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ROMPENDO AMARRAS
POESIA LIVRE
por
Carmo
Vasconcelos
PÁG. 4 DE 9 PÁG.

Adolphe Alexandre Lesrel
Cativa

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ESFÉRICO
Carmo
Vasconcelos
Redondo
é o
ventre
que gera
a vida.
Redondo
é o seio
que
amamenta
a cria.
Redonda
é a Lua
da
imaginação.
Redondo
é o Sol
que
germina
o grão.
Redondo
é o
Mundo
onde
tudo
vibra.
Redondos
os
sonhos,
bolas de
sabão…
Redonda
a
existência
de
ciclos
sem fim.
Redondo
o abraço
que te
cola a
mim.
Redondo
o falo
da
fecundidade.
Redondos
teus
lábios
de
sensualidade.
Redondo
teu
corpo
de
apelos
carnais.
Redondas
as
formas
que eu
amo
demais!
Carmo
Vasconcelos |
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ESPERA-ME…
Carmo
Vasconcelos
Sei
que me
esperas…
Vestida
de
branco,
pele
acetinada,
virgem,
morrendo
no vazio
da
inutilidade.
Anónima
e
solitária,
imploras
paixão,
lágrimas,
sonhos,
raivas,
decepções,
ou mesmo
uma
simples
estória
de
ninar.
Suportarás
seja o
que for
menos
esse
nada
que te
reduz à
ínfima
qualidade
de
matéria
fria e
muda.
Espera-me…
Uma
noite
chegarei
para
roubar-te
a
virgindade
e
salvar-te
do
estupidificado
anonimato.
Coração
nas
mãos,
debruçar-me-ei
sobre ti
para
tingir
de azul,
negro ou
carmim,
esse
branco
injusto
e cruel
de
Imaculada
Folha de
Papel !
Carmo
Vasconcelos |
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FANTASIA
Carmo
Vasconcelos
Invento
o teu
rosto...
Olhos
fugidios
dissimulando
o
desejo,
lábios
sensuais
me
prometendo
o
beijo...
Das
pérolas
que
espreitam
da tua
boca em
avidez,
faço
colares
com que
enfeito
tua
ansiada
nudez.
Nossas
íris
maliciosas,
num jogo
de toca
e foge,
já
brincam
libidinosas.
E as
sobrancelhas,
em
servil
conjugação,
arqueiam-se
langorosas
para que
saltemos
ao eixo,
pés
desligados
do chão,
alçados
para o
orgasmo
em nossa
imaginação.
Invento
o teu
corpo...
Deserto
ardente
ou praia
encoberta,
matagal
a
desbravar
ou
suculenta
vinha…
E semeio
nele as
carícias
que
farei à
descoberta.
Sonho-te
pronto,
sussurrando
ao meu
ouvido a
tua
espera
igual à
minha,
mãos-borboletas
ensaiando
voos
nupciais
que
levarão
ao céu
do nosso
encontro.
E
ascendo,
verde
trepadeira
renascida,
à
janela-água
do teu
leito
para
saciar a
minha
sede no
teu
peito.
Invento
o nosso
amor...
Uma tela
preciosa
e
colorida,
o êxtase
paradisíaco
na
paixão
dada e
recebida…
Levo nos
cabelos
malmequeres
que
desfolhas
enredado
em mil
meneios
sobre os
picos
atrevidos
dos meus
seios.
Mal me
quer,
Bem me
quer,
Mal me
quer,
Muito,
Pouco,
Nada…
Apaixonada,
despudorada,
falseio
a
matemática
da flor,
sequiosa
a te
beber.
Bem me
quer,
Bem me
quer,
Bem me
quer!
Muito,
Muito,
Muito!
Desejo-te
terra e
ar, fogo
e sol a
aquecer
a pétala
única
que
sobrou
da
desfolhada
deste
inventado
amor a
florescer!
Carmo
Vasconcelos |
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"FAZER
AMOR"
Carmo
Vasconcelos
Pura
expressão
tecnicista!
Como se
o Amor
se
fizesse...
Como se
das mãos
brotasse...
Como se
do chão
nascesse...
Como se
houvesse
o
artista
que tal
obra
projectasse...
Como se
o Amor
fosse
táctil,
mecânico,
elaborado,
artefacto,
peça
fácil,
mero
produto
acabado...
Matéria
reconstruída,
cria
gerada e
nascida...
"Fazer
Amor"...
Se
alguém
fazê-lo
soubesse,
qual
artífice
faz a
obra,
qual
actor
inventa
o
gesto...
De tal
modo
abundaria,
tornado
tanto e
de
resto,
que
ninguém
o
buscaria
em
ânsias,
por ser
de
sobra.
Por não
existir
tal dom,
o Amor é
raro,
precioso,
feito
mistério
e
encanto...
