A noite passada foi
bastante divertida. O Humberto, o marido da Arlete ofereceu o jantar
a toda a turma. Como bom sergipano de Aracaju que é, mas radicado no
Rio de Janeiro há bastante tempo, disse que conhecia um restaurante
típico nordestino. A Gladis sorriu, aquele belíssimo sorriso que
conhecemos, A Arlete esfregou as mãos dizendo:
- Gente, não podemos perder este convite!
Logo o Carlos não perdeu a pitada ao perguntar se o Humberto estava
doente. – Porquê? - Perguntou-lhe a Arlete.
O que o nosso amigo logo respondeu:
- Arlete, não leve a mal, mas uma franqueza destas, melhor, pagar o
jantar a toda a malta...
– “Ho, Carlos, você é impossível! Pessoal, vamos ficar com a
sugestão (para o Carlos franqueza) do Humberto?
Depois de saberem que a comida nordestina é muito boa, todos
concordaram – pela comida e pelo jantar pago. Todos se movimentaram
para o Bairro de Vila Isabel, onde fica o restaurante “Baião de
Dois”. Pelo caminho todo o mundo começou a dançar o baião de dois
(recordam-se do filme italiano “Ana” do tempo do neorrealismo?
À frente a Gladinha e o Serjo, os dançarinos do grupo – e que
dançarinos! Quando chegámos ao dito cujo restaurante, todos iam com
fome de lobo. Logo na entrada, encontrámos duas figuras ornamentando
o Restaurante, eram a Maria Bonita e o Lampião, conhecidos em todo o
Nordeste (e não só, parecendo que deviam ter uma sepultura
decente...) Estávamos a ajudar a juntar as mesas, quando a Clara Rio
apareceu disposta a juntar-se ao grupo. Tivemos que informar a nossa
nova amiga que o jantar era oferta do Humberto, o que não a
atrapalhou mesmo nada. Chegou junto do marido da Arlete e, com uma
grande descontração disse-lhe:
- Humbertozinho... Você é tão bonitinho que bem podia também me
oferecer o jantar!
Foi uma gargalhada geral, sinónimo de boa disposição e ótima
camaradagem. Após juntarmos as mesas e enquanto o Sérgio desenhava
umas “naturezas mortas” nas toalhas, o garçon Chiquito, um pequeno
cearense no tamanho, mas grande de coração nos deu todas as
informações sobre o cardápio nordestino. O Carlos que a todo o
momento se queixava que estava com enorme “fomeca”, escolheu: carne
de sol com baião de dois (embora ele não saiba dançar), puré de
aipim, pirão de leite (com muito açúcar!), farofa nordestina e
pimenta à vontade (embora ele nos fosse dizendo que não devia de
comer muito picante… porque é viúvo!). A Arlete e a Gladis
escolheram carne de sol com feijão de corda, aipim frito, farfa
nordestina e manteiga de garrafa (o que também agradou à gatita Sari).
Outros escolheram moqueca servida na telha com pirão; outros
carneiro com baião de dois, aipim, batata corada, farofa nordestina
e molho de hortelã (o Carlos ia esgotando a hortelã pois gostas de
comer as folhas); a Fernanda Garcia acatou a sugestão do garçon:
“Arrumadinho do Chiquinho”, o que todo o mundo começou a aconselhar
a jovem Fernandinha:
- Menina, veja lá onde se mete – porque “arrumadinho”... poderá
(eventualmente) ter outras interpretações... Mas não, a refeição era
composta de carne de sol, aipim, farofa de banana e feijão de corda.
Como nem todos gostam de cachaça, o garçon deu para cada um dos
clientes um pedaço de rapadura, dizendo-lhes que é uma delícia com
café. No final da refeição, o Humberto dirigiu-se ao banheiro, o que
originou que alguns ficassem preocupados com quem ia pagar a
despesa. Mas o nosso amigo regressou quase de imediato.
No regresso, o Carlos pediu à Clara Rio que falasse um pouco da
arquitetura de alguns monumentos do Rio de Janeiro (seus estilos,
épocas, etc.). E como arquiteta, a Clara percebe bem deste
assunto... É um expert no assunto!
- “Os monumentos mais antigos estão concentrados em torno da
Esplanada do Castelo e da Praça Quinze de Novembro, no centro do
Rio. É que a cidade nasceu em 1565 no Morro Cara de Cão, na Urca,
mas dois anos depois foi transferida para o Morro do Castelo. O
Morro foi denominado assim por causa da Fortaleza do Castelo, uma
área fortificada onde foram sendo erguidas as primeiras casas, a
Igreja Matriz e outras tantas construções. Mas o Morro foi demolido
na década de 1930. Foi um escândalo este arrasamento que teve como
pretexto a circulação de ventos e o combate a epidemias. Muito dizem
que muita gente ganhou dinheiro, basta ler Machado de Assis, João do
Rio... Machado escreveu que havia um tesouro dos jesuítas enterrado
no Castelo e até sonhava com isto, há grande, Machado...)
