|
Uma Semana no Rio de Janeiro - de Carlos
Leite Ribeiro
“UMA SEMANA
NO RIO”
(1º Dia)

Quando
chegámos ao belo apartamento da Maria Nascimento, na Rua Barata Ribeiro (Cândido
Barata Ribeiro, médico, político e teatrólogo. Participou na proclamação da
República do Brasil), em Copacabana, já a noite tinha caído há um bom pedaço de
tempo. É que o percurso Ilha do Governador onde se situa o Aeroporto
Internacional, António Carlos Jobim, leva o seu tempo a chegar a Copacabana.
Tempo e alguns engarrafamentos. Já lá se encontravam, além da simpática
anfitriã, também a Sarita, a Marva e a Maria Martha. A Tete e a Abigail
chegariam só no outro dia por motivos profissionais.
Quatro mulheres à volta de uma mesa a falar, com certeza que será coisa boa,
pensei eu. E não me enganei, pois logo a porta-voz do grupo, neste caso a Maria
Nascimento, logo me disse:
- Carlos,
por unanimidade deliberámos democraticamente que, a casa que vamos alugar será
na Avª Atlântica, quase em frente ao Restaurante Marimbás e o Forte de
Copacabana, o seja, o posto nº 6 de Copacabana (praia). Nossa cobertura tem 2
(dois) quartos. Já redigi o contrato que amanhã logo pela manhã, será entregue
num notário. Neste ponto estamos todos de acordo ! (e nos outros também),
vejamos: E, se de repente, chegar alguém que participe no “Cá Estamos Nós”, como
pessoas civilizadas, vamos hospedar no nosso “paraíso” . Aqui não me pude conter
mais e perguntei: - Mas minha cara amiga, só temos 2 quartos, não é assim?
Grande gargalhada deram as mulheres ao mesmo tempo e a Sarita logo deu a sua
sentença: Neste caso o Carlos Miador vai dormir para a varanda, ou então poderá
ficar deitadinho no chão da cozinha. Dispensei dar a resposta...
Ainda sorrindo, a Maria Nascimento continuou:
- Para
fazer as compras para o grupo, vamos escolher a pessoa mais gordinha do grupo,
pois, como todo o mundo sabe, o exercício faz muito bem à saúde!. Aqui, fiquei
eu completamente à vontade, pois, felizmente sou elegante! Mas ainda havia mais.
já escalámos as pessoas para a cozinha e para a limpeza. Aqui, se a limpeza, a
juízo de todos dos demais participantes, não tiver sido bem-feita, aqueles a
quem foi afetada a tarefa repetirão a limpeza até que ela seja considerada de
boa qualidade.
Neste item
senti-me um pouco (como hei-de) pouca à vontade e perguntei: -- -Minha querida,
por acaso, não seria melhor incumbir uma faxineira para este trabalho ?. Aos
meus ouvidos chegou como o som de um enorme trovão: NÃO !!! . Carlos, por favor
não esteja sempre a interromper, para mais, como já lhe disse, todas estes itens
foram debatidos entre nós, democraticamente. E a maioria é que vence (devia ser)
sempre! Portanto as suas argumentações não têm o mínimo valor vinculativo! Por
favor deixe-me continuar. Democraticamente, decidimos que, às 07 horas da manhã,
todos já estarão de pé, de dentes escovados, mesa posta e cada um já de posse de
suas xícaras para o desjejum. Cada um escolherá o que deseja tomar (chá, café,
leite, chocolate, suco, etc.) que já se encontram nas garrafas térmicas. Às 09
horas, todos já arrumados, os homens vestidos elegantemente, com suas roupas
esportes, as senhoras bem penteadas, embatonzadas, preparadas e com a medalha de
São Dimas na bolsa, para correrem menos riscos de serem assaltadas ... e que
seja o que Deus quiser !. Mais, os poetas, cronistas, malabaristas,
cantores (de banheiros ou fora deles) etc. cuidarão da animação caseira,
incluindo-se o internauta (porta voz do grupo) que contará todas as piadas
chegadas nos e-mails (mas aqui atenção a certas expressões, por exemplo: o “A”
não poderá ser “0”; assim como “A” deverá ser dita como “A”. Sei que são muito
inteligentes e mais, intuitivos... Mas continuando, também dará notícias dos
amigos que não estão participando da “excursão” e se encarregará de arranjar
