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Entretanto...
Em
Lisboa,
o pintor
algarvio
alcançava
um êxito
assinalável,
logo na
sua
primeira
grande
exposição.
A
crítica
e o
público
ocorriam
à mais
célebre
galeria
de arte
da
cidade
das sete
colinas,
a
admirar
as telas
ousadas
do jovem
pintor,
e uma
sensação
de
moderno
e de
novo se
estampava
em todas
as
sensibilidades,
desde
logo
subjugadas
pelo
talento
do
artista.
Entre
todos os
quadros
expostos,
havia um
que
chamava
a
atenção
geral,
perante
o qual,
nenhum
visitante
deixara
de se
demorar
em
êxtase.
Chamava-se
o
quadro:
"A DEUSA
e o
MAR".
É que
Sandra
Cristina
tivera
razão,
quando
sentira
que
aquela
tela que
os pais
tinham
recebido,
não
podia
ser a
que Luís
Carlos
pintara
junto
dela. O
cartão,
simples
e
cerimonioso,
que
acompanhava
o
trabalho,
garantia-lhe
que o
pintor
continuava
gostando
dela,
pois, de
outro
modo,
não
seria
tão frio
e
reservado
no
cumprimento
de um
dever
social,
como
esse de
enviar o
seu
trabalho
aos
pais.
Mas,
tratava-se
de uma
cópia
que lhe
fizera,
do seu
próprio
quadro,
pois o
original
era
aquele
que ali
estava
na
exposição,
exposto
em lugar
de honra
e
constituindo
a
admiração
de todos
os
visitantes.
Era
evidente
que só
um
artista
apaixonado
pelo seu
modelo,
poderia
ter
traçado
e
colorido
aquele
belo
quadro.
O amor,
com tudo
quanto
há de
espiritual
e
entusiástico
nesse
sentido
sublime,
estava
ali como
que
retratado
plasticamente,
na
poesia
do
ambiente,
uma
espécie
de
santidade
que
aureolava
a figura
central,
e no
carinhoso
acabamento
de cada
pormenor.
Aliada a
esta
impressão
poderosa
que o
quadro
transmitia
a toda a
gente,
estava a
circunstância
de terem
oferecido
por
aquela
pintura,
autênticas
somas
fabulosas,
e o
quadro
continuar
no
catálogo,
com esta
indicação:
"Sem
Preço -
Não é
para
Venda".
Isto
queria
dizer
que Luís
Carlos
não
venderia
a sua
obra-prima,
por
nenhum
preço.
Ora,
quando
um
pintor
se nega
a vender
um dos
seus
quadros,
isso só
pode
acontecer
por uma
fortíssima
razão
sentimental.
E assim,
a lenda
do
quadro
"A Deusa
e o Mar"
logo
começou
a correr
de boca
em boca.
Até no
desejo
de
evitar
as
constantes
perguntas
e
entrevistas
sobre os
motivos
por que
não
vendia
aquele
quadro,
Luís
Carlos
pouco
aparecia
na
galeria,
deixando
o
encargo
das
vendas,
que já
ao
quinto
dia eram
quase
totais,
ao seu
amigo, e
algarvio
como
ele, de
nome
Daniel,
que lhe
tinha
conseguido
o
aluguer
da
galeria
para
expor.
Nessa
noite,
porém, e
sem
saber
porque o
fazia, o
pintor
entrou
na
galeria,
deviam
de ser
umas dez
horas da
noite. A
galeria
estava
literalmente
cheia de
visitantes
e havia
um
sussurro
geral de
admiração.
Daniel,
orientador
da
exposição,
em
determinada
altura,
correu
para ele
dizendo-lhe:
Daniel -
Ainda
bem que
apareceste!
Tu nem
calculas
quem
está
interessado
em
comprar
o quadro
“A Deusa
e o
Mar”?
Luís -
Não faço
a menor
ideia,
nem
quero
saber.
Daniel -
Escuta,
Luís
Carlos...
É certo
que toda
a gente
quer
comprar
aquele
quadro,
mas este
cliente
é muito
especial...
Luís -
Por
favor,
não
insistas,
pois
sabes
muito
bem que
eu não
mudo de
opinião.
Só por
curiosidade,
e devido
à tua
grande
excitação,
diz lá
quem é
que
pretendeu
comprar
o
quadro?
Daniel -
Nem mais
nem
menos
que o
Dr.
Roger
Richter!
Esteve
aqui
ontem
com a
esposa e
ficaram
ambos
embasbacados
diante
da tela!
