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Nessa
tarde,
quando
voltou a
tocar à
campainha
do
portão
da
família
Mendes,
a criada
que
correu a
abri-lo
parecia
indecisa
e quase
trémula.
Luís
Carlos,
porque
vinha
preocupado
com os
seus
pensamentos,
nem o
notou e
apenas
ouviu o
que ela
lhe
dizia:
Criada -
Os
senhores
estão
neste
momento
recolhidos
nos seus
aposentos
a
descansar...
Luís - E
a menina
Sandra
Cristina,
está?
Criada -
A menina
Sandra
saiu...
E
disse-me
que se o
Sr. Luís
Carlos
viesse,
o
prevenisse
de que
ela fora
passear...
Luís
Carlos
encarou
a
criadita,
sem a
ver,
limitando-se
a
dizer-lhe
depois,
enquanto
voltava
as
costas e
começava
a
caminhar
sobre os
seus
passos:
"Voltarei
mais
tarde...".
Era
demais,
era
demasiado
descaramento.
Tanta
pressa
para ver
o quadro
acabado,
tanta
curiosidade
e tanta
ansiedade
por
conhecer
a obra
que ele
estava
realizando
com ela,
e agora,
apetecera-lhe
passear.
E
justamente
no
momento
em que
ele
devia
começar
a sessão
final...
Irritado,
furioso,
Luís
Carlos,
caminhava
pela
alameda
atapetada
de
agulhas
de
pinheiro.
Uma ruga
vincava-lhe
a testa.
Com as
mãos
encafuadas
nos
bolsos
das
calças,
enfim,
muito
mal-humorado.
À sua
esquerda,
o
terreno
desviava
abruptamente
para o
mar,
numa
sucessão
irregular
de
rochas e
árvores
que, lá
em
baixo,
eram
beijadas
pelas
espumas
brancas
do
oceano.
Subitamente,
o pintor
estancou.
Estava
no local
onde
vira
pela
primeira
vez a
Sandra
Cristina.
E
naquele
momento
estava a
vê-la
novamente.
A
rapariga
estava
de pé,
encostada
à rocha,
de onde
ele a
desenhara.
Mas
agora
estava
de pé e
abraçada
a um
homem! A
sua
cabeça
quase
que
rebentava;
ela
estava
ali, de
pé e
abraçada
a um
homem,
um rapaz
novo,
vestido
à moda
da
cidade,
que a
apertava
desvairadamente
nos
braços,
e os
seus
dois
rostos
confundiam-se
num só,
na
violência
daquele
beijo
interminável.
Luís
Carlos
pensou
ainda
que ele
a
estivesse
forçando,
mas era
evidente
que não.
Desprenderam-se
por
instantes,
e foi
ela quem
de novo
o
abraçou
e colou
a sua
boca à
dele,
tal como
fizera
nessa
manhã
com ele.
Uma
decepção
cruel
estampou-se
no rosto
do
rapaz.
Pensou
ainda em
chamá-la,
apenas
para
cumprimentá-la,
mas teve
pena
dela...
"Até
parece
impossível
- que
infeliz
eu
sou!".
Regressou
apressadamente,
com os
olhos a
arderem-lhe,
como se
os
tivesse
queimado
com
aquela
cena
inesperada
a que
assistira.
Lembrou-se
confusamente
de
pormenores,
de
detalhes
cruéis.
O rapaz
que
abraçava
e
beijava
a Sandra
Cristina
era um
desses
"bonecos",
que
mesmo na
praia,
vestia
como um
galã, e
não
passava
de um
meninote,
um pouco
mais
velho do
que ela.
Custava-lhe
a
acreditar
naquilo
que os
seus
olhos
viram: a
Sandra
Cristina,
a
perfeita,
a
imaculada,
que ele
se
habituara
a
respeitar
e a
adorar...
"Com
certeza
que
sonhei...
Não, não
é
possível!".
Voltou
pelo
caminho
que
tinha
percorrido.
Tocou
violentamente
a
campainha
do
portão,
e
apareceu-lhe
outra
vez
aquela
criadita
atarantada,
como a
querer
dizer-lhe
qualquer
coisa,
mas ele
nem lhe
deu
tempo.
Dirigiu-se
logo
para o
alpendre
onde
guardara
os seus
apetrechos
de
pintura.