anúncios na Internet para financiar o pagamento do aluguel do apartamento, sob
pena de o grupo ser despejado por falta de pagamento, se os candidatos a
Prefeito do Rio de Janeiro não patrocinarem as despesas de aluguel, conforme me
prometeram, na campanha eleitoral! Os dois quartos de dormir têm 1 cama
tradicional para 2 elementos menos exigentes (espero que seja um casal), uma
cama redonda para o casal mais avançado, 1 beliche em cada quarto para os casais
que gostam de dormir em camas separadas, colchonete para os funcionários
públicos, como eu) e “esteira de palha de ouricuzeiro” para os que sofrem de
problemas na coluna e são beneficiário do INSS. Independentemente do tipo de
camas, todos os lençóis serão de Gurgurão para dar mais trabalho a quem couber a
tarefa de passar ferro nas roupas. O guarda-roupa é embutido, ocupando a
maior parede de cada um dos dois quartos, e as demais peças de cama, banho e
mesa serão de produtos antialérgicos para evitar espirro ou coceira nos quartos
onde deverá dormir um “batalhão”. Uma pausazinha para eu beber um “batido
H 2 0 ... Televisão, rádio, outros divertimentos... Como só haverá um aparelho
de televisão e um rádio que só funciona em AM, todos se reunirão em silêncio
para ver as novelas e os que apreciam muito os animais terão alguns minutos para
assistirem o “Ratinho”, o “Leão”, o “Leão Lobo”, ouvir o “Pato Fu”, etc.
As despesas diárias para cada para cada elemento não poderá ultrapassar o valor
da diária do rico Salário Mínimo Brasileiro (o português não é muito melhor...),
que, em pleno ano de 2000, e em comemoração aos 500 anos do descobrimento do
Brasil, fixou o Salário Minusculíssimo” de R$ 150 e alguns centavos por mês...
(è mole, Sr. Juiz ???). Nossas sugestões de visitas culturais: Biblioteca
Nacional, Biblioteca Estadual, Museu de Arte Moderna, O Forte de Copacabana,
Casa de Ruy Barbosa, Museu da Imagem e do Som, Universidade do Estado do Rio de
Janeiro – UERJ (onde trabalhei 25 anos, no Departamento Jurídico), Museu do
Índio, Biblioteca Regional de Copacabana (para prestigiá-la), etc.
Entreternimento: Teatro Municipal, a melhor pedida, O Canecão, Teatro Villa
Lobos, Pão de Açúcar, Corcovado, conhecer as dependências do Copacabana Pálace
Hotel e jantar em sua luxuosíssima cobertura numa noite de lua-cheia, etc.
Nunca esqueçam a máquina fotográfica. E para terminar, democraticamente,
deliberámos que o nosso primeiro passeio turístico, que será amanhã, iremos
visitar a Quinta da Bela Vista e o Jardim Zoológico. E é tudo! Agora
Carlos, tem alguma coisa a perguntar?
– Só queria
saber se esta parte tão democraticamente decidida por vós, neste caso a Maria
Nascimento, Sarita, Malva e Martha, e, que deve estar em ata, se será amanhã,
logo pela manhã entregue a algum notário?
– Muito bem
Carlos, mas repare que são duas situações completamente diferentes, e, assim
esta última parte deliberada, será como um contrato entre um cavalheiro e as
damas – percebe?
Claro que
democraticamente compreendi...

O Primeiro
dia...
Logo pela
manhã...
Sarita: - Carlos “o Miador”! Vê se te despachas e sais daí rapidamente! Estou
aflitinhaaaaaaaa...
Carlos: - Com uma Turma como esta, nem um pobre homem pode estar aqui sossegado
no banheiro! Olha, minha querida, vai ao outro banheiro, pois ainda tenho de
tomar duche!
Sarita: - Mas meu queridooooo, o outro banheiro está ocupado! Tu deves de estar
para aí a ler as últimas notícias, e eu aqui ... tão ... apertadinhaaaaaaaaaa
...
Carlos: - Sarita, faz como fazem os netos adotivos da Malva, os gatitos de pelo
negro e lustroso, o Zézinho e o Zélito - vai à varanda e “rega as flores”!
... Por favor não me “chates” mais, até porque ainda não acordei completamente.
Minha querida, não penses que ainda estás em Bagê...