Luís -
Sei lá
quem é
esse
Roger
Richter!
Daniel -
Claro
que
sabes
quem
é!...
Olha,
ali vem
ele com
a
mulher.
É que eu
disse-lhe
que
passassem
por cá
esta
noite,
porque
talvez
tu
aparecesses...
Luís -
Até
parece
impossível,
em vez
de me
facilitares
as
coisas,
atiras-me
para a
cabeça
do
"touro".
Tu
queres é
que eu
enfrente
os
clientes,
para tu
poderes
receber
a tua
comissão...
Mas
calou-se
ao olhar
para
aquele
casal
que
acabara
de
entrar
na sala,
e que o
seu
amigo
Daniel
lhe
indicara
como
sendo o
Dr.
Roger
Richter
e a
esposa.
Sim,
conhecia
o rosto
daquele
homem,
mas de
onde?...
Nesse
momento,
foram
feitas
as
apresentações
e antes
que
alguém
pudesse
dizer
fosse o
que
fosse, a
senhora
Jodie
Richter
disse-lhe
com
desenvoltura:
Jodie
Richter
- Senhor
Luís
Carlos,
quero
dizer-lhe
que o
considero
um dos
melhores
pintores
do nosso
tempo,
senão o
melhor.
Mas
também
quero
igualmente
dizer-lhe
que eu,
e o meu
marido,
o Dr.
Roger
Richter,
decidimos
romper
com esse
mistério
do
quadro
"A Deusa
e o
Mar"! O
senhor
vai
vender-nos
esse
quadro,
não é
verdade?!
Luís: -
Receio
que a vá
desapontá-la,
minha
senhora,
pois eu
não
vendo
aquele
quadro.
Aliás,
toda a
gente o
sabe...
Nesse
momento,
Luís
Carlos
lembrou-se
de onde
conhecera
aquele
rosto, o
rosto do
Dr.
Roger
Richter,
e assim,
disse-lhe
de uma
maneira
desconcertante,
que fez
a
admiração
das
pessoas
a quem
se
dirigia
directamente,
e também
de todos
os
outros
visitantes
que,
entretanto,
tinham
rodeado
o grupo:
Luís -
Como
sabe,
não
vendo
aquele
quadro
por
preço
nenhum,
minha
senhora.
Mas, se
a
senhora
e o seu
marido
têm
grande
interesse
nele,
talvez
possamos
chegar a
um
acordo...
Dr.
Roger -
Sim,
sim,
estou
até
muito
interessado.
Passo
por um
dos
maiores
coleccionadores
de Nova
Iorque,
e estou
na
disposição
de pagar
o preço
que
pedir.
Para
mais,
creio
que o
conheço,
não me
recordo
é de
onde?...
Luís -
Eu
também
estou a
reconhecê-lo,
doutor,
não me
lembro
de onde,
ou será
de onde
o doutor
me
conheceu?
Mas
continuo
a
dizer-lhe
que
aquele
quadro
não tem
preço em
dinheiro,
e por
isso não
o vendo.
No
entanto,
o quadro
pode ser
seu e de
sua
esposa...
Dr.
Roger -
Não o
estou a
compreender,
se não
vende o
quadro...
Luís -
Eu
ofereço-lhe
aquele
quadro,
se o
doutor
quiser
prestar-me
um alto
favor,
que mais
ninguém
no mundo
me
poderá
fazer,
senão o
senhor!
Dr.
Roger -
Cada vez
compreendo
menos.
Então, o
Luís
Carlos
oferece-me
o
quadro,
em troco
de quê?!
O Dr.
Roger
Richter
entreolhou-se
sem
compreender
o
alcance
das
palavras
de Luís
Carlos.
À volta
do grupo
estabeleceu-se
um
burburinho,
pois a
decisão
do
pintor
espantou
toda a
gente.
Por fim,
o doutor
perguntou-lhe:
Dr.
Roger -
Concretamente,
o que
precisa
que eu
faça,
para
merecer
a oferta
daquela
obra de
arte?!
Luís -
Doutor,
está
aqui
muita
gente, e
segundo
me
informou
o meu
associado,
tanto o
senhor
como sua
esposa
já
visitaram
a
exposição.
Dr.
Roger -
Sim, só
passámos
por cá
para ver
se o
encontrávamos
pessoalmente.
Luís -
Então,
que diz
se
fossemos
dar um
pequeno
passeio?
Está uma
noite
linda, e
Lisboa é
uma
cidade
maravilhosa
à noite.
Aceita?
