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Uma Semana no Rio de Janeiro - de Carlos Leite
Ribeiro
“UMA
SEMANA NO RIO DE JANEIRO
(2º
dia)

Maria
Nascimentos: - Eu nem quero acreditar! Isto é impossível! São quase 10 horas
da manhã e todo o mundo ainda não está arranjado, a casa para arrumar e
limpar, o almoço sem estar a ser preparado. É um caos! Então logo hoje que
temos uma visita de pessoa importante... Vamos lá pessoal!
Martha: - Carlos, pelo amor de Deus! Assim não dá! mal chegámos aqui e você
pega o meu roupão; agora, o meu perfume! Não és tu que dizes que só usas “Kouros”?
Carlos: - Uuuummm ... Deixa-me espreguiçaaaarrrrrr. Será que neste recinto
não se tem paz para acordar sossegado?!. O que é que aconteceu desta vez,
podes explicar-me?
Martha: - Tenho a pura certeza que foi você! E não se faça de desentendido e
Devolva-me o meu perfume!
Carlos: - Calma! Olha Martha, em primeiro lugar, vejo que estás sem óculos!
Em segundo lugar, acho horrível uma mulher usar “Azzaro” (aquele frasquinho
castanho escuro com letras brancas); E em terceiro, deixa de ser rabugenta e
deixa-me dormir mais um pouco.
Malva: - Ho, Carlos querido, obrigado por perfumar os gatinhos. Eles ficaram
tão bem cheirosos...
Martha: - Não posso acreditar! Você, você... Usou o meu perfume nestes gatos
horrorosos?!
Malva: - Espera aí Martha! Horrorosos não é que não, pois são muito
bonitinhos e fofinhos!
Carlos: - Martha, você chama aquilo perfume? Ahahahah, você comprou aquele
garrafão com aquela mistela (que diz que é perfume) ali na esquina, no
supermercado do peixe! Para mais, eu só queria aliviar a tua alergia com
esses lindos gatinhos!
Sarita: - Martha, está na hora de preparar o nosso almoço, não esqueça que
temos visitas...
Martha: - Gatos ao fornnnoooo!
Maria Nascimento: - Ai que horror, o que você falou?
Martha: - De nada Maria, só falava com os meus botões...
Teta: - É pessoal, já pôs ao lume a massa e os frangos no forno. Vou agora
tomar duche e alguém tome conta e não deixe queimar.
Abigail: - A pessoa mais indicada para tomar conta do fogão é o Carlos!
Carlos: - Ho meninas, deixem-me dormir... Dormir, mais um pouco...
Abigail: - A responsabilidade é tua! Todo o mundo está a tomar duche, ou a
fazer limpeza e arrumações à casa. Tu é que está livre!
Teta: - Se deixar queimar a comida, pagas o almoço a todos no melhor
restaurante do Rio de Janeiro.
Abigail: - Nesse caso, talvez no terraço do Copacabana Palace Hotel…
Maria Nascimento: - Onde os preços são muito módicooossss!
Carlos: - Não posso tomar conta do fogão sem tomar o meu duche.
Teta: - Nã, nã, tomas conta do fogão e depois é que vais para o duche.
Sabes, é para não cheirares muito a cozinhado!
Maria Nascimento: - Hoje vamos receber a Drª. Irene Serra, Médica e
Psicóloga e também a responsável pelo Rio Total. O que quero dizer é que a
mesa terá de ser muito bem-posta, os talheres e copos muito bem alinhados. A
toalha da mesa sem rugas. Parece que o Carlos é mestre nestes assuntos…
Carlos: - A Maria Nascimento tem toda a razão, mas, sem ovos não sei fazer
amoletes.
Teta: - Carlos, está cheirando a massa queimada. O que se passa?!
Carlos: - Passasse que a massa está completamente queimada.
Abigail: - Aiiii, e agora?!
Carlos:- Vamos deitar fora a massa e servimos o frango com saladas...
Sarita: - Eu vou ajudar-te. Queres que eu corte os tomates?
Carlos: - O quê?! Isso é que nunca, mas mesmo nunca! Trata só da alface, dos
agriões, e deixa os tomates em paz...
Abigail: - A campainha da porta está tocando. Malva, você que está aí perto,
vá ver quem é.
Malva: - Olha…Olá Irene! Seja bem-vinda a esta casa de loucos! Aqui o mais
certo dependura-se no pincel enquanto o outro retira a escada!
Irene: - Olá Pessoal! É com grande prazer que me encontro entre vós. Até
parece os meus bons tempos de estudante! Mas você, Malva, disse: “Quem
pendura-se no pincel? Com certeza que será o Carlos quem retira a escada...
Carlos: - Não acredito! Até você Irene, ataca este pobre homem?
Martha: - Ho, Carlos, a Irene já conhece a tua fama! Agora o melhor que
fazemos é ir para a mesa antes que a comida esfrie.
Irene: - Que delícia de frango assado! Não existe nada melhor que comer um
bom pedaço de frango com as mãos.
Maria Nascimento: - Com as mãos?
Carlos: - E eu a aprimorar-me a pôr a mesa, a linhar os talheres, os copos,
os guardanapos. As surpresas que a vida nos dá, enfim...
