Toda a turma quase bem
acordada, alegre embora ainda com os olhos semicerrados. A “culpada”
de toda esta situação, foi atribuída à Arlete e aos seus hábitos de
acordar aos primeiros raios de um novo dia. Houve até quem
alvitrasse na próxima noite dar-lhe um soporífero forte para ela só
poder acordar ao meio-dia... Apanhámos o ônibus (autocarro) que nos
levaria a Mangaratiba. Apesar de ter sido (compulsivamente)
madrugadores, todos estavam animados e com espírito de aventura. A
charmosa Gladis quando pegou (tentou pegar) na mochila, notou que
esta estava demasiadamente pesada, pois, o Sérgio Robert tinha lá
colocado uma pedra de razoável peso. Uma enorme gargalhada ecoou por
todo o grupo. O Carlos ria-se não sabendo nesta altura que tinha um
lenço vermelho pregado nas costas da camisa com um alfinete; A Irene
tinha na mala uma barata (ela detesta baratas!); a Arlete tinha o
cantil com cachaça (ela que só gosta de “batido de OH2” ; O Sérgio
quando pôs os óculos escuros encontrou as lentes besuntadas com
manteiga ; a Sarita tinha um ratinho na algibeira (seria alimento
para a gatita Sari?); A Maria Nascimento tinha a parte de dentro do
chapéu cheia de pasta dentífrica ; a Carmen tinha na mochila um rolo
de jornais com a indicação “Projetos para a estrada marítima Rio /
Lisboa); A Fernandita tinha um pente “desdentado” na mala; assim
como a Teta transportava umas latas de cerveja amachucadas… a
Abigail tinha escrito na parte de trás da camisa “eu sou...?O Luiz
Carlos, gentil como sempre, também apareceu com um enorme saco de
biscoitos e latas de loirinha (cerveja). O Carlos, como sempre,
meteu a colherada perguntando ao Luiz de que eram feitos os
biscoitos. Este deu uma enorme gargalhada dizendo que a Irene é que
sabia dos “ingredientes”. A Irene aproveitou a “embalagem” e logo
começou a desenrolar (dizer) os ingredientes dos biscoitos, como:
serradura, algodão utilizado, raspas de casca de banana, etc.
(alguns até inconfessáveis...). Ninguém deitou os biscoitos fora –
todos quiseram arriscar, a comer. Chegou o ônibus e logo os lugares
foram ocupados por esta malta alegre e barulhenta como adolescentes
estudantes em férias. Passámos pelo Leblon, São Conrado, túnel Dois
Irmãos, Barra da Tijuca (que do bairro Tijuca só tem o nome),
Grumarí, Prainha e finalmente Mangaratiba. Após o túnel, entrámos na
região dos “emergentes”: a Barra da Tijuca é um segundo centro do
Rio, com amplas avenidas que são verdadeiras rodovias, cheias de
condomínios de luxo onde moram os novos-ricos do Rio. Grumarí e
Prainha é onde acaba a região urbana da Barra, e começa uma região
mais rural, e finalmente Mangaratiba. Durante o percurso, as piadas
surgiam por todos os lados, e o Carlos, nestas ocasiões mesmo sem se
mexer muito, é “terrível” fazendo todos rir a bom rir. Ainda bem que
ele contou que um dia foi a uma excursão e “tirou” mais de trezentas
fotos sem rolo! Anos depois ainda algumas pessoas perguntavam pelas
fotos, principalmente de grupos que ele “organizou”, das cervejas,
bolos e frutas que ele comeu “à conta”! Escusado será dizer que a
partir daqui mais ninguém acreditou na máquina fotográfica do
Carlos, e pior nem no dono da máquina! Nesse dia e por sugestão da
Arlete, tinham agendado uma visita à Ilha Grande, depois a Angra dos
Reis, Parati, etc. À noite e já no Rio, iríamos visitar uma Escola
de Samba guiados por um grande amigo do Sérgio, o Oswaldo. O Sérgio
passou o dia a aconselhar o Carlos que devia beber muita maracujá
até se possível, fazer umas doses de pó deste fruto; ninguém
compreendeu o porquê. Uma hora e meia depois chegámos a Mangaratiba,
e no cais, já nos aguardava o saveiro “Loucura da Fatinha”. A gatita
Sari não queria entrar no barquito, o que deu enorme trabalho à dona
que a teve de a enfiar dentro de um saco. Mas nem só a gatita torceu
o nariz ao barquito. O Carlos, perguntou:
- Mas “isto” é que nos vai levar à Ilha Grande?
Logo a Gladis lhes respondeu:
- Carlos querido, meu amor, queria um paquete para ires até à ilha?
