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ROMPENDO AMARRAS
POESIA LIVRE
por
Carmo
Vasconcelos
PÁG. 7 DE 9 PÁG.

Max Silbert
Mulher Lendo

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O
QUADRADO
Carmo
Vasconcelos
Cai a
noite…
Baixa o
silêncio
de
lúgubres
ruídos.
sombras
agitam-se
em
danças
espectrais,
duendes
e gnomos
congeminam
diabruras,
almas
penadas
visitam
moradas
antigas.
Num
passe
mágico
de mão
invisível,
o manto
de
negrura
que me
envolve
desdobra-se
a meus
pés,
pondo a
nu
a visão
aterradora
do
quadrado
que me
encerra!
Carmo
Vasconcelos |
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O
RESGATE
Carmo
Vasconcelos
Vieste
das
cavernas
da
escuridão,
vela
exaurida…
Trazes
as
marcas
dos
morcegos
desarvorados,
as
cicatrizes
dos
vampiros
esfomeados,
o corpo
exangue,
as mãos
em
sangue
de os
enxotar!
Passaste
fome,
fome de
amor...
Comeste
sapos
que te
mirraram,
silvas e
cardos
que te
arranharam.
Passaste
frio,
gelaste
a alma,
e numa
manta
feita de
dores te
embrulhaste!
Houve
batalhas
de Luz e
Treva,
e os
pirilampos,
Guerreiros
da Luz,
voaram
baixo…
Vencendo
a Treva,
te
resgataram,
te
iluminaram,
e tu,
vela
exaurida,
hoje és
um
facho!
Carmo
Vasconcelos |
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O
TRÁGICO
Carmo
Vasconcelos
Dói-me o
seu
rosto!
Máscara
seca,
pele
crispada,
riso
castrado.
Para
ele,
a
comunicação
é linha
cortada,
o
contacto…
risco de
choque.
Toda a
palavra
lhe soa
a falso
e cada
gesto é
uma
traição.
Seus
olhos
frios,
acusadores,
a esmo
imputam
seu
sofrimento.
Digere a
vida em
agonia,
sob os
seus
pés,
cada
desnível
é um
alçapão,
cada
degrau,
uma
subida
para o
cadafalso.
A
amargura
é sua
química,
destilando
humores
amargos.
É o
descrente
para
quem a
fé
é teoria
transcendental...
A
felicidade,
a rara
Pedra
Filosofal.
Adulterando
a
existência,
semeia e
colhe
frutos
de fel,
envenenando-se
neste
palco
onde a
Tragédia
é o seu
papel !
Carmo
Vasconcelos |
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O
ULTIMO
GRITO!
Carmo
Vasconcelos
Hoje
apetece-me
gritar!
O tempo
já se
vai
fazendo
curto
para
soltar
os meus
ecos,
limitado
para
esvaziar
tantos
gestos
recalcados,
exíguo
para
extravasar
tanto
amor,
urgente
para
toda me
entregar.
Não
tentem
sufocar-me,
senhores!
Não mais
calarei
os meus
ardores!
Direi
"amo-te"
a quem
amo,
direi
"quero-te"
a quem
quero,
beijarei
a boca
que me
chama,
enlaçarei
o corpo
que me
inflama.
Preguem-me
os
letreiros
que
quiserem!
Apelidem-me
de
tonta,
idiota,
ridícula,
se
preferirem,
estou-me
nas
tintas!
Recuso-me
a vestir
essa
farpela,
não
condiz
com a
genética
da minha
pele!
Já
abortei
muitos
abraços,
embalsamei
o corpo,
deixei
morrer à
fome
filhos-beijos,
congelei
cios e
desejos,
e matei,
à
nascença,
inocentes
palavras
de amor.
Basta!
Mais
assassinatos,
não!
Pouco me
importam
os
epítetos!
Tenho as
costas
largas,
um peito
imenso,
dilatado
de
tantas
emoções
contidas.
Não
posso
protelar
tudo
para
outra
encarnação,
a minha
alma
está em
fim de
gestação,
placenta
a
rebentar
de
nados-mortos.
Sonhos
que
calei,
passos
que não
dei,
amores
que não
vivi...
Corre-me
nas
veias um
rio de
desafectos.
Não me
enjeitem
os
beijos,
não me
amarrem
as mãos,
não me
devolvam
carícias,
não
aceito
devoluções!
Deitem
no lixo
se vos
forem de
sobra!
Haverá
sempre
os
subalimentados
que
catarão
delícias
nos
contentores
dos
rejeitados.