Irene: - Meus amigos, com as mãos, pois não sabem que o frango pode-se e
deve-se comer com as mãos? Não há desdouro nenhum em tal ato.
Malva: - E agora Carlos, como ficam tuas aulas de etiqueta? A Drª Irene é
assim, é assado... Só come de faca e garfo... Bom, meninas, acho melhor que
se coloquem em fila e sigam calmamente para o banheiro lavar as mãos!
Carlos: - A propósito, Irene onde fica o seu consultório?
Irene: - Na rua Visconde de Pirajá, quase na esquina da Praça N. S. da Paz.
Da janela vê-se a praça e o Morro Dois Irmão, que à noite iluminado, é
lindo!
Carlos: - Meninas! Tomaram nota da morada? É que vocês devem fazer uma
visita à Drª. Irene pois andam psicologicamente muito perturbadas!
Todas: - Olha Carlos, foi contágio teu!
Irene: - Antes que me esqueça, desde já estão todos convidados a jantar logo
em minha casa. Como sabem, moro no Ipanema e gostava que vocês estivessem lá
por volta das 21 horas – Está?
Carlos: - Talvez seja conveniente consultar a nossa agenda. Mas pode crer
que vamos fazer todos os possíveis para comparecer...
Maria Nascimento: - Carlos, todos os possíveis e mais: até os impossíveis!
Sarita: - Nós vamos todas, se o Carlos não quiser ir, é lá com ele ... E
onde é a sua casa?
Irene: - Também moro na rua Visconde de Pirajá, entre as ruas Farme de
Amoedo e Vinícius de Moraes. Bem no miolo de Ipanema, plantada entre as
praças General Osório e N. S. da Paz (dois quarteirões para cada lado).
Carlos: - Calminha! Manda a delicadeza que não se deva aceitar convites
destes logo, num primeiro convite.
Teta: - Quem foi o Visconde de Pirajá?
Abigail: - Assuntos de História são com o Carlos...
Carlos: - Então, você é que são brasileiras e eu é que tenho de saber quem
foi o Visconde (e também barão)? Seu nome era Joaquim Pires de Carvalho e
Albuquerque. Comandou as tropas brasileiras que efetuaram o bloqueio
terrestre a Salvador, em 1822, e, no ano seguinte, reprimiu um motim
separatista no arraial de São Félix da Bahia. E eu é que sou o primata...
Irene: - Então esta tarde quais os pontos turísticos que vão visitar?
Carlos: - Os Arcos da Lapa e suas imediações.
Irene: - Muito bem. Então até logo!

Carlos: - Meninas, vamos lá combinar o itinerário para
essa zona dos Arcos da Lapa. Estamos no posto 6, no final do bairro, ou seja
a Avª. N. S. de Copacabana (ou simplesmente, Av. Copacabana), apanhamos o
túnel de Botafogo (que sai em frente ao shopping Rio-Sul); vira-se no
Canecão em frente ao Shopping Off-Price (construído onde antes funcionava a
sede do Botafogo), depois à esquerda, em frente ao Iate Clube. Ali, pode-se
escolher entre ir pelo aterro do Flamengo, ou pela praia (de facto, praia...
Neste caso, é apenas o nome da rua que beira a praia, e segue paralela ao
aterro, que é uma via do tipo expressa, e está bem mais próximo da praia).
Tomando a rua da Praia de Botafogo, de onde se prossegue até à Praia do
Flamengo, e daí até ao Passeio Público (depois de passar pela Glória);
vira-se à esquerda, no passeio, atravessa-se o Largo da Lapa, onde se
encontram a Sala Cecíllia Meirelles, a Gafieira Asa Branca (mas só está
aberta à noite!), a Escola de Música da UFRJ. Os Arcos da Lapa, cortam o
largo do mesmo nome! Como veem é simples!
Maria Nascimento: - A minha alma está parva! Como é que você, sem nunca ter
cá vindo (antes) ao Rio, “conhece” isto tudo?
Carlos: - Na minha terra diz-se “Quem não tem amigos morre mouro”. E eu
tenho o meu particularíssimo amigo Sérgio Robert!
Carlos: - Foi muito fácil chegar aqui
aos Arcos da Lapa. Sabem que estes Arcos foram o símbolo da Rio antigo e,
presente em grande parte das pinturas da cidade, e são um exemplo de
engenharia e arquitetura do século XVlll. Sua construção em pedra e
argamassa, em estilo romano, constituída por dupla arcada, com quarenta e
dois arcos e óculos na parte superior, confirma o desenvolvimento das obras
públicas em nível permanente na primeira metade do século. Os Arcos faziam
parte do Aqueduto da Carioca, que canalizava águas das nascentes do rio
Carioca, vindas de Santa Teresa – naquela época distante do núcleo urbano –
para o Largo da Carioca. Em 1718, quando do governo de António de Brito e
Menezes, começaram as obras de instalação de canos de água através da rua
dos Barbonos, mas o novo governador, Ayres de Saldanha, alterou o projeto
original e optou por um aqueduto entre os morros de Santa Teresa e de Santo
António, inspirado no Aqueduto das Águas Livres de Lisboa, que foi concluído
em 1724, levando água ao chafariz construído no Largo da Carioca. Foi
reformado em 1750 pelo brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim, durante o
governo de Gomes Freire de Andrade, sendo usado até fins do século XlX.
