SEBO LITERÁRIO

 

 

 A Deusa e o Mar

de Carlos Leite Ribeiro

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Luís Carlos vivia em pleno contentamento. Havia já quinze dias que começara a pintar a sua enorme tela, em que Sandra Cristina aparecia tal como sempre a via diante de si: sentada num mirante que se debruçava sobre a poesia incomparável do Atlântico e, sobretudo, sobre São Pedro de Moel. À medida que o quadro se aproximava do fim, Luís Carlos vivia intensamente essa estranha sensação que antecede a glória. Estava realizando uma autêntica obra-prima, na qual, para mais, eram evidentes os seus profundos sentimentos perante o modelo... Se o amor, o êxtase administrativo, tivessem traços ou cores próprios, decerto seriam aqueles que Luís Carlos traçara e colorira na sua tela. Por isso, pretextara uma superstição sua, e assim ninguém ainda vira o quadro, pois ele declarava que sempre que trabalhava numa obra de responsabilidade, não gostava que a admirassem antes de estar concluída. O contrário dava-lhe azar. Sandra Cristina permanecia tão desconcertante para ele, como no primeiro dia que a conhecera. Havia dias que estava carinhosa e quase provocante, e outros em que era distante e fria, como um iceberg. Ela modificava-se de tal ordem, que ele voltava a nada entender dos seus verdadeiros sentimentos. Era certo que nunca dissera que lhe tinha amor, mas tinham sido tão evidentes e tão inequívocas as provas que lhe dera sucessivamente dos seus mais profundos anseios, que a rapariga não podia albergar a menor dúvida quanto a eles...
Apesar disso, ou por isso mesmo, a verdade é que o procedimento de Sandra Cristina seguia surpreendente e até inexplicável. Nessa manhã, ela perguntou-lhe:
Sandra - Então, Luís Carlos, quando é que está pronto o meu retrato?... E quando é que o posso ver?
Luís - Será amanhã, Sandra Cristina, e tenho muita pena...
Sandra - Pena de quê?
Luís - De acabar o seu retrato...
Sandra - Não sei porquê?!
Luís - Porque... Porque depois não poderei mais tê-la tantas horas sozinha comigo, como a tenho tido até agora...
Sandra - O que é que quer dizer com isso?!
Luís - Quer dizer que gosto de estar sozinho com a Sandra Cristina.
Sandra - Duvido, pois sempre se comportou, digamos, como se não estivéssemos sozinhos!
Luís - Não seja injusta, Sandra Cristina, pois eu...
Sandra - Você... Costuma beijar os seus modelos logo à segunda sessão. Ora, eu tenho posado para si há mais de três semanas, e você nunca tentou beijar-me...
Luís - É certo, mas deixe-me explicar...
Sandra - Ah, não tente agora convencer-me de que gosta de mim e por isso nem tentou fazê-lo!
Luís - Por favor, Sandra Cristina...
Sandra - Claro, se você gostasse de mim, um pouquito que fosse, já me teria beijado. Ou melhor, já teria tentado beijar-me, sim, porque eu não consentiria que me beijasse. Porque você está aqui para me fazer o retrato, e não para me beijar!
Luís - Mas que disparate vem a ser essa Sandra Cristina?!
Sandra - Não é disparate nenhum, pois bem sei que beijou a Ana Maria, logo no segundo dia que ela pousou para si!
Luís - Mas, Sandra...
Sandra - E a mim?! Sim, a mim... Porque é que nunca tentou beijar-me?... Será que eu seja feia?
Luís - A Sandra não é nada feia, antes pelo contrário!
Sandra - Então, é porque sou aleijada, porque sou uma coxa, não é verdade, Sr. Luís Carlos?!
Enquanto falava, fora caminhando, e já estava muito próximo dele, que, entretanto se levantara para impedir que ela visse o quadro.
Sandra - Mas fale Luís Carlos, diga alguma coisa... É por eu ser aleijada, o motivo porque nunca me beijou?... Estou a ver que para si também sou a coxa, ou por piedade, a coxinha!
Chegara-se tanto a ele, que Luís Carlos sentia as formas duras dos seios dela comprimidos contra o seu peito arfante, e os braços de Sandra Cristina, envolveram-lhe o pescoço. E o rosto encantador de Sandra Cristina, como um grande primeiro plano de cinema, foi-se aproximando do dele... Até que Luís Carlos sentiu que a rapariga o abraçava e o beijava.
Luís - Por favor, Sandra Cristina... Por favor...
Sandra - Vê como você tem repugnância de mim?! Da aleijada... Da coxinha!
E disto isto, deu uma enorme gargalhada e afastou-se a correr, em direção a casa. Luís Carlos ficou emparvecido com aquele sabor delicioso a arder-lhe na boca, e uma estranha perplexidade a percorrer-lhe o corpo. O seu primeiro impulso foi de deitar a correr atrás dela, entrar em casa onde a Sandra se refugiara como que envergonhada pelo seu gesto, e obrigá-la então a ser beijada realmente, beijada por ele, com ardor, para não mais se esquecer desses beijos que lhe desse. Mas, lembrou-se de que os pais dela tinham saído para a Marinha Grande, e não lhe pareceu correcto corresponder assim, à total confiança que nele depositavam...
Luís - Ainda agora ela saiu de ao pé de mim, e já sinto saudades dela. Meu Deus, como eu a amo! Sandra Cristina, não me estás a ouvir, mas eu gosto muito de ti!
Embrulhou o quadro quase concluído na tela que sempre o protegia, e arrumou tudo sobre um alpendre próximo. Pensativo, retirou-se a caminho do restaurante, onde habitualmente almoçava...
Luís - Ela gostará de mim? ... É tão linda, que pena ter aquele defeito. Mas ela gostará realmente de mim? ... Logo à tarde, na sessão final de acabamento, terei oportunidade de averiguar os verdadeiros motivos da atitude dela. Mas, Sandra Cristina gostará mesmo de mim?!...

 

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