Carmo Vasconcelos

 

 

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
 

por

Carmo Vasconcelos


 
II PARTE
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Capítulo XIV

 

E aqui continuamos também, eu e Carmen, para prosseguirmos a sua história.  
Não vale a pena fazermos-lhe as perguntas que nos queimam a língua: “Como aguentou, Carmen? Porquê? Por que se submeteu tanto tempo a uma tal violência?” 
E não vale a pena, porque todos nós sabemos que a violência doméstica calada pelas mulheres há trinta anos atrás, quando não havia ainda quaisquer instituições de apoio, se mantém ainda hoje, e, lamentavelmente, mostra indícios de aumentar. Segundo as estatísticas mundiais, não depende do extracto social, das condições financeiras, do grau de instrução, nem do maior ou menor desenvolvimento do país em que ocorre. E a maioria das mulheres, seja por medo, vergonha, ou por outras razões pessoais, ainda prefere calá-la, apesar das portas que já (ou só agora...) começam a abrir-se para as apoiar.       
Portanto, o melhor é continuarmos, sem perguntas. 
Pedro ronda os oito anos. Anda na terceira classe. Já sabe ler. A mãe compra-lhe livros, os mais educativos: sobre a vida dos animais, das plantas, a vida de pequenos garotos que se tornaram homens célebres, tais como: 
Pedro Mascagni, de Livorno, filho e neto de padeiro, completamente inábil para a arte dos seus antecessores. A sua paixão era a música. Contra a vontade do pai, conseguiu frequentar o Conservatório, onde estudou ao lado de Puccini. Juntos passaram fome, mas juntos sobreviveram e tornaram-se homens célebres. E Pedro Mascagni compõe, além de outras belas obras, a famosa ópera “Cavalaria Rusticana”, considerada a sua obra-prima; 
João Segantini, órfão, paupérrimo, com fome de pão e de afecto. Para ganhar umas moedas apascentava ovelhas e suínos, saciando os olhos e o coração nos cumes majestosos dos seus Alpes, na claridade azul do lago de Garda, nos verdes que cobriam os vales na Primavera. O desenho era a paixão de João. Para escapar à pancada que levava da única irmã que tinha, fugiu para Milão. Aí pediu esmola, vagabundeou, até que um monge lhe deu ajuda. De dia ganhava o pão como servente de pedreiro, à noite frequentava a Academia de Belas Artes. Apesar dos grandes sofrimentos, João Segantini tornou-se um pintor famoso, conhecido pelo “pintor da montanha”; 
Tiago Gusmão, siciliano, filho das melhores famílias da cidade. À saída do colégio, ainda rapazinho, perdia-se pelos bairros pobres, tentando compreender e consolar os mais desfavorecidos. Dava a camisa e os sapatos aos mendigos. Aos dezasseis anos, comunica ao pai a sua vontade de se tornar jesuíta. Perante a oposição inexorável do Sr. Gusmão, Tiago espera pacientemente. Faz-se médico, mas em vez da brilhante carreira que o esperava, exerce a profissão, gratuitamente, entre os pobres e camponeses. Mais tarde, contra todas as vontades, recebe as ordens sagradas de “Capuchinho”, leigo e mendicante. E é ele que pede de porta em porta, especialmente durante a gravíssima crise de cólera de 1866, recolhendo tudo o que pode para distribuir por becos e ruelas. 
Carmen não pretendia fazer de seu filho um menino-prodígio; desejava apenas incutir nele qualidades de vontade, perseverança, amor ao estudo, sentimentos nobres e altruístas.  
Jorge tinha outros gostos: comboios eléctricos, aviões telecomandados, pistas de automóveis – brinquedos caríssimos que, no fundo, eram mais para si próprio – brinquedos que desejara na infância e não tivera...   
Carmen não o reprovava; achava até que esta directiva podia funcionar como um outro polo no desenvolvimento de Pedro. Só desaprovava, por vezes, porque receava que tais brinquedos pudessem acarretar, pela sua grandeza, maiores exigências futuras por parte da criança. Mas, para Jorge tudo tinha de ser em grande. Ridículos se lhe afiguravam os presentes singelos, os gestos delicados, as atitudes subtis, as ofertas simbólicas. Palavras de ternura num cartão especial, uma flor, um livro, eram, para ele, insignificâncias.  
Outros valores tradicionais havia que Carmen se esforçava por manter vivos: o Natal, os aniversários, o dia da mãe, o dia do pai. Jorge não ligava a mínima a essas tradições.  
– Para que é isso? Fantochadas que só servem para encher o cu aos comerciantes! – Costumava dizer.  
Porém, Carmen ia teimando, teimando sempre, para que Pedro não se tornasse um ser egoísta, despido dessa capacidade de amor que é a dádiva ao “outro”, desses pequenos gestos que fazem a felicidade alheia e moldam a generosidade dos seres que os praticam. E não deixava nunca de explicar a Pedro o significado de cada dia especial, induzindo-o a participar dele. Juntos, compravam a lembrança para o dia do pai e para o dia do seu aniversário. Carmen fazia um jantar e uma sobremesa especiais. Para o dia da mãe e do seu próprio aniversário, procedia de igual modo, fazendo ver a Pedro que uma simples flor, um cartão rabiscado de palavras de carinho, bastavam para a deixar feliz. E se Carmen, não obstante os seus esforços, não conseguiu fazer de seu filho um ser plenamente realizado, devido à doença que o vitimou, conseguiu talvez o mais importante: Hoje, Pedro, homem feito, mostra um carácter generoso e sensível, avesso a qualquer tipo de vícios ou violência, e preocupado com as injustiças sociais. E não abdica dos gestos simples e carinhosos para com os entes queridos, com uma ternura muito especial por sua mãe. Alguma coisa valeu a pena!

 
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