SEBO LITERÁRIO

 

 

 A Deusa e o Mar

de Carlos Leite Ribeiro

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Sandra Cristina e seus pais estavam sentados na esplanada de um café, na chamada varanda de São Pedro de Moel, tomando um refresco.
Estávamos no meio da tarde e todas as mesas estavam ocupadas, quando um casal de estrangeiros, de ar distinto, acercou-se deles e o homem delicadamente perguntou:
Dr. Roger - Seriam tão amáveis que nos dessem licença de ficarmos na vossa mesa? ... É que não existe nenhum lugar vago, e estamos a "morrer" de sede...
André - Para nós até será uma honra. Por favor, sentem-se e estejam à vontade.
Dr. Roger - Então, se nos dão licença, nós somos o casal Richter, americanos de Nova Iorque.
André - Nós somos os Mendes, aqui de São Pedro de Moel. Os senhores são turistas, não é verdade?
Entretanto, tinham-se sentado todos, e o pai de Sandra Cristina encomendou mais dois refrescos. Sua filha teve a perceção, por uma misteriosa sensibilidade, de que alguma coisa estranha se iria passar na sua vida. Uma espécie de ansiedade tomava-a toda, quase impedindo de ver a sua curiosidade disfarçada, para mais, a senhora Jodie Richter observava-a de quando em vez.
Em determinado momento, André Mendes, pensativo, desabafou:
André - Richter... Richter... Escuta, Sandra Cristina, este nome não te diz nada?
Sandra - Não sei, paizinho? ...
André - A minha filha anda sempre na Lua. Também não admira, pois são os seus dezoito anos...
Emília - Minha filha, pois eu ia jurar que já li este nome muitas vezes...
Dr. Roger - É natural que sim, pois tenho trabalhado muito...
Emília - Por acaso o senhor não é médico?
Dr. Roger - Sou, sim.
Sandra - Papás, eu conheço o nome, sim, e até já vi a fotografia deste senhor naquela revista alemã sobre as sumidades do nosso século! É ele, sim, o maior especialista em enxertos ósseos do nosso tempo! ... É o senhor, não é?! Diga lá...
Dr. Roger - Não sei se serei o maior especialista, como a menina amavelmente me classifica, mas lá que sou médico, sou. Chamo-me Roger Richter, e sou especialista em ossos. Mas porquê?
Sandra - Porquê?! ... Ainda pergunta porquê?
Sandra Cristina rompeu então num pranto convulsivo, embora chorasse muito baixinho. A mãe da pequena explicou ao casal a insólita atitude da rapariga. Os Richter fizeram-se de muito admirados, e o médico, em certa altura, deixou escapar a frase milagrosa:
Dr. Roger - Pois é realmente uma pena que uma rapariga tão nova e tão fascinante como a vossa filha sofra desse defeito. Há quantos anos teve o acidente, Sandra Cristina?
Sandra - Quase há sete anos, Sr. Doutor. É tempo demais para se tentar qualquer coisa, não é?
Dr. Roger - Depende... Olhe, Sandra, tenho muito interesse em observá-la.
Sandra - Oh, Sr. Doutor, que feliz eu seria, se…
Jodie - Vamos lá, não é caso para a Sandra se excitar assim. Meu marido não pode prometer-lhe nada, mas olhe que ele é quase mágico...
Sandra - É por isso mesmo que me sinto tão feliz!
O casal Mendes tinha trocado um rápido olhar de compreensão, e o pai de Sandra, numa voz pesada, disse, como um criminoso a confessar o seu delito:
André - Mas, como lhe hei-de dizer, Doutor... Nós não temos meios materiais para pagar uma operação dessas, para mais feita por um especialista como o senhor.
Sandra - Pois é verdade, Sr. Doutor, os meus pais não têm meios financeiros…
Dr. Roger - Vocês, portugueses, são todos de uma grande precipitação, que até vos estraga a alegria de viver! São Pedro de Moel é uma das mais belas praias de Portugal, e vocês parecem apostados em viver em tragédia. Ninguém vos falou em dinheiro, não é verdade?
Emília - Pois não, mas nós...
Dr. Roger - Também não fizemos nenhum contrato, não é verdade? Eu disse apenas que gostaria de observar a sua filha, e isto, se ela e os senhores estiverem de acordo. Valeu?
André - O pior é que...
