Carmo: Meus
senhores, quero
dizer-vos que já
terminei!
Coronel: Mas... mas
o que é que já
terminaste, Carmo?
Alferes: Não me
digas que
conseguiste apanhar
algum Fantasma...
Sargento: Confesso
que também estou
muito curioso por
saber o que é que a
Carmo terminou.
Carmo: Tenham calma.
Não, não apanhei
nenhum Fantasma. Só
terminei de fazer um
bolo. Um delicioso
bolo de ananás.
Coronel: Oh, sua
tolinha, então é com
bolos que tu queres
apanhar os
Fantasmas! Tem mas é
juizinho nessa
cabeça, pois já tens
idade para isso. E
para já, ficas
terminantemente
proibida de
interromperes
reuniões, só para
dizeres parvoíces,
em que nós, os
Homens, estamos a
planear a melhor
maneira de podermos
salvar a Humanidade,
dessa praga imunda
que são os
Fantasmas!
Capitão: Muito bem,
muito bem, caro
Coronel!
Coronel: Por favor,
ninguém me
interrompa. Mas,
continuando: para
que isso possa
acontecer, será
necessário derrotar
todos os Fantasmas
que existam na Terra
e, principalmente,
os que estão cá em
casa!
Capitão: Com essa
conversa toda, por
favor, não se
esqueçam das minhas
calças, das minhas
riquíssimas calças
novas, e também da
minha caneta de
ouro. Isto é uma
grande indignidade
para um Capitão que
se preze. Isto de
ter que andar em
cuecas…
Alferes: Companheiros
de armas, temos de
chegar a um consenso
generalizado, para
combinarmos qual
será a estratégia
ideal, que leve à
completa e total
destruição de todos
os Fantasmas!
Sargento: Para já,
proponho que não
façamos
prisioneiros.
Coronel: Como ficou
amplamente
demonstrado, para
operarmos uma acção
eficaz contra o
inimigo, precisamos
de mais efectivos.
Capitão: Então, não
hesite, caro
Coronel. Arranje
efectivos, porque eu
quero de volta as
minhas calças, as
minhas riquinhas
calças novas e a
caneta de ouro. Que
indignação para um
Capitão…
Coronel: Como
devem calcular,
estou a ponderar
muito bem todas as
vossas sugestões. A
eventual vinda de
reforços, poderá
determinar a mudança
de comando e, como
devem calcular, não
convém que a minha
casa possa ser
considerada zona
militarizada.
Sargento: Estou a
compreender
perfeitamente o
Coronel. Em nossas
casas, quem deve
mandar e comandar
devemos ser sempre
nós!
Capitão: Eu também
compreendo muito bem
os receios do
Coronel. Mas eu
quero, eu quero as
minhas calças novas.
Que indignação para
um Capitão...
Alferes: Então, o
que é que o caro
Coronel sugere?
Coronel: Entre
várias hipóteses,
estou a pensar em
dividir a casa em
vários sectores,
utilizando para o
efeito, arame
farpado.
Capitão: A ideia
poderá não ser má de
todo. Mas se os
Fantasmas passarem
por baixo do arame
farpado, lá se vão
as minhas ricas
calcinhas!
Sargento: Temos de
concordar que o
Capitão não pode
andar toda a noite
em cuecas.
Coronel: Caros
companheiros de
armas, por favor,
deixem-me
continuar...
Alferes: Continue,
continue caro
Coronel, que nós
até gostamos de o
ouvir!
Coronel: Depois da
colocação do arame
farpado, podíamos
acender várias
fogueiras, na
tentativa de que o
fumo intoxique o
inimigo.
Sargento: Mas antes
de acenderem as
fogueiras,
aconselho-vos a
apreciar este belo
cheirinho que vem
dos lados da
cozinha.
Alferes: Tem razão,
caro Sargento. O
cheirinho do bolo
que a Carmo está a
fazer já chega aqui,
e não engana
ninguém: é um bolo
de ananás!
Sargento: Estou cá a
pensar numa coisa: e
se os Fantasmas
também roubassem
este bolo?