- A Gladinha é muito querida…
A nossa amiga ainda esboçou a ideia de ir-mos de helicóptero,
alegando que a última vez que andou de barco sentiu uma enorme
depressão. O Carlos resolveu a situação que se apresentava delicada
ao dizer-lhe:
- Minha Querida, como pode você ter medo com uma companhia destas?
A Gladis reconsiderou e respondeu-lhe (em tom de brincadeira?):
- Com você vou até ao fim do mundo!
Ainda no cais, o Humberto “da Arlete” no veio desejar uma boa viagem
entregando a cada um uns comprimidos contra o enjoo. Todos
agradeceram esta gentileza e, como de certa maneira em género de
retribuição, o Sérgio e o Carlos amarram uma enfiada de latas de
cerveja presas por uma corda, ao carro…
Já a bordo, a Arlete, uma experimentada maruja, dirigiu-se logo à
cabine do comandante pedindo-lhe informações sobre a localização dos
coletes e as boias salva-vidas pois não os via. O comandante
enalteceu a sua curiosidade e preocupação de segurança,
indicando-lhe os bancos / armários onde estavam os coletes, e as
esquinas onde estavam as boias. No dizer do comandante, todos os
passageiros deviam ter esta preocupação.
A leve e suave brisa do mar ondulado, as águas de uma lindo verdinho
e em alguns pontos azuladas, o barco cortando as ondas, já era
demais gostoso. Ilhas lindas com florestas intocadas, outras somente
de pedras, algumas humildes casinhas de pescadores – o cenário era
espetacular! Romântica como é, a Gladis subiu a uma escotilha e com
gesto teatral, tirou o lenço da cabeça, ergueu os braços por cima da
cabeça, esticou e soltou o lenço deixando-o voar. Uma enorme ovação
coroou este gesto gracioso e charmoso. Claro que o Carlos não podia
ficar calado : - Gladinha, você faz o mesmo ao amor?
Ela muito divertida respondeu-lhe:
- Só mando ao vento o amor traiçoeiro, o amor cigano, pois o amor
verdadeiro fica sempre agarrado à minha cabeça.
É natural que a Gladis quisesse atingir alguém, mas nós não sabemos.
A tripulação do saveiro veio-nos oferecer frutas tropicais enquanto
música animada alegrava mais o passeio. Era do forró ao samba
rasgado. As dançarinas do grupo, a Gladis e a Arlete começaram a
ensaiar o forró acompanhadas pelos outros que marcavam o compasso e
balançavam seus corpos, mas por fim todos foram para a roda dançar.
Numa das pausas, a Sarita contou-nos um estranho sonho que tinha
tido e começou assim:
- Como todo o mundo sabe, a minha gatinha Sari tem poderes, e foi
aquinhoada com o raciocínio por isso tem o secreto desejo de se
tornar humana, e até acha que seja possível no fim dos tempos. É
muito sensível e vingativa, como toda a gata, por isso, sabe
incomodar quando se sente desconsiderada. Mas vamos ao sonho.
Estranhei quando a Sari por telepatia, pediu-me que fizesse uma
feijoada completa para a turma. Disse-lhe que quando fosse o meu
turno a faria... Sei que ela gosta muito do Carlos, apesar das
rusgas constantes, pois até ficou pendurada no seu ombro com a
cabeça na sua nuca. Essa confiança só dá aos íntimos. Fiz a feijoada
como manda o figurino do Sul do Brasil. Uma feijoada típica de
Inverno, regada a vinho tinto. Diferente daquela que os cariocas
gostam – talvez não seja como a nossa... Sari com as suas artes
ocultas, quando ficou sozinha, pôs a mesa. Toalha de xadrez, flores,
cambuquinhas de barro, cálices, talheres, pão fresquinho em
cestinhos térmicos e guardanapos. Perguntei-lhe:
- Sari por que não assumiste a a fazer a feijoada? Para mais não
morro de amores pela cozinha?
A gatita então prometeu-me então arranjar um vidro do meu perfume
favorito. Imaginei eu:
- Até consigo subornada por uma gata!
Mas o certo é que o perfume é caro... Nisto ouvi um berro do Carlos
perguntando:
- Onde estão meus sapatos preferidos? Os marrons de cromo alemão e
os pretos de pelica italiana? Além dos feitos em São João da Madeira
desenhados pelo João de Matos?
Foi engraçado ver todos à procura dos tais sapatos que tinham
custado uma fortuna (mania do Carlos que gosta de andar bem
calçado!). Procura daqui, procura daí e o Carlos foi até à cozinha
e, como é por demais dador de fé, levantou a tampa da panela onde
fervia a feijoada, e deu um enorme urro:
- Os meus sapatos a boiarem no feijão!
