1º
Encapuzado - Amigo, espreita aí pelo óculo da
porta... O que é que vês?
2º Encapuzado - É a criada. Olha que a
«mamífera» tem cá um "cabedal" de género
avião... Ai que bom... bonzinho... Ai... Que
gatinha! Estou a ficar cheio de comichões…
1º Encapuzado - Deixa-te de parvoíces. Vamos
esconder-nos atrás daquele sofá... Rápido e sem
barulho. Cuidado não tropeces nesse fio...
Esconde-te... Rapidamente…
2º Encapuzado - E tu aí "menina"... Olha para
aqui para mim... Assim... Se não colaborares
connosco, já sabes o que te acontece aos teu
lindo pescoço... Olha que não somos para
brincadeiras...
1º Encapuzado - E toma atenção: diz à criada que
faça qualquer coisa que se coma, pois estamos
esfomeados! Ela que faça um bom petisco para
nós... Não te esqueças!
2º Encapuzado - Agora “menina”, vai lá abrir a
porta, mas com juizinho...
Augusta: É inacreditável o que me está a
acontecer... Eu nem quero acreditar!... Deve ser
um sonho mau...
Falando um pouco mais alto, prepara-se para
abrir a porta...
Augusta: Quem é?... Quem é que está aí a bater à
portaaa?...
Carmo: Sou eu, minha senhora, a Carmo.
Augusta: Até que enfim que chegaste! Sempre que
vais fazer compras, até parece que levas uma
cadeirinha atras de ti... Deves dar um grande
desgaste à tua língua ao falares tanto com as
vizinhas...
Carmo: Mas, a senhora deve de estar enganada,
pois desta vez quase que não me demorei nada.
Fui num pé e vim noutro.
Augusta: Olha que não me parece. A mim, pareceu
que demoraste quase uma eternidade. Olha, vai
para a cozinha e prepara... Deixa cá
ver...talvez uns pastelitos de bacalhau e, bem
fritinhos...
Carmo: Pastéis de bacalhau a esta hora?...
Augusta: Não compreendo a tua observação, pois,
a qualquer hora, podemos ter vontade de comer
pastéis de bacalhau!
Carmo: A senhora é que manda. Vou já preparar
meia dúzia de pastéis...
Augusta: Só meia dúzia?! São poucos! Nem
calculas a fome que eu tenho. Prepara pelo menos
uma dúzia e meia ou mesmo duas dúzias, de
pastelinhos e bem fritinhos, não te esqueças.
Carmo: Não sabia que a senhora tinha deixado de
fazer dieta para o tal regime de emagrecimento,
que tanto falava! Isto de ser criada, tem muito
que se lhe diga!
Quando a criada já se encontrava na cozinha,
toca novamente a campainha da porta.
Augusta: Carmo, vai abrir a porta; ainda não
ouviste a campainha?
Carmo: Vou já, minha senhora. Olhe que já tenho
alguns pastelinhos de bacalhau prontos. Quer que
lhos traga?
Augusta: Depois trazes. Mas agora vai lá abrir a
porta... Mas antes de abrires vê bem quem é.
Carmo: É o Sr. Coronel Ramalho. Boa noite, Sr.
Coronel!
Coronel: Boa-noite, minha querida mulher.
Desculpa o atraso, mas esta cabeça já não é o
que era dantes. Vê lá tu que com a pressa de
chegar a casa, me esqueci do molho das chaves no
escritório!
Augusta: Não me digas que entre elas também lá
deixaste as chaves do cofre?!
Coronel: Pois claro que também lá ficaram. Mas
porque estás tão interessada nas chaves do
cofre?
Augusta: Por nada, meu amor... Vê lá tu, sempre
tão cuidadoso, esqueceres da chave do cofre no
escritório... (baixando a voz) - Ai, Jesus...
ai... A minha vida está em perigo...
Coronel: Não te compreendo, pois um
esquecimento, qualquer pessoa pode ter. Olha,
hoje calhou a mim...
Augusta: Eu nem quero acreditar... (baixando a
voz) - arranjaste-me a bonita!... Ai... A minha
vida a andar para trás...
A criada entra de rompante no salão, e...
Carmo: Minha senhora, minha senhora... Acuda-me!
Ai que coisa tão esquisita que aconteceu!...
Augusta: Desembucha, e conta o que te aconteceu.
Carmo, que aflição é essa?
Carmo: Os pastéis, os pastéis... Minha
senhora...
Augusta: Sim, os pastéis, o que é que têm?! Não
te entendo, vê lá se te explicas melhor, para
que eu possa entender. O que é que aconteceu aos
pastéis?
Carmo: Desapareceram, minha Senhora!
Augusta: Desapareceram?! Mas como é que isso foi
possível?
Carmo: Não sei, minha senhora. Tinha-os numa
travessa em cima da mesa da cozinha e, quando
regressei, já não estavam lá.
