SEBO LITERÁRIO

 

 

 A Deusa e o Mar

de Carlos Leite Ribeiro

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 Nessa tarde, quando voltou a tocar à campainha do portão da família Mendes, a criada que correu a abri-lo parecia indecisa e quase trémula. Luís Carlos, porque vinha preocupado com os seus pensamentos, nem o notou e apenas ouviu o que ela lhe dizia:
Criada - Os senhores estão neste momento recolhidos nos seus aposentos a descansar...
Luís - E a menina Sandra Cristina, está?
Criada - A menina Sandra saiu... E disse-me que se o Sr. Luís Carlos viesse, o prevenisse de que ela fora passear...
Luís Carlos encarou a criadita, sem a ver, limitando-se a dizer-lhe depois, enquanto voltava as costas e começava a caminhar sobre os seus passos: "Voltarei mais tarde...". Era demais, era demasiado descaramento. Tanta pressa para ver o quadro acabado, tanta curiosidade e tanta ansiedade por conhecer a obra que ele estava realizando com ela, e agora, apetecera-lhe passear. E justamente no momento em que ele devia começar a sessão final... Irritado, furioso, Luís Carlos, caminhava pela alameda atapetada de agulhas de pinheiro. Uma ruga vincava-lhe a testa. Com as mãos encafuadas nos bolsos das calças, enfim, muito mal-humorado. À sua esquerda, o terreno desviava abruptamente para o mar, numa sucessão irregular de rochas e árvores que, lá em baixo, eram beijadas pelas espumas brancas do oceano. Subitamente, o pintor estancou. Estava no local onde vira pela primeira vez a Sandra Cristina. E naquele momento estava a vê-la novamente. A rapariga estava de pé, encostada à rocha, de onde ele a desenhara. Mas agora estava de pé e abraçada a um homem! A sua cabeça quase que rebentava; ela estava ali, de pé e abraçada a um homem, um rapaz novo, vestido à moda da cidade, que a apertava desvairadamente nos braços, e os seus dois rostos confundiam-se num só, na violência daquele beijo interminável. Luís Carlos pensou ainda que ele a estivesse forçando, mas era evidente que não. Desprenderam-se por instantes, e foi ela quem de novo o abraçou e colou a sua boca à dele, tal como fizera nessa manhã com ele. Uma decepção cruel estampou-se no rosto do rapaz. Pensou ainda em chamá-la, apenas para cumprimentá-la, mas teve pena dela... "Até parece impossível - que infeliz eu sou!".
Regressou apressadamente, com os olhos a arderem-lhe, como se os tivesse queimado com aquela cena inesperada a que assistira. Lembrou-se confusamente de pormenores, de detalhes cruéis. O rapaz que abraçava e beijava a Sandra Cristina era um desses "bonecos", que mesmo na praia, vestia como um galã, e não passava de um meninote, um pouco mais velho do que ela. Custava-lhe a acreditar naquilo que os seus olhos viram: a Sandra Cristina, a perfeita, a imaculada, que ele se habituara a respeitar e a adorar... "Com certeza que sonhei... Não, não é possível!".
Voltou pelo caminho que tinha percorrido. Tocou violentamente a campainha do portão, e apareceu-lhe outra vez aquela criadita atarantada, como a querer dizer-lhe qualquer coisa, mas ele nem lhe deu tempo. Dirigiu-se logo para o alpendre onde guardara os seus apetrechos de pintura. Uma vez aí, sobraçou-os todos - o cavalete e a tela, a caixa das tintas e a paleta - e voltou a sair com a sua preciosa carga. A criadita ainda lhe perguntou: "O Sr. Luís Carlos vai-se embora?!". Não lhe respondeu.
Mas o pintor não sabia que o coração da Sandra, tinha um segredo... Mortificada pela sua deficiência física, a rapariga conhecera nesse Inverno, na cidade do Porto, um tal Januário. O rapaz mostrara-se sensível à sua beleza, e fora amável com ela. Chegando a convidá-la para irem ao cinema. Esta simples prova de deferência ecoara estrondosamente no coração infeliz e retraído da Sandra, de modo que quando os pais regressaram a São Pedro de Moel, ela acompanhara-os com tristeza, por se separar do único rapaz que tivera com ela, atenções que até aí nunca recebera. Por isso é que Luís Carlos a surpreendera naquele dia, sentada e solitária naquela rocha, pensando: "O meu "Sebastião" há-de chegar numa manhã...". Januário prometera-lhe ir a São Pedro de Moel passar dez dias de férias. Depois, conhecera Luís Carlos e nunca lhe passara pela cabeça que um homem tão viajado e tão querido das mulheres, já com perto de trinta anos, se pudesse interessar por ela. As intenções iniciais de Luís Carlos interpretara-as como sendo prelúdio de um abuso que ele pacientemente preparava e que ela repelaria com violência. Depois, pouco a pouco, aquela permanente correcção do pintor, acabara por irritá-la, e tomara-a como sendo um insulto: como se ela fosse incapaz de excitar e apaixonar um homem como Luís Carlos... Por isso, decidira naquela manhã beijá-lo ostensivamente, para se aperceber da sua reacção. E foi essa reacção que compreendera em Luís Carlos, tremendo dos pés à cabeça, e tentando segurá-la quando lhe fugira, que, encantando-a, lhe garantia que bem podia ser verdadeiro o amor que Januário lhe testemunhava nas suas cartas. Exactamente depois de fugir dos braços de Luís Carlos, nessa manhã, a criadita que estava dentro do seu segredo, entregara-lhe uma carta procedente do Porto. E assim, Sandra Cristina, ficara, a saber, que nesse dia, ao princípio da tarde, no "expresso" do Norte, chegaria o seu amigo Januário... Acabado o almoço, logo que os seus pais foram descansar, aproveitara e correra à estação da Rodoviária, e lá encontrou o seu amigo que, entretanto, chegara. Durante mais de dois meses, sonhara com aquele momento em que voltaria a encontrá-lo. As cartas dele, cheias de promessas e projectos, tinham contribuído para o significado aquele encontro. Caminhando ao acaso, a certa altura, Januário tomou-a nos braços e dera-lhe o seu primeiro beijo. Ela exaltara-se com a carícia inesperada, e repetira-a...
Foi nessa altura que Luís Carlos a surpreendera e decidira partir... No quarto que alugara, Luís Carlos disse à dona que recebera um telegrama com notícias que impunham a sua presença imediata em Lisboa, e que, para tal, ia partir para a Capital. Fez a sua mala em poucos minutos e pediu que apresentasse as suas despedidas ao Sr. António das Ondas. Carregando os seus poucos haveres, entre os quais se contava um cavalete embrulhado numa tela cosida, o pintor embarcou no mesmo autocarro em que horas antes, desembarcara o Januário.

 

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