Sarita: - Se eu estivesse em Bagê, no Rio Grande do Sul, decerto que não estaria
assim tão apertadinha, porque lá, os homens são muito gentis para com as
mulheres! Despacha-te!!! aiaiaiaiai ... Nem a dançar o samba isto
passaaaaaaa !
Maria Nascimento: -Pessoal! Alguém, por acaso, viu a minha pasta dentífrica?
Carlos: - Oi, Maria, tenho-a aqui pois esqueci-me de trazer a minha. Já lha
entrego...
Maria Nascimento: - Olha lá menino, pensas que eu sou tua mamã para te sustentar
com pasta para os dentes?...
Carlos: - Não, não! Você até parece minha madrasta!
Sarita: - Deixa-teeeee de conversa fiada e vê se sais daííííí! Quando saíres
levas cá “uma de trás” que nem calculas... Saí!!!
Malva: - O Carlos ainda não nos preparou o café. Meninooooo, não se esqueça que
está hoje de plantão à cozinha. E, também não se esqueça dos meus queridos
gatinhos que estão para aqui a miar de fome... E a mãe-gata Vitória não está
nadinha contente com este negócio... Digo como a Sarita: Despacha-teeeeeeeee!!!.
Maria Nascimento: - E olha lá, Carlos, o que vai ser o nosso almoço hoje?
Carlos: - Se estão a contar comer cá em casa, vou fazer a minha grande
especialidade: OVOS: cozidos, fritos, escalfados, grelhados em areia quente, ou,
amolete simples !Tudo acompanhado por arroz branco e salada de alface e tomates
... Aceitem o meu sábio conselho: vamos comer a um restaurante...
Sarita: - Tomates?!... Só por vergonha é que não te digo uma coisa... Mas saí do
banheirooooooo... Saíííííííí...
Carlos: - Sarita está calada e cala-te! Vou agora tomar duche... “Fígaro cá,
Fíraroooo lááá´, Fígaro, Figaro, Figaróóóó, óóó ... A água está friaaaaaaa,
bbrrrunnnn! Atenção meninas que eu vou sair como Deus me pôs ao mundo ...
Malva: - Atreve-teeeee, e vais ver o que te acontece!...Até temos cá facas...
Maria Nascimento: - E até tesoura...
Sarita: - E depois eu “atiro-o” pela varanda abaixo... Saiiii daíííí...
Mas antes, não te esqueças de pores o purificador de ar para eu não morrer
intoxicada! Para mais ontem comeste feijão...
Carlos: - Atenção Galera! Vou sairrrrr... lá vou euuuu, para o “meu” quarto,
vestir-me decentemente!
Martha: - Minhas queridas, alguém, por acaso, viu o meu roupão? Sei que o trouxe
e não o encontro...
Malva: - Eu não sei nem quero complicações, mas parece que o Carlos, passou aqui
com um roupão às florinhas... Mas cala-te boca que a língua é cega!...
Martha: - Mas que patife ele me saiu! Carloooooossss! Onde está o meu roupão?!
... Olha que não te admito essas coisas, e, o meu roupão não é comunitário!
Carlos: - Ai os meus ouvidos!... Mas que barulho vem a ser este à porta do “meu”
quarto?... Estás a falar em roupão?... Olha, Martha, “parece-me” que esse roupão
veio para ao “meu” quarto (nem sei como, nem porquê ...). Vou entreabrir a porta
(não espreites...). Olha lá, será este o teu roupão?
Martha: - Seu desavergonhaaadooo! Você saber que é este mesmo e está para aí a
representar! Se isto voltar a acontecer, matooo-ttte cruelmente...
Carlos: - Tenha calminha que o roupão não trazia nenhuma indicação que era seu
(o que eu também poderei duvidar...). Juro pela saúde de todas que estou a falar
verdade! Mudando de assunto: Minha querida amiga Martha, você ainda não me fez a
cama, embora, esteja hoje de plantão à “limpeza”.
Martha: - Fá-la tu, menino! E mais, vê se arrumas a tua roupa pois, o quarto até
parece um acampamento de ciganos...
Carlos: - Alto lá, alto lá! ... Cigano é que nunca! Já estou a ficar nervoso.
Sarita, dá-me o tabaco que deixei aí no banheiro.
Sarita: - Óh malvado! Ainda tens coragem de me estares a chatear! Tiveste a
pouca vergonha de fumares aqui no banheiro, quando sabes, que os fumadores só
podem fumar na varanda!
