CASA de FANTASMAS

 

Comédia Teatral de Carlos Leite Ribeiro

texto original

 

 

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Carmo: Dona Augusta, Dona Augusta, o Sr. Coronel e o seu pelotão, estão a regressar ao salão!
Augusta: Vamos a ver quantos Fantasmas conseguiram eles caçar...
Coronel: E assim, depois de uma grande sortida contra o inimigo, o nosso glorioso pelotão regressa à sua unidade. Alferes, o pelotão teve baixas?
Alferes: Saiba o meu Coronel que o pelotão não teve nenhuma baixa mortal nem sequer feridos.
Coronel: Soldados, direita volver - destroçar... Mas agora reparo: estamos às escuras, porque será? Ó Augusta, quem é que teve a infeliz ideia de tirar as lâmpadas dos candeeiros do salão?
Augusta: Não sei, homem, pois estou aqui no quarto, mas vou já sair.
Coronel: Sai depressa, e vem cá dizer-me quem é que se atreveu a tirar as lâmpadas dos candeeiros. Quando o pelotão saiu em missão, tive o cuidado de deixar as lâmpadas acesas para o nosso regresso, e agora está tudo às escuras!
Augusta: Olá, querido maridinho. Então os candeeiros não têm lâmpadas? Não sei, nem calculo quem as possa ter tirado... Não compreendo.
Coronel: Este candeeiro aqui ainda tem lâmpada. Também é o único...
Alferes: O que quer dizer que o inimigo atacou pela retaguarda. Cobardes!
Capitão: Mas eu quero as minhas calças... As minhas riquinhas calças novas!... Isto é uma indignidade... eu sou um Capitão!
Sargento: Tenho a sensação que falta aqui qualquer coisa... Já sei o que falta: onde é que está o baralho de cartas, assim como as nossas carteiras e porta-moedas? As nossas canetas, etc., que ficaram em cima desta mesa?
Coronel: Tem toda a razão, meu caro Sargento: quem roubou todas estas coisas? Mistério...
Alferes: Isto é uma prova evidente que, enquanto andávamos em missão, o inimigo, traiçoeiramente, atacou e roubou os nossos pertences!
Capitão: Eu só gostava de saber quem é que se atreveu a roubar as minhas calças... As minhas queridinhas calças novas...
Coronel: O Alferes ainda tem dúvidas de quem foi? Ainda não compreendeu que foram os Fantasmas? Os malditos Fantasmas!
Capitão: Isto é inacreditável!... Além das minhas queridas calcinhas, também me roubaram a minha caneta de ouro! Aonde é que isto vai parar? E eu que tinha tantas e tão boas recordações daquela caneta de ouro…
Alferes: Lamento muito, pois a caneta devia ser muito valiosa e, pelo que me diz, também de muita estimação. Permite-me uma pergunta indiscreta, meu caro Capitão, por acaso, a caneta foi alguma oferta especial que lhe fizeram?
Capitão: Sim, uma recordação da minha querida sogra.

A criada entra novamente de rompante no salão…

Carmo: Senhor Coronel!... Dona Augusta!... Ai que desgraça a minha... Acudam-me, acudam-me! Ai que vou desmaiar…
Augusta: Mas o que é que te aconteceu desta vez, Carmo?
Carmo: Fui roubada, minha senhora... Fui roubada... Que desgraça a minha!
Coronel: Mas... Foste roubada, como?
Carmo: Depois dos senhores terem descido do sótão, aproveitei e fui lá acima ao meu quarto. Qual o meu espanto quando vi que a minha mala tinha sido arrombada, e todos os valores que eu tinha dentro, roubados. Ai, ai que desgraça a minha, malditos Fantasmas!
Augusta: Carmo, diz-nos o que te roubaram.
Carmo: Ai, minha senhora, tiraram-me mais de setecentos euros que eu tinha no fundo da mala, assim como um fio e uma pulseira em ouro.
Augusta: Pois é, pois é... Então, mais de setecentos euros, mais o ouro... tudo somado, nem chega a metade para os dez mil e quinhentos euros…
Coronel: Olha lá, mulher, que conversa vem a ser essa de faltar "mais que metade"...
Augusta: Metade?! Eu disse metade? Ah! Já sei, mas não faças caso. Como deves calcular, ando muito nervosa com este caso dos Fantasmas cá em casa. É da minha cabeça!
Coronel: Mas tu falaste em “menos de metade”, e eu quero saber o que é "menos de metade" de quê. Confesso que já estou a achar isto muito estranho.
Augusta: Talvez eu quisesse referir-me a menos de metade... a cinquenta por cento... Do, do dinheiro e do ouro que roubaram à Carmo. Sei lá, quando uma pessoa está muito nervosa, não sabe muito bem o que faz e o que diz... Por favor, maridinho, tenta compreender.
Capitão: Mas eu quero as minhas calças... As minhas riquíssimas calças e a minha caneta... Isto é uma indignidade e uma desonra para quem se preze de ser Capitão.
Carmo: E eu quero de volta os meus ricos mais de setecentos euros, mais o fio e a pulseira em ouro!
Coronel: Camaradas de armas, temos de organizar outra expedição contra os Fantasmas. Pelotão, vamos formar na sala!
Alferes: Caros companheiros de armas, com certeza que ouviram o nosso comandante. Todos aos vossos lugares, todos em sentido, barrigas para dentro, peitos para fora, as orelhas e os olhos bem atentos, pois vamos partir novamente para outra importante missão de emergência, de capital importância para a nossa grande cruzada contra os Fantasmas!
Coronel: Como todos já verificámos, a situação terá de ser considerada de catastrófica e local. O inimigo não está a aceitar uma luta leal, uma luta frontal... Por isso, é um cobarde!
Sargento: O meu aplauso. Muito bem, muito bem! Queira continuar, meu Coronel.
Coronel: O nosso inimigo prefere a guerrilha, o que nos obriga a uma guerra total, sem quartel, sem local determinado e sem hora certa de atacar. O que deve merecer o nosso mais veemente repúdio.

Todos aplaudem e assobiam ao mesmo tempo ...

   

CONTINUA...

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