SEBO LITERÁRIO

 

 

João Roberto Cônsoli
 

 

 
 
VERSO E PROSA
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O Caboclo e a Lua
J.R.Cônsoli


Toda noite de lua cheia o Zé saía de casa, puxava o banco, colocava-o no centro do terreiro, pegava sua viola e se punha a cantarolar. Nesta noite a lua estava uma beleza que só vendo! Zé puxou o assento, pegou a viola e começou a cantoria. O tempo estava bem frio e o céu limpo e iluminado prateava de luz o chão e as paredes de pau-a-pique do casebre. E o Zé lá, plantado no meio do terreiro, fazendo serenata pra lua!... Passados alguns instantes, ele ouviu um barulho estranho lá pros lados do curral. Corajoso que era, baixou a viola quedou-a em cima do banco, e mais que depressa foi verificar o que acontecia. Num instante lá estava, os olhos acesos e a cabeça rodando de curiosidade. Qual não foi o seu espanto, quando em cima da porteira do curral, sentada na trave principal, uma figura feminina, bela e resplandecente, sorria no seu vestido azul-argênteo!... Zé tremeu nas bases, mas a sua coragem o levou a enfrentar a situação, foi logo perguntando pra moça: - Ô minina, que qui ocê tá fazendo aí, cê vai gurinha merm ispantá os boi, apeia já daí, vâmo! E a figura lá, fria como a luz da lua, esboçando um sorriso zombeteiro pro Zé. Como não obteve nenhuma resposta, um calafrio percorreu-o de ponta a ponta, um arrepio tomou conta de todo o seu corpo. Foi então, quando ele já se preparava pra dar no pé, que a moça falou: - Não fuja Zé, eu sou sua amiga, venho lhe acompanhando sempre que você se põe a cantar nas noites de luar, não tenha medo, eu sou a Fada da Lua, venha cá, temos muito que conversar... Zé, nessas alturas, estava mais pálido do que o luar, suas pernas tremiam como varas de bambu, mas, aos poucos, foi se acalmando. Sentou-se num toco ao lado, tirou o chapéu com uma mão, com a outra coçou a cabeça, voltou o chapéu pro lugar, puxou uma palha do bolso detrás da calça, um pedaço de fumo, o canivete, e pôs-se a fazer um cigarro. A fada, sempre sorrindo, desceu da porteira vagarosamente e dele se aproximou, que embora espantado com tudo aquilo, continuava seu trabalho. - Olha Zé, disse a fada, - você quer dar um passeio na lua agora?... Se quiser é só falar, não tenha medo, confie em mim, antes do amanhecer você estará de volta, eu garanto!... Zé não era mesmo de enjeitar uma proposta dessas, após acender o cigarro com certa dificuldade, pois um vento frio começava a soprar, tirou uma baforada do pito e foi logo dizendo: - Eita, que eu tô querendo sim moça, pra falá a vredade eu sempre pensei em fazê uma viage dessa, eu sempre quis conhecê aquela belezura mais de perto, vô sim, o que é que eu faço pra chegá lá? - Espera um pouco Zé, calma aí rapaz... Disse a fada, que apontando sua varinha de condão para a lua, pronunciou umas palavras esquisitas. Aos poucos Zé percebeu que um raio de luar tornava-se vagarosamente mais denso e iluminava, cada vez mais, o lugar onde a moça estava, até que um facho de luz prateada cobriu todo aquele pedaço de chão. A fada então, puxou-o pelas mãos, pra dentro do círculo luminoso, e disse-lhe: - Segure firme e não largue minhas mãos, num instante estaremos visitando a sua amiga! Zé, meio encabulado, seguiu tudinho à risca, como a moça pediu, e viu a terra distanciar-se... afastar-se cada vez mais, e a seu lado a fada sorria acenando um gesto de aprovação com a cabeça. Em questão de segundos pousavam tranquilamente naquela superfície clara e luminosa. - Qui beleza!... Exclamou Zé, - é tudo pratiado, iguarzinho a gente vê lá de baxo!... Então a fada tocou com a mão o ombro do Zé, que ao virar-se deu com sua mulher que lhe disse: - Vâmo deitá na cama Zé, tá muito frio aqui fora, e amanhã de manhãzinha o trabaio tá te esperano... anda Zé, vâmo home! Zé levantou-se do banco espreguiçando-se, coçou os olhos com cada uma das mãos, e foi pra casa puxado pela mulher, com a cabeça voltada pra trás e os olhos fixos na lua que já andava alta, e jura, que ainda viu de relance, o sorriso da moça estampado no luar.