Não me
impeçam
de
gritar o
amor
enquanto
a
matéria
vibre e
tenha
sangue e
tenha
voz!
Porque o
amanhã
pode não
passar
de hoje,
e ser
chegado
o tempo
de me
levar de
vós!
Carmo
Vasconcelos |
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OFERENDA
Carmo
Vasconcelos
Devolvo-te
hoje
a frágil
oferenda
indefinida…
Ínfima a
dádiva
à luz da
dimensão
do meu
anseio
de
unidade!
Mas se
te fores
e o
frágil
der
lugar ao
nada…
Vertiginosa,
encarnarei
em ti,
criando
a
unidade
reclamada!
Carmo
Vasconcelos |
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OH!
VELEIDADE!
Carmo
Vasconcelos
Invertidos
adentro,
meus
olhos me
interrogam:
Afinal,
quem és
tu, quem
julgas
ser?...
Tu…amálgama
de
nervos e
de
músculos,
cingida
a voz do
sangue a
ínfimos
diâmetros,
limitadas
as
vontades
à
obediência
escravizante
da mente
objectiva,
autómato
andante
ao ritmo
das
marés,
luzindo
à mercê
de sóis
e luas…
E quando
em ti
repousa
esse
intrincado
enredo
que
agiliza
e faz
vibrar a
tua
carne?
E quando
o mar se
faz
segredo,
o sol te
foge e a
lua te
ignora?...
Hibernas…
Inerte…
Qual
degredo
no sono
semelhante
à morte
consentida...
que a
outra…
te dá
medo!
Quem és
então
nessa
hora de
pecados
genuflexos
em que
te
abandonas
protegida
na
certeza
dos
infalíveis
regressos?...
Folha
solta,
asa à
deriva,
poeira
ao
vento?
Ou Fénix
renascendo
das
cinzas,
dessa
vigília
de fogos
fátuos e
fumos
efémeros
a que
chamas
vida
e onde,
anestesiada,
ardes na
ilusão
de ti
mesma?...
Manietada
nas
macias
ligaduras
dos
lençóis,
muda na
mordaça
almofadada,
cega no
breu da
persiana
cerrada,
ascendes
ao
Infinito
desse
secreto
Tudo,
para
seres
aí…A
coisa
nenhuma,
a bola
do
desejo
feita
espuma,
a
invisível
essência
que te
habita,
pura,
sem
máscaras
nem
ardis,
sem
muletas
de
inventados
álibis.
Dormentes
as dores
que te
foram
desferidas,
caladas
as
invejas
feitas
feridas,
saltas,
brincas,
cantas,
ris,
sem
paredes
espelhadas
de
perfis.
E
abandonadas
no leito
as
bagatelas,
não
gaguejas
as
verdades
iludidas,
vestidas
de
frases
belas.
“No
shocking”,
não
repugnas
nem
agradas,
e amas
sem
pudores
e sem
tabus
os caros
amigos,
os
vocês…
também
os tus,
libertas
as
paixões
terrenas
cerceadas.
Até que
um
toque,
um
bate-porta,
te
trazem
de volta
a esse
incompatível
despertar
de corpo
terreno,
alma
peregrina.
Regresso
obrigatório
a um
simular
de morta
para a
volúpia
inda
latente
a
ocultar
à
multidão
de vista
torta!
E
voltas…
Luzir
andante,
mistificado
e
sufocante,
sombra
de ti na
inverdade
…
Oh!
Mulher-Fogo!
Água-Menina!
Oh!
Veleidade!
Carmo
Vasconcelos |
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PRECONCEITO
Carmo
Vasconcelos
Infringiste
a Regra
do
êxtase
rectilíneo
das
mentes
quadradas,
ao
provares
o fruto
proibido
do
"discriminado"
lado da
árvore...
Discriminado,
sim!
As
árvores
sempre
me
pareceram
redondas,
livre a
escolha
dos
frutos,
homo...
uni...
bi... ou
multisexuais...
Todos
obra da
mesma
Criação
circular.
Não é a
estância
terrena
um
planeta
esférico?
Não
estão as
almas,
primordial
e
amorosamente,
ligadas
entre si
pela
generosa
e
imparcial
essência
Divina?
Por que
não
encurvar
então o
quadrado
das
mentes
supostamente
rectas,
infringir
a Regra,
e provar
o fruto
proibido
do
discriminado
lado da
árvore
para
atingir
o
êxtase?...
Carmo
Vasconcelos |
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Livro de Visitas
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Para
pág. 8 |
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