O Sérgio Robert, ainda mais para “ajudar” disse:
- Pessoal, não sabia que em Bagé se fazia feijoada com sapatos de
português !.
Entretanto, a Teta correu logo para o Carlos com sais na mão, pois
ele tinha desmaiado! Nisto vejo a Sari passar como um raio pela
minha frente e logo pensei: - Esta gata ficou magoada quando o
Carlos disse que precisava de patas de gata para o cozido à
portuguesa e resolveu vingar-se. Chamei-a com toda a força de minha
mente e disse-lhe:
- Gata vingativa, podes voltar para o Olimpo, sua ingrata. Com a tua
vingança barata estragaste minha feijoada e deixaste o Carlos de
sapatos de tênis! Com esses sentimentos mesquinhos jamais serás
humana! Se depender de mim, voto contra! Sari ficou com os olhinhos
bem redondos e correu a enroscar-se em minhas pernas com a pedir
perdão. Aproveitando a sua boa vontade, disse-lhe:
- Sari, dá um jeito e desfaz tuas maldades!
Seus olhos começaram a rodar e a lançar fagulhas, e todos
adormeceram. Os sapatos passaram voando e novamente novos e
colocaram-se debaixo da cama do Carlos. O caldeirão voou até ao
banheiro e entornou seu conteúdo no sanitário. Então, surgiu uma
panela de barro com nova feijoada. Fui olhar ...Ui... De lamber os
beiços: não faltava nada: pés, orelha e rabo de porco, charque,
costelinha defumada, linguiça calabreza, paio, toucinho, bacon,
cebolas, tomate, pimentão e batata-doce; tinha até uma língua (não
se sabe bem de quem...) defumada. O caldo grosso e negro cheirava
que era uma beleza! A Sari veio toda dengosa para o meu lado. - Bem
podias ter feito isso desde o começo e me poupar de passar na
cozinha enquanto os outros se refestelavam a tomar sol. A gatita
pediu perdão, e eu não pude resistir àqueles olhinhos súplices.
Fizemos as pazes. Disse-lhe então que colocasse as coisas na mesa e
acordasse o pessoal. Num zás-tráz vieram voando a panela de barro e
as travessa com couve à mineira, abóbora caramelada, farofa, laranja
/ abacaxi / banana, mais a terrina com o tempero feito com o caldo
de feijão e pimenta vermelha. Foi quando todos acordaram e se
puseram a falar ao mesmo tempo perguntando pelos sapatos do Carlos e
a panela de ferro. Concluíram que haviam tido o mesmo sonho, porque
os sapatos estavam no lugar e o feijão havia sido cozido em panela
de barro.
- Que coisa estranha! – Concordaram todos!
O Carlos olhou enviesado para a Sari, que, se espreguiçava na
almofada vermelha do sofá; depois veio dengosa esfregar-se em suas
pernas e soltando para o seu colo, como dizendo:
- Carlos, a minha dona é muito sonhadora e inventiva”.
O Carlos respondeu-lhe:
- Muito bem Sari. Ainda bem que, embora seja muito raro, ainda se
encontra gatas que não são mentirosas!
Uma enorme ovação premiou o “sonho” da Sarita! Uma hora e quarenta
minutos depois chegámos à Ilha Grande. Que espetáculo – que beleza!
!A Arlete e o Carlos, metediços como sempre, entabularam conversa
com uma lindíssima guia que acompanhava outra excursão. A nossa
amiga tem conhecimentos profundos de taquigrafia e, enquanto tirava
da mala um bloco de anotações, o Carlos ia regalando-se com a beleza
da guia e esta fingia que não notava. Mas a moça, além de muito
bela, também sabia muito da história daqueles locais. Sorrindo (o
Carlos considerou que um sorriso daqueles só se podia encontrar nos
Jardins do Éden sem a mamã Eva estar presente!). Atentem ao que ela
nos disse:
- A Ilha Grande é doze vezes maior do que Fernando de Noronha, mesmo
no tamanho de Aruba, a ilha Caribenha. A Ilha Grande é composta de
106 praias quando a maré está baixa e, quando alta, algumas
desaparecem ficando à vista cem delas. Foi descoberta em 1502 pelo
navegador português André Gonçalves, durante uma viagem de
reconhecimento da costa brasileira. Nela habitavam os índios Tamoios
que lhe davam o nome de Ipaum-guaçu, ou seja Ilha Grande. Estes
índios foram expulsos pelos franceses, corsários e piratas ingleses
que também faziam dela sua base para atacar as embarcações dos
portugueses e demais navegadores que apareciam na área. Os
portugueses colonizaram a Ilha Grande e ficaram admirados com a
quantidade de água potável encontrada. O ponto culminante da ilha é
a Pedra D’Água com 1030 metros de altitude; porém, a Ilha Grande tem
como símbolo a sua Segunda maior elevação que é o Bico do Papagaio,
com 990 metros de altitude. Esta montanha pode ser escalada com uma
caminhada de quatro horas. A praia mais frequentada desta ilha é a
de Lopes Mendes, por ser de fácil acesso aos visitantes e também ser
apropriada para a prática de surfe. Mas são tantas e lindas praias
como a da Feiticeira, de Camiranga, Praia Comprida, Praia de Fora.
