SEBO LITERÁRIO

 

 

 A Deusa e o Mar

de Carlos Leite Ribeiro

PÁG.10 DE 13PÁG.

 

 

 

Conforme ficara estabelecido em Lisboa, a senhora Jodie Richter não acompanhara nessa manhã o marido a São Pedro de Moel, para a primeira consulta a Sandra Cristina, para assim poder escrever uma longa carta a Luís Carlos, pondo-o minuciosamente ao corrente do que ia acontecendo em São Pedro. Mas não fechou a carta antes de o marido regressar, para poder juntar o seu diagnóstico. Feito isso, acrescentou que partiriam no dia seguinte para Lisboa, já acompanhados de Sandra Cristina e de seus pais.
Tal como Luís Carlos combinara, todas as despesas inerentes à operação, seriam pagas por ele, e no fim, o doutor Roger Richter lhe diria esse montante.
Quando na manhã seguinte, o pintor recebeu a carta, o seu rosto distendeu-se num sorriso feliz. As frases em que ela falava da excitação e do alvoroço da pequena, bem como da impressão que lhe produzira a ela, e ao marido, a estonteante beleza da jovem, fizeram um imenso bem à alma de homem amargurado, cujo amor tinha sido (julgava ele...) ostensivamente escarnecido e desrespeitado.
E nada lhe dizia que confirmasse a sua suspeita de que Sandra Cristina tivesse casado. Bem pelo contrário, pela forma como Jodie Richter lhe escrevia, depreendia-se que a mocinha vivia em casa dos pais, como uma filha solteira.
Quem seria, então, aquele rapaz que a acompanhava tão naturalmente, no dia em que ele fora espiá-la a São Pedro de Moel?
Luís Carlos interrompeu as suas meditações, para rapidamente fazer as suas malas. Ainda não sabia para onde iria, pois ainda não tinha pensado nisso. Só sabia que não queria permanecer em Lisboa, sabendo que Sandra Cristina e seus pais, ali estariam também. Estava certo de que não teria a coragem necessária para se fazer encontrado com eles, e não queria voltar a vê-la, nunca mais!
Foi no avião que o transportava a Paris, que se interrogou sobre aquela sua estranha atitude. Então, se a rapariga já não lhe interessava, se nunca mais a queria encontrar, porque é que se teria empenhado em que ela ficasse curada do seu defeito físico? E como se arriscava a não ganhar somas fabulosas, que decerto ganharia com a venda do seu quadro "A Deusa e o Mar"?
Mas, Luís Carlos era um temperamental fora do comum, e chegou a aceitar que o seu amor por ela, e o seu consequente desejo que ela vivesse feliz, sem qualquer complexo, tinham sido suficientes para que tomasse aquela atitude...
Agora, vê-la outra vez, encará-la e ouvir-lhe a voz, é que nunca, nunca mais!
Em Paris, exactamente para se convencer daquele violento "nunca mais", andou por todos os cabarés, boates e discotecas, procurando afogar em prazeres fáceis e bem pagos, o grande amor da sua vida, de homem e de artista.
Lá, recebeu o primeiro relatório do Dr. Roger Richter, redigido depois da primeira intervenção cirúrgica a que sujeitara Sandra Cristina. Mas o médico não se mostrava optimista, antes pelo contrário, o prevenira para a hipótese muito provável de um fracasso.
Eram necessárias ainda mais duas ou três operações, mas em qualquer caso, só depois da segunda, se poderia prever exactamente o estado em que poderia ficar a doente.
Teimosamente, porém, Luís Carlos aceitava como certa a cura da rapariga. Nem por momentos lhe passou pela cabeça que fosse possível vir a sofrer uma desilusão, e saber que se desfizera do seu precioso quadro, para nada.
Para nada?...
Pior que nada, pois teria sido preferível que Sandra Cristina não se tivesse sujeitado ao tormento operatório, nem tivesse passado aquele alvoroço de esperanças, para que tudo isso acontecesse sem qualquer proveito! Luís Carlos interrogou-se sobre se teria tido alguma vez de estabelecer, com o famoso cirurgião, o espantoso contrato que estabelecera.
Verdadeiramente, ele não tinha qualquer direito de intervir na vida de Sandra, e uma vez que decidira, nunca mais devia procurá-la, ou mais ainda: nunca mais a ver, tendo até, por vontade própria, de desaparecer de Lisboa, no mesmo dia em que ela chegasse à Capital.
Parecia-lhe agora, perante o velado pessimismo do médico, que a sua intervenção na vida de Sandra Cristina, ultrapassara os limites do que era aceitável.
Se, depois de todo o martírio que passou, e depois do traumatismo psíquico, que fatalmente estaria passando, ela não melhorasse... aquela intervenção cirúrgica, apesar de gratuita, teria efeitos devastadores na moral da rapariga.
Este pensamento transtornou-o e deixou-o preocupado.
Ele sabia que fora o mais puro e o mais desinteressado dos sentimentos que o levara a fazer aquela proposta ao Dr. Roger Richter. E, toda a gente que pudesse saber do caso, o felicitaria se a operação viesse a ter êxito. Mas, se fosse um fracasso, ninguém deixaria de lhe dizer que não tinha tido o direito de se intrometer numa vida que lhe era em tudo estranha à sua, e à qual não queria, de modo algum, ligar-se.
Mas não queria, não queria, realmente, ligar-se a Sandra Cristina?
Amedrontado com a resposta que a sua consciência lhe ditasse, Luís Carlos, bebeu mais um Whisky e mais outro...

 

LIVRO DE VISITAS