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Quando
António
das
Ondas
foi
prevenido
do que
acontecera,
ou seja,
da
partida
inesperada
de Luís
Carlos,
já o
"expresso"
ia longe
a
caminho
de
Lisboa.
O
bondoso
velhote
coçou
pensativamente
o
queixo,
e ficou
a
reflectir
por
alguns
momentos,
depois
dirigiu-se
à
Estação
dos
Correios.
Mercê
das
informações
que ali
obteve,
o bom do
António
apressou-se
a
percorrer
o
caminho
que o
separava
da casa
dos
Mendes.
Numa
curva da
pequenina
estrada,
deparou-se
com a
Sandra
Cristina,
que era
levada
pela mão
por um
jovem de
feições
viciosas
e ar
petulante.
Parou,
encarando
ambos, e
com um
olhar
que
dirigiu
à
rapariga,
como uma
censura
muda e
pesada:
Januário
-
Sandra,
tu
conheces
este
homem?...
Sandra -
Conheço,
sim. É o
Sr.
António
das
Ondas,
um
grande
amigo da
minha
família.
António
- Olha
lá
Sandra,
que
fazes
por
aqui?
Sandra -
Fui
esperar
este
amigo
que veio
do
Norte...
António
- Este
que te
acompanha?...
Sandra -
Sim,
este
amigo.
Recebi
hoje uma
carta
dele a
anunciar
a sua
chegada
depois
do
almoço.
António
- Estou
a ver
que esse
teu
amigo
veio no
mesmo
autocarro
que
levou
para
Lisboa o
Luís
Carlos,
com o
teu
retrato
inacabado!
Sandra -
O quê?!
O Luís
Carlos
foi-se
embora?!
...
António
- Sim,
foi-se
embora,
e
deixou-me
um
recado,
a dizer
que
recebera
um
telegrama
de
Lisboa a
reclamar
a sua
presença.
Mas já
sei que
não é
verdade,
pois nos
Correios
informaram-me
que não
veio
nenhum
telegrama
para
ele.
Sandra
Cristina,
como é
que
explicas
isto?...
O choque
daquela
notícia
inesperada
pareceu
sobrepor-se
a tudo o
resto no
ânimo da
rapariga,
que
ficou
pálida,
e uma
série de
revelações
fizeram-se
nesse
momento
no seu
espírito.
Como se
estivesse
a
adivinhar
que
estava a
perder
terreno,
foi
quando,
com
certa
petulância,
o amigo
dela, o
Januário,
interveio:
Januário
- Olhe
lá,
amigo
(que eu
não
conheço),
posso
saber
que
conversa
é essa
que está
a ter
com a
minha
noiva,
parecendo
que me
quer
ignorar?!
António
- Parece
que não
ouvi
bem...
Sua quê?
Januário
- Minha
noiva -
ouviu
bem
desta
vez? Não
estou
compreendo
essa sua
admiração
toda...
Sandra -
Nós não
somos
noivos,
Sr.
António
das
Ondas.
Ele
escrevia-me
do
Porto,
onde
reside,
e eu fui
esperá-lo
simplesmente
como
amigo.
Mas
diga-me,
é
verdade
que o
Luís
Carlos
se foi
embora?
António
- Já te
disse
que ele
partiu,
só não
sei
exactamente
porquê.
Escuta
Sandra
Cristina,
podes
dizer-me
onde
estiveste
desde
que te
encontraste
com esse
moço que
te
acompanha...
E a
fazer o
quê...
Um
pensamento
súbito
rasgou o
cérebro
de
Sandra -
se Luís
Carlos a
tivesse
visto
nos
braços
do
Januário?
Sim, não
podia
ser
outra
coisa!
Uma onda
de
vergonha
ruborizou
o rosto
da
rapariga,
que logo
rompeu
em
soluços,
escondendo
o rosto
nas
mãos.
António
- Bem,
vai
andando
para
casa,
Sandra
Cristina,
que eu
irei lá
ainda
esta
tarde.
Quanto a
este
senhor...
Senhor
Januário,
não é
verdade?...
Devo
informá-lo
de que
aqui em
São
Pedro de
Moel,
nenhum
rapaz se
intitula
noivo de
uma
rapariga,
sem
antes
ter
obtido o
consentimento
dos pais
dela, e
como
neste
caso, a
mulher
sendo
menor...