Mas que se saiba não se encontrou nada durante o arrasamento. Acho
que o tesouro era o próprio Morro e o que havia nele, a memória mais
antiga da cidade. Dele remanescem muitos registros documentais e
algumas poucas recordações materiais: o marco de fundação da cidade
e a lápide tumular de seu fundador Estácio de Sá, assim como
esculturas religiosas e outros objetos da primeira Igreja Matriz
(hoje na Igreja de São Sebastião, na Tijuca), além de um portão
(hoje no Colégio Santo Inácio, em Botafogo) e o púlpito e os
retábulos da antiga Igreja dos Jesuítas (hoje na Igreja do Bom
Sucesso, no Centro). O Rio tem muita coisa bonita para se olhar. O
mais belo é a própria conformação da paisagem, a relação entre o mar
e montanha e a ocupação urbana que não confessa mas sempre se curva
à grandeza das belezas naturais. Durante séculos, os viajantes se
emocionavam ao descortinar a vista na entrada da barra da Baía de
Guanabara. E quem não se emocionava diante de tantos cenários
indescritíveis? Érico Veríssimo (autor de “Olhai os Lírios do Campo”
– entre outros) falava que a vista do Rio do Alto do Corcovado era
como um soco no estômago. É mesmo de tirar o fôlego. Dá tonteira de
tão bela. Quanto à produção urbana, apesar de um certo
desordenamento urbanístico (que tem a cara da cidade) e de muitas
construções bonitas terem sido demolidas sem outra razão que a
especulação imobiliária, não se pode deixar conhecer o Paço Imperial
na Praça Quinze, sede do governo imperial, o Arco do Telles ali
pertinho e o Chafariz na mesma praça. Perdeu-se a relação da praça
com o mar devido à construção da estação de barcas e de viadutos,
mas enfim, não se deve deixar de ver a praça e também a arquitetura
religiosa ali perto: o Convento e as Igrejas do Carmo (não se pode
deixar de entrar na Ordem Terceira do Carmo para ver as obras de
Mestre Valentim, programa imperdível para quem gosta de arte), de
Santa Cruz dos Militares e da Lapa dos Mercadores. Ver o casario
entre a Praça Quinze e a Igreja da Candelária (contam que Cármen
Miranda (uma cantora de Trás-os-Montes (Portugal) que encantou o
Brasil e que tem um mausoléu no cemitério de São João Baptista
–Copacabana) morou ali perto, mas eu não afirmo nada... ) e conhecer
a antiga Alfândega projetada por Grandjean, com seu magnífico jogo
de telhados. E voltar à Cannelândia, antigo reduto da Boémia a
caminho da Lapa, passando pela Avenida Graça Aranha para admirar o
Palácio da Cultura (atual Palácio Gustavo capanema), o primeiro
edifício modernista de escala monumental erguido no mundo (risco de
Le Corbusier, projeto e execução de uma equipe de arquitetos do Rio
liderada por Lúcio Costa com Niemeyer e Reidy participando) e se
deslumbrar com a volumetria, o pórtico com colunas e os
brise-soleils e azulejos azul-e-branco com cavalos marinhos,
conchas, sereias e outras coisas do mar, rodeado por jardins de
Burle Marx). Ir depois à Cinelândia, onde estão alguns dos melhores
exemplos da chamada arquitetura eclética do início do século
passado: a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o
Supremo Tribunal Federal e o Teatro Municipal (inspirado no edifício
da Ópera de Paris, como quase todos os teatros erguidos pelo mundo
nesta época (exemplo: Teatro São Carlos, em Lisboa). Deve-se subir
ao Morro de Santo Antônio para ver o Convento de Santo Antônio e a
belíssima Igreja de São Francisco da Penitência (que acabou de ser
restaurada) defronte ao Largo da carioca, para depois descer (bem,
talvez tomar um chopp no tradicional Bar Luís, antes de prosseguir o
passeio), andar até à Lapa e levar um susto com a grandeza dos Arcos
da Carioca, primeiro aqueduto construído para abastecer de água a
cidade. Depois caminhar em direção ao mar, para um repouso merecido
em um banco do Passeio Público, depois de percorrer aleias, para se
encantar com o lugar. E no fim de tudo ainda ir andando até à Glória
para ver a graciosa Igreja no alto do Outeiro (linda! Tem que sentar
no parapeito no adro, olhar e depois entrar na igreja e sentir o
clima mágico que há lá), quase sem conseguir tirar os olhos do
Parque do Flamengo e da vista panorâmica da Baía com o Pão de Açúcar
ao fundo, vendo pelo caminho, durante todo esse passeio, períodos de
história se sucederem e entrecruzarem com intimidades e contrastes
harmônicos que fazem este lugar gostoso demais de se conhecer e
morar. E tem muito mais!