Desde 1896 serve de viaduto para o bondinho que vai do Largo da Carioca a
Santa Teresa, sendo o principal meio de transporte coletivo deste bairro –
chamado “bondinho de Santa Teresa” – e o único sistema de bondes (em
Portugal “carros elétricos”) – e o único sistema de bondes ainda existente
no Rio de Janeiro.
(Nota: em Portugal existem alguns aquedutos do tempo dos romanos. O Aqueduto
das Águas Livres de Lisboa, cujo maior arco tem 65 metros de altura, foi
construído no tempo de D. João V. A Rainha D. Carlota Joaquina, (a Rainha
Fresca ) adorava a Casa das Mães d’ Água, ou seja, os tanques onde a água
era decantada para servir os chafarizes públicos. Era onde ela gostava de
escolher os seus “puros sangue” ou seja, com “potência equídea”. Nós
conhecemos a nossa História, só não conhecemos (infelizmente) a História do
Brasil...). Mas este e muitos mais casos ficaram para a “Uma Semana em
Lisboa”.
Falámos de Gomes Freire de Andrade, ilustre português, preso por conspiração
liberal em 1817, foi executado em 18 de Outubro desse ano, no Forte de São
Julião da Barra (Cascais / Lisboa...).
Sarita: - Pareces uma “mosquinha morta” mas sabes umas coisinhas...
Teta: - O que será este “mamífero” em Lisboa?!
Maria Nascimento: - A mim não me está a surpreender mesmo nada. Carlos,
fale-nos do Passeio Público.
Carlos: - O Passeio Público em Lisboa era onde presentemente (desde o ano
1912) se situa a Avª da Liberdade.
Malva: - Mas não é esse “Passeio Público de Lisboa” que nós queremos saber.
É o daqui!
Carlos: - O Passeio Público, daqui, como dizem, é um jardim criado ainda na
época de D. João Vl (eu sei que era o marido da Rainha D. Carlota
Joaquina... – mas gostava que em vez dele, tivesse vindo, por exemplo, D.
Dinis (entre outros) que teriam enchido o Brasil de “dinisezinhos”). Mas
continuando: antigamente, acabava na beira da praia, mas com todos os
aterros que foram feitos no Rio de Janeiro, agora se encontra a cerca de um
quilómetro da praia.
Abigail: - E agora para onde vamos, Carlos?
Carlos: - Rumo ao Convento Santo António! Segundo nos conta Frei Albano
Marciniszyn, OFM: “ Em 1592, estiveram no Rio de Janeiro Frei António das
Chagas e Frei António dos Mártires, procedentes de Vitória do Espírito
Santo. Receberam em doação, feita pela Câmara, um terreno com uma ermida na
Praia de Santa Luzia. Quinze anos mais tarde, no dia 15 de Fevereiro de
1607, aportaram o Custódio Frei Leonardo de Jesus e mais quatro frades,
entre eles Frei Vicente do Salvador. Não se agradaram do lugar doado.
Pediram e receberam em permuta o Morro do Carmo, chamado assim por já estar
reservado à Ordem dos Carmelitas. Nessa ocasião foi-lhe devolvido o nome
primitivo: Morro de Santo António. No dia 19 de Abril, foi assinada a
escritura pelo Governador Martim Afonso de Sá e outras pessoas. No dia 25 do
mesmo mês, os frades se transferiram para uma casa cedida por Fernando
Afonso, ao lado da ermida de Santo António, perto do atual Convento. Ali
construíram a residência provisória, que foi inaugurada a 4 de Outubro de
1607. Em seguida, o Custódio voltou para Olinda, deixando os quatro frades,
e nomeando Frei Vicente do Salvador para superior. Em 1608, a 4 de Junho, o
Custódio estava novamente no Rio de Janeiro para lançar a pedra fundamental
do Convento definitivo. Ao ato estiveram presentes o Governador Afonso de
Albuquerque, o Vigário da Sé, o Reitor do Colégio dos Jesuítas e o
Administrador Eclesiástico Mateus da Costa Alboim, que oficiou e presidiu
todos os atos assistidos pelas Autoridades e grande multidão do povo”.
Malva: - Carlos, sabes quem foi Santo António?
Carlos: - Claro que sei. Mas ficará para a “Uma Semana Em Lisboa”.
Entretanto, poderei dizer que seu nome primitivo era Fernando de Bulhões e
que nasceu em Lisboa a 15 de Agosto de 1195 e morreu a 13 de Junho de 1213.
É um dos padroeiros da cidade de Lisboa, a par de São Vicente.
Teta: - E o Convento de Santa Tereza, o Museu do Bonde, a Escola de Música,
a Sala Cecília Meirelles?
Carlos: - Vamos falar do Convento de Santa Tereza, recorrendo a apontamentos
valiosos do nosso querido amigo Sérgio Robert, para os amigos o Serjo. Vamos
tentar apanhar um bondinho... O Serjo chama a esta zona de Montmart carioca.