Há uma enseada chamada Saco do Céu onde se refugiam todas as
embarcações à espera de melhoria do tempo quando o mar está revolto.
É um porto seguro (não o do nordeste do Brasil). Visitando a Lagoa
Azul parece estarmos participando de um filme. Neste local, a Gladis
alegre como ela é, perguntou ao Carlos:
- Queridooooo, não gostava de protagonizar nesta maravilha uma cena
romântica e inocente?
O Carlos algo surpreendido mas sem perder o seu sangue-frio, logo
replicou-lhe:
- Amorrrr, gosto mais de ambientes civilizados e pouco inocentes!
Mas voltado à discrição da deslumbrante guia que Deus nos pôs no
nosso caminho: “Como é fantástica a Natureza! Águas verdes límpidas,
peixes espadas, outros coloridos das mais diferentes matizes,
golfinhos que vêm à superfície d’água comer miolo de pão que os
visitantes em seus barcos, saveiros, escunas, jogam e se deliciam
com a visão que parece miragem. É lindo, muito lindo! Lá existia o
presídio aonde ficaram prisioneiros, Graciliano Ramos, Orígenes
Lessa e muitos presos políticos”.
Depois de uma excursãozinha pela Ilha Grande, fomos almoçar à
Pousada Água Viva. Quem escolheu a refeição foi a Gladis, que, logo
mereceu o reparo do “amigo da onça” que se chama Carlos:
- Minha querida, contigo a escolher o menu, já sabemos que é galinha
com massa!
Sorridente e simpática como sempre, ela replicou-lhe:
- Meu Amor, por acaso até escolhi peixe! Robalo cozido, frito ou
grelhado... As mulheres quando querem, surpreendem sempre os homens.
A Gladinha aproveitou logo o ensejo para contar uma aventura que
teve com um robalo: - Certo dia (não sei bem o porquê) deu-me na
cabeça comprar um robalo para cozinhar em casa. Como é óbvio,
comecei por amanhá-lo (preparação para o cozinhar), e, depois meti-o
na panela de pressão. Quando estava cozido, retirei-o mas o cheiro a
peixe era horrível. Para atenuar esta situação (cheiro) meti o peixe
na máquina de lavar com um bom detergente, um cubinho de lixívia e
amaciador perfumado; à temperatura de 90º C. Quando retirei o peixe,
este estava todo moído mas, o cheiro a “peixe” não tinha passado.
Fiquei indecisa: “O que vou eu fazer?”. Pensei nos gatinhos
(felinos) das vizinhas que decerto gostariam deste peixinho. Antes
de começar a chamá-los, e por medida de precaução, coloquei uma
costeleta a assar no grelhador elétrico. Chamei os bichanos (gatos)
que logo compareceram e começaram a comer o robalo. Era um regalo
para a vista ver os felinos a comerem o peixe (robalo). Tão absorta
estava com o espetáculo que nunca mais me lembrei da costeleta que
tinha a assar, que, quando voltei a casa, estava transformada em
carvão! Que vida a minha: nem peixe nem carne! Tive que encomendar
a refeição no bar da esquina da rua onde moro. Mas hoje, com tão
bela companhia, vou comer robalo, até seria capaz de comer qualquer
comida.
Depois da refeição, voltámos ao barquito para uma excursão à
belíssima Angra dos Reis. Todos bem-dispostos, começáramos a
cantar: "AQUARELA BRASILEIRA” ( de Ary Barroso):
“Brasil / meu Brasil brasileiro / meu mulato inzoneiro / vou
cantar-te nos meus versos / ô Brasil samba que dá / bamboleio, que
faz gingá, / ô Brasil do meu amor / Terra de Nosso Senhor / Brasil !
Brasil ! / Pra mim ... Pra mim ...
Ô abre a cortina do passado / tira a mãe preta do serrado / bota o
rei gongo no congado / Brasil ! Brasil ! / Deixa, cantar de novo o
trovador / à merencória luz da lua / toda a canção do meu amor ... /
Quero ver a “sá dona” caminhando / pelos salões arrastando / seu
vestido rendado / Brasil ! Brasil ! / Pra mim ... Pra mim ...