Enquanto a Clara Rio falava, toda a turma estava como presa nas suas
palavras. No final, a nossa querida amiga ouviu a primeira grande
ovação do dia. E mereceu.

Vocês imaginam o que é o
percurso Bairro Vila Isabel até perto do Forte de Copacabana? Mas
com tão agradável companhia, nem se deu pelo esforço. Como íamos no
outro dia até Niterói, a Arlete disse que tinha uns apontamentos e
começou a procurá-los em sua mala, quase tão grande como ela e com
inúmeros papéis (pelo menos papéis). O Sérgio ainda lhe perguntou se
“era o escritório de uma advogada! Mas no fundo (mesmo no fundo) lá
encontrou os tais apontamentos referentes a Niterói:
- Pessoal, para chegarmos a Niterói, temos duas opções: pegar a
barca ou, atravessar de carro a ponte Rio-Niterói que tem 14 Km de
extensão. De barca vai-se avistando a paisagem da Baía de Guanabara,
vendo-se ao fundo o Pão de Açúcar, os aviões pousando e deslocando
no Aeroporto Santos Dumont, e aproveitando, ainda, a brisa do mar
batendo gostosamente no rosto de cada um. De carro, com o calor que
está fazendo, somente com ar condicionado, pois, de contrário, a
malta chegará lá toda suada.
Com grande contentamento da Gladinha, todos optaram pelo passeio de
barca – mas não timonada pela Gladis!
Depois de chegados a casa, como habitualmente, o Carlos e o Sérgio,
alegando ir “dá ar à pobrezita da gatita Sari”, foram para a areia
da praia. Mas os miados que de lá se ouviam, não eram da gatita
(pelo menos felina…)
Logo às 08 horas, a Maria Nascimento, acompanhada pela Clara Rio,
começou a acordar o pessoal (com uma já ninguém conseguia dormir
mais um pouquito, agora imaginem com duas).
Nos banheiros começou a habitual confusão. Quando chegou a vez da
Clara tomar banho, alarmada começou a perguntar se alguém tinha
visto o seu sabonete, o champô, os cremes, a pasta dos dentes. A
Teta deu uma enorme gargalhada ao responder-lhe:
- Minha querida, se não encontras essas coisas, aconselho-a a
perguntar ao Sérgio e ao Carlos. Posso estar enganada, mas…
- Eu vingo-me! Ou não seja Escorpião! – Murmurou a Clara.
Mas pensava que, ao sair do duche tinha os atilhos dos sapatos de
ténis tirados dos alvéolos e feitos em trança. Nem a ameaça de
picada de escorpião lhe valeu!
Já na barca – que maravilha! Bem gostoso o balanço da barca nas
ondas do mar. O vento parece cumprimentar a todos os passageiros.
Chegamos e logo deparámos com a estátua do índio Araribóia. Conta a
lenda que este índio a travessava a Baía de Guanabara a nado. O
Sérgio comentou para o Carlos: - Ena Pá, este camarada tinha cá um
fôlego!
A cidade é muito limpa, tem todos os serviços, muitos bancos, lojas
de todos os tipos, shopping, etc. A Irene quis molhar os pés e ver
de perto a Praia de Itacoatira, pois tinha ouvido dizer que era
majestosa em beleza (e é!).
A Arlete toda atarefada, de óculos escuros no cabelo e sempre
acompanhada da sua enorme mala, era a nossa guia, para mais, já
tinha tido um “refúgio” em Itaipu. É uma praia muito bonita, com
colónia de pescadores, bares com cheirinho a peixe frito fresquinho
(que a Gladinha adora!).
