Carmo Vasconcelos

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Vénus e seus seguidores - Zatzka

 

SONETOS INGLESES

( 1ª pág. )

 

A Voz Da Primavera
Carmo Vasconcelos


Já vão partindo as noites invernosas,
os dias tristes, de humores enevoados,
degelam as correntes, caudalosas,
furam a terra os brotos encubados.

Regressam andorinhas migratórias,
os céus revestem mantos de esplendor,
e ao Pai Celeste sobem oratórias
das aves em seus cantos de louvor!

É a nova Primavera a despontar,
que, sem palavras, vem pra nos dizer,
da natureza, o eterno renovar,
que há da aparente morte o renascer!

Ouça-se dela a fala da razão!
- Que a morte é só… da vida uma estação!

 

Carmo Vasconcelos

 

Bicho-Amor
Carmo Vasconcelos


Há uma dor perfurante no meu peito,
urze que fere mas não deita sangue,
verme oculto o bebe e me deixa exangue,
ao nutrir-se de insónias no meu leito.

Bicho-amor, insistente na porfia,
mói-me as entranhas quando desatina,
meus nervos dana, minhas forças mina,
e ao mesmo tempo é bem que acaricia.

Tento acalmá-lo com a voz de quem
de longe rasga versos escarlates,
mimos d’enlace em rendas de açafates...
Mas pede mais... Voraz, não se contém!

Devora-me alma e sangue e não fraqueja,
na gula desse par-amor que almeja!

 

Carmo Vasconcelos

 

Buraco Negro
Carmo Vasconcelos


Essa nublada imprecisão do teu sentir,
acumulada seca de águas que não caem,
provoca em mim as densas névoas que me traem,
num descompasso de avançar e regredir…

Ausente o abraço só vislumbro o breu profundo
do assustador buraco negro do desejo,
que sem piedade suga as fomes do que almejo,
e delas faz poeiras sepultas lá no fundo.

Dessa fundura imensa eu clamo a salvação,
quando jogo alto sementeiras de palavras,
amor em grãos, para adubar estéreis lavras,
e ajardinar teu ressequido coração.

E em prece a Deus, suplico em pranto, e de mãos postas,
o reflorir desse teu solo sem respostas!

 

Carmo Vasconcelos

 

Cansaço
Carmo Vasconcelos


De remos já cansados de lutar,
sou barca a navegar contra a maré.
De sonhos inundada perco o pé,
desavistada uma ilha pra aportar!

Gelam-me as mãos, doridas de vazias,
dos meus olhos escorrem só miragens...
Ilhas de amores, cálidas paragens,
falsas visões de margens fugidias!

Já débil ante as vagas a vencer,
e esmorecida a fé numa bonança,
em espuma se esvai minha esperança
do meu porto de abrigo vir a ter!

Não há gesto capaz de me acolher...
E em breve, serei água na lembrança!

 

Carmo Vasconcelos

 

Divino Verbo
Carmo Vasconcelos


Eram de angústia os tempos tenebrosos,
quando os senhores da heresia opressora,
reinavam neste mundo, poderosos,
semeando a morte injusta, aterradora!

Mas contra a treva vil dos portentosos,
emerge a Luz por dentre a palha loura,
e erguem-se aos céus os hinos jubilosos,
a venerar Jesus na manjedoura!

C’o Deus-Menino nascem sóis radiosos
e nova fé na ansiada Paz vindoura,
que há-de brotar dos ramos amorosos,
da Sua Palavra Santa, imorredoura!

Que o Seu Verbo Divino contra o mal
floresça, vivo em nós, cada Natal!

 

Carmo Vasconcelos

 

Do Vermelho ao Negro...
em
“A Opereta”

Carmo Vasconcelos


Da cor vermelha ao negro, quão sutil é a ponte!
E o quanto um passo em falso, ao rés d’abrupto abismo,
muda o cenário da existência, e no horizonte
surge de negro o que era rúbido lirismo!


A Opereta


No palco, o rubro e o negro são a exibição!
Numa opereta, apaixonado trio de amantes
encena o rubro duma lírica paixão,
cedo acabada em negras cinzas fumegantes!

Nos alternados tons de amor e de traição,
seguem-se os actos, sob espanto e dor geral,
irrompe negro o ciúme vil de um coração
que vinga em sangue a falsa amante desleal!

E tomba o intruso às mãos do negro vingador,
rubra, a traidora, jaz ao lado do ente amado,
põe termo à vida o assassino, em negra dor,
num adeus d’alma ao rubro sonho idealizado!

De sangue eivado, desce o pano, agonizante,
no final negro da opereta delirante!



Tal esta peça se fez breu num golpe insano,
da cor vermelha ao negro, a ponte é um mero passo...
muda num ápice o matiz do fado humano,
não fora a vida um salto escuro neste espaço!

 


Carmo Vasconcelos

 

 

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