SEBO LITERÁRIO

 

 

 A Deusa e o Mar

de Carlos Leite Ribeiro
 

 

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Luís Carlos era um jovem pintor algarvio, a quem a crítica previa um futuro brilhante na arte, e que chegara três dias antes a São Pedro de Moel. A beleza da paisagem e das suas gentes haviam-no conquistado, e sendo assim, até se felicitava por ter escolhido aquele recanto privilegiado da Natureza... Não era ainda a época do ano em que os turistas desembarcavam em massa, vindos de "expressos" de todos os pontos do país, passeando e saboreando a sua curiosidade pelos recantos de São Pedro. A antiga residência de veraneio de Afonso Lopes Vieira, hoje colónia de férias de crianças da Marinha Grande, é um atestado do requinte de vida, de alguns anos atrás, quando os "Algarves" ainda não tinham sido descobertos pelo grande turismo.
- Realmente - pensava Luís Carlos - os antigos sabiam viver.
Demorava horas e horas na contemplação daquele milagre de cores e tons, em que a vegetação e o mar, os acidentes do terreno e a luminosidade do céu, se conjugavam para tudo espiritualizar, emprestando à existência esse "quê" de evasão da vulgaridade que ela vai perdendo, cada vez mais, nos nossos tempos de mecanização. Ao chegar à estação da Rodoviária, vindo no "expresso" que o trouxera de Lisboa, cidade onde residia, Luís Carlos teve a ajuda de uma encantadora rapariga que o ajudou a transportar a sua bagagem até ao alto, para os lados da piscina, onde alugara um quarto.
Ana Maria - O senhor é pintor?
Luís Carlos - Sou sim, garota. Porque perguntas?
Ana - Com estes aparelhos todos, só podia ser pintor!
A garota chamava-se Ana Maria e tinha 18 anos. Era uma tentação da carne, morena rosada, algo tisnada pelo sol, de formas elegantes e graciosas. Todas as outras raparigas de São Pedro de Moel rivalizavam entre si em beleza e graciosidade, emprestando àquele recanto da Natureza, o atractivo da sua presença e da sua voz, dos seus corpos fibroses e jovens, que eram promessas de carinho, destino apetecido de todas as carícias dos homens.
Luís - Um dia destes, pinto o teu retrato, queres, Ana Maria?
Ana - Não sei para quê, pois eu até nem sou bonita. Era bem capaz de lhe estragar a pintura!
Luís - Vaidosa é que tu és, garota!
Nesse dia, também conheceu um bondoso e interessante velhote: o António das Ondas. Antigo piloto do "bacalhau" e dos "paquetes" e por fim dos "petróis" (petroleiros), como ele por graça dizia. Durante mais de quarenta e cinco anos, andou por cima das ondas, conhecendo todos os oceanos e "meio mundo". Ninguém em São Pedro de Moel tinha segredos para ele, e quase sempre ele sugeria a melhor maneira para qualquer situação, tal como tinha sempre a melhor palavra para cada um e, na sua vida, nunca tinha mentido. Luís Carlos gostava do bondoso velhote, especialmente pela sua bonomia e pela sua aguda inteligência, não isenta de fina e compreensiva ironia. Nessa tarde e depois de aceitar o convite do António das Ondas para tomar uma bica (café), no café da subida, perto do chafariz, Luís Carlos foi passear sozinho pela beira mar. Começara a pintar uma garota da terra, mas ela era tão apetecível, tão provocante, mesmo que involuntariamente, que o nosso pintor decidira espaçar as sessões, e andava enchendo os olhos por aquela paisagem de sonho, povoada de gente simples e bonita, gozando profundamente a paz daquelas encostas alcantiladas, que se erguiam sobre o Atlântico, azul e revolto, rebrilhante como uma imensa gema preciosa.
Subitamente, Luís Carlos estacou surpreendido: defronte dele, mas em plano inferior na encosta que descia para o mar, ali bem perto da varanda da esplanada, acabava de descobrir o vulto airoso de uma rapariga que olhava o oceano. Estava quase de costas para ele e, um lindíssimo cabelo alourado ondulava brandamente na aragem da manhã. Não podia ver-lhe as feições, mas a sua silhueta, desenhando-se com nitidez e elegância, sobre o mar, dava-lhe um ar de estátua, proporcionada e delicada, assim sentada no alto daquela rocha, de tons escuros. Sem fazer qualquer ruído, Luís Carlos foi-se aproximando da rapariga, desviando-se o suficiente para poder vê-la de perfil. Era lindíssima, e tinha as mãos entrelaçadas na ponta dos braços, onde prendia um dos joelhos.