Depois fomos conhecer a bela praia de Piratininga, com muitas casas
bonitas, coqueirais, barcos passando. Pertinho fica a Praia de
Camboinhas, que é bastante selvagem na sua beleza natural. O homem
conservou-a, felizmente. Há muitas mansões, condomínios de luxo,
gente bonita (então as “gatinhas”…); o trânsito automóvel é muito
movimentado. Seguidamente fomos conhecer a Praia de Itacoatiara, de
mar aberto e muito perigosa, mas de exuberante beleza! A certa
altura, a Fernanda Garcia subiu para um banco à beira-mar, fez um
gesto para que lhes desse-mos atenção:
- Meu queridos! – Começou ela – vocês não se esqueçam que cá a
Fernandinha é de Niterói! Reclamo que me escutem o que vos vou
dizer: A cidade de Niterói, desde os primórdios de sua fundação,
teve sua história ligada aos índios: a começar pelo seu significado
do seu nome – “porto sinuoso” – consequentemente “água que se
esconde”, no dizer dos primitivos habitantes. Algumas datas
importantes de Niterói: a 22 de Novembro de 1573, posse solene pelo
cacique Araribóia – a 10 de Maio de 1819, a criação da Vila Real da
Praia Grande – em 1834, a Vila Real da Praia Grande assume o status
de capital da Província – em 1835, Elevação à categoria de Cidade
com a denominação Nictheroy (o nome resgata o topônimo tupi –
Nheteroia – ou seja “baía sinuosa”, que foi a primeira denominação
da Baía de Guanabara) – em 1975, a fusão dos antigos Estado do Rio
de Janeiro e da Guanabara. (Niterói perde o status de capital,
transferida para a cidade do Rio de Janeiro. Hoje a capital é
Brasília). Agora, meus queridos amigos, vamos visitar o meu bairro
(São Francisco). A Praia de São Francisco é a mais frequentada pelas
crianças da zona sul. Possui águas calmas e frias com areia clara e
fina. Localiza-se numa área residencial (onde não existem prédios
acima de 4 andares e 99% são casas) e conta com um calçadão em toda
a sua orla que é muito usado para passeios e a prática do Cooper
(testes físicos), além de uma vista maravilhosa para a baía de
Guanabara e Rio de Janeiro (Corcovado, Pão de Açúcar, etc.). À
noite, a Praia de São Francisco vira point dos jovens, com seus
bares, restaurantes e boates muito bem frequentados, que atraem
tanto os niteroienses quanto os cariocas e gente famosa! No final
todos aplaudiram a Fernandinha.
Antes do regresso, pois a nossa agenda era muito extensa nesse dia,
ainda fomos almoçar a um restaurante à beira-mar: peixinho fresco,
feito na hora para o deleite de todos.
Regressámos ao Rio de Janeiro e por sugestão (boa sugestão) do
Sérgio Robert, fomos visitar Tijuca.
Para conhecermos bem a Tijuca promovemos a Guia principal o Sérgio
Roberto, que logo pensou que o tínhamos promovido a Grão-Guia- de
Tijuca:
- Meus amigos, tomem muita atenção ao que vos vou dizer...
Entretanto, a Cármen quis saber se a Clara tinha encontrado o seu
sabonete e as outras coisas do género, o que ela respondeu:
- Não encontrei não, mas como boa Escorpião que sou, ainda vou tirar
o sapato.
O Carlos dando uma enorme gargalhada lhe perguntou:
- Minha querida, você quer tirar o sapato por lhe doerem os calos?
A Clara Rio quase o fuzilou com os olhos, respondendo-lhe:
- Não meu “querido”, é para te dar com o sapato na cabeça!
Entretanto, o Sérgio promovido a Grão-Guia, nos foi dizendo:
- Atenção a todos: “Ao chegar ao Alto da Boa Vista, dirigimo-nos
para a zona norte da cidade. E assim, chegados ao Passeio Público,
no Centro do Rio de Janeiro, vamos entrar pela Lapa (não pela Lapa
de Lisboa que fica na zona da Estrela e perto da residência do 1º
Ministro português), mas seguindo, vamos atravessar o limite dos
Arcos. Como podem verificar, esta região é um tanto soturna à noite,
povoada por travestis e prostitutas (assim como o género do Monsanto
em Lisboa), mas ninguém está pensando em passear na Floresta da
Tijuca à noite, portanto, o que vemos são casarões antigos, datando
dos finais do século passado até meados deste, ladeados por uns
poucos prédios mais novos. Agora, passaremos pela Praça da Cruz
Vermelha e vamos entrar na Rua Mem de Sá. Entretanto, vamos passar
por dentro do famoso Bairro do Estácio de Sá. Se o Carlos tem
prestado atenção, sabe que este bairro?
O Carlos embora algo distraído, logo respondeu ao amigo: - Sei sim!
É de uma das mais famosas Escolas de Samba, que já me falaste.
Pois é, o Estácio já foi outro bairro boémio, (assim como já foi o
Bairro Alto, (Que Deus tem - em Lisboa). Sua proximidade com também
famosa e finada Praça Xl, destruída para dar passagem à Avenida
Presidente Vargas, onde se juntavam as Escolas de Samba até ao meio
do século, o que tornou de um folclore já quase apagado que o ligava
à malandragem dos anos 40. Hoje o Estácio apresenta um aspeto meio
esquecido pelo tempo, os mesmos prédios antigos e meio abandonados,
alguns transformados em “cortiços.