Carlos: - E para fumar na varanda, aonde vou pôr os gatinhos miadores,
presumíveis netinhos da Malva?.. Para mais, quando a mamã deles, a gata Vitória,
quando para lá vou fumar, fica de pelo eriçado e assanhada.
Sarita: - Esses problemas são teus e nada tenho a ver com isso. Olha, vai para o
telhado fumar! Mas deixa-me tomar duche em paz e sossego!
Carlos: - É esta a vida de um pobre homem!
Maria Nascimento: - A campainha da porta já tocou por três vezes e ninguém foi
ainda abrir a porta. Eu não posso pois estou a pôr o baton. Carlos, vá lá abrir
a porta!
Carlos: - Mas eu estou a fumar!
Maria Nascimento: - Você esteja calado e cale-se, e vá lá abrir a porta!
Carlos: - Que sorte a minha! Só mais uma chupadela no cigarro e lá vou eu. O
raio da porta está perra! Que força que é preciso para a abrir (ainda tenho de
comer um bife). Até que enfim!...Olá! Eu sou o Carlos, e você, quem é?
Teta: - Oi, tenho muito prazer em conhecê-lo. Você deve ser o Carlos? Eu sou a
prima da Maria Nascimento...
Carlos: - Entre, entre minha amiga. Não repare nesta desordem, pela qual, não
tenho a mínima responsabilidade! Oi, Galera! Tenho o prazer de anunciar a
chegada da querida prima da Maria Nascimento, a Maria Santa Rita, a nossa
querida TETAAAAA!... (os vossos aplausos!). Esta nossa amiga é enfermeira de
profissão e por devoção.
Teta: - Que é isso, Carlos?! Não estava à espera de uma receção tão calorosa
como esta! Trouxe aqui esta malinha com aspirinazinhas para quem tiver dores de
cabeça, e umas seringas...
Carlos: - Mau, mau, mau, seringas?! E com agulhas e tudo?!...
Sarita: Carlos, ontem disseste que estavas com dores de garganta. Talvez, a
nossa querida Teta te possa dar umas injeções que te façam bem...
Carlos: - Uma uvaaaaa! Injeções?! E com agulhas? Nem “pó”! Já minha mãezinha me
dizia:”Filho, devemos de enfrentar tudo pela frente. Até a doença, por isso,
nadinha de injeções e muito menos supositórios!”
Teta: - Além das injeções, também tenho supositórios para aliviar as dores. Além
de pensos rápidos, ligaduras, compressas, adesivos, várias tinturas...
Malva: - Carlos, não disseste que querias subir o Corcovado por meio de cordas,
armado em alpinista? Olha, se caísses...
Maria Nascimento: - A prima Teta iria socorrê-lo...
Teta: - Para esse trabalho, não trago tudo o que seria preciso, tal como o
oxigénio (entre outros).
Martha: - Talvez o oxigénio (em botija) não fosse de todo preciso, pois,
podíamos fazer a respiração boca a boca.
Teta: - Talvez não fosse muito conveniente, pois, o Carlos podia começar a ficar
muito inchado, muito inchado... E depois começaria a flutuar, a flutuar...
Martha: - E assim começava a subir, a subir...
Sarita: - Até ao céu, até ao céu...
Maria Nascimento: - Queridas! Não estão a insinuar que queriam ver o Carlos a
flutuar, a caminho do céu – pois não?
Martha: - Mas se ele fosse para o céu, seria um anjinho...
Malva: - Ao encontro de outros anjinhos...
Sarita: - Pois quem tinha escolhido o caminho errado tinha sido ele...
Carlos: - Alto lá, minhas queridas! Mas, que conversa vem a ser essa? Eu,
anjinho?... A Caminho do céu?! Ao encontro de outros anjinhos? Mas que ricas
queridas amigas que eu Tenho! Deixem-me viver em paz cá na Terra, e, neste caso,
aqui no Rio de Janeiro. Vamos sair e descobrir esta incomparável e maravilhosa
cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro...
Todos: CIDADE, MARAVILHOSA, CORAÇÃO DO MEU BRASIL, etc.

E de táxi chegámos a São Cristóvão, onde fica situado o Jardim Zoológico
do Rio de Janeiro.