Esperem um pouco para pôr estas notas em ordem – vamos lá: Estamos
praticamente no coração do Centro do Rio de Janeiro, na Largo da carioca,
delimitado por um lado, pelo começo da rua da Carioca, como o seu casario
antigo preservado, onde se pode, entre outras coisas, tomar um choop preto
no Bar Luís, o mais antigo da rua com os seus balcões em madeira e
multiplicidade de espelhos, ou ainda apreciar a fachada belíssima do Cinema
Íris, o mais antigo do Rio, agora transformado em palco de Stip-tease; de
outro lado pela Avenida Rio Branco, talvez a principal veia de trânsito do
Centro; atrás, acima da estação do metrô da Carioca, o fantástico Mosteiro
de Santo António (que já falámos), dos monges beneditinos, com seus 200 anos
de existência, e cuja visita é melhor ser visitada nos domingos por volta
das 7 horas da manhã, quando além de apreciar a arquitetura do convento,
ainda se pode assistir a uma missa cantada pelo coro dos monges, em canto
gregoriano. Mas é na direção da Avenida Chile que seguiremos, indo pela rua
Senador Dantas, onde viramos no primeira viela à direita, logo após o Banco
do Brasil, ou entrando pelo átrio do prédio da Petrobrás. Se fizermos a
primeira escolha, podemos gastar algum tempo no pequeno Museu do Bonde; já
no segundo caso, atravessando os jardins da empresa brasileira de petróleo,
chegamos finalmente à pequena estação final dos bondes que vão para Santa
Teresa. Não precisamos esperar muito, nem escolher a linha: seja o Paula
Mattos, seja o Dois Irmãos, nosso destino nos impele para a Santa (como
dizem os habitantes deste bairro). Mas é aconselhável subir a pé, sendo o
bonde somente o aperitivo que vai nos colocar num clima que apenas este
bairro, sem dúvida o mais carioca de todos os bairros do Rio, possui.
Atravessamos de bonde por cima dos Arcos da Lapa, um aqueduto com arcos de
20 / 25 metros de altura, e com uma largura que só permite a passagem de um
bonde por vez. Abaixo de descortina o Largo da Lapa, cheio de histórias e
prédios maravilhosos, como o da Escola Nacional de Música e a sala Cecília
Meirelles. Passados os Arcos, entremos finalmente no bairro. A antiga
Chácara dos Mata Cavalos, e situado inteiramente sobre um morro que se
estende desde o Centro da cidade, até aos bairros da Glória, Catete e Cosme
Velho, pelo lado da zona sul; e para o bairro de Fátima e Catumbí, pelo lado
norte. Serve ainda de acesso para o bairro das Laranjeiras e, na sua
extensão final nos leva às Palmeiras, ao mirante Dona Marta e, finalmente
aos bondinhos que nos permitem chegar ao morro do Corcovado, com seu Cristo
pousado e de braços abertos a admirar a cidade. Do final do século XVlll
para início do XX, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, mostrava uma
forma de vida muito insalubre. Cheia de focos de mosquitos, pasto de ratos,
graças ao pouco saneamento público, tornava-se durante o Verão numa enorme
calamidade, com explosões endêmicas de tifo, febre-amarela e outras doenças
que faziam milhares de vítimas. A aristocracia e a burguesia da época
refugiava-se então em locais mais afastados e altos, onde o calor era mais
ameno. Foi o caso de Petropólis (onde o próprio Governo chegou a mudar-se),
ou o bairro do Grajaú, nas encostas de Jacarepaguá, e justifica a existência
de Santa Tereza. Assim que adentramos o bairro, logo após a saída dos
Arcos da Lapa, saltam à vista os casarões e pequenos palacetes, numa
multiplicidade de estilos, que, por um lado cria uma paisagem muito especial
e inusitada, por outro mostra que o bairro viu o seu povoamento crescer ao
longo de vários anos, de maneira bastante paulatina. Esta é uma
característica que somente Santa Tereza, entre todos os bairros da cidade
tem. Outros bairros tiveram momentos de explosão demográfica, marcando em
seus prédios as faces desse tempo, como, por exemplo, aconteceu com
Copacabana nos anos 40 e 50. Santa Tereza, no entanto, refúgio de uma
burguesia no século XVlll, local onde a pequena burguesia podia passear no
meio da natureza, como cita Machado de Assis, na sua obra “Dom Casmurro”,
foi muito aos poucos, ao longo dos anos vindouros, vendo aumentar o número
de seus palacetes, depois casas menores, ate que, em meados do século XX se
tornar numa aglomeração urbana propriamente dita. Ainda assim, pelas
limitações de ordem geográfica se situar-se sobre um morro – por lá sempre
se está subindo ou descendo – sua expressão demográfica e imobiliária, já há
muito estar restringida, de maneira que quem se dispuser a morar lá, vai
encontrar grandes dificuldades. De um outro ponto de vista, à multiplicidade
arquitetónica, junta-se maneira coerente, a multiplicidade dos habitantes
desta localidade, Santa Tereza, onde convivem harmoniosamente todas as
tribos, todos os tipos de gente. Há mansões de habitantes ilustres, famílias
centenárias e milionária, e ao mesmo tempo duas favelas: a Coroa e o
Prazeres, e, entre estes dois opostos, toda uma variada gama de variedades.
