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Augusta: Boa-noite,
Sr. Sargento Neto.
Vou já servir o
whisky, e para o Sr.
Sargento, uma dose
muito especial,
tome.
Sargento: Este
líquido, aliás, este
precioso líquido,
hoje parece estar
divinal! Que rico
whisky. Que delícia
mais deliciosa que o
Sr. Coronel tem cá
em casa! Whisky como
este, só nos
quartéis e só para
oficiais superiores!
Alferes: Este Scotch
é mesmo genuíno. O
que não admira, pois
estamos em casa do
Sr. Coronel. Em nada
se compara com
aquele que no outro
dia bebemos em sua
casa... Ó Capitão
Ribeiro, desculpe lá
a franqueza! Mas o
whisky que lá
bebemos era uma má
imitação!
Capitão: Sabe, meu
caro Sargento, há
dias em que o
paladar dos amigos
não se encontra tão
apurado como o de
hoje... Mas este
whisky, é de facto
muito bom, muito
diferente daquela
"má qualidade" que
bebemos por aí em
casa de certos
amigos, como por
exemplo na do
Alferes Marques.
Alferes: Mas esse
facto tem uma
explicação: o whisky
chamado de "Imitação
de Sacavém, ou de
outra terra
qualquer" ainda não
atingiu a perfeição
desejada!...
O Sr. Capitão entra
no salão, depois de
sair do banheiro...
Coronel: Meus caros
amigos e
companheiros, o
nosso querido e
estimado amigo
Capitão Ribeiro foi
tomar banho.
Capitão: Claro que
tive de ir tomar
banho... depois
daquele disparate
que a Carmo me
fez... Olhem lá, por
acaso, alguém viu as
minhas calças? As
minhas calças novas?
Alferes: Ó Capitão,
não me diga que
perdeu as calças!!!
Capitão: Bem, não
quero dizer que as
tenha perdido...
Mas, logo as calças
novas, que me
custaram quase uma
fortuna!...
Coronel: Então, o
Sr. Capitão não sabe
onde deixou as
calças? É
esquisito... Olhe, o
seu copo está aqui
bem cheio de whisky,
beba agora e procure
depois as calças.
Não é que lhe fique
mal o toalhão
envolto no corpo...
mas compreende... Cá
em minha casa...
Compreende que não é
nada decente...
Capitão: Dou-lhe
toda a razão, pois
eu também não gosto
de andar, ou estar,
nesta figura.
Entretanto, Dona
Augusta, por favor,
encha-me outra vez o
copo. Muito obrigado
pela sua
gentileza... está
bem assim... assim.
Que magnífico whisky
este! Parece-me que
já estou a ficar com
os "copos", ou seja,
um pouco grosso,
bêbedo... Mas eu
quero as minhas
calças, as minhas
calças novas!
Roubaram-mas... Isto
deve ser uma manobra
para me derrubarem
psicologicamente!...
Protesto, protesto,
protesto... Quero as
minhas calças
novas... As minhas
riquinhas calças
novas!
Augusta: Tenha
calma, Sr. Capitão,
pois as calças vão
aparecer. Sim,
porque cá em casa,
não há
(há...há...há?...)
ladrões?...
Fantasmas?
Coronel: Caro
Capitão, antes de ir
procurar as suas
calças, beba mais um
copo de whisky... Vá
lá, não se faça
esquisito. Depois de
beber, vá procurar
muito bem as calças,
pois, como diz, e
muito bem, minha
mulher, cá em casa
não há ladrões. Mas
espere... Só se foi
algum Fantasma que
lhas roubou... Ah,
ah, ah!... Teria
sido um fantasma e,
neste caso, fantasma
e até ladrão?
Augusta: Ai, credo,
marido... Cala-te
por favor... Mas se
foi... Algum Fan...
Fantasma... Podemos
pedir por favor que
ele devolva as
calças... Tive uma
ideia: vamos todos
gritar, assim: Ó
Fantasmas!!! Ó
senhores
Fantasmas!!! Por
favor devolvam as
calças ao Senhor
Capitão... - Vá lá,
gritem todos
comigo...
Coronel: Ó Augusta,
tu também bebeste
whisky? Mas o que é
que te deu, para
estares a gritar aí
aos Fantasmas? Até
parece que estás
louca...
Sargento: Eu também
estou de acordo em
não gritarmos por
Fantasmas, pois
senão, daqui a
pouco, ficamos
inundados por eles,
e lá se ia todo o
whisky do nosso caro
amigo Coronel. Pois
devem existir
Fantasmas
apreciadores do bom
whisky. Penso eu...
