|
 c

ROMPENDO AMARRAS
POESIA LIVRE
por
Carmo
Vasconcelos
PÁG. 6 DE 9 PÁG.

Charles-James-Lewis

|
NA
ESQUINA
DO TEMPO
Carmo
Vasconcelos
Na
esquina
do tempo
neva…
Estendo
toldos
carmesim
na
palidez
da minha
angústia,
atiço
fogos
nas
cinzas
mortas
dos meus
olhos,
penduro
nos
lábios
trapos
de
sorrisos,
e
caminho,
caminho
para ti!
Five
o’clock
tea?…
Na
esquina
do tempo
neva…
Extinguiram-se
lumes,
a
chaleira
dorme,
só água,
água
fria e
folhas
secas
o chá
das
Índias
que me
havias
prometido!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
NÃO
HÁ
DILEMA…
Carmo
Vasconcelos
Quando
me sinto
num
labirinto
ou
encruzilhada
e a
minha
alma
aniquilada
é folha
morta…
Quando
me vejo
como
pintura
inacabada
e o meu
desejo
chega à
loucura
e me
desfaço…
Quando a
procura
é uma
saída
que não
tem
porta
e o meu
abraço
vai para
o
espaço…
Ainda
assim,
não é o
fim, não
há
dilema,
pois
sempre
encontro
dentro
de mim
“aquele”
poema!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
NEBLINAS
Carmo
Vasconcelos
Sacode a
neblina
tenebrosa
que
tolda o
teu
pensamento,
varre a
nuvem
pardacenta
que
encobre
o céu do
teu
sorriso,
tranca
portas e
janelas,
veda as
frinchas,
não
consintas
que te
habitem!
Busca as
pedras,
e
encontra
o gesto
que há
de gerar
a faísca
luminosa
que te
devolverá
a
claridade...
Não
receies,
não se
queimarão
na luz
tuas
memórias!
Desnuda-te
de medos
e de
raivas
e
banha-te
na chuva
expurgadora
das tuas
lágrimas.
Dissiparás
as
névoas
e
lavar-te-ás
do pó da
tua
angústia.
Não
temas!
Não se
afogarão
na chuva
teus
perenes
sonhos!
A tua
mente,
luminosa
e
lavada,
será
então
um prado
de
verdes
orvalhados
e dele
emergirá
nova e
rubra
vida,
como
papoila
de entre
cardos!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
NO
ENLACE
DO FOGO
Carmo
Vasconcelos
Em
breve
serei
só
cinzas e
pó,
que à
terra
não vou!
Que me
leve o
mar
ou subam
no ar
cinzas
do que
sou!
Que me
lamba o
fogo
que me
purifique,
que nada
aqui
fique,
matéria
impura...
No sal
ou na
altura,
lá me
acabarei!
Por cá
deixarei
na
aragem
que
flui,
espectro
do que
fui.
Invisíveis
dedos
duma
alma
errante,
desejos,
segredos…
De
gotas-juízo
somente
o
bastante!
Laivos
de
ternura,
paixões
e
degredos,
pingos
de
loucura
nas
noites
sem
siso…
Dos
versos
que
aliso,
deixarei
as
letras,
que pra
uns são
tretas,
tempo
diluído
perdido
na
senda…
Pra
alguns,
serão
prenda,
legado
querido,
bordado
de
renda!
No
enlace
do fogo,
breve
saberei
tudo o
que não
sei
do
incógnito
logo!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
O
BANQUETE
Segundo
o mito
de
Platão,
no
principio
todos os
seres
eram
andróginos,
com uma
metade
feminina
e outra
masculina.
Por
castigo
de
ofensas
aos
deuses
foram
divididos
ao meio.
Trata-se,
na
verdade,
de uma
fábula,
um mito
encantador,
destinado
a
revelar
um ponto
muito
profundo.
Sob essa
perspectiva,
o amor é
literalmente
a busca
da outra
metade.
Essa
fábula
tem
implicações
muito
abrangentes
em
termos
da
metafísica
e da
ética de
Platão.
É um
outro
modo de
afirmar
que não
somos
seres
completos,
e que os
movimentos
do amor
são uma
busca de
complemento.
(In "O
Banquete",
de
Platão)
O
BANQUETE!
Carmo
Vasconcelos
Vestiste
o meu
roupão,
calçaste
os meus
chinelos,
deles
aspiraste
o meu
afecto.
Deixaste
neles
teu
cheiro e
teus
cabelos,
e ainda
ecoa no
meu
tecto
o teu
bater de
coração.
Bebeste
do meu
copo,
soubeste
os meus
segredos,
desvendei-te
os meus
enredos.
Fizemos
amor de
vinho e
pão,
de carne
nos
lambuzámos,
e dentro
de mim
verteste
a tua
taça...
Havia
acordes
dum
dengoso
minuete
no
fausto
desse
banquete
sem
sombra
de
ameaça.
Quantos
risos,
quanta
festa,
antes e
depois
da
sesta!...
Caminhámos
abraçados
frente
ao mar,
colocada
a
preceito
a
caravela
do sonho
que
pregaste
no meu
peito.
Mão na
mão,
éramos
do
próprio
Eros a
encarnação!
E nenhum
de nós
queria
saber
se tudo
isso se
chamava
amar.
Para quê
catalogar?...
Bastava-nos
estar
perto
e o
resto do
mundo
era um
deserto.
Quantos
ais e
madrigais...
O sangue
se
incendiava
e como
brasas
que
ateiam
com a
aragem,
ardíamos
juntos
nessa
viagem
de
êxtases
conjugais.
Mas tudo
não
passou
duma
miragem!
Morreram-me
os olhos
numa
visão
fatal
ao ler
os
editais
dos teus
súbitos
esponsais
numa
igreja
virtual.
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
O
DEMO DA
CARNE
Carmo
Vasconcelos
Puros,
estavam
dois
anjos
de
pedra,
na
sacristia,
candidamente
lembrando
o
paraíso
perdido.
Uma doce
melodia
composta
de
harpas e
banjos
ouviam…
embebedando
de
espírito
os seus
sentidos.
Mas em
satânica
dança
se
aproxima
o
inimigo
concupiscente
e
atrevido
que
há-de
virar
todo o
jogo…
E
quebrando
a
calmaria,
o demo
da carne
avança
montado
nos
torvelinhos
duma
onda de
perigo.
Com os
seus
braços
de fogo
semeia
carvões
em
brasa,
e rindo
em feros
rugidos
ateia um
fogo que
arrasa!
E a
partir
desse
dia,
a capa
dura e
fria
dos
inocentes
anjinhos
não é de
pedra
jamais…
Porque
de carne
vestidos
viraram
simples
mortais!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

|
O
MURO
Carmo
Vasconcelos
Entre
mim e
ti…
O muro
invisível,
o abismo
que
medeia
os
paralelos,
a
incógnita
do
enigma!
Entre
mim e
ti…
O
meridiano
intransponível,
a
equação
irresolúvel,
o
absurdo
do
“quase”
!
Entre
mim e
ti…
Também a
labareda
que
incendeia
e nos
projecta
a uma
simbiose
lúbrica
sem
amanhã!
Carmo
Vasconcelos |
|
|

Livro de Visitas
 c
Para
pág. 7 |
|
|