Também se encontram velhos “hippies”, punks, rastafaris, gays, travestis,
drag queens, e ao contrário de outros lugares, toda esta gente não apenas se
respeita, como se troca sem nenhuma restrição. Por lá é possível conversar
com bandidos (que nunca atuam naquela área, e chegam mesmo a protegê-la) e
com comendadores, num mesmo bar, ou numa esquina. E para quem é conhecido na
área, andar pela noite e madrugada a dentro, “fechando bares”, é de total
tranquilidade. Também, ao longo do caminho percorrido pelo bonde, seguindo
a rua Almirante Alexandrino, a cada curva é possível ter-se vistas variadas
e completamente surpreendentes da cidade que fica lá em baixo, e isto dá-se
em todo qualquer ponto do bairro. Repentinamente, você vira uma esquina e se
depara com um ângulo inesperado de um ponto qualquer da cidade. Mas vamos
saltar no primeiro dos largos que encontramos: é o Largo do Curvelo, com sua
pequena parada de bondes, que durante longos anos abrigou o bar do “seu
Aroldo”, ou o bar do Bigú, um espaço mínimo, que vendia de tudo um pouco e
juntava uma pequena corja de “bebuns” que se postavam por lá desde a
abertura até ao fechamento do boteco. O largo tem uma fonte triangular, e
num dos seus cantos há uma pequena pracinha construída em patamares com
antigas árvores. Dalí se tem uma magnífica visão da Marina da Glória, parte
sul da Baía de Guanabara. Descendo por esta rua e virando-se à primeira à
esquerda, por alturas do armazém do Serginho, chega-se à Fundação Raimundo
Castro Maia, Museu que abriga a coleção deste afamado mecenas e
colecionador, já falecido, ao novo Parque das Ruínas, ou, pode-se encontrar
uma escadaria que nos conduzirá ao Centro do Rio, deixando-nos na Lapa,
atrás da Sala Cecília Meirelles. Também podemos chegar à rua Cândido Mendes
e daí chegar à Glória. Mas podemos ficar mais um pouco no bairro, e assim,
podemos ir pela rua Almirante Alexandrino. Logo após a primeira curva depois
do Curvelo, a vista que se abre à nossa direita nos permite ver todo o
Centro norte do Rio, com o prédio do antigo Ministério da Guerra ao lado do
relógio da Central do Brasil em destaque, e, também grande parte da Baía de
Guanabara, com a ponte Rio – Niterói cortando-a. Prosseguindo mais um
pouco, chegamos ao centro nevrálgico de Santa Tereza, onde à noite se reúnem
os noctívagos, dentro, em torno ou simplesmente em frente a um dos bares do
local. É o lugar preferido de quem não conhece Santa Tereza. Os turistas,
que sempre vão ficando, encontram-se com o pior ou com o falso. Este centro
nevrálgico, encontra no Largo dos Guimarães seu núcleo, mas de facto começa
antes: Por exemplo na Adega do Pimenta que apesar do nome, tem como
especialidade a comida alemã. Carlos, lembro-me de ter entrado lá uma vez (e
única) a acompanhar minha irmã, e não me agradou mesmo nada a frequência,
excessivamente fechados, como se esperassem a qualquer momento que fossem
flagelados pelo famoso crítico de restaurantes de nome Apicius, cujas
matérias estão expostas nas paredes da adega. Bom, logo após esta adega,
temos o clássico e conhecidíssimo Bar do Arnaudo, que, talvez fosse o ponto
mais procurado do bairro nos anos 70 até meados dos de 80. Lá podia-se comer
um fantástico prato de carne-de-sol com aipim (talvez ainda hoje se possa
comer), em vasilhas de barro, sendo ainda brindado, caso tenha a sorte de
ficar nas mesas do fundo, com uma bela vista do Rio. Vamos pular o boteco
que vem a seguir, cujo nome não me recordo, conhecido por uma sopa de
entulho; depois outro pulo até chegarmos ao restaurante do Markô. Antes
podemos encontrar um sofismadíssimo restaurante de Sushi, talvez
desencontrado do ambiente; mas este local prestasse a grandes enganos ...
Logo após o Markô, encontramos o Sobrenatural concebido a partir de um
prédio de comércio, provavelmente ainda do século passado, cujo estado de
conservação não era dos melhores na época em que foi montado o restaurante,
(e que a princípio, nem ao era restaurante, sendo ainda uma casa, digamos
não registrada, que abria só à noite, servindo um “feijão tropeiro”, por
sinal muito saboroso. Devido ao seu estado de degradação, seus proprietários
acharam como solução à queda do reboco das paredes, o simples arrancar de
todas as forrações, deixando aparecer o tijolo e as telhas, ficando todo o
bar absolutamente rústico, e no entanto, após a meia-noite enche a tal ponto
de não se poder entrar. Entre os seus frequentadores mais conhecidos temos
entre outros, a Bete Carvalho, que dá shows gratuitos, integrando rodas de
samba e chorinho levadas espontaneamente pelo próprios músicos presentes.
Temos o Largo das neves, completamente circular onde finaliza a linha “Paula
Matos”. Ainda o “Castelinho Valentim”, na confluência das Ruas Almirante
Alexandrino e a Aarão Reis, construído por um comerciante português em
meados do século, sendo agora um condomínio com vários apartamentos. De
quase todo o Centro e parte norte do Rio, é possível avistar o castelinho.