Alferes: Tem toda a
razão, pois até os
Fantasmas podem
gostar de bolo de
ananás. Talvez fosse
conveniente avisar a
Carmo.
Coronel: Vou já
avisá-la. - Carmo,
estás a ouvir? Olha,
desta vez toma o
devido cuidado e não
deixes que os
Fantasmas roubem
também esse bolo,
que deve estar uma
delícia!
Carmo: Os senhores
estão a falar
comigo? Eu já vou
aí.
Coronel: Claro que
estávamos a falar
contigo. Olha lá,
repito: desta vez
não deixes que os
Fantasmas roubem
esse bolo!
Augusta: Tive uma
ideia: talvez fosse
melhor trazeres o
bolo para a sala,
pois se o deixares
na cozinha, ainda o
podem roubar, e
assim nunca mais se
vão embora.
A criada entra no
salão e pede a todos
os presentes que
falem baixinho (chiuuuu)...
Carmo: Oxalá que os
Fantasmas desta vez
o roubem e o comam!
Augusta: Não te
compreendo, Carmo.
Deixa-te mas é de
brincadeiras e traz
o bolo para aqui.
Alferes: A Dona
Augusta tem muita
razão, o bolo deve
vir para aqui.
Talvez depois de o
comermos, possamos
pensar na melhor
estratégia a seguir,
para acabarmos de
uma vez por todas
com esses malfadados
Fantasmas.
Sargento: Apoiado,
apoiado. Venha lá
depressa esse bolo
para aqui.
Entretanto, a criada
entra novamente no
salão, e...
Carmo: Meus
senhores, dão-me
licença que entre e
que fale?
Coronel: Olha,
Carmo, tu estás a
tornar-te muito
chatinha. Mas... mas
não nos venhas dizer
que... que…
Carmo: Sim, venho
solenemente
comunicar-vos que o
bolo de ananás
DESAPARECEU!!!
Coronel: É
impossível,
impossível!... Desta
vez não vou aceitar
o facto como
consumado. Desta
vez, vou deitar tudo
abaixo... Tudo
abaixo!
Sargento: A Carmo
deve estar enganada,
ou então está a
brincar…
Alferes: Isto é
demais! Até parece
um sonho mau, um
pesadelo.
Carmo: Pois é, meus
senhores, a partir
deste momento, eu, a
Carmo, criada às
vossas ordens, é que
vou resolver o caso
dos Fantasmas cá em
casa do Sr. Coronel!
Coronel: Tu não
deves é estar boa da
cabeça!
Alferes: Estou mesmo
a ver que o teu
nobre desejo era
pertenceres ao nosso
glorioso pelotão,
mas...
Coronel: Protesto
veementemente, pois
o nosso pelotão não
pode, de maneira
nenhuma, ser
constituído também
por mulheres. O
pelotão não é uma
brigada mista...
Mulheres, já p'ra cozinha...
Mulheres, já p'ra a
cozinha!
Carmo: Por favor,
prestem muita
atenção. Como já vos
disse, sou eu quem
vai resolver este
problema dos
Fantasmas, mesmo sem
ter a honra de
pertencer ao vosso
glorioso pelotão.
Coronel: Nem posso
acreditar no que
estou a ouvir. Mas
então, conta-nos lá
como é que pensas
que vais resolver
este importante
caso?
Carmo: Para já, não
vai ser preciso
empreender nenhuma
acção bélica.
Alferes: Pelos
vistos, a Carmo quer
dizer que a
exterminação dos
Fantasmas não passa
por acções bélicas,
mas sim, por acções
políticas?
Carmo: De políticas
é coisa que eu não
percebo nada, mas
também não importa.
Coronel: Carmo, já
estou a perder a
paciência. De uma
vez por todas,
diz-nos quais foram
as acções que
levaste a cabo.
Carmo: Digamos que
fiz... uma acção de
psicologia feminina.
Alferes: Atenção,
atenção meus
senhores! A Carmo
descobriu uma nova
fórmula para caçar
Fantasmas. Imaginem
só que para os
caçar, basta aplicar
um pouco de
psicologia feminina!
