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A criada entra
novamente de
rompante no salão...
Carmo: Sr. Coronel,
Sr. Coronel... Dona
Augusta!
Coronel: Que tens
tu? O que é que te
aconteceu, Carmo?
Augusta: Não chores,
pequena, e diz o que
aconteceu...
Carmo: Uma desgraça
- uma grande
desgraça! É que a
galinha de cabidela
que estava ao
lume...
Coronel: Não me
digas que a deixaste
queimar?!
Carmo: Não a deixei
queimar, não. Mas
ela desapareceu!
Augusta: Ai aqueles
bandidos!...
Coronel: Bandidos?!
Augusta, o que é que
tu disseste? Aqueles
quê? Confesso que
não te ouvi muito
bem, por favor
repete...
Augusta: O que eu
disse? Olha, pois
disse, ou devia de
ter dito: Fantasmas.
Ou seja lá o que
for... Mas não sei
se foram ou não os
Fantasmas que
levaram a galinha de
cabidela... Olha,
não sei se disse
alguma coisa, ou
pensei alto.
Alferes: Amigos,
reparem: agora até
começou a cair água
do tecto... Vejam,
vejam! Até parece
que está a chover e
a água cheira
a líquido orgânico.
Sargento: Olha, pois
está. E escutem, não
ouvem o barulho de
um autoclismo a
descarregar?
Coronel: De facto,
estou a ouvir. Estou
cansado de dizer à
Carmo que não
utilize o banheiro
do sótão. Mas ela é
teimosa, e o
canalizador ainda
não apareceu para
afinar o autoclismo.
Carmo: Perdão,
senhor Coronel, eu
não utilizo o
banheiro lá de cima,
há mais de um mês.
Para mais, com o
medo que tenho dos
Fantasmas, ainda
hoje não fui lá
acima ao meu quarto.
Que medo!
Coronel: Então,
então... Queres
dizer que não foste
tu que utilizaste o
banheiro?
Carmo: Juro por tudo
que não fui eu que
utilizei aquele
banheiro.
Alferes: Bem, meus
senhores, vamos
analisar os factos
referentes a este
assunto: primeiro,
os Fantasmas comeram
os pastéis de
bacalhau, depois o
bolo de laranja, e
por fim a galinha de
cabidela. Com uma
certa lógica, depois
de comerem isto
tudo, com certeza
que precisaram de ir
à casa de banho
(banheiro)...!
Augusta: Mas que
lógica... tão
lógica! Fantasmas a
utilizarem um
banheiro - onde é
que isto já se viu?
Capitão: Com essa
conversa toda, não
se esqueçam que eu
quero as minhas
riquinhas
calcinhas... As
minhas calças novas.
Pela minha dignidade
de Capitão, eu nunca
devia de sofrer o
vexame de andar p'ra
aqui em cuecas, e
logo em casa do Sr.
Coronel.
Sargento: O Sr.
Capitão tem toda a
razão e todo o meu
apoio. Mas por favor
deixe de chorar,
pois, põe-me muito
nervoso. Mas... um
Capitão em cuecas,
ou em slips, é
demais!
Alferes: Pois é, mas
por causa das calças
que eventualmente
perdeu, teve o
pretexto de já ter
bebido quase uma
garrafa inteira.
Neste contexto, eu
também não me
importaria de
andar em cuecas!
Sargento: Olhe que
ainda está a tempo,
meu amigo, pois o
nosso querido e Sr.
Coronel, ainda tem,
pelo menos, mais uma
garrafa cheia.
Sargento: Olhem que
está novamente a
cair água lá de
cima. E muito mal
cheirosa. De certeza
que não comeram
sabonetes nem
beberam perfume!
Sargento: E prestem
atenção. Oiçam com
atenção… Um ruído
tão característico,
pois os Fantasmas
devem estar a
desbeber, ou seja,
devem estar a fazer
chichi!
Capitão: Mas eu
quero as minhas
riquinhas calças
novas... Como
ninguém se incomoda
com o assunto, eu
vou lá acima e mato
todos, todos os
Fantasmas...
todos... todos, um a
um.
Alferes: Amigos,
admirem a valentia
do nosso Capitão.
Que homem tão
valente, um
verdadeiro
representante da
valente raça
lusitana!
Sargento: É assim
mesmo, caro Capitão.
Vá mostrar aos
Fantasmas o que é
ser um homem de
barba rija!... E
mais: um verdadeiro
herói dos nossos
dias!
Capitão: Só preciso
de uma arma, para
assim poder avançar.
Vou matá-los todos,
todos os Fantasmas
que aparecerem à
minha frente... À
minha frente...
Alferes: Estou mesmo
a ver que vai ser
uma enorme
mortandade! Ai,
pobres Fantasmas,
agora é que vão ser
elas, com o Capitão
no encalço deles!
Coronel: Tem toda a
razão para proceder
assim, meu caro
Capitão. Aqui tem
uma boa arma: um
martelo de orelhas!
E assim tão bem
armado, não se
esqueça de matar
todos (mas todos) os
Fantasmas que
encontrar no seu
caminho. Força,
Capitão Ribeiro!
Sargento: Mas tenha
muito cuidado, não
os maltrate muito,
pois eu tenho horror
em ver sangue.
Contente-se só em
fazer-lhes umas
nódoas negras!
Coronel: Mas que
situação tão
caricata: um Capitão
em cuecas, com um
martelo de orelhas
na mão, à procura de
uns Fantasmas... E
tudo isto em pleno
século XXI...
Alferes: Deixai ir o
homem, que está
muito bem temperado
em whisky...
Coronel: Oxalá é que
não caia pela escada
abaixo... E, claro,
que apanhe muitos
Fantasmas! |