SEBO LITERÁRIO

 

 

 A Deusa e o Mar

de Carlos Leite Ribeiro

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Entretanto, na sala de operações do melhor e mais bem apetrechado hospital de Lisboa, o Dr. Roger Richter terminara a segunda operação a Sandra Cristina. Na antessala, esperavam-no o pai e a mãe da paciente. O médico saiu da sala das operações com o sobrecenho carregado. Os Mendes encararam-se, preocupados.
Encarando com eles, o Dr. Roger Richter disse, com aquela rudeza quase agressiva que o caracterizava quando estava enfronhado nos seus trabalhos profissionais:
Dr. Roger - A vossa filha vai ficar curada. Cheguei a recear que apenas pudesse fazê-la coxear um pouco menos. Mas a verdade é que Deus me ajudou, e agora, posso garantir-lhes que dentro de três a seis meses, a nossa gentil Sandra Cristina correrá e dançará, como qualquer rapariga que nunca tenha sofrido qualquer acidente!
Emília - Oh, Sr. Doutor!
A mãe da rapariga rompeu num pranto silencioso e feliz, enquanto o marido caminhava para o Dr. Roger Richter, estendendo-lhe a mão, com os olhos marejados de lágrimas. O médico apertou-a com um sorriso. Já perdera aquele ar carrancudo que tinha quando prestava a sua atenção profissional, e disse-lhe:
Dr. Roger - Não tem nada que me agradecer, Sr. André Mendes. Fiz o que pude. Mas olhe que a sua mulher precisa de si…
Efectivamente, Emília Mendes tacteava o ar, procurando onde se pudesse apoiar. Na sua perturbação, aquela mãe ainda duvidava das palavras claríssimas que acabara de ouvir!
Depois do marido a ter amparado e levado até uma cadeira, a pobre senhora levantou os olhos para o médico, e nesse olhar endereçou-lhe o mais eloquente agradecimento que ele poderia ter recebido. Sensibilizado, o Dr. Roger Richter disse-lhe então:
Dr. Roger - Dentro de uma hora, podem fazer companhia à vossa menina, mas por poucos minutos, dez o máximo. E não se esqueçam de que ficam completamente proibidos de lhes dizer o que eu lhes contei do êxito da intervenção cirúrgica.
Emília - Assim faremos, Sr. Doutor. Até parece um sonho, o melhor sonho da minha vida!
Dr. Roger - Se lhe dissessem isso, provocar-lhe-iam um choque nervoso, que poderia ser-lhe prejudicial na evolução do processo de recuperação, que agora deve ser rápido.
Emília - Faremos tudo o que o Sr. Doutor nos mandar...
Dr. Roger - Digam-lhe que não estiveram comigo depois da operação.
Emília - Pode estar descansado, Sr. Doutor.
Dr. Roger - E para terminar, também vos quero dizer que os convido para jantarem comigo e com a minha mulher, esta noite.
Eles sorriram envergonhados, mas o médico receou que não tivessem compreendido que lhes estava a fazer um convite formal, pelo que, se apressou a acrescentar:
Dr. Roger - Esta será a última parte da mentira, que peço que não digam à Sandra... Bem, não é rigorosamente uma mentira, pois, minha mulher e eu, esperamos que nos dêem o prazer da vossa companhia, hoje, ao jantar - está bem ?!
Emília - Temos todo o prazer em aceitar o seu amável convite!
Dr. Roger - Então, até logo, às oito horas no hotel.

No final do jantar, o Dr. Roger Richter esclareceu o casal Mendes:
Dr. Roger - Convidei-os com um determinado fim, ou seja, o caso de Sandra Cristina. Em princípio, ela deveria de precisar de outra intervenção cirúrgica, mas que talvez seja desnecessária, se durante estes meses mais próximos, for vigiada com toda a atenção e competência. Nós temos de partir de avião para Nova Iorque na próxima semana, pois não posso de modo algum protelar a data da minha partida, por compromissos anteriormente assumidos.
André - E o que nós podemos fazer para ajudar a nossa querida filha?
Dr. Roger - Tenham calma e escutem o que a minha mulher tem para vos dizer.
Jodie - Pensei, ou melhor, pensámos, eu e meu marido, em pedir emprestada a vossa filha por uns meses. Autorizem que a Sandra venha connosco, pois lhe faria muito bem mudar de ambiente. Em Nova Iorque temos muitos amigos, e ela recompor-se-á noutro meio ambiente, de modo que, quando regressar, será outra rapariga, tendo inclusive já perdido todos os seus complexos, que sempre a têm atormentado. Que me dizem?
Emília - Nós gostaríamos que ela fosse, mas compreendem, as saudades... E, além disso, financeiramente não podemos suportar tanta despesa.
Jodie - Mas atenção, pois trata-se de um pedido nosso sem qualquer encargo financeiro para vós.
Dr. Roger - Reforçando a ideia da minha mulher, lhes direi que não vos fiz qualquer pedido em proveito próprio, a não ser aquele de cederem parte da vossa mesa, na esplanada, no primeiro dia que nos conhecemos!
Jodie - É um convite que fazemos com todo o prazer, e que não representa para vocês, repito, qualquer despesa financeira.

 

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