|
 c

ROMPENDO AMARRAS
POESIA LIVRE
por
Carmo
Vasconcelos
PÁG. 3 DE 9 PÁG.

Alberto Pisa
Leitura

|
COMEÇO A
ENTENDER
...
Carmo
Vasconcelos
Começo a
entender
a
inutilidade
do
teimosamente
querer...
Lentamente,
dispo a
frustração
do não
ter...
Pragmática,
visto a
minha
gramática.
“Passar”
é o meu
verbo,
não,
“Ficar”.
Chuva
miúda
que cai,
entranha,
vivifica,
revigora,
e se
vai...
Homeopática!
Brisa
forte,
mais que
aragem,
menos
que
suão,
espaneja,
sacode,
areja,
e se
vai...
Errática!
A todos
os meus
amores
amei
intensamente
e
desejei
eternos...
Mas
isso...
seria
outra
gramática...
Estática!
Meu
verbo é
“Passar”,
não,
“Ficar”.
Água
corrente,
transparente,
refresca,
tonifica,
reverdesce,
e se
vai...
Profiláctica!
Chama
quente e
rubra,
acalenta,
purifica,
alumia,
e se
vai...
Carismática!
Começo a
entender-me
sem
lamento,
da
Natureza
elemento,
chuva,
brisa,
água,
chama,
gente e
agente
do
Super-Regente,
que em
sua
Divina
táctica,
Enigmática,
Escreveu
minha
gramática
Sistemática!
“Servir”
,
“Servir”
,
“Servir”,
depois...
“Partir”
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
CONSTRUINDO
A
PONTE...
Carmo
Vasconcelos
Suave e
lentamente,
desligo-me
do
mundo.
Sem pena
nem
tristeza;
nem
asceta...
Sem
depressão
ou
euforia,
apenas
circunspecta,
preparo
a outra
vida que
vislumbro
ao
fundo...
Para
trás, a
estrada
já
vencida,
o
“dejá-vu”
que,
perdido
o
espanto,
tal
amantes
desgastados
de eu e
tu,
já não
empolga
mais...
Na nova
esfera
introspectiva
há
silêncios
de
catedrais,
cores a
desbravar
num imo
de
vitrais.
Dos
satélites
pulsantes
ao
redor,
já
conheço
os
estafados
movimentos
e
quadrantes.
O
caminho,
sem
arestas
de
temor,
faz-se
agora
para
dentro,
numa
rota
ponderada
de
regresso
ao
antes.
Guardo
os olhos
para as
paisagens
Superiores
e os
ouvidos
para
sinfonias
Divinais.
Prevejo,
até...
uma nova
poesia
por
sinais
aromados
de
incensos,
luzes,
toques,
brisas
calmas,
linguagem
enigmática
das
almas.
Pressinto
orgias
transcendentais,
orgasmos
cósmicos
deslumbrantes,
anjos e
vestais
fazendo
amor num
céu de
debutantes.
Largo as
vestes
da
vaidade,
a nudez
visto de
branco,
descalço-me
de
intentos,
despeço
louvores,
rebaptizo
sentimentos,
experimento
o
desapego
franco.
Abafo o
ego
prepotente,
queimo o
lixo
material
e
poluente.
Na
mala...
apenas
os
valores
invisíveis:
aprendizado,
conhecimento,
justeza,
doação,
desprendimento.
Não há
limite
de peso
para a
bagagem
dos
possíveis
que
estou
juntando
em
sossego.
Quantos
mais...
maior
leveza.
Ah!
Minha
vontade
fraqueja…
Pesos
ainda da
carne
que
lateja.
Das
paixões,
persistem
sombras
torturantes,
pecados
veniais,
sedutores
e
fascinantes,
e as
feras,
sequiosas
de
prazer,
rondam a
fonte...
Mas, por
entre a
força e
a
fraqueza,
a
certeza
do
paraíso
defronte.
Sem data
agendada
para a
passagem,
estou
construindo
a ponte!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
DÁDIVA
Carmo
Vasconcelos
Pudessem
minhas
lágrimas
lavar de
ti essa
poeira-angústia
que
trazes
colada
aos
poros,
e eu me
faria um
rio de
prantos.
Pudessem
meus
afagos
derreter
as
intrínsecas
carências
coaguladas
no teu
sangue,
e eu
incendiaria
as
minhas
mãos.
Pudessem
meus
beijos
sufocar
as
doídas
memórias
que te
seguem
como um
cão