Januário
- Mas
como o
Sr.
sabe, eu
não sou
de cá.
António
- Que
não é
desta
terra
vê-se,
logo,
meu
amigo,
mas
vamos
conversar...
E tu,
minha
filha,
podes
ir, que
eu
ficarei
com o
teu, teu
"noivo?!",
como ele
diz...
Ao ouvir
falar o
António
das
Ondas, o
rapaz
ficou
muito
surpreendido.
Este,
tomando-lhe
o braço
e
caminhando
com ele
em
direção
ao
farol,
começou
por lhe
dizer:
"Como
você
deve
saber
muito
bem, o
coração
das
mulheres
é muito
complicado
e, por
vezes,
nem elas
próprias
o
entendem!
Os
rapazes
de vinte
anos é
que não
o
entendem
nunca!".
Só
naquele
momento
é que
Sandra
Cristina
compreendeu
o que
Luís
Carlos
representava
para
ela,
como ele
era
insubstituível
na sua
vida,
como ela
fora uma
perfeita
idiota
com
aquele
romance
com o
Januário...
Arrependia-se
agora da
sua
conduta,
das
cartas
que
escrevera
ao
Januário
e da sua
leviandade,
ao não
reconhecer
que era
o
verdadeiro
amor o
daquele
que a
pintara.
Que
saudade
já tinha
da sua
presença,
que
falta
lhe
fazia a
sua voz
compassada
e calma,
a sua
presença
máscula,
o seu
olhar
leal,
que
sabia
encobrir
o desejo
e onde
só
brilhava
a
dedicação
e a
lealdade...
Mas, de
tudo
isto, só
agora é
que se
apercebera.
Agora
que já
era
tarde e
ele
partira
para
Lisboa,
sem ao
menos
ter
deixado
a sua
morada,
ou outra
qualquer
indicação.
Ela
receava
que Luís
Carlos
não
voltasse
a
aparecer.
O seu
orgulho
de homem
feito, o
seu
amor-próprio,
não
consentiria
que se
rebaixasse
a
procurá-la
depois
do que
sucedera.
Ainda se
ela não
o
tivesse
beijado
naquela
manhã,
ou se
não
fosse
naquele
rochedo,
onde ele
a
conhecera,
que
afinal a
fora
surpreender
nos
braços
do
Januário...
Depois
do que a
criadita
lhe
contara,
da
chegada
de Luís
Carlos e
da sua
ida,
para
regressar
pouco
depois,
transtornado
e
nervoso,
a buscar
tudo sem
lhe dar
uma
palavra,
não lhe
restavam
agora
quaisquer
dúvidas
de que o
pintor a
surpreendera
nos
braços
do
Januário.
Agora,
sofria
as
consequências
do seu
erro, já
que os
pais,
por
sugestão
de
António
das
Ondas,
tinham
decidido
não lhe
falar em
nada,
sem que
ela
procurasse
esclarecer
o que se
passara
realmente,
e o que
se
estava
passando
no seu
íntimo
de
rapariga
infeliz,
que
errara e
estava
arrependida.
Um dia,
o
correio
trouxe
endereçado
a seus
pais,
mas sem
remetente,
um
enorme
embrulho
de forma
cilíndrica.
Ela
sobressaltou-se.
Pelo
formato,
logo lhe
pareceu
que
seria o
seu
retrato.
E, com
efeito,
não se
enganara,
mas só
ela não
partilhou
da
alegria
dos pais
e de
António
das
Ondas...
É que, e
apesar
dos seus
conhecimentos
de
pintura
serem
mais do
que
rudimentares,
não
acreditou
que
fosse
aquela
tela que
durante
quase um
mês Luís
Carlos,
pintara
defronte
a si...
O traço
parecia-lhe
fácil e
o
colorido
vulgar,
embora
Sandra
Cristina
nunca
tivesse
visto o
quadro
que Luís
Carlos
pintara,
tinha a
certeza
de que
se
tratava
de uma
obra-prima.
E
aquele,
não
sendo
mau, não
era de
modo
algum
aquilo
que o
seu
coração,
carregado
de
remorsos
e
arrependimento,
imaginava
que
devia
ser...
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