– Amigos, por favor não se dispersem (pedia a todo o momento o
Sérgio). Por este caminho, estamos ladeando o trajeto do Metro (que
por sinal até poderia ser usado como alternativa, mas como o Carlos
diz que não gosta do metro, porque não é nenhuma toupeira… À frente,
entramos na Praça Saenz Peña, e estamos no coração da Tijuca. A
Tijuca já foi o coração e limite da zona Norte. Quando chegarmos
além deste bairro, que era considerado distante, ainda na minha
infância. Nessa época era um bairro tipicamente residencial de
classe média ( a Gladinha soltou um grito?: -
Ai minha rica Tijuca!
- Tornado conhecido pela mentalidade conservadora dos seus
habitantes; os avanços do progresso mudou tudo, e a Praça Saenz Peña
hoje em dia é uma mera passagem quase não notada, além de estação
final da linha verde do metropolitano, em meio do trânsito caótico
da Rua Conde de Bomfim (não rua de Lisboa, personagem do tempo de D.
José l - do ministro Marquês de Pombal) que corta todo o bairro até
à subida da Usina da Tijuca, servindo-lhe de eixo. Agora tomem
atenção: Só a partir da confluência do Conde de Bomfim com a rua do
Uruguai que a Tijuca volta a tomar o aspeto do “antigamente.
A Tijuca é um bairro bem grande, com uma série de regiões menores, e
após o cruzamento com a rua do Uruguai, estaremos entrando na região
chamada de Muda. Esta região se estende até à Usina, e esta acaba
na subida do Alto da Boa Vista, quando então o panorama se
transforma completamente. A partir daí já não haverá quase prédio,
substituído pelas poucas e ocultas mansões, e claro, pela
floresta... Reparem nesta sensação de quase sentir que foi ligado o
ar condicionado ... Vamos subir a montanha. O alto da Boa Vista é
uma das primeiras florestas de reflorestamento do Brasil . Foi uma
antiga região de plantio de café, transformada, por replantio, em
bosque de caça do Imperador D. Pedro ll, ainda no século passado
(não quero dizer caça a ninguém “de Santos).
Durante a subida, vamos passar por vários cantinhos bastante
aprazíveis (o Carlos e a Gladinha que não se atrasem) , como as
curvas do violão e do bandolim, onde foram construídas pracinhas em
torno de seus laguinhos centrais, com bancos à volta, e onde
(imaginem) quando eu era criança, minha família às vezes vinha fazer
piquenique dominical. São quatro quilómetros de uma subida que já
fiz a pé em outras épocas, quando aí morei, na ida e vinda para o
colégio. E mais tarde, à cata dos bailes e das moças, já na
adolescência.
– Maladrão! – Exclamou o Carlos - Cada vez mais vamos descobrindo
teus “podres.
O Sérgio sorriu e retorquiu:
- Carlos, nem faço comentários a teu respeito. O silêncio é d’ouro
(já disse Confúcio). Entretanto, e depois deste lamentável acidente
com o nosso querido amigo Carlos, aconselho-vos a olhar lá para
baixo a descortinar visões maravilhosas da cidade. E vamos chegar à
Praça Afonso Vizeu (olha Carlos, aqui escreve-se com “z”), no centro
do Alto da Boa Vista, com um chafariz no centro e rodeada de árvores
de jambo e banquinhos. Depois, desce-se em direção à Vista Chinesa
(avistando-se ao fundo a Pão de Açúcar), às Furnas e a Barra da
Tijuca, sendo que logo no início do percurso, encontramos, à
esquerda, uma outra entrada para o Cristo Redentor.
O Carlos que não perde pitada para chatear o amigo Sérgio, chegou
junto deste perguntando-lhe:
- Amigo! Por acaso nunca te “perdeste” na Vista Chinesa? Aquele caso
dentro do automóvel?...
– Cala-teeeeeee Carlooooossssss! Olha se eu começo a “desbobinar”
a tua vida... Cala-te menino. Mas depois de mais uma lamentável
interrupção deste incorrigível Carlos, vamos continuar: Num destes
recantos, situa-se o restaurante “Dos Esquilos. Carlos, tu outrora
não tiveste uma “esquila” que quando não te queria que deitava um
líquido de grande fedor?
– Olha amigo Sérgio, não estejas p’ra a inventar, que ninguém
acredita nessas tuas baboseiras (mentiras)!
- Mas vamos pela direita, entrando no Parque da Floresta da Tijuca.
Vamos ser envolvidos por árvores frondosas. A estrada é sinuosa e
estreita, permitindo apenas um carro em cada mão, pelo meio do
bosque, por mais de 6 quilómetros de percurso até o início da trilha
que leva ao pico da Tijuca; mas há vários pontos no caminho para ser
vistos, como por exemplo, a “Cascatinha Taunay”, primeira parada do
percurso. Mas também a “Gruta Paulo e Virgínia” (falo em “grutas” e
o Carlos fica logo todo alvoraçado), o Lago das Fadas” (estará lá
aquela pessoa para o Carlos? Ainda se pode ver esquilos e micos
(pequenos macacos), além de pássaros maravilhosos, incluindo o
sabiá. Mas também muitos tiês, sanhaçus e outros menos conhecidos.