Se descermos em direção à Paula Mattos, encontraremos logo o Largo dos
Guimarães, o novo “point” do bairro que é o “Simplesmente” e também o
“Simples Mente”. Noite dentro sua lotação excede e já sem espaço interior,
seus frequentadores se vão aglomerando em torno da porta quase fechando a
rua, dificultando a trânsito na rua estreita como são todas as de Santa
Tereza. Continuando a descer em direção ao Largo das Neves, encontramos o
“Bar do Mineiro”, onde sempre se pode apreciar uma roda de samba, logo ao
lado de uma belíssima igrejinha neogótica, que não parece se incomodar com a
música levada até às tantas, em sua sisudez medieval. E vamos ficar por aqui
...

Maria Nascimento: - Como estamos no Centro do Rio, podíamos ir até à Rua da
Quitanda, aos escritórios do Rio Total apresentar os nossos cumprimentos ao
Dr. Luiz Carlos, o marido da Drª Irene Serra?
Carlos: - De cumprimentos já o Luiz deve de estar cheio. Para mais, logo
vamos “abancar” (comer a casa dele). Fica para outra vez. Talvez seja melhor
ir-mos a casa (oxalá que o senhorio não nos encontre...), para descansar um
pouco, tomar duche e preparamos para o jantar em casa da Irene. Pessoal, por
favor não me envergonhem logo ao jantar. Vão estar presentes gente muito
fina.
Maria Nascimento: - Eu, até tirei este ano letivo o curso básico (primário)
para adultos...
Carlos: - Olha, tiveste mais sorte do que eu que tenho de repetir o básico
para adultos...
Sarita: - E eu não sei se sei comer com faca e com garfo...
Malva: Não sabes comer com as mãos, melhor, com os dedos?
Martha: - Mas por aquilo que o Carlos nos diz, parece que temos de comer com
os pés, de uma forma algo esquisita.
Maria Nascimento: - Vamos deixar de brincadeiras. Carlos, já pensaste no
vinho que vais levar logo?
Carlos: - Pensar, pensei, mas vamos dar grande rombo ao nosso tão parco
orçamento. Vamos levar 4 garrafas do vinho português “Quinta da Murqueira”,
da zona vinícola demarcada do Dão (distrito de Viseu). Duas garrafas de
tinto, incorporado, carregado na cor e complexo no aroma. Duas do branco, o
vinho que mais se aproxima dos brancos da Borgonha, famosa região vinícola
de França. Oxalá que o senhorio do nosso apartamento não apareça...
Maria Nascimento: Mas há outras marcas!
Carlos: - Haver há, mas pesam demasiadamente, não no estômago, mas sim, na
algibeira!
Sarita: - Quatro garrafas, é bem capaz de ser pouco líquido...
Martha: - Tens toda a razão, Sarita! Vamos levar também quatro garrafas do
célebre batido “O H 2”!
Carlos: - Vamos então ao shopping Rio-Sul comprar o vinho...

Malva:
- Pessoal, despachem-se! Também quero tomar duche! Olhem, vou pôr o vinho no
frigorífico.
Carlos: - Põe só o vinho branco, pois o tinto deve ser consumido à
temperatura ambiente e nunca inferior a 22º C., pois senão perde o
verdadeiro sabor!
Abigail: - Estão a tocar a campainha da porta! Que vai abrir?!
Carlos: - Vou eu e vestido com o roupão da Martha! Também é o único que me
serve!
Martha: - Descaradddoooooooo!
Carlos: - A porta continua perra... Há, já está! Olha o Sérgio Robert!
Entre, entre bom amigo! Pessoal, temos aqui o Serjo, que veio expressamente
de Bom Jardim, Friburgo (região serrana do Rio, para os lados de Petrólis.
Que surpresa agradável!
Teta: - Novamente a campainha a tocar... Desta vez vou eu abrir-lha...
Carlos, está aqui uma jovenzinha que te quer falar!
Carlos: - Desculpa, Serjo mas uma jovenzinha nunca se pode perder... Mas,
mas, é a Fernandinha! (senhora a Drª Fernando Garcia), que veio do outro
lado da Baía de Guanabara, propriamente dito de Niteró! Entra, entra querida
amiga!
Abigail: - A campainha hoje não pára de tocar!... Oxalá que não seja o
senhorio à procura da renda... Carloooossss! É uma bela senhora que está
aqui à tua procura…
Carlos: - Bela senhoraaaa?! Bom, amigos Serjo e Fernandinha, tenho que ir
ver quem é a tal “bela senhora”. Que surpresa tão agradável! Olá Carmen
Sirotski! Entre, entre engenheira! Não repare nesta grande desarrumação, mas
estas minhas companheiras, ainda não tiveram “tempo” de limpar e arrumar a
casa. São muito lentas!
Sarita: - Olha Menino, arruma-a tu, pois, é a que sujas mais e mais a
desarrumas!
Carlos: - Vamos ao que interessa, ou seja, às apresentações. Querido amigo
Serjo, queridíssimas amigas Fernandinha e Carmen, da esquerda para a
direita, temos: A Abigail, a Teta, a Martha (Menina, tem juízo).
Martha: - Só estou a fazer uma pose. Gostava de ser pintada por um famoso
pintor!
