

Ser insano que o amor fez ultrajado,
não pode mais matar sede a ninguém,
que seja já o seu fluido dissipado,
posto o seu coração, longe, ao desdém.

Que é fútil, e d'amor não toma ciência;
prova toda a paixão sem qualquer siso,
pulando, ora de galho ora de guizo.

Sofrerá no futuro a consequência
da tola ambiguidade, em decepção
e em elos desprovidos de emoção.


Carmo Vasconcelos

 

Suprema Sinfonia
Carmo Vasconcelos


Do desentendimento, as almas várias,
cegas d’amor, não podem ser culpadas,
se desconhecem outras leis firmadas
além das meras emoções primárias.

Embora corpo a corpo, bem ligadas
àquelas que amam, falham noutras áreas,
se não superam opções contrárias,
gemendo, em corpo amante, almas magoadas.

Coisa pouca é o saciar da carne vã,
e, futilmente, aos egos agradar…
- De muito mais carece a vida sã:

- Que vibrem alma e corpo em sintonia,
que cada amante saiba com seu par
compor, suprema, a dupla sinfonia!


Carmo Vasconcelos

 

Tão Só…
Carmo Vasconcelos


Tão só como uma viela em noite escura,
eu abafava os passos do desejo,
meus gestos não medrados p'la secura
meus olhos tão mortiços sem lampejo

Eu era igual a uma águia imponente,
vivendo solitária lá p'la altura,
o céu de anil rasgando amargamente,
de lágrimas regando a vã planura.

Surgiste… E o breu da viela iluminou-se,
os passos do desejo já ressoam,
meus gestos germinaram – trigo doce!

Tal como se jamais essa águia fosse,
meus olhos vivos cânticos entoam
à luz bendita que esse amor me trouxe!


Carmo Vasconcelos

 

Tempo de Quaresma
Carmo Vasconcelos


Das Cinzas salta o tempo prá Quaresma,
rumo à glória da Páscoa promissora,
a elevar-nos, Divina por si mesma,
aos cumes da Verdade redentora.

Ressurreição do Cristo! Evocação
que na alvorada já se faz sentir,
fazendo repensar todo o pagão,
seus desmandos ateus, que urge remir!

E a renascida flama de Jesus
virá trazer-lhes uma nova luz,
seus ímpios corações virá tocar…

Pois todo o ser humano sendo altar,
onde a fé, se ora em cinzas, não reluz...
Aos eflúvios da Páscoa, irá se atear!


Carmo Vasconcelos

 

Terra Inseminada
Carmo Vasconcelos


Enquanto a flor de amigo vou ceifando
espero p'las delícias que me tragas;
são pérolas que soltas se divagas,
é mel o que me trazes,doce e brando.

E há mosto na tua mão quando me afagas,
e verso no teu abraço me enlaçando,
segredos que entre nós dois vão semeando
uma flora de amor em secas plagas.

Regadas pela seiva do desejo,
fertilizam de vida e de pujança
areias que antes morriam sem esperança!

E o verde nasce do fulgor do beijo,
e os frutos brotam do calor da cama,
e a terra inseminada se proclama!


Carmo Vasconcelos

 

Visão
Carmo Vasconcelos


É nesta tela negra, lisa e fria,
que em vão te espero, de alma desarmada...
Invisível estrela inalcançada
no espaço que de mim te distancia!

Opaco e nulo é o meu discurso mudo…
Poeira vã, volátil, desgarrada,
dispersa, solitária e desfasada,
palavra rouca de um sentir desnudo!

Até que no negrume imponderável,
inusitada, mostra-se a impalpável
visão do meu fascínio de demente...

És tu que vens, luz raiada, fluorescente!
Incandescer a tela onde me enleio
no fogo desse verbo em que te leio!


Carmo Vasconcelos

 

 

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