Génio
bom e
luminoso
que das
harpas
tem o
som
e das
sereias
o canto.
O Amor…
Pode até
inventar-se,
pode
vender-se,
comprar-se,
pode
adiar-se,
esquecer-se,
como uma
Graça
esperar-se,
sofregamente
querer-se...
Mas
jamais
pode
"fazer-se"
!
Carmo
Vasconcelos |
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FEITIÇO
DE ANO
NOVO
Carmo
Vasconcelos
A
noite
estava
fria!
Fria,
mas
acariciante,
porque
tu
estavas
nela!
Meu
corpo
ardia à
tua
sombra,
os
vidros
escorriam,
e eu
humedecia,
na ânsia
de ti!
Falavas
de
livros,
de
poetas e
poemas...
As tuas
palavras
soavam-me
a Listz,
e eu
dançava
à tua
volta.
Quieta,
escutando,
eu era
uma
criança
sentada
nos teus
joelhos,
e neles
percorria
o mundo!
O jantar
foi
tradicional.
O vinho,
quente e
especial.
De entre
as
guloseimas,
tu! A
melhor
iguaria!
O
relógio,
tranquilo,
cadenciava
o tempo,
inalterável.
Quando
soaram
as doze
badaladas,
houve
fogos de
artifício
dentro
de mim
e
fogo-preso
no teu
beijo!
Só eu
desordenada
na ordem
natural
das
coisas...
Era o
feitiço
de um
Novo Ano
que
nascia
perante
nós!
Apagámos
as velas
e a
lareira,
deitei-me
no teu
abraço,
e os
indícios
de um
outro
fogo
começaram
a
crepitar.
Eu
disse:
“É a
vida que
nos
conduz…”
E o teu
silêncio
consentiu
a
afirmativa.
Reféns
dessa
constatação,
invadiram-nos
as
labaredas
inevitáveis,
e já
madrugada,
mergulhámos
na paz
dos
rendidos!
Carmo
Vasconcelos |
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FINALMENTE,
AS
LÁGRIMAS!
Carmo
Vasconcelos
Finalmente,
as
lágrimas!
Pérolas
translúcidas
rolaram,
para
lavar,
sacudir,
acordar,
a mente
hipnotizada,
a razão
turvada,
o
raciocício
embotado,
o
coração
deslumbrado.
Fustigantes,
invadiram
portas e
janelas
da
lógica
trancada,
para
despertarem
a
clarividência
soterrada.
Por
entre os
dedos
alagados,
escorreram
afagos
desfeitos,
carícias
afogadas,
gestos
d’amor
naufragados.
Lágrimas
embruxadas,
feitas
bolas-de-cristal,
trouxeram-me
a visão
dos meus
loucos
devaneios.
Impiedosas,
feriram-me
os olhos
com as
minhas
utópicas
fantasias.
Lá
estava
eu...
Desesperadamente
enamorada,
querendo
tingir
de azul
os
cinzentos
inalteráveis,
colando
asas a
um deus
que
jamais
podia
voar,
soprando
vida e
cor numa
tela
predestinadamente
indefinida,
forçando
ao
concreto
uma
pintura
abstracta...
Obviamente
inútil!
Fechei
os olhos
para não
ver
mais!
Mas as
lágrimas,
bolas-de-cristal
embruxadas,
sarcásticas
na sua
transparência,
violaram-me
as
retinas.
Lá
estava
eu...
Amante,
tango e
fado,
esperando
aquele
dia que
não
aconteceu...
Feliz!
Inquieta!
Ansiosa!
Desdobrei
linhos,
fiz a
cama,
pus a
mesa,
acendi
velas...
Ensaei
rendas e
cetins,
nua e
impura!
Enchi as
taças da
certeza.
De
ingenuidade
me
embriaguei,
obviamente
cega!
Hoje, as
lágrimas...
Finalmente,
as
lágrimas!
Carmo
Vasconcelos |
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HERÓICAS
MEMÓRIAS
Carmo
Vasconcelos
Densa
folhagem
de
memórias
antigas
pende
sobre o
meu
tronco
endurecido.
Por
frágeis
e
descoloridas,
se vão
esvaindo
as
folhas
novas,
na
debilidade
da
importância
transitória...
Enquanto
as
ancestrais,
regadas
de
significado,
veios
plenos
da
clorofila
madre,
permanecem
firmes,
amalgamadas
no pez
das
paixões
primeiras.
São as
corajosas
resistentes,
a
impedirem
o trepar
da
folharia
efémera,
verde de
fútil
modernidade.
São as
tenazes
sobreviventes,
bravamente
à defesa
das
intrusas,
pretensas
sugadoras
da
perenidade
da seiva
primordial.
São as
heróicas
memórias
que,
comigo,
morrerão
de pé!
Carmo
Vasconcelos |
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Livro de Visitas
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Para
pág. 5 |
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