Atravessámos a passo rápido o Parque da Boa Vista deixando a sua visita para
depois de visitar o Zoo., que nem sempre esteve neste maravilhoso lugar. Em 16
de Janeiro de 1888, o Barão de Drumond funda no Bairro de Vila Isabel, o
primeiro zoológico do Rio e do Brasil. Diz quem conheceu este antigo zoo que
ficava situado numa área com riachos, lagos artificiais e uma grande
quantidade de espécies de animais. Para tentar salvar a situação, o Barão
de Drumomd criou o “jogo do bicho”, ainda hoje bem conhecido como lotaria
clandestina. Mas, este primeiro Jardim Zoológico do Brasil teve de fechar suas
portas noa anos de 40.
Passámos a portão monumental, réplica do portão da Sion House, em Londres
(Inglaterra), oferta de casamento de um nobre inglês, ao Imperador D. Pedro l é
à futura Imperatriz D. Leopoldina. Assim, penetrámos neste belo Zoo, que foi
inaugurado a 18 de Março de 1945 e em 1985 foi transformado na Fundação RioZoo,
uma instituição muito respeitada e conhecida internacionalmente. Tem uma área de
cerca de 138 metros quadrados e mais de 2 mil espécies de animais, entre
répteis, mamíferos e aves (algumas centenas, sendo a maior coleção do Brasil).
Também a maior coleção de primatas brasileiros. Numa nota à parte, inocentemente
a Malva perguntou: Não é o Carlos que se auto – intitula de primata? Claro que
logo respondi: Primata sim, mas de raça portuguesa.
Depois da visita, voltámos ao maravilhoso Parque da Quinta da Boa Vista que até
nos dá a sensação de estarmos nos Jardins do Eden(?).
Abriga a antiga residência da família real portuguesa. Mas recuando no tempo,
esta enorme área formada por baixadas, lagoas e manguezais foi explorada entre
1567 e 1749 pelos jesuítas. Até que em 1803, o comerciante português, Elias
António Lopes a comprou, e ali construiu a sua casa de campo, ficando conhecida
como a Quinta do Elias. Continuando a avançar no tempo, já em 1808, Elias Lopes
doou estas terras ao então ainda príncipe regente, D. João Vl, recebendo então a
denominação de Quinta da Boa Vista. Pouco a pouco esta propriedade foi sendo
ampliada com a aquisição de terras confinantes, e em 1816 foi construído o
Palácio de São Cristóvão para abrigar a família real. Já no reinado do 1º
Imperador do Brasil, D. Pedro l (1º do Brasil e 4º de Portugal), foram aqui
construídos córregos e lagos e plantadas centenas de árvores. Além de Ter criado
também um enorme viveiro, uma horta, e várias espécies frutíferas. No reinado do
2º Imperador, D. Pedro ll, o botânico e paisagista francês, Auguste François
Marie Glazou fez um novo traçado à Quinta da Boa Vista, cujo eixo central passou
a ser a alameda de Sapucaias, inaugurada em 1878. Neste maravilhoso Parque além
das admiráveis alamedas, encontramos uma gruta com cascata, lagos, algumas
pontes e árvores centenárias. Também algumas estátuas em bronze com as de D.
Pedro ll e de D. Leopoldina. Pode ser ainda visitado o Museu Histórico Nacional,
onde se encontra conservado um importante acervo ligado à natureza e à cultura
brasileira.
Estava na hora de mudar o rumo para o Canecão, onde íamos assistir a um show de
despedida da Fafá de Bélem com malas aviadas para mais uma temporada em
Portugal. E também na zona norte comermos uma refeição, pois, os nossos
estômagos já estavam a “dar horas”. Tínhamos três opções para chegar ao Canecão:
1ª opção: a pé pelo Aterro do Flamengo, que foi linearmente rejeitada por todos;
2ª opção: de autocarro (ónibus), por uma das linhas que seguem para Copacabana
(pelo túnel), Ipanema, Leblon ou Barra, via Copacabana; 3ª opção (metro) que foi
a nossa favorita, por ser mais rápida e mais barata. Pegamos o metro na Estação
de São Cristóvão, em direção a Copacabana, saímos na Estação Rio do Sul, mesmo
em frente ao Canecão, um grande galpão adaptado para casa de espetáculos,
construído em terreno arrendado da UFRJ – Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Já houve tentativas para a retoma do terreno por parte da UFRJ, para a
sua necessária ampliação, mas prevaleceu o lobby da classe artística que se
mobilizou contra a extinção desta tradicional casa de espetáculos.