Brasil terra boa e gostosa / da moreninha sestrosa / de olhar
indiscreto / ô Brasil, verde que dá / para o mundo se admirá / ô
Brasil do meu amor / Terra de Nosso Senhor. / Brasil ! Brasil ! Pra
mim ... Pra mim ...
Ô esse coqueiro que dá coco / oi onde amarro a minha rede / nas
noites claras de luar / Brasil ! Brasil ! / Ô oi essas fontes
murmurantes / oi onde eu mato a minha sede / e onde a lua vem bricá
/ oi, esse Brasil lindo e trigueiro / é o meu Brasil brasileiro /
Terra de samba e pandeiro / Brasil ! Brasil ! / Pra mim ... Pra mim
...
Fui notável o sentimento que esta canção foi cantada. O Carlos até
sugeriu que fosse formado um grupo coral “cá estamos nós”, logo
aplaudido pela Gladinha que todos sabem que é contralto.
Embora o tempo disponível não fosse muito ainda passámos por Parati.
No percurso e sob a batuta da Maria Nascimento, todos cantámos mais
ou menos afinados alguns sambas / racho.
Mas tínhamos que regressar à noite à cidade de São Sebastião do Rio
de Janeiro, onde o Sérgio Robert já tinha agendado uma visita a uma
Escola de Samba acompanhado pelo seu amigo Oswaldo.
Quando regressámos ao cais Mangaratiba, tínhamos à nossa espera a
Márcia Leite acompanhada pelo seu filho Pedro. Embora sempre em
“construção”, correndo de um lado para o outro, sempre ocupada, mas
simpática como sempre, convidou-nos para o jantar num restaurante
português para os lados do Centro, na Rua das Marrecas, a Adega de
Portugal. O jantar ia ser “Tripas à moda do Porto”, e logo o Carlos
deu uma enorme gargalhada. Foi explicando que em Portugal (menos na
zona do Porto) esse manjar se chama “Dobrada”, comida, que as
senhoras não gostam, principalmente, quando a sobremesa é “Torta” de
qualquer fruto.
Todos se riram embora não compreendessem bem – mas o Carlos
fechou-se e nada mais disse. Só a Drª Fernanda Garcia, a nossa
jovem Fernandinha é que não quis comer a “Dobrada”, o que até se
compreende por ser tão jovem. Para ela veio um filé com fritas, que
ela adorou! Depois do jantar fomos procurar o amigo do Sérgio, o
Oswaldo, que pertence à ala dos compositores do Salgueiro. Seguimos
em direção à Vila Isabel, local onde nasceu o Noël Rosa, ilustre
compositor e sambista, responsável por sambas que são verdadeiros
clássicos da MPB, como o “Feitiço da Vila”, em homenagem ao bairro.
Logo na saída, toda a turma começou a tentar cantar sambas deste
compositor: “Feitiço da Vila”:
“Quem nasce lá na Vila, / Nem se quer vacila / Ao abraçar o samba, /
Que faz dançar os galhos / do arvoredo, / Faz a vida nascer mais
cedo. / Lá em Vila Isabel / Quem é bacharel / não gosta de samba. /
São Paulo dá café, / Minas dá leite, / Mas a Vila Isabel / dá samba.
/ A Vila tem / Um feitiço sem farofa, / sem vela e sem vintém, / que
nos faz bem ... / lá-rá-lá ...”.
“Seu Garçon”
“Seu garçon faça o favor de me trazer depressa / uma boa média que
não seja requentada; / Um pão bem quente com manteiga à bessa, / Um
guardanapo e um copo d’água bem gelada. / Feche a porta da direita
com muito cuidado / que eu não estou disposto a ficar exposto ao
sol, / vá perguntando ao seu freguês do lado / qual foi o resultado
/ do futebol. / Telefone ao menos uma vez / para três quatro, quatro
três, três, três, / Vá pedir ao “seu” Honório / que nos mande uma
caneta / aqui pro nosso escritório. / Seu garçon me empreste algum
dinheiro / que eu deixei o meu com o bicheiro. / Vá dizer ao seu
gerente / que pendure esta despesa / Na cabine ali de frente / Se
você limpando a mesa, / não me levanto nem pago a despesa ... /
lá-rá-lá ...”.
