CASA de FANTASMAS

 

Comédia Teatral de Carlos Leite Ribeiro

texto original

 

 

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Augusta: Boa-noite, Sr. Sargento Neto. Vou já servir o whisky, e para o Sr. Sargento, uma dose muito especial, tome.
Sargento: Este líquido, aliás, este precioso líquido, hoje parece estar divinal! Que rico whisky. Que delícia mais deliciosa que o Sr. Coronel tem cá em casa! Whisky como este, só nos quartéis e só para oficiais superiores!
Alferes: Este Scotch é mesmo genuíno. O que não admira, pois estamos em casa do Sr. Coronel. Em nada se compara com aquele que no outro dia bebemos em sua casa... Ó Capitão Ribeiro, desculpe lá a franqueza! Mas o whisky que lá bebemos era uma má imitação!
Capitão: Sabe, meu caro Sargento, há dias em que o paladar dos amigos não se encontra tão apurado como o de hoje... Mas este whisky, é de facto muito bom, muito diferente daquela "má qualidade" que bebemos por aí em casa de certos amigos, como por exemplo na do Alferes Marques.
Alferes: Mas esse facto tem uma explicação: o whisky chamado de "Imitação de Sacavém, ou de outra terra qualquer" ainda não atingiu a perfeição desejada!...

O Sr. Capitão entra no salão, depois de sair do banheiro...

