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Conforme
ficara
estabelecido
em
Lisboa,
a
senhora
Jodie
Richter
não
acompanhara
nessa
manhã o
marido a
São
Pedro de
Moel,
para a
primeira
consulta
a Sandra
Cristina,
para
assim
poder
escrever
uma
longa
carta a
Luís
Carlos,
pondo-o
minuciosamente
ao
corrente
do que
ia
acontecendo
em São
Pedro.
Mas não
fechou a
carta
antes de
o marido
regressar,
para
poder
juntar o
seu
diagnóstico.
Feito
isso,
acrescentou
que
partiriam
no dia
seguinte
para
Lisboa,
já
acompanhados
de
Sandra
Cristina
e de
seus
pais.
Tal como
Luís
Carlos
combinara,
todas as
despesas
inerentes
à
operação,
seriam
pagas
por ele,
e no
fim, o
doutor
Roger
Richter
lhe
diria
esse
montante.
Quando
na manhã
seguinte,
o pintor
recebeu
a carta,
o seu
rosto
distendeu-se
num
sorriso
feliz.
As
frases
em que
ela
falava
da
excitação
e do
alvoroço
da
pequena,
bem como
da
impressão
que lhe
produzira
a ela, e
ao
marido,
a
estonteante
beleza
da
jovem,
fizeram
um
imenso
bem à
alma de
homem
amargurado,
cujo
amor
tinha
sido
(julgava
ele...)
ostensivamente
escarnecido
e
desrespeitado.
E nada
lhe
dizia
que
confirmasse
a sua
suspeita
de que
Sandra
Cristina
tivesse
casado.
Bem pelo
contrário,
pela
forma
como
Jodie
Richter
lhe
escrevia,
depreendia-se
que a
mocinha
vivia em
casa dos
pais,
como uma
filha
solteira.
Quem
seria,
então,
aquele
rapaz
que a
acompanhava
tão
naturalmente,
no dia
em que
ele fora
espiá-la
a São
Pedro de
Moel?
Luís
Carlos
interrompeu
as suas
meditações,
para
rapidamente
fazer as
suas
malas.
Ainda
não
sabia
para
onde
iria,
pois
ainda
não
tinha
pensado
nisso.
Só sabia
que não
queria
permanecer
em
Lisboa,
sabendo
que
Sandra
Cristina
e seus
pais,
ali
estariam
também.
Estava
certo de
que não
teria a
coragem
necessária
para se
fazer
encontrado
com
eles, e
não
queria
voltar a
vê-la,
nunca
mais!
Foi no
avião
que o
transportava
a Paris,
que se
interrogou
sobre
aquela
sua
estranha
atitude.
Então,
se a
rapariga
já não
lhe
interessava,
se nunca
mais a
queria
encontrar,
porque é
que se
teria
empenhado
em que
ela
ficasse
curada
do seu
defeito
físico?
E como
se
arriscava
a não
ganhar
somas
fabulosas,
que
decerto
ganharia
com a
venda do
seu
quadro
"A Deusa
e o
Mar"?
Mas,
Luís
Carlos
era um
temperamental
fora do
comum, e
chegou a
aceitar
que o
seu amor
por ela,
e o seu
consequente
desejo
que ela
vivesse
feliz,
sem
qualquer
complexo,
tinham
sido
suficientes
para que
tomasse
aquela
atitude...
Agora,
vê-la
outra
vez,
encará-la
e
ouvir-lhe
a voz, é
que
nunca,
nunca
mais!
Em
Paris,
exactamente
para se
convencer
daquele
violento
"nunca
mais",
andou
por
todos os
cabarés,
boates e
discotecas,
procurando
afogar
em
prazeres
fáceis e
bem
pagos, o
grande
amor da
sua
vida, de
homem e
de
artista.
Lá,
recebeu
o
primeiro
relatório
do Dr.
Roger
Richter,
redigido
depois
da
primeira
intervenção
cirúrgica
a que
sujeitara
Sandra
Cristina.
Mas o
médico
não se
mostrava
optimista,
antes
pelo
contrário,
o
prevenira
para a
hipótese
muito
provável
de um
fracasso.
Eram
necessárias
ainda
mais
duas ou
três
operações,
mas em
qualquer
caso, só
depois
da
segunda,
se
poderia
prever
exactamente
o estado
em que
poderia
ficar a
doente.
Teimosamente,
porém,
Luís
Carlos
aceitava
como
certa a
cura da
rapariga.
Nem por
momentos
lhe
passou
pela
cabeça
que
fosse
possível
vir a
sofrer
uma
desilusão,
e saber
que se
desfizera
do seu
precioso
quadro,
para
nada.
Para
nada?...
Pior que
nada,
pois
teria
sido
preferível
que
Sandra
Cristina
não se
tivesse
sujeitado
ao
tormento
operatório,
nem
tivesse
passado
aquele
alvoroço
de
esperanças,
para que
tudo
isso
acontecesse
sem
qualquer
proveito!
Luís
Carlos
interrogou-se
sobre se
teria
tido
alguma
vez de
estabelecer,
com o
famoso
cirurgião,
o
espantoso
contrato
que
estabelecera.
Verdadeiramente,
ele não
tinha
qualquer
direito
de
intervir
na vida
de
Sandra,
e uma
vez que
decidira,
nunca
mais
devia
procurá-la,
ou mais
ainda:
nunca
mais a
ver,
tendo
até, por
vontade
própria,
de
desaparecer
de
Lisboa,
no mesmo
dia em
que ela
chegasse
à
Capital.
Parecia-lhe
agora,
perante
o velado
pessimismo
do
médico,
que a
sua
intervenção
na vida
de
Sandra
Cristina,
ultrapassara
os
limites
do que
era
aceitável.
Se,
depois
de todo
o
martírio
que
passou,
e depois
do
traumatismo
psíquico,
que
fatalmente
estaria
passando,
ela não
melhorasse...
aquela
intervenção
cirúrgica,
apesar
de
gratuita,
teria
efeitos
devastadores
na moral
da
rapariga.
Este
pensamento
transtornou-o
e
deixou-o
preocupado.
Ele
sabia
que fora
o mais
puro e o
mais
desinteressado
dos
sentimentos
que o
levara a
fazer
aquela
proposta
ao Dr.
Roger
Richter.
E, toda
a gente
que
pudesse
saber do
caso, o
felicitaria
se a
operação
viesse a
ter
êxito.
Mas, se
fosse um
fracasso,
ninguém
deixaria
de lhe
dizer
que não
tinha
tido o
direito
de se
intrometer
numa
vida que
lhe era
em tudo
estranha
à sua, e
à qual
não
queria,
de modo
algum,
ligar-se.
Mas não
queria,
não
queria,
realmente,
ligar-se
a Sandra
Cristina?
Amedrontado
com a
resposta
que a
sua
consciência
lhe
ditasse,
Luís
Carlos,
bebeu
mais um
Whisky e
mais
outro...
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