Bem, voltando à Vila Isabel, que tem este nome em homenagem à
princesa Isabel. Este foi o primeiro bairro planeado do Rio de
Janeiro. Parte da fazenda do Barão de Drumond, o terreno foi loteado
e urbanizado ainda no século passado. Foi lá onde surgiu o primeiro
zoológico do Rio. Com base neste zoo foi criado o famoso “Jogo do
bicho”, considerada contravenção penal até hoje por lei, é no
entanto jogado livremente nas ruas do Rio. Na época, o Barão usou
deste sistema como forma de manter o zoo e alimentar seus animais:
cada jaula tinha um número; as pessoas podiam apostar no número, ou
nome do bicho, e no fim do dia havia um sorteio. Saímos de
Copacabana, passamos por Botafogo, Flamengo, chegamos ao Centro,
pegamos a avenida Presidente Vargas até ao fim, e saímos na Praça da
Bandeira; de lá prosseguimos pela Avenida Radial Oeste, passamos
pelo Maracanã (o bairro e o estádio) e logo após o estádio, viramos
ao lado de UERJ (Universidade federal do Rio de Janeiro) e entramos
em Vila Isabel. Logo na entrada do bairro há uma escultura que
representa uma mesa de bar, que deve representar o próprio Noël
sentado com outros sambistas (foi um boêmio consumado e morreu aos
26 anos de tuberculose, em 1936, deixando uma das mais extensas
obras da MPB, que incluí desde sambas a marchas carnavalescas). O
bairro tem fama de bairro boêmio, e possui inúmeros bares de tipos
bastante variados, além disso, suas calçadas, feitas de pedras
portuguesas (do distrito de Leiria – Batalha / Porto de Mós. Não
muito longe da Marinha Grande) como as que pavimentam as calçadas de
Copacabana, cujo desenho ilustra músicas de Noël. Encontrámos o
Oswaldo na rua Maxwell, próximo à quadra do Salgueiro, que, quando a
noite adentra, o lugar super lota, podendo reunir até umas três mil
pessoas. Oswaldo é filho de família de sambistas, seu pai foi um dos
fundadores do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do
Salgueiro. É um negro alto e muito simpático que toca cavaquinho
(também conhecido em Portugal com o mesmo nome e muito usado em
ranchos folclóricos, mormente no Minho. É um violão pequeno, do
tamanho daqueles violões de criança, com timbre bastante agudo, e
muito utilizado em grupos de “chorinho”) , como um mestre. Ele foi
funcionário da CERJ (Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro –
antiga LIGHT) por muito tempo, tendo aproveitado o “programa de
demissões voluntárias”, quando da privatização da empresa, para
montar uma pequena oficina eletrotécnica que lhe fornece substância
e à família; além disso, tem um “regional” de choro (um grupo de
música que toca “chorinho”), sendo fascinado por Pixinguinha. É uma
daquelas pessoas que é capaz de ficar no samba até amanhecer,
tocando, dançando e bebendo, sem se alterar, e, na manhã seguinte,
depois de um banho, ir direto para o trabalho com o mesmo bom-humor
da noite. Parte do “regional” do Oswaldo também pertence à ala de
compositores do Salgueiro e à bateria da Escola, e num dia de
ensaio, se chegarmos cedo, podemos assistir a uma pequena
apresentação do grupo, por exemplo, tocando:
“CARINHOSO” do Pixinguinha:
“Meu coração, não sei porque / bate feliz quando te vê, / E os meus
olhos ficam sorrindo, / e pelas ruas vão te seguindo. / Mas mesmo
assim, / Foges de mim. / Ah ! se tu soubesses como sou tão carinhoso
/ e o muito, muito que te quero, / e como é sincero o meu amor / eu
sei que tu não fugirias mais de mim / Vem, vem, vem, vem, / Vem
sentir o calor / dos braços meus / à procura dos teus, / Vem matar
esta paixão / Que me devora o coração, / e só assim então, / serei
feliz, bem feliz”.
Esta abertura, de “chorinho”, é apenas para abrir o apetite: o
“choro é um estilo musical bastante melódico, com uma estrutura,
tanto melódica quanto de arranjo (o Arranjo é imprescindível, e
riquíssimo em instrumental) que tem muito a ver com a música
barroca, cheio de contrapontos instrumentais, mas que soa de maneira
nostálgica e chorosa. O Sérgio sentia-se nas “suas sete quintas”
(como o peixe na água). Pegou num braço do Carlos arrastando-o para
o canto, para entusiasticamente lhe ir dizendo (aqui o autor pede
desculpa de divulgar esta conversa):
- Amigo Carlos, quando começar o samba, vais saber porque passei
todo o dia te aconselhando o maracujá (talvez devesse ter
recomendado algo mais forte...) Não é apenas o ronco da cuíca, que
parece sair bem do fundo da alma num profundo lamento; também não
será somente a marcação potente do surdo e o ritmo contagiante;
também não será aquela alegria que envolve tudo e que te leva, mas
principalmente a imensa sensualidade que se espelha nos corpos
reluzentes e elásticos... E as meninas... Há, as meninas! Rapaz, tu
vais ficar vesgo: não saberás para onde olhar! Aquela mulher já meio
gorda e entrada na idade, se transforma, todo seu corpo se move com
uma cadência inimaginável; aquela senhora de idade, se torna uma
mocinha e dança como se tivesse 15 anos... E as meninas, Carlos?!
