SEBO LITERÁRIO

 

 

João Roberto Cônsoli
 

 

 
 
VERSO E PROSA
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Restolhos
J.R.Cônsoli


No cinza das cidades vi sucumbir meu verde,
Malograda esperança...
Nas fumaças enegrecidas das chaminés
Meu azul desvaneceu-se!
Dos rios perdi a pureza das águas,
O suave murmúrio das cachoeiras...
Ficou-me a areia e o solo seco e estéril.
Das matas restou-me o carvão,
Dos animais só a feliz lembrança...
Meu coração transformou-se em pedra
No meu peito de concreto!
Minhas palavras lembram sons
De catracas retorcidas...
Minha alma perdeu as asas,
Substituídas por pesadas esteiras metálicas...
Minha caneta, que escrevia versos,
Ganhou gatilho e culatra!...

J.R.Cônsoli

 

 

Soneto do Amor Intenso
J.R.Cônsoli


Ao meu amor, de tudo, serei leve...
E meus cuidados sempre serão tantos,
Que, afinal, se dor houver e prantos,
Que sejam poucos e de vida breve.

Ao desejar que nosso amor se eleve
Bem alto, e possa exaltar-me... E quanto!
Os anos passam... Como por encanto,
Os meus cabelos tingem-se de neve.

De mim direi que o tive em demasia,
E que, conquanto o fim lhe mostre o norte,
O tenho ainda em chusmas de alegria.

A todos farei crer - contrapartida,
Que embora fosse intenso... E de tal sorte!
Foi tão impermanente quanto à vida.

J.R.Cônsoli

 

 

Transubstanciação
J.R.Cônsoli


Encontrava-me ali, sentado e sozinho,
Revendo o passado com muito carinho.
O mundo rodando em volta de mim...
E chegam entidades vindas do jardim.

Cantavam cantigas de ternas lembranças,
E sempre repletas de alegres bonanças.
U’a doce harmonia pairava no ar,
Cheirava perfumes o ambiente sem par.

Ouviam-se vozes no andar superior...
Diziam poemas, falavam de amor.
U’a taça de vinho foi-me oferecida,
Serviram-me doces e muita comida.

No fundo da sala... Aberta a janela,
O tempo escorria passando por ela...
Entre luz e sombra vi que envelhecia,
Meu corpo, aos poucos, desaparecia.

Só então percebi que meu tempo acabava,
Por outro caminho, então, eu andava.
A cadeira jazia num lado da sala,
Movendo sozinha com a minha bengala.

J.R.Cônsoli

 

 

Teu Olhar
J.R.Cônsoli


O verde dos teus olhos me ensandece,
Lembra-me o mar, suas ondas debruçantes,
São meus faróis nas noites soluçantes,
Geram esperanças quando amanhece.

Nesse caminho vão, de luz e trevas,
Em que consiste a nossa vida breve,
Os dias passam, e cada vez mais leve
Fica-me a faina, porque tu me elevas.

E desse olhar-amor, que nos conduz,
Onde circulam astros do universo,
Faço a razão primeira do meu verso.

Se acaso, um dia, não houver mais luz,
E o firmamento desfizer-se em breus,
Ah, ainda verei luz Nos olhos teus.

J.R.Cônsoli

 

 

Teus Olhos
J.R.Cônsoli


Tamanho é esse amor que me alucina,
Que me entontece a cada beijo teu,
Que vejo nos teus olhos de menina,
Todas as nuanças do destino meu.

Amor... Amar-te indefinidamente,
Espadas eu quebrei pra te encontrar,
As pedras tão preciosas do Oriente,
Não valem a mansidão do teu olhar,

Percorro prazenteiro o meu caminho,
Guardando no meu peito o teu carinho.
Se nesse rumo vou, não existe adeus!

E se sofro revés na caminhada,
E trago triste o rosto na chegada,
Foi por deixar de olhar pros olhos teus.

J.R.Cônsoli

Livro de Visitas

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