Uma vez
aí,
sobraçou-os
todos -
o
cavalete
e a
tela, a
caixa
das
tintas e
a paleta
- e
voltou a
sair com
a sua
preciosa
carga. A
criadita
ainda
lhe
perguntou:
"O Sr.
Luís
Carlos
vai-se
embora?!".
Não lhe
respondeu.
Mas o
pintor
não
sabia
que o
coração
da
Sandra,
tinha um
segredo...
Mortificada
pela sua
deficiência
física,
a
rapariga
conhecera
nesse
Inverno,
na
cidade
do
Porto,
um tal
Januário.
O rapaz
mostrara-se
sensível
à sua
beleza,
e fora
amável
com ela.
Chegando
a
convidá-la
para
irem ao
cinema.
Esta
simples
prova de
deferência
ecoara
estrondosamente
no
coração
infeliz
e
retraído
da
Sandra,
de modo
que
quando
os pais
regressaram
a São
Pedro de
Moel,
ela
acompanhara-os
com
tristeza,
por se
separar
do único
rapaz
que
tivera
com ela,
atenções
que até
aí nunca
recebera.
Por isso
é que
Luís
Carlos a
surpreendera
naquele
dia,
sentada
e
solitária
naquela
rocha,
pensando:
"O meu
"Sebastião"
há-de
chegar
numa
manhã...".
Januário
prometera-lhe
ir a São
Pedro de
Moel
passar
dez dias
de
férias.
Depois,
conhecera
Luís
Carlos e
nunca
lhe
passara
pela
cabeça
que um
homem
tão
viajado
e tão
querido
das
mulheres,
já com
perto de
trinta
anos, se
pudesse
interessar
por ela.
As
intenções
iniciais
de Luís
Carlos
interpretara-as
como
sendo
prelúdio
de um
abuso
que ele
pacientemente
preparava
e que
ela
repelaria
com
violência.
Depois,
pouco a
pouco,
aquela
permanente
correcção
do
pintor,
acabara
por
irritá-la,
e
tomara-a
como
sendo um
insulto:
como se
ela
fosse
incapaz
de
excitar
e
apaixonar
um homem
como
Luís
Carlos...
Por
isso,
decidira
naquela
manhã
beijá-lo
ostensivamente,
para se
aperceber
da sua
reacção.
E foi
essa
reacção
que
compreendera
em Luís
Carlos,
tremendo
dos pés
à
cabeça,
e
tentando
segurá-la
quando
lhe
fugira,
que,
encantando-a,
lhe
garantia
que bem
podia
ser
verdadeiro
o amor
que
Januário
lhe
testemunhava
nas suas
cartas.
Exactamente
depois
de fugir
dos
braços
de Luís
Carlos,
nessa
manhã, a
criadita
que
estava
dentro
do seu
segredo,
entregara-lhe
uma
carta
procedente
do
Porto. E
assim,
Sandra
Cristina,
ficara,
a saber,
que
nesse
dia, ao
princípio
da
tarde,
no
"expresso"
do
Norte,
chegaria
o seu
amigo
Januário...
Acabado
o
almoço,
logo que
os seus
pais
foram
descansar,
aproveitara
e
correra
à
estação
da
Rodoviária,
e lá
encontrou
o seu
amigo
que,
entretanto,
chegara.
Durante
mais de
dois
meses,
sonhara
com
aquele
momento
em que
voltaria
a
encontrá-lo.
As
cartas
dele,
cheias
de
promessas
e
projectos,
tinham
contribuído
para o
significado
aquele
encontro.
Caminhando
ao
acaso, a
certa
altura,
Januário
tomou-a
nos
braços e
dera-lhe
o seu
primeiro
beijo.
Ela
exaltara-se
com a
carícia
inesperada,
e
repetira-a...
Foi
nessa
altura
que Luís
Carlos a
surpreendera
e
decidira
partir...
No
quarto
que
alugara,
Luís
Carlos
disse à
dona que
recebera
um
telegrama
com
notícias
que
impunham
a sua
presença
imediata
em
Lisboa,
e que,
para
tal, ia
partir
para a
Capital.
Fez a
sua mala
em
poucos
minutos
e pediu
que
apresentasse
as suas
despedidas
ao Sr.
António
das
Ondas.
Carregando
os seus
poucos
haveres,
entre os
quais se
contava
um
cavalete
embrulhado
numa
tela
cosida,
o pintor
embarcou
no mesmo
autocarro
em que
horas
antes,
desembarcara
o
Januário.
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