Coronel - Agora um
pouco mais a sério:
Carmo, vem cá
depressa... Rápido,
mulher... És cá uma
vagarosa! Mas que
mulher esta...
Carmo: Pronto, ao
seu inteiro dispor,
Sr. Coronel!
Coronel: Olha lá,
vais aqui com o Sr.
Capitão procurar as
calças dele, as
quais não devem
andar por muito
longe. Pelo menos
penso que não...
Carmo: Sr. Coronel,
eu não me importo de
as ir procurar,
mas... Mas o pior é
a cozinha...
Coronel: E o que é
que tem a cozinha a
ver com as
calças?!...
Carmo: Sabe, é que
estou a cozinhar uma
galinha de
cabidela...
Coronel: E daí? Não
me digas que estás
com medo que a
galinha levante voo
e que fuja do
tacho... Ficaste
muito calada, diz
qualquer coisa, ou
estás com medo de
qualquer coisa?
Carmo: Estou com
medo dos Fantasmas,
sim, Sr. Coronel, os
Fantasmas podem
voltar novamente e
levarem com eles a
galinha. Já vi que o
Sr. Coronel não quer
compreender, mas...
Coronel: Mau, mau.
Deixa-te de
brincadeiras e
procura rapidamente
as calças, pois o
senhor Capitão não
pode (nem deve)
ficar em cuecas toda
a noite!
Alferes: Confesso
que eu próprio já
estou a ficar com um
certo receio dos
Fantasmas! E pelos
vistos, estes até
são comilões! Ai,
que horror:
Fantasmas! Caro
Capitão, não se vá
embora, não procure
ainda as calças, sem
antes beber mais um
copito de whisky, ao
qual terei muito
gosto, e prazer, em
acompanhá-lo (a
beber outro,
claro...!).
Sargento: Ai que
medo que eu sinto...
Até sinto o corpo
todo a tremer! Ah,
ah, ah! Fantasmas! E
se em vez de
Fantasmas, fossem,
fossem... Assim com
estas formas...
Formas femininas,
compreendem?! Aí é
que seria uma grande
orgia! Perdão, Dona
Augusta! Vejam lá
que eu por causa dos
Fantasmas, até me
esqueci da senhora.
Mais uma vez, as
minhas desculpas...
Augusta: Aceito as
suas desculpas, mas,
Sr. Sargento, por
favor não provoque
mais confusões, pois
já estou a ficar
muito nervosa com
este assunto. Ufff!
Fantasmas…
Alferes: Tem toda a
razão, em vez de
Fantasmas, podiam
ser, por exemplo,
Lobisomens,
Vampiros, ou mesmo
Extraterrestres,
enfim... sei lá que
mais!
Coronel: Meus caros
convidados, não
podemos dar mais
crédito a este
assunto nem falar
mais em Fantasmas!
Sejamos racionais.
Não existem
Fantasmas! Não
existem e ponto
final.
Sargento: Pois é,
mas nós estamos a
dar crédito a essa
parvoíce. Até parece
um filme que vi há
pouco tempo na
televisão, com
muitos fantasmas
maus que até
comiam...
Coronel: Bom. Vamos
ao que mais
interessa: Olha lá,
Carmo, já
encontraste as
calças do Sr.
Capitão? Eu quero
este caso resolvido
rapidamente, ouviste
e compreendeste bem?
Carmo: Já as
procurei por todo o
lado que é sítio,
mas não as
encontrei.
Capitão: Mas eu
quero as minhas
calças... Eu quero
as minhas calcinhas
novas... As minhas
ricas calcinhas...
Um Capitão, nunca
por nunca, pode, nem
deve, andar em
cuecas! É indigno
para a sua categoria
social e militar.
Sargento: Apoiado,
apoiado! O caro
Capitão tem toda a
razão (mas não
chore) e o seu
protesto é
pertinente... Embora
já tenha bebido
alguns copos de
whisky!...
Alferes: O caro
amigo Sargento, tem
toda a razão, pois
não deve tentar
afogar o desgosto de
ter perdido as
calças, bebendo
muito whisky. Olhe
que eu conheço quem
já tenha perdido as
calças por muito
menos!
Capitão: Mas eu
quero, eu quero as
minhas calcinhas
novas. Por favor,
compreendam-me, pois
sinto-me muito
infeliz sem elas...
Imaginem só se os
meus tropas me
vissem neste estado! |