Também abundam por lá borboletas de um azul metálico, (Carlos, eu
sei a que chamam de “borboletas” em Portugal; por cá são bichas)
Como estão vendo, é sempre preferível fazer este trajeto a pé,
porque só assim se pode atentar para os pequenos detalhes, e estar
envolto mais pela natureza, molhando os pés em pequenos regatos e
nascentes que encontramos, além de podermos observar melhor a fauna
e a flora local. Como sempre, o Carlos nunca podia ficar calado, e
assim:
- Amigos, quando formos visitar Sintra, vocês terão de andar e muito
mais! Contem com pelo menos andar 30 Km, e por monte abaixo monte
acima.
Na altura, ninguém quis acreditar, mas veremos.
- Ho, Carlos, cala-te – quase lhe gritou o Sérgio Robert, que
continuou – Meus amigos, desculpem mais esta (será a última?),
intervenção “pouco a propósito” do Carlos. Para subir o pico da
Tijuca, só é possível a pé. Depois de chegarmos ao “Belvedere”, onde
finaliza e estrada de carros, pega-se uma trilha de 3 ou 4
quilómetros, que termina por uma escada escavada na pedra, chegando
ao pico. Aí se tem uma das mais belas vistas possíveis do Rio de
Janeiro se o tempo estiver bom, ou então, estaremos como que numa
ilhota em meio do mar de nuvens. De lá é possível ver quase que todo
o Estado do Rio de Janeiro. Descendo-se em direção à Barra da Tijuca
temos ainda diversas opções, começando pela “Vista Chinesa”, um
quiosque construído pelo próprio Imperador D. Pedro ll.
Neste momento o Carlos atirou enorme gargalhada ao dizer ao Sérgio:
- - Ho rapaz, tu falas tanto na “Vista Chinesa” que já tens os olhos
em bico. Conta cá para agente “as pinturas” que de dá te inspirou!
– Com este Carlos é impossível uma pessoa falar a sério. Se eu
fosse Escorpião como a Clara Rio, vingava-me. Mas não sou (pelo
menos até ver…) Continuando: Descendo-se ainda mais, sempre ladeados
pela floresta, aqui e ali cortada por pequenas povoações, chegamos à
Furnas da Tijuca. Nas Furnas, como o próprio nome indica há uma
sequência de pequenas grutas (falei em grutas e o Carlos já está no
“ar”) Mas por favor cala-te), formadas por imensas pedras. Existem
alguns restaurantes onde se pode beber uma água ou comer alguma
coisa. Era muito comum, antigamente, encontrar pedaços de lava
vulcânica nas Furnas. Quando criança nós chamávamos de “pedras que
boiam”, porque lançávamos estas pedras à água e elas boiavam. Mais
tarde vim a saber que boiavam por possuírem ar em seu interior.
Estávamos a admirar estas maravilhas quando apareceu a Márcia Leite,
apressada e sem tempo (como de costume), dizendo-nos:
- Amigos, é só para vos dar um alô! Como sabem, sou uma pessoa muito
ocupada e sempre em crescente crescimento! Um adeuzinho a todos.
Depois, passamos ainda pela Pedra da Gávea, cuja face de pedra se
volta para o lado do Rio, de olho num mistério que apenas ela
conhece, e, finalmente chegámos à Barra da Tijuca, e sua magníficas
praias e condomínios de luxo.
Aqui, pondo-se no alto dos seus 1,58 m. e sustentada pelos seus 55
Kg, a Arlete interveio dizendo:
- Meus amigos! Eu também tenho uma palavrinha a dizer sobre a Barra
da Tijuca! Se não me atenderem, farei queixa a meu marido e, o
Humberto ficará muito zangado!
Dizendo isto, a nossa advogada começou e desenrolar:
- Como sabem, a Barra da Tijuca fica na zona Oeste do Rio de Janeiro
e, teve um crescimento enorme. Para aqui vieram os ricos da zona Sul
que queriam ficar mais à vontade, num lugar tranquilo e foram
construindo suas mansões com lindos jardins, piscinas e o mar como
eterna vista. Há o bairro Novo Leblon, Nova Ipanema, todos com
lindíssimas casas (em Portugal diz-se vivendas). O boom imobiliário
tomou conta daquela área, e em pouco tempo lançaram grandes
condomínios, mais parecendo uma cidade. Tem tudo dentro do
condomínio: jornaleiro, farmácia (drogaria ou boticária), escola,
academia de ginástica e outras coisinhas mais. E aonde há muita
aglomeração, surgem também muitos problemas. A violência chegou lá
(ainda se fosse só lá), pois há assaltos e sequestros e a polícia
não dá conta. Quando é preciso aonde está a polícia? Também um
elegante e requintado bairro chamado Jardim Oceânico onde os prédios
têm apenas três andares – que lindo bairro! Mas, há sempre um mas...