Carlos: - Partias o cavalete ao pobre pintor! Mas continuando: a seguir a
Malva, a Sarita e a Maria Nascimento.
Maria Nascimento: - É um prazer conhecê-los. Só é pena estarmos convidados
para jantar em casa da Drª Irene.
Carlos: - Maria Nascimento, telefone à Irene e conte-lhe o que se está a
passar. Ela no fundo é boazinha e até é bem capaz de não se importar com
mais três pessoas para o jantar... Diga-lhe que eu não posso ir ao telefone,
porque, porque... Olhe, invente qualquer coisa! Por exemplo que estou a
atender estas nossas ilustres visitas de hoje. Invente, invente, querida
amiga.
Por fim, lá fomos todos nós a caminho de Ipanema...

Pontualidade inglesa. Chegámos em cima das 21 horas. Antes de tocar a
campainha da porta, ainda no átrio das escadas, ouvimos os sons lânguidos de
um fado português “Tudo isto é fado”, que mais tarde ficamos a saber cantado
pela Didi bem acompanhada por Maria Helena e pelo Murilo (irmã, irmão e
cunhada da Irene). Entrámos numa ampla sala, que segundo a nossa anfitriã é
dentro dos padrões do Rio de Janeiro, tendo o ambiente de jantar e o de
estar. Ao centro uma mesa onde, com certa boa vontade cabem 10 pessoas, mas
chamou-nos a atenção 20 suportes de madeira, para colocar no colo, para o
chamado serviço americano. Numa parede há um sofá de braços largos, 3
almofadas, estampados de flores (rosa, verde musgo e cinza); uma poltrona de
couro creme em diagonal, ao seu lado; na parede em frente há um outro sofá,
sem braços, liso rosa seco. E perto da janela há um sofá verde musgo e telha
que parece uma concha e um tipo de estrado de madeira a sua frente. A Martha
está muito cansada e logo se sentou numa das 4 cadeiras de jararandá. A
Irene sempre simpática e elegante foi-nos apresentando aos outros convivas:
aos já referidos Murilo e sua mulher Maria Helena, e da Didi, trio este que
não parava de cantar e dançar, imaginem: O vira minhoto! (... ai que vira
... e torna a virar ... nas voltas do vira ... etc.). Pessoal muito alegre.
O Ivan (não o terrível), colega do Luiz na faculdade, dá aulas de fotografia
e a sua simpática namorada, a Maria Laura. Aqui um parêntesis: quando a
Martha convidou a Ivan para lhe tirar uma foto, logo o coro de pessoal
convidado exclamou “Querida! não queiras partir a máquina ao Ivan!”.
Irene: - Meus amigos espero que todos estejam à vontade! A casa é vossa
(simbolicamente, claro). Carlos, tenho uma surpresa para você:
Tam-tam-tantam, apresento-te a Gladis Lacerda!
Carlos: - Olá meu amor! Que surpresa mais agradável!
Gladis: - Oh meu querido, quanto prazer! Tenho a agradecer à Irene este
momento que para mim é quase mágico. Como está o meu “coroão – enxuto –
gatão”?
Estava na hora de atacar os petiscos (em Portugal chamamos de “entrada”), e
as torradas, os pãezinhos de queijo, as castanhas de caju, tomates secos com
pão de hóstia, além das pastinhas de azeitona, queijo camembert e de atum.
Os drinks, o whisky ( a escolher na garrafeira), a água cristal e muito
gelo; o Martini (Campari) com azeitona; vinho branco que o Ivan tinha
trazido de Furnasm coca-cola e a bebida “preferida da Gladis – o guaraná). E
o preferido pela Irene, o leite de onça, uma receita paterna. O ambiente
está maravilhoso com muita conversa, muitos risos e sobretudo muita alegria.
De quando em vez dava para uma olhadelazinha para o Morro Dois Irmãos,
lindo, todo iluminado. A Irene e o Luiz foram-nos dizendo que antigamente
antes de construírem uns grandes imóveis, via-se de sua casa o Corcovado a
abraçar o Rio e a Lagoa de Rodrigo de Freitas.
Irene: - Queridos, preparem-se pois o jantar está pronto!
Abigail: - E já cheira muito bem!
Carlos: - Sarita vê lá como te vais portar à mesa. Come com a faca e com o
garfo.
Sarita: - Tu és maluco! Eu como é com a boca que Deus me deu!
Teta: - Carlos, conto que você aqui não bata as “mandíbulas” como
habitualmente, pois até parece que está batendo castanholas espanholas!
E Chegou à mesa uma salada verde de rúcula, alface, agrião, “petit pois”,
guarnacida por tomatinhos do mato e mini cebolinhas. Tendo como suporte um
crocante de queijo. Uma delícia! E mais acepipes quentes. Depois, bem,
depois um bobó de camarão. Aqui a mão da Irene estava esquentando e o Carlos
teve de ir em seu socorro, não só pela mão da anfitriã, mas também pelo
perigo do bobó cair ao chão e não o podermos provar. Também o arroz branco e
o creme de coco. Fomos pegando o lombinho recheado (em Portugal recheamos o
lombo com toucinho febra e enchidos “chouriço”, além da pasta de tomate), e
a farofa. Uma massa gravatinha, com cogumelo italiano “À Ivan”, uma delícia
feita no local pelo autor.
