CASA de FANTASMAS

 

Comédia Teatral de Carlos Leite Ribeiro

texto original

 

 

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Coronel: Mas, mas o que é que aconteceu ao Capitão? Capitão, responda...

O Capitão entra no salão, a cambalear, agarrado à cabeça e todo sujo...

Capitão: Ai, ai a minha rica cabecinha... Ai... Vejam só o que  aconteceu à minha cabecinha!
Augusta: Coitadinho do Sr. Capitão! Olhem que grande "galo" tem na cabeça!... Diga-nos lá o que é que lhe aconteceu... Vá lá, diga-nos...
Capitão: Ai, ai a minha riquinha cabecinha!... Ai, que me dói tanto, tanto. E também estou todo sujo... Veja: todo sujo... Ai, que me dói tanto a minha cabecinha!
Coronel: Não me diga, meu caro Capitão, que foi um Fantasma que lhe deu uma "toutiçada" (pancada) na cabeça e lhe fez esse "galo", além de o sujar com farinha e ovo!... ah, ah, ah, que divertido eu estou!

A criada entra no salão com ar de pessoa comprometida ...

Carmo: Meus senhores, peço-vos perdão a todos, em especial ao Sr. Capitão. Pois, a culpada do que aconteceu, sou eu!... É que o Sr. Capitão apareceu na cozinha e, como ia para destapar o tacho onde está a cozer uma galinha... Espero que compreendam... como a luz está muito fraca, pensei que fosse um Fantasma - e zá catrapus, dei-lhe com a colher de pau na cabeça e depois atirei-lhe com um ovo e farinha. Desculpem, mas como devem calcular, estou muito desorientada com estas coisas que estão acontecendo...
Coronel: Estão a ver o que é que o nosso Capitão arranjou com esta brincadeira de Fantasmas? "Os Fantasmas Bateram na Cabeça do Capitão" ah, ah, ah, até dava um bom título para um romance policial... ah, ah, ah !
Augusta: O Sr. Capitão não faça caso do que o meu marido diz, pois já sabe como é que ele é. Vamos já arranjar-lhe um banhinho e bem quentinho!
Capitão: Muito obrigado, Dona Augusta. Bem preciso de um banho. Este estúpido acidente... Olhem, que ainda me dói a cabeça, e tenho o fato todo sujo...
Augusta: Carmo, prepara já um banho para o Sr. Capitão. E com a água bem quentinha – ouviste?
Carmo: É para já, minha senhora. Um banho bem quentinho, e em especial para o Sr. Capitão!

A campainha da porta volta a tocar…

Augusta: Desta vez sou eu que vou abrir a porta, enquanto a Carmo prepara o banho para o Sr. Capitão... Olhem quem é que chegou, o Sr. Alferes Marques! Boa-noite, entre, entre...
Marques: Com sua licença, Dona Augusta. Boa-noite a todos. Mas, olha que engraçado, o senhor Capitão Ribeiro com o rosto e o fato cheio de farinha e ovo! Não me diga que virou pasteleiro?
Coronel: Meu caro Alferes, o nosso comum e querido amigo Capitão, quis ir caçar Fantasmas, e, imagine que lhe atiraram com farinha e um ovo! Eheheheh! E não apanhou nenhum dito cujo Fantasma! Que divertido que eu estou, ah, ah, ah!
Capitão: Deixe-se de brincadeiras, pois, quem me atirou com isto, não foi nenhum Fantasma, mas sim a Carmo, a criada! Este nosso amigo Coronel muito gosta de gozar comigo.
Augusta: Vocês por favor não me falem mais em Fantasmas... Ai que eu até me arrepio toda, todinhaaaa...
Alferes: Ó Dona Augusta, não me diga que a senhora ainda acredita em Fantasmas?! Já a minha avó contava o que lhe contou a avó dela...
Augusta: Por favor, Sr. Alferes, em Fantasmas, não acredito... Mas lá que eles existem... Existem!

Entretanto, a Dona Augusta dirige-se ao seu quarto, e…

Augusta: Olha...! Ó seus bandidos, o que é que vocês fazem aqui no meu quarto? Bandidos!
1º Encapuzado - Cala já o bico, mulher... Olha que será muito melhor para ti... Caladinha, disse eu... E juizinho nessa cabeça, e não te esqueças... Juizinho e muita calma, senão, pescoço cortado...
2º Encapuzado - Se tu não te calas, ainda te corto o pescoço – assimmmm!
Augusta: Credo, homem, por favor chegue para lá essa faca... Que nervos!...
1º Encapuzado - Pois é como o meu amigo diz. Muito juizinho, senão... Pescoço fora! Vamos lá ao que mais interessa: quando é que nos dás a massinha, ou seja, o dinheiro que combinámos ?
Augusta: Não sei, não sei. Mas por favor não me façam mal, pois eu não tenho culpa do meu marido, o Sr. Coronel Ramalho, ter-se esquecido das chaves no escritório. Assim, não poderei tirar o dinheiro do cofre, como vocês querem. Mas essas fotografias não são minhas...
2º Encapuzado - Cala-te mulher, pois senão já sabes o que te pode acontecer: pescocinho cortado! E tu até tens um pescocinho bem feitinho...
Augusta: Não sei como fazer ou que fazer! Como já vos disse... Olhem, escutem, tive uma ideia: podiam vir cá amanhã, ou mesmo noutro dia, mais ou menos a esta hora, buscarem o dinheiro que me querem extorquir? Compreendem e estão de acordo?
1º Encapuzado - Compreendemos até muito bem! És muito espertinha, mas nós não nos vamos embora sem a massinha (dinheiro)! Que espertinha me saíste!
2º Encapuzado - Com esta brincadeira toda (que não é nenhuma brincadeira, antes pelo contrário), até rasguei as minhas calças. Foi na cozinha ao fugir da maldita da criada...
Augusta: Então... Então foram vocês que comeram os pastéis de bacalhau e o bolo de laranja?!
1º Encapuzado - Pois claro que fomos! Olha lá, não podíamos matar a fome? E estavam deliciosos! Bem podia ter sido mais...
2º Encapuzado - Pois ainda ficámos com fome...
Augusta: Pois, pois... Agora é que estou a compreender: Vocês é que são os Fantasmas que a criada Carminho julga que são!

Fora do quarto, ouve-se a voz do marido:

Coronel: Augusta, ó mulher, nunca mais sais daí do quarto? Olha que o Sr. Sargento Neto, acabou mesmo agora de chegar. Vem servir-nos o Whisky, pois vamos começar o nosso habitual joguinho de cartas.
Augusta: Marido, eu vou já. Só estou a acabar de me arranjar...
1º Encapuzado - Vai lá, mas toma muita atenção, pois nós, os Fantasmas, (como tu dizes), só vamos embora depois de recebermos o dinheirinho todo. Repito: o dinheiro todoooo!
2º Encapuzado - Não te esqueças que são só dez mil e quinhentos reais!

Dona Augusta, abanando a cabeça e encolhendo os ombros, sai do quarto e entra no salão…

CONTINUA...

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