CASA de FANTASMAS

 

Comédia Teatral de Carlos Leite Ribeiro

texto original

 

 

Pág. 10 de 11  Pág.s

Carmo: Meus senhores, quero dizer-vos que já terminei!
Coronel: Mas... mas o que é que já terminaste, Carmo?
Alferes: Não me digas que conseguiste apanhar algum Fantasma...
Sargento: Confesso que também estou muito curioso por saber o que é que a Carmo terminou.
Carmo: Tenham calma. Não, não apanhei nenhum Fantasma. Só terminei de fazer um bolo. Um delicioso bolo de ananás.
Coronel: Oh, sua tolinha, então é com bolos que tu queres apanhar os Fantasmas! Tem mas é juizinho nessa cabeça, pois já tens idade para isso. E para já, ficas terminantemente proibida de interromperes reuniões, só para dizeres parvoíces, em que nós, os Homens, estamos a planear a melhor maneira de podermos salvar a Humanidade, dessa praga imunda que são os Fantasmas!
Capitão: Muito bem, muito bem, caro Coronel!
Coronel: Por favor, ninguém me interrompa. Mas, continuando: para que isso possa acontecer, será necessário derrotar todos os Fantasmas que existam na Terra e, principalmente, os que estão cá em casa!
Capitão: Com essa conversa toda, por favor, não se esqueçam das minhas calças, das minhas riquíssimas calças novas, e também da minha caneta de ouro. Isto é uma grande indignidade para um Capitão que se preze. Isto de ter que andar em cuecas…
Alferes: Companheiros de armas, temos de chegar a um consenso generalizado, para combinarmos qual será a estratégia ideal, que leve à completa e total destruição de todos os Fantasmas!
Sargento: Para já, proponho que não façamos prisioneiros.
Coronel: Como ficou amplamente demonstrado, para operarmos uma acção eficaz contra o inimigo, precisamos de mais efectivos.
Capitão: Então, não hesite, caro Coronel. Arranje efectivos, porque eu quero de volta as minhas calças, as minhas riquinhas calças novas e a caneta de ouro. Que indignação para um Capitão…
Coronel: Como devem calcular, estou a ponderar muito bem todas as vossas sugestões. A eventual vinda de reforços, poderá determinar a mudança de comando e, como devem calcular, não convém que a minha casa possa ser considerada zona militarizada.
Sargento: Estou a compreender perfeitamente o Coronel. Em nossas casas, quem deve mandar e comandar devemos ser sempre nós!
Capitão: Eu também compreendo muito bem os receios do Coronel. Mas eu quero, eu quero as minhas calças novas. Que indignação para um Capitão...
Alferes: Então, o que é que o caro Coronel sugere?
Coronel: Entre várias hipóteses, estou a pensar em dividir a casa em vários sectores, utilizando para o efeito, arame farpado.
Capitão: A ideia poderá não ser má de todo. Mas se os Fantasmas passarem por baixo do arame farpado, lá se vão as minhas ricas calcinhas!
Sargento: Temos de concordar que o Capitão não pode andar toda a noite em cuecas.
Coronel: Caros companheiros de armas, por favor, deixem-me continuar...
Alferes: Continue, continue caro Coronel, que nós até gostamos de o ouvir!
Coronel: Depois da colocação do arame farpado, podíamos acender várias fogueiras, na tentativa de que o fumo intoxique o inimigo.
Sargento: Mas antes de acenderem as fogueiras, aconselho-vos a apreciar este belo cheirinho que vem dos lados da cozinha.
Alferes: Tem razão, caro Sargento. O cheirinho do bolo que a Carmo está a fazer já chega aqui, e não engana ninguém: é um bolo de ananás!
Sargento: Estou cá a pensar numa coisa: e se os Fantasmas também roubassem este bolo?
Alferes: Tem toda a razão, pois até os Fantasmas podem gostar de bolo de ananás. Talvez fosse conveniente avisar a Carmo.
Coronel: Vou já avisá-la. - Carmo, estás a ouvir? Olha, desta vez toma o devido cuidado e não deixes que os Fantasmas roubem também esse bolo, que deve estar uma delícia!
Carmo: Os senhores estão a falar comigo? Eu já vou aí.
Coronel: Claro que estávamos a falar contigo. Olha lá, repito: desta vez não deixes que os Fantasmas roubem esse bolo!
Augusta: Tive uma ideia: talvez fosse melhor trazeres o bolo para a sala, pois se o deixares na cozinha, ainda o podem roubar, e assim nunca mais se vão embora.

A criada entra no salão e pede a todos os presentes que falem baixinho (chiuuuu)...

Carmo: Oxalá que os Fantasmas desta vez o roubem e o comam!
Augusta: Não te compreendo, Carmo. Deixa-te mas é de brincadeiras e traz o bolo para aqui.
Alferes: A Dona Augusta tem muita razão, o bolo deve vir para aqui. Talvez depois de o comermos, possamos pensar na melhor estratégia a seguir, para acabarmos de uma vez por todas com esses malfadados Fantasmas.
Sargento: Apoiado, apoiado. Venha lá depressa esse bolo para aqui.

Entretanto, a criada entra novamente no salão, e...