Dr. Roger - Deixem-me falar, por favor. Ando em férias pela Europa, e recebi uma gentileza de um casal desconhecido que me proporcionou o mais saboroso refresco que tomei em toda a minha vida. Talvez possa recompensá-los desta vossa amabilidade, pedindo-vos que me deixem observar Sandra Cristina.
Houve um silêncio feliz, ou, mais exactamente, um silêncio em que os Mendes recearam entender o que ouviram. Mas logo ficou combinada a hora matinal, no dia seguinte. O Dr. Richter os visitaria para uma primeira observação da perna e da anca de Sandra. A pequena, durante toda a noite, não conseguiu dormir. No mais íntimo da sua alma, agradecia à providência Divina que tivesse colocado no seu caminho aquele casal bondoso, que se condoera da sua desgraça.
Nem por sombras poderia lembrar-se de uma possível intervenção de Luís Carlos, naquele processo, se bem que fosse o pintor, a pessoa pela qual mais lhe interessava melhorar do seu defeito físico.
Sentindo-a inquieta e a remexer-se na cama, a mãe enfiou um roupão e foi ter com ela ao quarto:
Emília - Por que não dormes minha filha?
Sandra - E tu, porque estás acordada?
As duas sorriram, com os olhos brilhantes de esperança. Momentos depois, também o pai da Sandra, o André Mendes, estava presente. O seu rosto, normalmente calmo, apresentava um colorido e uma excitação excepcional:
Sandra - Papá, não é um momento maravilhoso?
Emília - Não te agarres já a esperanças tão grandes, minha filha.
Sandra - Concordo plenamente contigo, mas seria como um grande e maravilhoso milagre.
Emília - Lembra-te que o acidente já foi há muito tempo e que os ossos já solidificaram.
Sandra - Eu sei isso tudo, mas deixa-me sonhar com um milagre que me possa acontecer.
André - Mas deves pensar que já é um pouco tarde. - Mulher, não vens para a cama? Daqui a pouco começa a amanhecer...
Emília - Vai indo tu, pois eu ficarei um pouco mais com a Sandra.
André - Então, um bom resto de noite, e procura sossegar.
Emília - Agora que o pai se foi embora, diz-me cá, tu ainda pensas no Luís Carlos, não é verdade? Não estranhes a minha pergunta, mas as mães sabem tudo a respeito das filhas, especialmente das filhas da tua idade.
Sandra - Não te sei responder, mãe…
Emília - Tenho a sensação de que tu não te excitarias tanto se o Luís Carlos não tivesse passado pela tua vida!
Sandra - Talvez tenhas razão. Não sei porquê, mas tenho a esperança de que ainda um dia o encontrarei... E então...
Emília - Tem calma, minha filha, e escuta-me.
Sandra - Sou toda ouvidos, mãe.
Emília - De todos os homens que existem no mundo, o Luís Carlos é aquele que eu reputo ser mais indiferente a teu respeito.
Sandra - Pode ser que tenhas razão, e é por isso que eu queria muito estar curada, quando ele me reencontrar!
Emília - És uma alma nobre, minha filha. Mas não deves ficar com essa ideia fixa de que voltarás a encontrar o Luís Carlos. Até pode ser que ele não volte a São Pedro de Moel.
Sandra - Ainda agora ele fez uma exposição em Lisboa. Li nos jornais, e só por vergonha é que não pedi ao pai que fossemos lá...
Emília - Vergonha de quê?
Sandra - De lhe aparecer ainda com este defeito.
Emília - Só por isso? Olha lá, tu fizeste alguma coisa de indecoroso e que te possa envergonhar?
Sandra - Bem sabes que não!
Emília - Então, não te entendo...
Sandra - Oh, nem eu sou capaz de te explicar, mas portei-me como se tivesse feito tudo o que há de pior.
Emília - Bem, com esta conversa toda, já são mais do que horas para ir dormir, para podermos estar bem-dispostas quando o Sr. Doutor chegar.
Sandra - Ele disse que vinha às nove horas... Achas que ele vai faltar e nunca mais o vamos ver?
Emília - Não, minha filha! Que disparate de pensamento.
Sandra - Desculpa, mas estou muito nervosa!
Emília - O Dr. Roger Richter é uma celebridade mundial, não é um troca-tintas qualquer.
Sandra - Oh, mãe, não te zangues com a tua filhinha que está muito nervosa.
Emília - Se ele se comprometeu a fazer uma coisa, sem que ninguém lhe pedisse, decerto que não faltará. Dorme descansada, vá. Um beijinho...

 

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