O casal
apressou-se
a dizer
que se
tratava
de uma
boa
ideia, e
os três
abandonaram
a sala
de
exposições.
Daniel,
o
associado
do
pintor,
foi
então
literalmente
submerso
por
perguntas,
vindas
de todos
os
lados.
Mas não
sabia
realmente
como
responder
à
curiosidade
daquela
gente
indiscreta,
que
pensava
que ele
devia de
estar no
segredo
das
actividades
do seu
amigo.
Bem
garantia
a toda a
gente
que nada
sabia do
que se
estava a
passar
entre
Luís
Carlos e
os
americanos,
mas
ninguém
acreditava
nele.
Entretanto,
passeando
na noite
lisboeta,
o mais
apetecível
que se
possa
imaginar,
caminhavam
vagarosamente,
o casal
americano
e Luís
Carlos.
Em
determinada
altura,
o pintor
perguntou
ao
médico:
Luís -
Então,
doutor,
ainda
não se
lembra
de onde
nos
conhecemos?
Dr.
Roger -
Luís
Carlos,
confesso
que não
me
lembro...
Luís -
Pois eu,
logo que
entrou
na
exposição,
o
reconheci.
Não
admira,
porque
para
mim,
houve só
um Dr.
Roger
Richter.
Para o
senhor,
houve já
milhares
de Luís
Carlos...
Dr.
Roger -
Não
estou a
compreender,
ou o
senhor
já foi
meu
doente?
Espere,
espere,
já sei:
Bombaim,
durante
aquele
terrível
terremoto!
O
pintor,
"O
Português"
como lhe
chamavam.
Agora
bem me
lembro,
só o
nome é
que não
fixei,
mas
ainda
tenho
presente
o meu
diagnóstico:
esmagamento
da
clavícula
e do
fémur e
também a
fractura
de
quatro
costelas.
Eram
quatro
não
eram,
Sr. Luís
Carlos?
Luís -
Exactamente,
foram
quatro
costelas
partidas
que
perfuraram
os
pulmões.
Foram
momentos
horríveis
aqueles
que lá
passei,
mas tive
a sorte
do
doutor
também
se
encontrar
na Índia
e de ter
ido
parar às
suas
mãos.
Caso
contrário,
andaria
hoje por
esse
mundo,
arrastando
a minha
invalidez,
se não
tivesse
morrido...
Dr.
Roger -
Ora,
ora. Fiz
apenas a
minha
obrigação.
Luís - O
doutor
não
tinha
qualquer
obrigação,
pois, só
por mero
acaso é
que
nesse
momento
trágico
se
encontrava
em
Bombaim.
Eu
encontrava-me
lá a
aprender
a
pintar.
Nessa
altura,
ainda
tinha o
coração
cheio de
beleza...
Jodie -
Ah sim?!
... E
agora,
já não
tem o
coração
cheio de
beleza?!
... Eu
atrevo-me
a pensar
que o
seu
coração
está
agora
mais
cheio de
beleza,
como
nunca
esteve,
e não
devo
estar
enganada.
Dr.
Roger -
Bem, meu
amigo,
uma vez
que já
nos
apresentámos,
não
encontro
qualquer
motivo
para não
falarmos
francamente.
Então,
quais
são as
condições
para que
aquele
quadro
seja
meu?
Luís - É
simples:
basta
que o
doutor
opere
uma
pessoa,
de umas
fracturas
antigas,
parece
que são
na bacia
e numa
perna.
Dr.
Roger -
E se eu
a
operar,
dá-me
aquele
quadro?!
Luís - É
exactamente
como
diz.
Dr.
Roger -
Vamos lá
ver, eu
não
conheço
o caso,
além
disso,
se a
operação
não
tiver
êxito?...
Luís -
Tenho
absoluta
confiança
em suas
mãos e
no seu
brio
profissional!
Dr.
Roger -
E, a
pessoa
em
questão
tem
muita
idade?
Luís - É
uma
jovem de
18 anos.
Jodie -
Luís
Carlos,
desculpe-me
a
indiscrição,
mas a
pessoa
em
causa,
por
acaso é
o modelo
do seu
quadro
"A Deusa
e o
Mar"?...
Adivinhei?!
Luís -
Sim, a
senhora
adivinhou,
é ela!
Dr.
Roger -
Mas eu
não
posso
aceitar
intervir,
sem
primeiro
fazer
uma
observação
à
doente...
Luís - O
doutor
fará
todas as
observações
que
precisar.
Apenas
lhe peço
que me
dê a sua
palavra
de honra
de nunca
mencionar
o meu
nome a
Sandra
Cristina
nem a
seus
pais.