Augusta: Mas essa situação é completamente
impossível, pois cá em casa nunca desapareceu
nada, mesmo nada. Carmo, procura bem os pastéis,
sim, porque eles nem asas deviam ter, pois não?
E ratos cá em casa não existem!
Carmo: Minha senhora, podia ter sido algum
fantasma que tivesse passado por aqui.
Augusta: Credo mulher! “Abrenúncio pé-de-cabra à
francesa”. Fantasmas cá em casa, nem pensar!
Toca a campainha da porta. O Senhor Coronel,
embora admirado com o desaparecimento dos
pastéis, vai abrir...
Coronel: Ah, é o Sr. Capitão Ribeiro, entre e
parabéns, meu caro, pois hoje conseguiu não ser
o último a chegar!
Capitão: Alguma vez tinha que ser o primeiro a
chegar. Sabe, meu caro Coronel, curiosamente, o
meu horóscopo indica que hoje vou ter uma noite
fora do vulgar, mesmo fora do comum...
Coronel: Este Capitão Ribeiro, tem cada uma!
Vejam bem o que o horóscopo lhe diz? Que ele vai
ter uma noite fora do vulgar, fora do comum. Uma
pessoa da sua categoria, a ler horóscopos,
francamente que não lhe fica nada bem. O
primeiro decénio do século XXI já passou, e como
há ainda pessoas que acreditam nestas coisas!
Capitão: Meu caro Coronel, diga e pense o que
quiser, mas eu acredito nessas “coisas”, como
você diz, sem vergonha de o dizer. Cada qual, é
como cada um.
Nesse momento a criada entra novamente de
rompante no salão...
Carmo: Minha senhora!
Augusta: O que é te aconteceu agora, Carmo?
Carmo: O bolo de laranja...o bolo de laranja...
Percebe?
Augusta: Mau, mau... O que é que aconteceu ao
bolo?!
Carmo: Minha senhora... Compreende? Não
compreende... O bolo de laranja, que estava no
fogão...
Augusta: Diz rapidamente... O que é que lhe
aconteceu?...
Carmo - Desapareceu! Assim como desapareceram as
lâmpadas do corredor e da cozinha. Minha
senhora, não consigo compreender estas coisas
estranhas, pois isto nunca tinha acontecido
antes! Devem ser Fantasmas que andam por aqui...
E confesso que já estou a ficar aterrada!
Augusta: Calma, mulher, calma. Tu deves estar
com visões: primeiro desapareceram os pastéis de
bacalhau, depois o bolo de laranja, e agora até
as lâmpadas do corredor e da cozinha
desapareceram?
Carmo: Isso tudo, como vê, deve ser obra de
Fantasmas, ou de coisas do outro mundo... Estou
toda arrepiadinha e cheia de medo, minha senhora
!
Coronel: Ah, ah, medricas! Fantasmas? Coisas do
outro mundo?! Ah, ah, ah ... Essas ideias só
podem sair da cabeça de uma criada! Ah, ah, ah
... Onde é que isto já se viu?! De facto, este
serão está a ter um princípio muito
divertido!... Muito divertido mesmo! Ah, ah, ah!
Augusta: Querido, por favor não te rias. Não te
rias pois eu já nem sei o que dizer, ou melhor,
pensar... É que podem muito bem existir
Fantasmas, e quem sabe, as tais coisas do outro
mundo... Olha que também já estou a ficar como
tu, Carmo: arrepiada e com... Bem, com algum
medo.
Capitão: Meus caros, já notaram que neste salão
cheira a pastéis de bacalhau e a bolo de
laranja?! Ora cheirem, cheirem bem, que logo
notarão...
Augusta: Confesso que não estou a cheirar nada.
Deve ser impressão do Sr. Capitão... Olhe, por
favor, não faça nem provoque mais confusões. Por
favor, Capitão! Que confusão esta, que momento
este!...
Capitão: Eu não quero provocar nenhumas
confusões, longe de mim tal ideia! Mas
pareceu-me ter ouvido um ruído estranho para os
lados da cozinha. Como eu tenho um certo
jeitinho natural para descobrir certos
mistérios, peço-vos licença para ir investigar o
que se está a passar por aquelas bandas...
Posso? Dão-me licença?
Coronel: Meu caro Capitão, descubra tudo à sua
inteira vontade. Mas tome muito cuidado com os
Fantasmas, pois eles, por vezes, até são muito
maus, violentos e muito cruéis... Ah, ah, ah,
que vontade que eu tenho de rir!
Capitão: Saiba o meu caro Coronel que eu nunca,
por nunca, tive medo de nada, e, muito menos de
Fantasmas!
Coronel: Vá lá então e descubra alguma coisinha.
Faça de conta que está em sua casa. Este
Capitão…
Por momentos ouve-se um ruído estranho como uma
pancada seca e… |