Ah, as meninas. Meu Deus! Não sei onde estava o Criador quando as
fez; que inspiração o Fez criar, mas sem dúvida, ele estava bastante
inspirado quando as fez. Não fosse o bastante encher nossos olhos e
corações com tanta beleza, ainda lhes deu a capacidade de moverem-se
como se não fossem feitas de carne e osso, mas de borracha, e sob a
batuta do samba, se transformam em deusas. São Afroditas negras,
morenas, mulatas, e mesmo algumas branquinhas, e de seus corpos
móveis, absolutamente móveis e e frenéticos, brota o desejo, o
fascínio e a sedução, como o néctar escorre da flor. Mas Carlos,
como tudo na vida terá de ser como a lei do sal “nem muito nem pouco
– só o necessário”, o que quero dizer é que se deve tomar muito
cuidado, porque aquele “negão” dobrado, aquele armário, aquele
colosso negro postado no balcão, cujos músculos saltam para além da
roupa, pode ser exatamente o par daquela linda morena que parece
jogar charme para todo o lado. Há que ter muito cuidado quando em
roda de samba, há que andar no “sapatinho”, por se diz por cá: se
soubermos nos comportar, seremos sempre bem vindos, seremos
convidados para um “feijoada completa”, um churrasco, ou
simplesmente uma cervejada. O Oswaldo, com certeza, depois do samba
nos vai convidar, e fazer questão que fiquemos em sua casa, porque
no dia seguinte deve haver não sei qual comemoração – eles estão
sempre comemorando alguma coisa, e, para a qual ele fará questão de
nossa presença. Sempre que chegamos seremos efusivamente saudados
por esta gente que parece ter a amizade como profissão. Mas se
“pisarmos na bola”, “escorregarmos no tomate” ou fizermos
determinadas necessidades fisiológicas fora do lugar apropriado – o
que equivale a dizer: se não soubermos nos comportar – então a coisa
pode ficar muito feia. Carlos, aproveito o ensejo para te citar
outras letras sobre este assunto. A primeira é uma gafieira (clubes
noturnos de samba, onde se dança por com par, numa dança cheia de
estilo que faz lembrar o tango nos passos). Não me recordo o nome
nem o autor – toma atenção:
“Moço, olha o vexame: / o ambiente exige respeito / Pelos estatutos
da nossa gafieira, / dance a noite inteira, mas dance direito. /
Aliás, pelo artigo cento e vinte, / o cavalheiro que fizer o
seguinte: / subir na parede, dançar de pé pro ar, / beber a noite
inteira sem querer pagar, / será devidamente censurado / se levantar
o corpo, vai pra mão do delegado”.
“DEIXA A MENINA SAMBAR” de Chico Burque
“Não é por estar na sua presença, / meu querido rapaz, mas você tá
mal, / Você tá de matar: / São três horas, o samba tá quente, /
deixa a menina com a gente, / deixa a menina sambar / em paz. / Eu
não queria jogar confete, / mas tenho que dizer: / você tá mal de
mais, você tá de doer. / São três horas, o samba tá quente, / deixa
a menina contente, / deixa a morena sambar / em paz. / Por trás de
um homem triste / há sempre uma mulher feliz, / e atrás desta
mulher, / mil homens sempre tão gentis, / Por isso, para seu bem, /
ou tire ela da cabeça, / ou mereça a moça / que você tem”.
- Bem, Carlos a nossa noite de samba apenas começou. Podes imaginar
o que quiseres: lá pras tantas pode haver algum bate-boca, e os
contendores irão desfazer suas diferenças no lado de fora da quadra,
talvez com algumas meninas tentando conter seus respetivos
namorados, mas isto só durará algum tempo, e não conseguirá abafar a
onda contagiante do samba; também pode acontecer de que uma ou
várias das moças resolvam que estão a fim de te levar pra casa (ou
de que a leves para um motel). Lá dentro a “azaração”, o flerte, a
sedução correm soltos, e além de liberado, é quase obrigatório;
também não há nenhuma forma de preconceito: nesta autêntica liturgia
mundana, tudo é permitido, respeitados os limites individuais, e
haverá muitos homossexuais de variados estilos, desde “drags-queens”,
até simples “entendidos”, passando por travestis, todos igualmente
empenhados na arte de arrumar uma companhia para o amor. Tu dizes
que não sabes dançar, pois bem, podes estar certo que mesmo que não
queiras, teu corpo vai se mexer automaticamente no ritmo do samba, e
lá pelas tantas estarás sambando sem medo de “pagar mico” ou de
fazer feio. Ninguém nem irá reparar que teus pés não conseguem ( e
não conseguirão mesmo, porque esta arte exige que se tenha sangue
negro, ou que se tenha nascido no samba) seguir no mesmo frenesi com
que se movem os pés dos sambistas à tua volta: todos estarão
absolutamente concentrados em incorporar a divindade carnavalesca
(provavelmente descendente de Baco ou Pã) e fazer fluir seu gozo.