Os moradores já estão com graves problemas, pois, todos os dias há
assaltos nos apartamentos. As praias já estão poluídas e cada dia as
autoridades ligadas ao meio ambiente estudam (?) formas de resolver
o problemas (ou então têm reuniões para no final confraternizarem
bebendo um copo de whisky). Em princípio de noite, o movimento é
muito grande, está sempre cheia de jovens, casais e gente de
meia-idade se divertindo nos shoppings, cinemas, casas de shows,
etc.. A orla marítima é lindíssima em toda a sua extensão. Mais
adiante, rolando um pouco mais, encontramos o Bairro Recreio dos
Bandeirantes, também com bonitas casas e prédios com poucos andares,
mas, com muitas ruas ainda sem calçamento. O crescimento desordenado
também poluí as praias com o esgoto jogando seus detritos
diretamente no mar”. Era isto que vos queria dizer. Peço justiça e a
absolvição da ré, perdão, peço que compreendam a minha posição.
E com esta intervenção, ficou amplamente comprovada a
inculpabilidade da arguida, merecendo esta, continuar na feliz
companhia da turma “cá estamos nós”!
Já noite alta e no vasto areal de Copacabana, quando tudo o grupo se
juntou numa enorme circunferência, o Carlos se levantou, e foi
dizendo;
- Galera ! Pedi a várias amigas nossas que me dessem a letra da
antiga canção “Sabiá”. Como sempre fui atendido, mas, infelizmente
estes amigos, por sinal amigas, não puderam estar presentes, o que
lamente e muito. Mas todas mandaram sua mensagem em RM (registo
magnético) ou seja, em fita (em Portugal cassete). Vamos começar a
ouvir a mensagem audio gravada pela querida e jovem colega, Helena
Freitas, de Setúbal / Portugal, que não pode estar presente pois o
Luís anda à procura de uma bateria. A interpretação é do duo Helena
/ Luís, e todos nós vamos acompanhar em coro:
“Sabiá lá na gaiola / Fez um buraquinho / Voou, voou, voou, voou / E
a menina / que gostava tanto do bichinho / Chorou, chorou, chorou,
chorou / Sabiá fugiu pro terreiro / Foi cantar no abacareiro / E a
menina diz soluçá / Vem cá sabiá vem cá / Meu limão, meu limoeiro /
Meu pé de jaracandá / Uma vez tindolêlê / outra vez tindolalá / Cai
cai balão / Cai cai balão / Na rua do sabão / Não cai não / Não cai
não / Cai aqui na minha mão / Peguei um ita no norte / E vim pro rio
morar / Adeus meu pai minha mãe / Adeus Belém do Pará / Samba lelê
tá doente / Tá com a cabeça quebrada / Samba lelê precisava / É de
umas boa lambadas / Samba, samba, samba o lelê / Pisa na barra da
saia lelê”.
Uma enorme salva de palma premiou a atuação do duo Helena/Luís que,
com certeza, muitos êxitos terão no futuro!
A segunda gravação vem de São Paulo, da Maria da Conceição C.
Oliveira, a nossa querida FRÔ, que não pode estar presente por
motivos profissionais. Vamos então ouvi-la:
- “Oi, amiguinhos ! Eu sou a Marisa, a pequerrucha filha da Frô, que
vos deseja uma belíssima “semana no rio”! Adeus e um beijinho ! Vou
agora passar à mamã: - “Um alô a todos! Justificando o pedido do
Carlos, aqui vos apresento a letra de “Sabiá” (não com a malandrice
que os lusitanos põem na letra), espero que gostem:
“Sabiá lá na janela / Fez um buraquinho / Voou, voou, voou, voou / E
a menina que gostava tanto do bichinho / Chorou, chorou, chorou,
chorou / Sabiá fugiu do terreiro / Foi cantar no abacareiro / E a
menina vive a chamar / Vem cá sabiá, vem cá ... / A menina diz
soluçando: / Sabiá estou te esperando ... / Sabiá responde de lá: /
Não chore que eu vou voltar!”.
Achei junto na pesquisa esta mensagem: o CD “Trilhas”, que junta
quatro grupos instrumentais / vocais de Campinas, tem uma gravação
de “Sabiá lá na Gaiola”, “Mixada” com Sabiá, “Que Saudade” (com o
Trio Bem Temperado; cravo (Patrícia gatti), rabeca (Zé Gramani) e
voz (Ana Salvagni. É desbundante. Aliás, o disco todo é desbundante,
como tudo que tenha tido a mão e o coração de Zé Gramani. Mas esta
letra foi apresentada pelo duo Helena / Luís. Nesta mistura, violão
e percussão e teclados de Filó Machado e Pichú.