Coronel: Meus caros amigos e companheiros, o nosso querido e estimado amigo Capitão Ribeiro foi tomar banho.
Capitão: Claro que tive de ir tomar banho... depois daquele disparate que a Carmo me fez... Olhem lá, por acaso, alguém viu as minhas calças? As minhas calças novas?
Alferes: Ó Capitão, não me diga que perdeu as calças!!!
Capitão: Bem, não quero dizer que as tenha perdido... Mas, logo as calças novas, que me custaram quase uma fortuna!...
Coronel: Então, o Sr. Capitão não sabe onde deixou as calças? É esquisito... Olhe, o seu copo está aqui bem cheio de whisky, beba agora e procure depois as calças. Não é que lhe fique mal o toalhão envolto no corpo... mas compreende... Cá em minha casa... Compreende que não é nada decente...
Capitão: Dou-lhe toda a razão, pois eu também não gosto de andar, ou estar, nesta figura. Entretanto, Dona Augusta, por favor, encha-me outra vez o copo. Muito obrigado pela sua gentileza... está bem assim... assim. Que magnífico whisky este! Parece-me que já estou a ficar com os "copos", ou seja, um pouco grosso, bêbedo... Mas eu quero as minhas calças, as minhas calças novas! Roubaram-mas... Isto deve ser uma manobra para me derrubarem psicologicamente!... Protesto, protesto, protesto... Quero as minhas calças novas... As minhas riquinhas calças novas!
Augusta: Tenha calma, Sr. Capitão, pois as calças vão aparecer. Sim, porque cá em casa, não há  (há...há...há?...) ladrões?... Fantasmas?
Coronel: Caro Capitão, antes de ir procurar as suas calças, beba mais um copo de whisky... Vá lá, não se faça esquisito. Depois de beber, vá procurar muito bem as calças, pois, como diz, e muito bem, minha mulher, cá em casa não há ladrões. Mas espere... Só se foi algum Fantasma que lhas roubou... Ah, ah, ah!... Teria sido um fantasma e, neste caso, fantasma e até ladrão?
Augusta: Ai, credo, marido... Cala-te por favor... Mas se foi... Algum Fan... Fantasma... Podemos pedir por favor que ele devolva as calças... Tive uma ideia: vamos todos gritar, assim: Ó Fantasmas!!! Ó senhores Fantasmas!!! Por favor devolvam as calças ao Senhor Capitão... - Vá lá, gritem todos comigo...
Coronel: Ó Augusta, tu também bebeste whisky? Mas o que é que te deu, para estares a gritar aí aos Fantasmas? Até parece que estás louca...
Sargento: Eu também estou de acordo em não gritarmos por Fantasmas, pois senão, daqui a pouco, ficamos inundados por eles, e lá se ia todo o whisky do nosso caro amigo Coronel. Pois devem existir Fantasmas apreciadores do bom whisky. Penso eu...
Coronel - Agora um pouco mais a sério: Carmo, vem cá depressa... Rápido, mulher... És cá uma vagarosa! Mas que mulher esta...
Carmo: Pronto, ao seu inteiro dispor, Sr. Coronel!
Coronel: Olha lá, vais aqui com o Sr. Capitão procurar as calças dele, as quais não devem andar por muito longe. Pelo menos penso que não...
Carmo: Sr. Coronel, eu não me importo de as ir procurar, mas... Mas o pior é a cozinha...
Coronel: E o que é que tem a cozinha a ver com as calças?!...
Carmo: Sabe, é que estou a cozinhar uma galinha de cabidela...
Coronel: E daí? Não me digas que estás com medo que a galinha levante voo e que fuja do tacho... Ficaste muito calada, diz qualquer coisa, ou estás com medo de qualquer coisa?
Carmo: Estou com medo dos Fantasmas, sim, Sr. Coronel, os Fantasmas podem voltar novamente e levarem com eles a galinha. Já vi que o Sr. Coronel não quer compreender, mas...
Coronel: Mau, mau. Deixa-te de brincadeiras e procura rapidamente as calças, pois o senhor Capitão não pode (nem deve) ficar em cuecas toda a noite!
Alferes: Confesso que eu próprio já estou a ficar com um certo receio dos Fantasmas! E pelos vistos, estes até são comilões! Ai, que horror: Fantasmas! Caro Capitão, não se vá embora, não procure ainda as calças, sem antes beber mais um copito de whisky, ao qual terei muito gosto, e prazer, em acompanhá-lo (a beber outro, claro...!).
Sargento: Ai que medo que eu sinto... Até sinto o corpo todo a tremer! Ah, ah, ah! Fantasmas! E se em vez de Fantasmas, fossem, fossem... Assim com estas formas... Formas femininas, compreendem?! Aí é que seria uma grande orgia! Perdão, Dona Augusta! Vejam lá que eu por causa dos Fantasmas, até me esqueci da senhora. Mais uma vez, as minhas desculpas...
Augusta: Aceito as suas desculpas, mas, Sr. Sargento, por favor não provoque mais confusões, pois já estou a ficar muito nervosa com este assunto. Ufff! Fantasmas…
Alferes: Tem toda a razão, em vez de Fantasmas, podiam ser, por exemplo, Lobisomens, Vampiros, ou mesmo Extraterrestres, enfim... sei lá que mais!
Coronel: Meus caros convidados, não podemos dar mais crédito a este assunto nem falar mais em Fantasmas! Sejamos racionais. Não existem Fantasmas! Não existem e ponto final.
Sargento: Pois é, mas nós estamos a dar crédito a essa parvoíce. Até parece um filme que vi há pouco tempo na televisão, com muitos fantasmas maus que até comiam...
Coronel: Bom. Vamos ao que mais interessa: Olha lá, Carmo, já encontraste as calças do Sr. Capitão? Eu quero este caso resolvido rapidamente, ouviste e compreendeste bem?
Carmo: Já as procurei por todo o lado que é sítio, mas não as encontrei.
Capitão: Mas eu quero as minhas calças... Eu quero as minhas calcinhas novas... As minhas ricas calcinhas... Um Capitão, nunca por nunca, pode, nem deve, andar em cuecas! É indigno para a sua categoria social e militar.
Sargento: Apoiado, apoiado! O caro Capitão tem toda a razão (mas não chore) e o seu protesto é pertinente... Embora já tenha bebido alguns copos de whisky!...
Alferes: O caro amigo Sargento, tem toda a razão, pois não deve tentar afogar o desgosto de ter perdido as calças, bebendo muito whisky. Olhe que eu conheço quem já tenha perdido as calças por muito menos!
Capitão: Mas eu quero, eu quero as minhas calcinhas novas. Por favor, compreendam-me, pois sinto-me muito infeliz sem elas... Imaginem só se os meus tropas me vissem neste estado!

CONTINUA...

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