J.R.Cônsoli

 

 

O Circo
J.R.Cônsoli


Às vezes eu me pego refletindo
Sobre a existência, o mundo, a vida, a morte
E o faço com desvelo, e de tal sorte,
Que sempre acabo - a bem dizer, sorrindo!

Eu vejo um Circo... O mundo é uma comédia,
Onde os atores cumprem seus papéis...
A vida é um picadeiro de tragédia,
E a morte sempre leva os menestréis.

O Circo é belo, tem cores que encantam,
Palhaços vários sempre fazem rir,
E trapezistas emoções levantam!

Mas tudo passa, e no apagar das luzes,
Palhaços choram suas pesadas cruzes,
Vendo a platéia ao pranto sucumbir.

J.R.Cônsoli

 

 

O garimpeiro
J.R.Cônsoli


À noite o garimpeiro pára
e olha o céu pleno de estrelas...
Pensa consigo: Quantas pedras raras!
Como pude viver sem percebê-las?

Suas mãos calejadas do trabalho,
seus olhos embaçados de tristeza,
tiveram um novo alento,e com certeza,
de um novo mundo descobrira o atalho.

E lá se foi o garimpeiro à vera,
entre pedras-estrelas, confiante...
procurar pela estrela mais brilhante,
que no espaço cintilava à espera...

E lá chegando, que luz majestosa:
Qual puro diamante de facetas mil!
Sorriu alegremente, fechou os olhos...
E finalmente,livre, ao criador se uniu.

J.R.Cônsoli

 

 

Os dez candidatos
J.R.Cônsoli


Eram dez os candidatos...
um deles pensa e resolve:
vou voltar pra minha terra!
Então só ficaram nove.

Dentre eles o mais arrojado,
destemido e muito afoito,
quis ganhar voto do padre,
então só ficaram oito.

O Zé, rapaz elegante,
que fugiu com a garçonete,
bateu o carro na estrada,
então só sobraram sete.

Josildo, distinto, falante,
com sotaque português,
levou um tiro da amante,
de todos restaram seis.

Um fazia-se de santo...
mentia com muito afinco,
o povo o fez presidente
dos seis só restaram cinco.

Os cinco se reuniram,
juntos foram ao teatro,
um deles não tinha ingresso,
então só ficaram quatro.

Mas, ao subirem uma escada,
cada um por sua vez,
um dos degraus veio abaixo...
dos quatro restaram três.

Os três fizeram um pacto:
nada deixar pra depois...
jantaram depois do almoço!
Dos três escaparam dois.

Então, os dois candidatos,
marcaram uma reunião,
para definir quem ficava
com a parte do mensalão.

A coisa ficou tão preta
tão cheia de revertério
que um foi para a cadeia
e o outro pro cemitério.

A cadeia, no entanto,
não foi lugar pra mais um...
fugiu! Mas foi encontrado,
com a morte de braço dado.
E assim não sobrou nenhum.

J.R.Cônsoli

 

 

Recordação
J.R.Cônsoli


A casa estava abandonada... entrei!
queria tanto reviver meus laços,
vozes e vultos me seguiram os passos,
ouvi sorrisos por onde passei.

Na sala grande, filial querença
um vento morno acarinhou-me o rosto,
e o fez com tal ternura e tanto gosto,
como se fora a maternal presença.

Ouça esses versos que te faço agora:
A vida separou nossos caminhos,
Sem marcar dia, sem falar a hora.

O fato me calou fundo no peito.
Mas, jamais tolherá o meu direito,
De dar-te versos-flores... meus carinhos.

J.R.Cônsoli

Livro de Visitas

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