Vou apresentar ainda outra bela versão de “Sabiá”. Música de Legião
Urbana e letra de Rafael, o bronhador:
“Vem aqui meu Sabiá / eu não aguento mais sofrer, / logo vou te
encontrar ... / não adianta se esconder”.
“Eu posso estar sozinho / no banheiro ou no sofá / mas sempre
estarei matando, / o meu amigo Sabiá. / Será, que chegou a minha
vez? / Será, que ele não se escondeu? / Será que também chegou a de
vocês? / Será, que ele ainda não morreu ... ? / oh! oh! oh! oh ! oh
!oh ! oh !oh ! oh ! oh! / Nos perderemos entre monstros, / da nossa
própria criação, / serão noites inteiras, / talvez por medo do
gavião, / ficaremos acordados, imaginando alguma solução /
entraremos no banheiro, descascaremos aquele bobalhão. / Será, que
chegou a minha vez? / Será, que ele não se escondeu? / Será, que
também chegou a de vocês? / Será, que ele ainda não morreu ... ? /
oh! oh! oh! oh! oh! oh! oh! oh! oh! oh! / Brigar, pra quê? / Se é
sem querer, quem é que vai, nos proteger? / Ó o meu maior prazer, /
matar sabiá ... matar sabiá, / eu e você”.
E tinha esta historinha boba, da qual nunca ouvi falar, acompanhando
a canção:
- “Diz a lenda que há muito tempo, muito tempo atrás, viveu um
exótico sabiá. Ele era conhecido e admirado pelo mundo inteiro, pois
era o único. A penugem de sua cabeça tinha tons róseos. Quando
cantava, seu pescoço se alongava e ele se tornava um pássaro altivo
e feliz. Um dia, estranhamente, caiu de um galho. Pessoas de todas
as partes vieram acudi-lo e, ao chegar, presenciaram uma cena atroz
e vil. Um rapaz lá estava espancando o sabiá. Fazia-o socando com
muito gozo e satisfação e só descansou quando o pequeno serzinho
vomitou e desfaleceu. Este ignóbil rapaz aparentava pouca idade,
tinha baixa estatura e dentes avantajados. Quando falava, todos
percebiam seus problemas com a saliva no canto da boca e seus
trejeitos ambíguos. Após cometer tal atrocidade, só lhe restou a
saudade e a tristeza, que o fizeram compor uma canção”. É assim esta
lenda… Um beijinho a todos e uma continuação de uma belíssima semana
no Rio de Janeiro. A vossa amiga, FRÔ!”.
“Pessoal – disse o Carlos, esta nossa amiga bem demonstra a área que
é licenciada. História!”
E vamos de seguida ouvir a gravação que a nossa queridíssima amiga e
colega Rosana Rios, de São Paulo, nos enviou: - “Amigos, já que o
assunto é o “Sabiá”, sugiro que procurem o famoso poema de Gonçalves
Dias, a “Canção do Exílio”:
“Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá / as aves que aqui
gorjeiam / não gorjeiam como lá ... “.
Esse poema tem sido reinterpretado por muitos poetas e músicos,
inclusive os nossos queridíssimos Chico Buarque e Tom Jobim:
“Vou voltar, sei que ainda vou voltar / para o meu lugar / Foi lá, e
é ainda lá / que eu hei de ouvir cantar uma sabiá, / cantar uma
sabiá ... “
O sabiá é uma fonte inesgotável de inspiração para a literatura
brasileira. E quem, como eu, ouve um sabiá-laranjeira cantar quase
todo dia no quintal (tenho um pessegueiro onde eles pousam e trocam
algumas bicadas nos pêssegos por belas canções), não sabe como
poderia viver numa terra onde não canta o sabiá…
Abraços sabiáticos da vossa amiga Rosana Rios”.
Todos aplaudiram todos os trabalhos enviados sobre o “Sabiá”,
gritando ao mesmo tempo:”Sabiá, amigo ! o turma está contigo!”.
Os primeiros alvores de outro radiante dia já eram bem visíveis.
Tínhamos que ir descansar um pouco pois, dentro de breves horas
teríamos que começar o 7º dia de “UMA SEMANA NO RIO” com agenda
bastante carregada...
Fim do 6º dia de “UMA SEMANA NO RIO”
Trabalho de ficção, qualquer figura ou situação é pura coincidência.
É relativamente fácil pesquisar e escrever o que vimos e conhecemos.
Muito mais difícil é escrever o que nunca vimos, escrever por
indicação de grandes amigos e tendo por base de inspiração, 12
postais do Rio de Janeiro! Alguns já antigos!