Dr.
Roger -
Então a
pequena
chama-se
Sandra
Cristina.
Sim,
pode
contar
com a
minha
discrição.
Luís -
Então,
dar-lhe-ei
o
endereço
onde ela
e os
pais
moram...
Dr.
Roger -
Moram cá
em
Portugal?
Luís -
Moram, e
numa
linda
terra
que se
chama
São
Pedro de
Moel, e
é uma
das mais
belas
praias
de
Portugal.
Dr.
Roger -
Está
certo.
Em
princípio,
aceito...
Luís - O
doutor
arranjará
maneira
de se
comunicar
com ela,
e de lhe
propor a
operação,
sem lhe
levar
dinheiro.
Feito
isso, e
sem
esperar
pelos
resultados
finais
da sua
intervenção,
eu
remeter-lhe-ei
o quadro
"A Deusa
e o Mar"
para a
sua casa
em Nova
Iorque.
Combinado?...
Dr.
Roger -
Está
combinado!
Os dois
homens
apertaram
as mãos,
o acordo
estava
feito.
Luís
Carlos,
quando
nessa
noite
entrou
no seu
apartamento,
no
moderno
bairro
do
Restelo,
ia sem
se
conter
nas
pernas,
pois
estava
completamente
embriagado.
Bebia
muito
desde
que
regressara
de São
Pedro de
Moel, na
esperança
de se
esquecer
da
presença,
do riso
e da
voz, do
perfume
e da
beleza
de
Sandra
Cristina.
Cada dia
mais e
mais era
vencido
e
dominado
pelo
poderoso
encanto
da
rapariga
que o
traíra.
Melhor,
que ele
julgava
que o
traíra
com
requintes
de
malvadez.
Nessa
noite,
porém, a
sua
bebedeira
era de
esperança,
se é que
se pode
classificar
assim
uma
bebedeira.
Ele
tinha a
esperança
de poder
arrancar
Sandra
Cristina
ao seu
grande e
tremendo
complexo.
O seu
imenso
amor por
ela, não
exigia
nada em
troca,
nem
sequer
que ela
soubesse
que ele
interviera
no
milagre
da sua
cura.
Tinha
fé, pois
o Dr.
Richter
era o
maior
especialista
do mundo
em
enxertos
ósseos.
A sua
voz e a
sua
autoridade,
eram bem
conhecidas
na
Europa e
nas
Américas,
e Luís
Carlos
dava-se
por
feliz,
que o
grande
especialista
fosse um
admirador
da
pintura.
Poderia
assim
proporcionar
a Sandra
Cristina,
a
possibilidade
de uma
cura
radical.
Não
queria
nada em
troca,
nem
mesmo se
detinha
no
pensamento
mesquinho
de se
ela
merecia
ou não,
aquilo
que
pensava.
Amava-a,
reconhecia-o
a cada
momento,
e,
quando
alguém
ama
alguém,
deve ser
bom para
esse
alguém.
Decerto
que ela
não
pensaria
assim a
seu
respeito,
e sendo
assim,
era
sinal de
que não
o tinha
amado!
Mas que
culpa
teria
ela de o
destino
ter sido
assim?
Lembrou-se
ainda de
que na
última
Primavera
fora ao
Porto,
e,
quando o
autocarro
passou
por São
Pedro de
Moel,
pensou
que
pudesse
ter
oportunidade
de
vê-la.
Gostava
de
vê-la,
ao menos
uma vez,
pois o
seu
coração
rebentava
de dor e
de
saudade.
E
conseguiu
vê-la.
Mas,
mais
valia
que a
não
tivesse
visto.
Vira-a
ao pé da
estação
da
Rodoviária,
de braço
dado com
um rapaz
que a
tratava
familiarmente
por tu.
Estaria
já
casada?...
Mas,
casada
ou não,
ela
havia de
sofrer
muito
pelo seu
defeito
físico.
E, se
ele
conseguira
subir ao
cume da
fama e
da
fortuna
pelas
suas
pinturas,
isso, em
parte
devia-o
a ela,
pela sua
incomparável
beleza,
e pelo
nobilíssimo
sentimento
que ela
soubera
inspirar-lhe
e ele
conseguira
transpor
para a
tela.
Por
isso,
casada
ou
solteira,
Sandra
Cristina
teria a
sua
quota-parte
nos
efeitos
produzidos
pelo seu
quadro.
Já fora
suficiente
que não
lho
tivesse
mandado,
e o
houvesse
substituído
por
aquela
cópia
apressada...
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