Tirando da sua pasta um lápis e papel, o pintor começou a fazer um esboço daquela beleza estranha, que parecia sofrer. Quando o esboço ia quase no fim, ela deu pela presença dele e fitou-o com certa surpresa...
Luís - Bom dia, menina. Peço-lhe desculpa... Não pretendia perturbar-lhe os seus pensamentos, mas a tentação foi maior…
Sandra Cristina - Olá, bom dia! Parece que já o conheço, pois no outro dia encontrei-o junto da Ana Maria. O senhor também costuma conversar com o Sr. António das Ondas. Estou certa?
Luís - Sim, costumo e gosto de falar com o Sr. António. Pelos vistos também conhece esse senhor.
Sandra - Toda a gente aqui o conhece. Mas, o Sr. esteve a ocupar-se de mim? Pintou o meu retrato?!
Luís - É verdade. A beleza que você dava a este quadro era tão forte, tão comunicativa que me permitiu fixá-la num pequeno esboço. Com o mar lá em baixo, era bem "A Deusa e o Mar!..." Não se ofendeu por isso, não é verdade?
Enquanto falava, Luís Carlos ia-se enfeitiçando com a impressão que lhe provocara aquela rapariga, tão estranha, de olhos claros e distantes, e cujo sortilégio, era fascinante e inquietante ao mesmo tempo.
Sandra - Não, não me importo, Deixe-me ver esse esboço…
Luís Carlos entregou-lhe o papel e sentiu-se mais tranquilo, quando percebeu na expressão dela, uma verdadeira admiração pelo seu trabalho. Quando a rapariga levantou os olhos, ele mais pediu que perguntou:
Luís - Deixa-me pintar um retrato seu?
Sandra: - Tem mesmo a certeza que me quer pintar?!
Luís - Claro que tenho a certeza! Você é uma das raparigas mais belas que vi em toda a minha vida!
Um vago sorriso indefinível perpassou pelo rosto da jovem. Um sorriso que queria ser trocista, mas era profundamente triste. Por fim, disse apenas, iludindo a resposta.
Sandra - Ainda nem sei o seu nome...
Luís - Chamo-me Luís Carlos, sou pintor de profissão e algarvio de nascimento.
Sandra - Eu sou a Sandra Cristina Mendes e vivo com os meus pais numa pequena quinta que possuímos aqui em São Pedro de Moel.
Luís - Então, se me permitir, procurarei seus pais, para pedir-lhe licença para pintar o seu retrato.
Sandra - Se achar que vale a pena, não me oponho. Mas creio que brevemente mudará de opinião!
E dizendo estas palavras, saiu de cima da rocha e caminhou vagarosamente diante dele. Luís Carlos verificou então que uma das pernas daquela beldade era sensivelmente mais curta que a outra, e que o pé não pousava normalmente no chão. O seu andar não era cadenciado, e até as ancas apresentavam uma evidente assimetria.
A voz dela soou como uma chicotada:
Sandra - Vê?... Eu bem o preveni que decerto mudaria de opinião...
Luís - Mas...?
Não teve tempo para articular nem uma palavra, porque ela deitou a correr, subindo o carreiro que ele antes descera, com uma agilidade muito notável para o seu defeito físico... Chegada lá acima, parou e encarou-o, dizendo numa voz patética, em que não se adivinhava nem uma lágrima.
Sandra - Será melhor pintar qualquer dessas raparigas sadias que há em São Pedro de Moel, do que perder tempo com uma aleijada...
Luís Carlos encarava-a alcandorada lá em cima, na beira do caminho, e não encontrava qualquer palavra acertada para dizer, sem que lhe tivesse ocorrido a frase certa. Entretanto, mesmo que a dissesse, ela já não a teria ouvido, pois desaparecera dos seus olhos, como que misteriosamente. Verificou então que não encontrava a folha de papel onde esboçara a sua donairosa figurinha encavalitada na rocha. E, como não havia vento, o desaparecimento do papel, apenas podia ter a explicação de ela o ter guardado. E esta hipótese confortou-o. Nessa tarde, encontrando o António das Ondas, numa esquina de São Pedro de Moel, o pintor Luís Carlos dirigiu-se a ele precipitadamente. O bom velhote acolheu-o com um sorriso, e pareceu esperar quaisquer palavras, que, aliás, não demoraram:
Luís - Diga-me, Sr. António das Ondas, conhece uma família Mendes, que tem uma quinta aqui em São Pedro de Moel?
António - Conheço sim, meu rapaz! Têm uma pequena quinta, e uma filha linda como os amores, não é verdade? Encontrei a Sandra Cristina, que levava o esboço que lhe fizeste sem ela dar por isso. É um encanto de menina, mas muito infeliz...
Luís - Estou a ver... Mas diga-me como lhe aconteceu aquilo...
António - Foi um acidente de automóvel, quando a pobre tinha doze anos. Se tivesse acontecido mais cedo, teria sido melhor, pois os pais eram (pode-se dizer ricos), mas há cerca de cinco anos, sofreram um terrível incêndio e ficaram praticamente arruinados... e assim, na altura em que se deu o desastre, já eles não tinham posses para levar a pequena ao estrangeiro e fazê-la operar por algum desses grandes especialistas.
Luís - Mas...Quase não se nota!...
António - Isso dizes tu com o teu entusiasmo, mas a verdade é que toda a gente a trata por coxa, ou com mais ternura, pela coxinha. E repara, para uma rapariga formosa, de dezoito anos, é um drama que eu tenho tentado atenuar, na minha qualidade de "amigo de família". Mas é difícil e delicado, pois a Sandra Cristina é de uma personalidade riquíssima, até excessivamente sensível... Diz-me lá uma coisa, Luís Carlos, sempre queres pintar o retrato dela?
Luís - Claro que quero. É o rosto de mulher mais belo que vi em toda a minha vida!
António - Mas mesmo sendo coxa?!
Luís - Pelos vistos, chamam-lhe assim, mas ela, não é bem coxa. E esse aspeto em nada vai alterar o meu propósito de pintar o seu retrato!
António - Estás a falar verdade, Luís Carlos?
Luís - É verdade, Sr. António das Ondas! Muito lhe agradecia que me dissesse onde é que fica a quinta deles, para eu ir lá pedir aos pais autorização para lhe fazer o retrato.
António - Sendo assim, até calha bem, porque eu vou agora a casa dos Mendes. Se quiseres, podes vir comigo.
Luís - Fico-lhe muito agradecido.
António - Espera aí, rapaz, não andes tão rápido... Que pressa essa! Eu quero prevenir-te que aquela gente é muito boa, e que não deves brincar com o coração de Sandra Cristina, pois ela é uma pequena de uma sensibilidade fora do comum, e aquele acidente marcou-a para toda a vida. Por favor, não vás encher a cabeça da mocinha de coisas bonitas, para depois lhe dares um desengano - prometes?! ...
Luís - Mas eu só quero pintá-la!
António - Ora, ora... Estás em São Pedro de Moel há mais de uma semana, já começaste quatro ou cinco retratos de outras tantas raparigas, e ainda não acabaste nenhum.
Luís - Mas hei-de acabá-los. O Senhor sabe bem que muitas vezes, ao iniciar uma pintura, estamos convencidos de qualquer coisa, mas por vezes essa mesma pintura nos afasta. Não sei explicar porquê... Não sei expressar o que sinto...
António - Nem é preciso que expliques. São os teus vinte e oito anos, o teu anseio de beleza. Bem, eu não estou a censurar-te, de maneira nenhuma, o que tens feito. Estou só a pedir-te que não o repitas com a Sandra Cristina.
Luís - Se eu conseguir pintá-la prometo que acabarei o quadro, e ele será a grande obra-prima da minha vida!
António - Assim é que é falar! E olha que também não será preciso que beijes (de certa maneira...) o teu modelo, durante as sessões de pintura - percebes, não percebes?
Luís - Eu só gostava de saber como é que o Sr. António das Ondas consegue saber tudo o que se passa cá na terra!
António - Não te esqueças que sou amigo de toda a gente! Sinceramente, gostava muito que tu e a Sandra Cristina se entendessem bem, até para lhe tirar ideias tontas que ela tem na cabecita, e que só podem fazê-la infeliz. E tu talvez sejas um homem capaz disso...
Luís - Pode crer que tudo farei para consegui-lo!
António - E com esta conversa toda, chegámos a casa dos Mendes. Vamos entrar...

 

 

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