Maria Nascimento: - Carlos, você já está a conhecer umas coisinhas do Rio de
Janeiro! Para quem nunca tinha cá vindo...
Malva: - Vamos ver como ele se porta quando formos a Portugal...
Sarita: - É bem capaz de pedir informações aos seus compatriotas...
Teta: - Não creio, pois o Carlos deve conhecer muito bem o seu país.
Carlos: - Em Portugal, vou jogar em casa! Lá dizia o Marquês de Pombal: “Para um
homem, mesmo depois de morto, são precisos quatro para o retirarem de casa”.
Quando formos a Lisboa, Sintra, Coimbra, etc., vão ver! Mas vamos à refeição que
estou quase “desmilinguído”!. Temos aqui o Da Bambrini, que embora tenha massa a
preços acessíveis, não me está a gradar como o macarrão. Olhem aqui o Marius,
que, segundo consta, tem um buffet imperdível: várias saladas, pratos de peixe,
cozinha brasileira (em especial a baiana) “Você já foi à Bahia, meu bem?
Não?!... Então vá!”. Mas vamos numa de churrasco de carnes especiais?
Depois da refeição e do show com da Fafá, regressámos a casa pelo Leme. Tínhamos
de nos preparar pois a farra (pagode) ainda não tinha terminado.
Sarita: - Sempre gostava de saber onde “aquela alminha de Deus”, o Carlos,
guardou a roupa dele. Aonde é que ele está?
Martha: - Como sempre (ou quase sempre), está na varanda.
Malva: - O rapaz deve sofrer de falta de ar. Ou então está a guardar os gatos...
Maria Nascimento: - Eu até tenho a sensação de já o ter ouvido miar... ah,ah,ah!
Teta: - Oh Carlos, venha cá para dentro. Estão aqui a chama-lo. Será que você
está zangado connosco?
Carlos: - Eu não estou zangado com ninguém, minha querida! Simplesmente estou
aqui na varanda a fumar, pois, V. Exas. Não me deixam fumar aí dentro. Nada
mais. A minha roupa está muito bem guardada... Debaixo da cama.
Sarita: - Eu nem quero acreditarrrr! Tu não tens vergonha nenhuma?!
Entretanto o telefone tocou e a Maria Nascimento diz-me:
- Carlos,
um telefonema para você. É a Abigail!.
Carlos: - Alô... Oh querida amiga Abigail, como está você ... Aonde está? Vou já
descer para me encontrar com você. É só um minuto. Já venho, vou buscar a nossa
amiga...
Como sempre, o ascensor estava avariado. Descer, “todos os santos ajudam” para
cima é que a “coisa muda”. Notei que a Abigail estava a ficar desanimada
em ter que subir aquela escadaria toda. Mas antes dela já eu tinha ficado, muito
cansado.
Carlos: - Minhas queridas companheiras, tenho o grato prazer de vos apresentar a
nossa maravilhosa, imprescindível e amiga do coração, ABIAGAIIILLLL
(Aplausos!).
Abigail: - Oh Carlos, você até me deixou quase sem fala! Oi, amigas do coração,
como estão vocês?
Todas: - Tudo bem embora aturando um chato como o Carlos!
Carlos: - Como você vê, as nossas queridas amigas têm grande sentido de humo.
Mas Abigail, você me parece que está com vontade de trabalhar – é certo?
Abigail: - De trabalhar, de conviver, de brincar, de passear com todo o grupo,
etc. Mas ainda não estou bem integrada.
Malva: - Abigail, não deixe que o Carlos lhe faça tantas cobranças. Ele é
mandão, sofre como todo o homem de um autoritarismo quase ilimitado. Mas ele
ainda não viu que é a minoria por aqui. Vejamos: Martha, Maria Nascimento,
Sarita, Teta, eu a Malva e agora você! Somos seis contra um!
Carlos: - Alto lá! Seis contra três...
Sarita: - Como assim?!
Carlos: - Três sim, vocês estão esquecendo que os gatinhos são machos e se
chamam Zézinho e Zélito?
Maria Nascimento: - Carlos, estamos falando de homens!
Carlos: - E eu estou falando de gatos, pois, afinal sou ou não um “gato”?...
Maria Nascimento: - Então a Abigail vai precisar do computador durante muitas
horas?
Abigail: - É certo! A nossa “Uma Semana no Rio” terá de ficar para a
posteridade!