fiel,
e eu me
multiplicaria
em
lábios.
Pudesse
o meu
corpo
saciar-te
das
fomes
que te
mordem,
insaciáveis,
e eu me
inventaria
pão
dos teus
anseios
inexplicáveis.
Mas...
Mulher
apenas,
sem
artes
mágicas,
posso…
Ser um
rio de
imaginação,
incendiar-me
de
inovações,
multiplicar
novos
conceitos,
vestir-me
de
entendimento,
despir-me
de
preconceitos.
Inventar-me
travesti
do
futuro,
ousar a
última
aventura,
jogar o
jogo da
loucura.
E,
embriagada
de todas
as
certezas,
tentar…
compensar-te
dos
pesos
existenciais,
arrasar-te
os
castelos
de medos
assombrados,
roubar-te
o vício
dos
pensamentos
amargados...
E na
dádiva
plena,
pauta de
simbiótica
harmonia,
ser a
nota
final…
que
amorosamente
soa
para
anunciar
um homem
renascido
do amor
em
alquimia!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
DUALIDADE
Carmo
Vasconcelos
Fui
deusa da
caça,
feiticeira
de Oz,
caçadora
e presa,
vítima e
algoz.
Fui
verbo-incerteza
em almas
pagãs,
sacerdotisa
de
mentes
irmãs.
Fui
louca e
devassa
em
noites
de amor,
filha de
Afrodite…
E em
dias de
Graça,
asa de
condor
no céu
sem
limite.
Fui fogo
e
surpresa
na cama
e na
mesa,
crédula
e
perjura.
Fui
perto e
lonjura,
amada e
esquecida,
traidora
e
traída.
Fui
calor e
beijo,
volúpia
e
desejo,
carne de
festim.
Fui
verso e
fui luz,
a voz de
Jesus
falando
por mim.
Fui nada
e fui
tudo!
Choro,
riso,
entrudo,
princípio
e fim!
E hoje
em meus
anos,
sou ré e
juíza
de meus
próprios
actos.
E de
meus
senãos,
sábios
ou
insanos,
lavo as
minhas
mãos
tal como
Pilatos!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
EM
BUSCA DE
OUTRO
CAIS
Carmo
Vasconcelos
Julguei
encaminhar-me
para um
Porto de
Desejos...
Viris,
os
contornos
estavam
lá!
Rompi o
nevoeiro
e
atraquei,
levando
comigo
sofreguidão
de
beijos.
Viris,
os
contornos
avistados
esfumaram-se,
varridos
pela
língua
das
marés
que os
não
deixaram
ser.
Gelei na
boca o
beijo,
petrifiquei
abraços,
e rumei
em busca
de outro
cais!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
ENCONTRO
Carmo
Vasconcelos
Hoje,
num
impulso
de tédio
e
desamor,
ancorei
numa
praia há
muito
esquecida.
Apenas
para
sentir
o
frescor
de uma
onda
acariciante,
a beleza
de uma
rosa
montada
na
espuma,
o sabor
de um
beijo
morrendo
na
areia.
Foi
então
que
entre
rosas e
beijos à
deriva,
ondas
volúveis
e
futilidades
emergentes,
meus
olhos se
abriram
à magia
do
momento…
Era o
mar a
trazer-te
até mim,
único,
claro e
inteiro,
como
insólito
presente
dos
deuses.
Busquei-te,
sem
saber…
Pressenti-te,
meu
amor!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
ERAM
ESPELHOS
Carmo
Vasconcelos
Eram
espelhos
que
turvavam
meu
olhar...
A rosa
artificial
que nos
enfrentava
pálida e
ambígua...
A cómoda
sem
brilho
que nos
julgava
como um
juiz
decadente...
O lustre
meio
cego
pendente
sobre
nós
como uma
espada
de
Aquiles...
O leito
gemente
que mal
nos
suportava
delido
do peso
de
tantos
amantes...
Todos
testemunhas
cegas,
surdas,
mudas,
mas
espelhos...
Espelhos
da única
realidade
possível
para
nós...
Cúmplices
sem
afecto
desta
simbiose
fugaz e
efémera,
embaciaram
com o
hálito
do
tempo...
E o meu
olhar
turvado
quebrou-os
sem
piedade!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

Livro de Visitas
 c
Para
pág. 4 |
|
|