Carmo: Meus senhores, dão-me licença que entre e que fale?
Coronel: Olha, Carmo, tu estás a tornar-te muito chatinha. Mas... mas não nos venhas dizer que... que…
Carmo: Sim, venho solenemente comunicar-vos que o bolo de ananás DESAPARECEU!!!
Coronel: É impossível, impossível!... Desta vez não vou aceitar o facto como consumado. Desta vez, vou deitar tudo abaixo... Tudo abaixo!
Sargento: A Carmo deve estar enganada, ou então está a brincar…
Alferes: Isto é demais! Até parece um sonho mau, um pesadelo.
Carmo: Pois é, meus senhores, a partir deste momento, eu, a Carmo, criada às vossas ordens, é que vou resolver o caso dos Fantasmas cá em casa do Sr. Coronel!
Coronel: Tu não deves é estar boa da cabeça!
Alferes: Estou mesmo a ver que o teu nobre desejo era pertenceres ao nosso glorioso pelotão, mas...
Coronel: Protesto veementemente, pois o nosso pelotão não pode, de maneira nenhuma, ser constituído também por mulheres. O pelotão não é uma brigada mista... Mulheres, já p'ra cozinha... Mulheres, já p'ra a cozinha!
Carmo: Por favor, prestem muita atenção. Como já vos disse, sou eu quem vai resolver este problema dos Fantasmas, mesmo sem ter a honra de pertencer ao vosso glorioso pelotão.
Coronel: Nem posso acreditar no que estou a ouvir. Mas então, conta-nos lá como é que pensas que vais resolver este importante caso?
Carmo:  Para já, não vai ser preciso empreender nenhuma acção bélica.
Alferes: Pelos vistos, a Carmo quer dizer que a exterminação dos Fantasmas não passa por acções bélicas, mas sim, por acções políticas?
Carmo: De políticas é coisa que eu não percebo nada, mas também não importa.
Coronel: Carmo, já estou a perder a paciência. De uma vez por todas, diz-nos quais foram as acções que levaste a cabo.
Carmo: Digamos que fiz... uma acção de psicologia feminina.
Alferes: Atenção, atenção meus senhores! A Carmo descobriu uma nova fórmula para caçar Fantasmas. Imaginem só que para os caçar, basta aplicar um pouco de psicologia feminina!
Coronel: Esperem, não sei bem porquê, mas começo a estar quase de acordo com a Carmo. Sendo assim, o nosso glorioso pelotão poderá ficar ainda mais valorizado, se conseguirmos recrutar um elemento para a Psico. Por isso, vou convidar a Carmo.
Carmo: E eu terei muito prazer em aceitar essa missão!
Coronel: Sendo assim, companheiros de armas, a partir deste momento, tem a palavra a nossa novel, valente e destemida, Carmo!
Sargento: Apoiado, apoiado! Vivá  Carmo - a criada!
Carmo: Muito obrigado, muito obrigado a todos! Como é do conhecimento geral, e resumindo, eu fiz um bolo de ananás, que por acaso devia estar delicioso, mas que desapareceu...
Alferes: Ai que pena, até estou a ficar com água na boca.
Carmo: Mas, enfim, desapareceu...
Sargento: E, possivelmente, desapareceu nas bocas imundas de uns quaisquer Fantasmas!
Carmo: Mas... há sempre um “mas”. Ao amassar a massa do dito cujo bolo, adicionei uma certa porção de um produto que serve para exterminar ratos. Assim, os Fantasmas ao ingerirem o bolo, também ingeriram a tal porção de raticida. E agora, vamos esperar.
Coronel: Queres então dizer que...
Alferes: Os Fantasmas...
Capitão: Vão morrer...
Coronel: Envenenados?
Carmo: Mas, atenção... Desde já quero que fique muito bem esclarecido que eu não envenenei ninguém. Nem mesmo os Fantasmas. Limitei-me só a pôr uma certa porção de raticida num bolo de ananás. Nada mais...
Coronel: Podes estar descansada e em paz com a tua consciência, pois, somos todos testemunhas do que aconteceu. Se os Fantasmas estiverem envenenados, a culpa foi deles (só deles), pois não tinham o direito de comer o bolo de ananás, feito com todo o amor e competência, aqui pela Carmo... A nossa companheira de armas!
Alferes: Mas agora temos um grande problema: como é que vamos saber se os tais Fantasmas comeram ou não o bolo de ananás? Para mais, eles devem ser transparentes.
Capitão: Eu só quero saber das minhas calças, das minhas riquíssimas calças novas, e também da caneta de ouro. Que indignidades fizeram a um Capitão como eu!
Sargento: Se os Fantasmas morrerem, com certeza que devem começar a cheirar mal; mas como o Alferes diz, e com muita razão, eles devem ser transparentes. E sendo assim, como é que os podemos ver? Talvez através de uns óculos escuros. Bem, é só uma ideia...
Sargento: E depois, como é que os podemos deitar fora? Vocês ainda não pensaram nesse problema?

Capitão: E ninguém fala nas minhas queridas calcinhas, ninguém se importa de eu andar para aqui em cuecas; nunca, nunca hei-de perdoar aos Fantasmas, pois o que eles fizeram a um Capitão importante como eu, é indigno, é indigno. E se as calças também se tornaram transparentes? Ai, ai, que eu nem quero pensar nessa possibilidade; as minhas riquinhas calças!...
Carmo: Meus senhores, a título de curiosidade, vou ler-vos o que está aqui escrito na embalagem do raticida: "Perigo de Morte" - "Este produto é altamente tóxico. Em caso de ingestão, deve o acidentado ser transportado urgentemente à morgue mais próxima, pois o corpo começa logo a decompor-se"...
Coronel: Sendo assim, os Fantasmas já devem estar completamente mortos... E talvez, até bem mortos. Já me estou a arrepiar todo!

CONTINUA...


 

Registre sua opinião no

Livro de Visitas:

 
 

para pág 11