Martha: - Estou vendo que o nosso tempo de computador vai ficar reduzido...
Malva: - A ouvir isto até já perdi o meu cheirinho a malvas...
Sarita: - Eu, quero dizer... Enfim... Terei de concordar, mas...
Carlos: - Agradecemos e muito a sua boa vontade de nos mandar para a posteridade
(na Internet, claro!). Mas minha querida amiga, por norma cá do grupo, quem
chega fica de plantão à cozinha. Compreende?
Abigail: - Não tenha problemas, Carlos. Já estava à espera de algo parecido. Na
mala do meu carro tenho lá comida, e, imagine: uma mala térmica para refrescar
as bebidas! Quem tem a gentileza de ir buscar as coisas?
Carlos: - Por que estão todas olhando para mim?...
Martha: - Adivinhe...
Carlos: - Vocês estão pensando que vou ficar descendo e subindo as escadas
carregado com as sacolas sozinho?
Sarita: - Não querido! Você sozinho não, irão com você os outros “homens” da
casa: o Zélito e o Zézinho!
Carlos: - Assim não dá. Isto vai mal, ora se vai! Mas as colegas e amigas sempre
deram uma mãozinha e rapidamente nos preparámos para sair. Por sugestão da Malva
fomos ao barzinho Castelinho, segundo ela (Vinícius de Moraes compôs várias de
suas melhores canções e de suas poesias, onde Toquinho dedilhando o violão
colocava música nas letras com uma facilidade impressionante), tomar uns
chopinhos e comer casquinha de siri (que delícia!). A certa altura a Malva
levantou-se e declamou o “Soneto de Agosto” de Vinícius:
“Tu me levaste, eu fui ... Na treva, ousados / amamos, vagamente surpreendidos /
pelo ardor com que estávamos unidos / nós que andamos sempre separados. /
Espantei-me, confesso-te, dos brados / Com que enchi teus patéticos ouvidos / e
achei rude o calor dos teus gemidos / eu que sempre os julgava desolados. / Só
assim arrancara a linha inútil / da tua eterna túnica inconsútil ... / E para a
Glória do teu ser mais franco / Quisera que te vissem como eu via / depois, à
luz da lâmpada macia / o púbis negro sobre o corpo branco”.
Maria Nascimento: - Carlos, você como representante luso, não nos diz uma poesia
de um autor português?
Carlos: - Não tenho muito jeito... Mas o que me vai na alma neste momento é uma
poesia de Jafga “Se Tudo Tem Um Começo...”. Este poeta nasceu na Ilha da Madeira
em 1944. É advogado de profissão. “... Se Tudo Tem Um Começo...”
“Olhei os ponteiros da vida / no meu relógio do tempo ! / Senti em cada volta /
a dificuldade da ida / e, num assomo de revolta / pensei nos momentos / que o
passado roubou / ao longo da vida ! / Olhei os ponteiros do tempo / na meu
relógio da vida / e, “futurei” o presente / na minha ilha perdida! / Na minha
máquina do tempo / a morte biológica / está condicionada à partida”.
O ambiente estava demais agradável mas tínhamos de regressar a casa para
descansar, pois, no dia seguinte seria o nosso 2º dia no Rio de Janeiro, e muita
coisa teríamos de fazer. Já no calçadão de Copacabana, para despedida cantámos a
conhecida canção “Tá Chegando a Hora” de Euterpe / Rubens de Campos / Henricão.
“Quem parte leva / saudades de alguém / que fica chorando de dor / por
isso não quero lembrar / meu grande amor ...
Ai, ai, ai, ai ... / Tá chegando a hora / o dia já vem raiando / meu bem / eu
tenho que ir embora ...”
Pessoal, mais uma vez ...!!!...
Ai, ai, ai, ai ... / Tá chegando a hora / o dia já vem raiando / meu bem / eu
tenho que ir embora ...”
Fim do 1º dia de “Uma Semana no Rio de Janeiro”
Como já tenho dito, eu não conheço o Rio de
Janeiro. Este trabalho é pura ficção, de personagens e situações aqui expressas.
Foi feito após aturadas pesquisas e 12 postais do Rio de Janeiro, alguns já
muito antigos.
Os meus cumprimentos e agradecimentos a todos os estimados Leitores e Amigos.
ANO 2000

A seguir 2º
dia de “UMA SEMANA NO RIO”
para
PÁG 3

LIVRO DE
VISITAS

|