Maria Nascimento: - Carlos, parece-me que o nosso pessoal “tirou a
barriguinha de misérias” !
Carlos: - Acredito! E se nós “convidássemos” a Irene a “convidar-nos” todos
os dias? (risos).
Entre a refeição e a sobremesa a Didi brindou-nos com alguns fados
portugueses, e também com algumas danças minhotas (viras e chulas), sempre
acompanhada pelo alegre casal Murilo / Maria Helena.
E a sobremesa: Cheesecake de morango, peras em calda com cobertura de
chocolate quente (uma especialidade da mamã da Irene), bolo de chocolate
cremoso com sorvete de manga e chantili, biscoitos de amêndoa. O
indispensável cafezinho e licor Drambuie, Frangelico e Tia Maria.
A nosso pedido, durante a sobremesa, a Maria Nascimento disse uma das suas
muitas poesias: “Terceira Juventude”:
“Primeiro, os anos passam lentamente
... / Depois, no declinar da mocidade, / o tempo sai voando, loucamente, /
deixando as marcas da Terceira Idade ...
Mas, trazendo a esperança ainda latente, / e, enfeitando com sonho, a
realidade, / vamos rememorando, heroicamente, / os mais doces momentos de
saudade...
É sublime a Terceira Juventude ... / E, quando Deus nos dá paz e saúde, /
vencemos o receio da partida,
Pois, somando as benesses da existência, / nos mostra a sábia voz da
experiência / que foi um Céu, na Terra, a nossa vida!”
Depois
deste belo momento de poesia, tínhamos que dar uma singela mas sentida
homenagem à nossa querida Irene Serra. E que homenagem melhor do que “GAROTA
DE IPANEMA” de Tom Jobim? O coro caprichou (?) para cantar o menos
desafinado possível está linda canção:
“Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça é ela a menina /
Que vem e que passa / No doce balanço, a caminho do mar / Moço do corpo
dourado / Do sol do Ipanema / O seu balanço é mais que um poema / É a coisa
mais linda que eu já vi passar / Ah ! porque estou tão sozinho / Ah ! porque
tudo é tão triste / Ah ! a beleza que existe / A beleza que não é só minha /
Que também passa sozinha / Ah ! se ela soubesse / Que quando ela passa / O
mundo inteirinho se enche de graça / E fica mais lindo / Por causa do mar “.
Após meia hora as senhoras a fazer “maquiagem retocada” fomos para o
calçadão de Ipanema rumando para os lados do Arpoador para fazer “uma
romagem” aos bares. Primeiro o “Barril 1800”, onde ficámos na esplanada da
calçada. Voltámos até ao Leblon e chegámos ao “Caneco 70”, onde subimos à
varanda do 2º andar para apreciar a linda vista, beber (?) mais umas
coisinhas e descansarmos, pois ainda fomos ao “Mistura Fina”, que fica na
Lagoa Rodrigo de Freitas. Regressámos ao calçadão, cantando alegremente “A
BANDA” de Chico Buarque:
|
“Estava à-toa na vida
/ o meu amor me chamou
pra ver a banda passar
cantando coisas de amor.
A minha gente sofrida
despediu-se da dor
pra ver a Banda passar
cantando coisas de amor ...
O homem sério que contava dinheiro parou,
o faroleiro que contava vantagem parou,
a namorada que contava as estrelas parou
para ver como lhe dar passagem ...
A moça triste que vivia calada, sorriu,
a rosa triste que vivia fechada se abriu
e a meninada toda se assanhou
pra ver a Banda passar cantando coisas de amor.
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
que ainda era moço pra sair do terraço e dançou
a moça feia debruçou na janela
pensando que a Banda tocava pra ela ...
A marcha alegre se espalhou na Avenida e insistiu,
a lua cheia que vivia escondida surgiu,
minha cidade toda se enfeitou
pra ver a Banda passar cantando coisas de amor ...
Mas para o meu desencanto
o que era doce acabou,
tudo tomou seu lugar
depois que a banda passou.
E cada qual no seu canto
e em cada canto uma dor
depois da Banda passar
cantando coisas de amor. |
A dolorosa hora da despedida estava chegando. Fomos levar o casal
Irene / Luiz e os seus amigos a casa, e rumamos para os lados do Forte de
Copacabana. Quando chegámos à entrada do nosso apartamento, o Serjo começou
a dizer que queria ir a pé para Friburgo: - Nada disso, Amigo! Esta noite
fica no aqui no nosso apartamento – convidámos nós. Logo a Fernandinha
começou a dizer que ia para Niterói atravessado a Baia de Guanabara a nado.
Ficou no apartamento. A Carmen estava com receio de ir na noite tão
adiantada para o seu refúgio na montanha... Até a Gladis nos disse que não
estava nada disposta a ir para sua casa. Resultado: o nosso apartamento
recebeu mais quatro habitantes para aquela noite. Tínhamos combinado com o
senhorio que ele recebia (???) conforme as pessoas que ficassem no
apartamento. Oxalá que ele não aparecesse naquele momento tão crítico...
FIM DO 2º DIA de “UMA SEMANA NO RIO ”
Trabalho de ficão, qualquer personagem ou situação
é pura coincidência

A seguir
3º dia de “UMA SEMANA NO RIO”
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