O Carlos estava encantado com este relato tão real do Sérgio Robert.
Já sabia que o amigo tinha uma bagagem cultural muito acima da
média, mas mesmo assim ficou surpreendido com a sua fluidez
oratória, e o bom ritmo para cantar. Nota 10! O Carlos, sorridente,
respondeu ao Sérgio:
- Tens razão amigo, sinto que o maracujá está a ser muito fraco... O
que receitas mais forte?
Falámos no deus Baco : - É um deus (pagão) romano do vinho, filho de
Júpiter e de Semele, filha de Cadmo. Baco foi mandado por Júpiter a
Nisa, na Trácia, onde as ninfas o educaram. Ali o deus pagão ensinou
a cultura da vinha e, para divulgar a sua arte aos homens percorreu
numerosas terras, entre as quais o Egipto e a Índia. O nome de Baco
é muitas vezes empregados para exprimir a ideia de consumo de vinho.
Também falámos de Pã (ou Pan): “Filho de Hermes e da ninfa Dryope,
deus dos rebanhos: personificava a Natureza. Figurava no cortejo de
Dionisos, corria pelos montes e vales, caçando ou acompanhando a
dança das ninfas com a sua flauta pastoril, por ele inventada. Tinha
chifres e pés de cabra. A sua aparição assustava e daí provém a
expressão “terror e pânico” para designar um medo repentino e
violento”.
Depois de uma noite de grande farra (forró), todos recolheram ao
apartamento para tomar um merecido banho e depois descansar... Tudo
estava muito bem programado se não houvesse sempre um mas... Quando
começaram a sair do duche, todos (ou quase todos) encontraram seus
sapatos trocados, com os atacadores com muitos nós e cheios de creme
de fazer a barba. Curiosamente (ou talvez não), só os tênis do
Carlos é estavam imaculados. Ainda houve umas bocas (dicas) no
sentido que o Carlos sofresse um corte de cabelo total á máquina
zero – mas como ele já não tem muito cabelo. Com este rebuliço todo,
a vontade de dormir tinha passado e assim resolveram ir para a areia
da praia até o dia clarear. Aí, a Maria Nascimento mostrou os seus
tributos de maestra, agarrando num cabo de vassoura e obrigando
todos a acompanhar a cantar:
“TREM DAS ONZE” de Adoniram Barbosa
“Não posso ficar / Nem mais um minuto com você. / Sinto muito amor,
/ mas não pode ser / moro em Jaçanã / se eu perder esse trem / que
sai agora às onze horas / só amanhã de manhã. / E além disso, mulher
/ tem outra coisa / minha mãe não dorme / enquanto eu não chegar /
sou filho único / tenho minha casa / pra olhar ... / Não posso ficar
...”
E muitas canções foram cantadas, como por exemplo: “ALLAN – LA –
Ô de Haroldo Lobo / Nassara
“Allah – la – ô, ôôô, ôôô, / mas que calor, ôôô, ôôô / atravessamos
o deserto de Saara, / O Sol estava quente / e queimou a nossa cara.
/ Allah – la – ô, ôôô, ôôô, / Mas que calor, ôôô, ôôô. / Viemos do
Egito / e muitas vezes nós tivemos que rezar / Allah, Allah, Allah,
meu bom Allah. / Mande água pro ioiô, / mande água pra iaiá, / Allah,
meu bom Allah .../ ô, ôôô, ôôô ...”
Já o sol ia muito alto quando os nossos amigos voltaram para casa.
Cheia de sono e muito cansada, a Sarita sentou-se num sofá,
adormecendo rapidamente. A determinada altura começou, mansamente, a
ressonar; logo a célebre dupla Carlos / Sérgio se abeirou dela com
um recipiente com água e sabão diluído, colocando esta solução nos
lábios da Sarita. Conforme ia respirando, ia fazendo uns balões. A
gatita Sari olhava muito admirada para aquela cena e olhava para o
Carlos como que dizendo:
- Dizem os humanos que a vingança é o prato favorito dos deuses –
será que tu sejas algum deus pagão?
Fim do 5º dia de “UMA SEMANA NO RIO”
Trabalho de ficção,
qualquer figura ou situação é pura coincidência.
A seguir: 6 episódio de “UMA SEMANA NO RIO”