SEBO LITERÁRIO

 

 

 A Deusa e o Mar

de Carlos Leite Ribeiro

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Na manhã seguinte, logo pelas nove horas, retiniu a campainha do portão. Sandra Cristina, atarantada, nem conseguiu esperar que a criadita fosse abrir o portão, e correu logo a abri-lo. Ofegante, o seu adorável rosto empalideceu de emoção ao encontrar-se em frente do médico que lhe sorria calmamente segurando nas mãos uma pasta e um magnífico ramo de rosas que lhe estendeu, enquanto lhe dizia:
Dr. Roger - Bom dia, Sandra Cristina. Minha mulher manda-me pedir desculpa de não poder vir, mas tinha umas voltas a dar na Marinha Grande. Então, como passou a menina a sua noite?
Sandra - Oh, Sr. Doutor, que gentileza a sua! Muito obrigada. Mamã, olhe o que o Sr. Doutor me trouxe!
Emília - Bom dia, Sr. Doutor. Que belas flores. Agradeço-lhe muito a sua gentileza!
Dr. Roger - Bem, agora que tanto a filha como os pais, já estão mais serenos, vamos lá fazer o exame. Antes de tudo, deixe-me vê-la andar. Ora faça favor de ir até àquela porta e voltar. Devagarzinho e bem direita; vamos, mais uma voltinha...
A mocinha obedeceu, enquanto o cirurgião se transformava de homem da Sociedade em homem de Ciência. Os olhos fixos como se a tivesse a fuzilar, não querendo perder o mais insignificante pormenor que lhe fosse fornecido pelos movimentos da rapariga, e foi com voz algo rude que lhe disse:
Dr. Roger - Basta!... Fractura da bacia na região exterior e fractura da tíbia e do perónio, com encurtamento por solidificação errada; além de esmagamento de alguns ossos: o tarso e o metatarso, não foi isso?
Sandra - Exatamente, Sr. Doutor!
Dr. Roger - Bem, passemos a um quarto, onde eu possa examinar directamente os locais das fracturas, e mais exactamente, os locais das solidificações.
Emília - Então, por aqui, Sr. Doutor, se faz favor...
Dr. Roger - A sua filha coxeia pela forma como deixaram solidificar as fracturas que apresenta. Hoje, não têm qualquer importância, quando tratadas convenientemente. Foi uma pena, direi mesmo que foi um crime! Bem, preciso da senhora junto de mim...
O exame foi demorado. Quando terminou, o médico voltou à saleta, sentou-se e pediu:
Dr. Roger - Senhor André Mendes, por acaso não tem aqui em casa uma garrafa de vinho do Porto? É que gostaria muito que bebessemos, ao êxito da operação que vou fazer à sua filha!
Emília - Oh, Sr. Doutor, nem pode calcular o bem que me fazem as suas palavras!
André - Senhor Doutor, eu, como a mãe da Sandra Cristina... Nem sei como hei-de agradecer-lhe.
Atarantados e chorosos, o pai e a mãe de Sandra abriram uma garrafa do precioso vinho do Porto, que estava guardado para uma qualquer ocasião especial. Os cristais, os belos cristais da Marinha Grande tocaram-se, e o Dr. Roger Richter esclareceu:
Dr. Roger - Ao contrário do que possam pensar, isto não quer dizer que eu esteja seguro da minha intervenção. Compreendam, por favor.
André - Mas só a sua boa vontade, nem sabemos como havemos de lhe agradecer!
Dr. Roger - Prevejo que a idade da nossa doentinha, me ajudará decisivamente. Se fosse mais velha, já nada havia a tentar, mas assim e com a ajuda de Deus, vamos a ver o que podemos fazer.

 

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