Coronel: Esperem,
não sei bem porquê,
mas começo a estar
quase de acordo com
a Carmo. Sendo
assim, o nosso
glorioso pelotão
poderá ficar ainda
mais valorizado, se
conseguirmos
recrutar um elemento
para a Psico. Por
isso, vou convidar a
Carmo.
Carmo: E eu terei
muito prazer em
aceitar essa missão!
Coronel: Sendo
assim, companheiros
de armas, a partir
deste momento, tem a
palavra a nossa
novel, valente e
destemida, Carmo!
Sargento: Apoiado,
apoiado! Vivá Carmo
- a criada!
Carmo: Muito
obrigado, muito
obrigado a todos!
Como é do
conhecimento geral,
e resumindo, eu fiz
um bolo de ananás,
que por acaso
devia estar
delicioso, mas que
desapareceu...
Alferes: Ai que
pena, até estou a
ficar com água na
boca.
Carmo: Mas, enfim,
desapareceu...
Sargento: E,
possivelmente,
desapareceu nas
bocas imundas de uns
quaisquer Fantasmas!
Carmo: Mas... há
sempre um “mas”. Ao
amassar a massa do
dito cujo bolo,
adicionei uma certa
porção de um produto
que serve para
exterminar ratos.
Assim, os Fantasmas
ao ingerirem o bolo,
também ingeriram a
tal porção de
raticida. E agora,
vamos esperar.
Coronel: Queres
então dizer que...
Alferes: Os
Fantasmas...
Capitão: Vão
morrer...
Coronel: Envenenados?
Carmo: Mas,
atenção... Desde já
quero que fique
muito bem
esclarecido que eu
não envenenei
ninguém. Nem mesmo
os Fantasmas.
Limitei-me só a pôr
uma certa porção de
raticida num bolo de
ananás. Nada mais...
Coronel: Podes estar
descansada e em paz
com a tua
consciência, pois,
somos todos
testemunhas do que
aconteceu. Se os
Fantasmas estiverem
envenenados, a culpa
foi deles (só
deles), pois não
tinham o direito de
comer o bolo de
ananás, feito com
todo o amor e
competência, aqui
pela Carmo... A
nossa companheira de
armas!
Alferes: Mas agora
temos um grande
problema: como é que
vamos saber se os
tais Fantasmas
comeram ou não o
bolo de ananás? Para
mais, eles devem ser
transparentes.
Capitão: Eu só quero
saber das minhas
calças, das minhas
riquíssimas calças
novas, e também da
caneta de ouro. Que
indignidades fizeram
a um Capitão como
eu!
Sargento: Se os
Fantasmas morrerem,
com certeza que
devem começar a
cheirar mal; mas
como o Alferes diz,
e com muita razão,
eles devem ser
transparentes. E
sendo assim, como é
que os podemos ver?
Talvez através de
uns óculos escuros.
Bem, é só uma ideia...
Sargento: E depois,
como é que os
podemos deitar fora?
Vocês ainda não
pensaram nesse
problema?
Capitão: E ninguém
fala nas minhas
queridas calcinhas,
ninguém se importa
de eu andar para
aqui em cuecas;
nunca, nunca hei-de
perdoar aos
Fantasmas, pois o
que eles fizeram a
um Capitão
importante como eu,
é indigno, é
indigno. E se as
calças também se
tornaram
transparentes? Ai,
ai, que eu nem quero
pensar nessa
possibilidade; as
minhas riquinhas
calças!...
Carmo: Meus
senhores, a título
de curiosidade, vou
ler-vos o que está
aqui escrito na
embalagem do
raticida: "Perigo de
Morte" - "Este
produto é altamente
tóxico. Em caso de
ingestão, deve o
acidentado ser
transportado
urgentemente à
morgue mais próxima,
pois o corpo começa
logo a
decompor-se"...
Coronel: Sendo
assim, os Fantasmas
já devem estar
completamente
mortos... E talvez,
até bem mortos. Já
me estou a arrepiar
todo! |