Carmo Vasconcelos

 

 

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
 

por

Carmo Vasconcelos


 
II PARTE
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Capítulo XV

 

As cartas de Vítor tornam-se mais frequentes. Para evitar os já demasiados conflitos conjugais, os dois irmãos combinam que a correspondência passe a ser remetida para o emprego de Carmen. Vítor manifesta agora claramente a sua preocupação face aos factos de que tomara conhecimento. Quer saber como andam as coisas e reforça a sua oferta de ajuda. Ao mesmo tempo vai contando as grandes alterações que imprimira à sua vida. Dera-lhe uma volta de 180º, não só no aspecto profissional como na vida particular. Aposentado do posto de Comissário de Polícia, é agora gerente de uma firma que comercializa barcos de recreio e, após um casamento de quinze anos, separa-se definitivamente da mulher e assume uma nova relação. Rondando a casa dos quarenta, ainda não totalmente despido do seu idealismo, Vítor dá um passo decisivo, julgando ter chegado ao fim da sua “busca do amor impossível” (tema de um livro de poemas da sua autoria). O tempo viria a mostrar que a sua busca não terminara aí. Mas isso é complicado demais para desenvolver aqui e agora. Seria a maldição que pesava sobre a família desde o tempo de seus avós, ou viria ela de eras mais remotas, dessas que não alcançamos…?   
Carmen, apesar de gostar muito da cunhada, nunca criticou o irmão pela separação. Afinal, ele era apenas um entre milhões de seres que têm a coragem de provar que um casamento não é uma cruz que tenhamos de arrostar por toda a vida, de como nenhuma árvore é tão sólida que se não possa derrubar, independentemente do número de rebentos, e com muito mais propriedade quando essa árvore está doente, as raízes contaminadas de muitos vermes... 
Toda a família de além-mar estava agora a par das dificuldades que Carmen atravessava. Além de Vítor, até seu pai, avesso a correspondência frequente, lhe mandara uma bonita carta, oferecendo-lhe o seu apoio, carta que ela lamenta ter perdido, à força de tanto a esconder, mas que memorizou. Carlos, que não usava dar-se ares de paternalista, falava-lhe do seu jeito, meio filosófico, meio humorístico, dos quais não abdicava mesmo em face de grandes tragédias: “Coragem, Carmen! Deixa essa terra onde cada vez é mais difícil viver. A nossa terra é qualquer parte do mundo onde possamos sentir-nos livres e felizes! Vem! Ficamos à tua espera!”  
Um sonho começou a germinar lentamente no íntimo daquela mulher sofrida. Desta vez, tinha uma enorme família a apoiá-la. Era como voltar aos seus tempos de menina – amada e protegida! E como ela se sentia carente da seiva das suas raízes! Por que não matar nela a sua sede de afecto?   
Todavia, Carmen debatia-se entre o sonho e o pesadelo. As suas noites eram povoadas de anjos e demónios, prados verdes e pântanos viscosos, ilhas floridas e cárceres nauseabundos. Anjos levavam-na nas asas por sobre mares azuis e céus inundados de estrelas, mas logo, demónios rubros de raiva cruzavam os ares, brandindo tridentes que a espetavam, dilacerando-lhe a carne, furando-lhe os olhos, cuspindo línguas de fogo que a sugavam, disputando-a aos anjos puros e diáfanos. Vítima de uma luta sagrada e demoníaca, via-se refém esgarçado; cérebro, coração e vísceras divididos, uma parte de si antegozando as delícias do paraíso, a outra prestes a arder nas fogueiras do inferno. 
As cartas de Vítor são agora insistentes. Já instalado com a nova companheira, era esse lar que oferecia a Carmen e a Pedro. Segundo ele, a casa, uma vivenda, tinha até um jardim. Uma criada e um cozinheiro negros encarregavam-se das lides domésticas. E, dizia: “Já falei de ti a um casal amigo. Ele é engenheiro, director de uma fábrica, e está a precisar urgentemente de uma secretária competente. A esposa, professora, é dona de um colégio onde Pedro poderá retomar os estudos logo que chegue. Portanto, emprego para ti, escola para Pedro e casa para ambos, já não constituem problema. As passagens de avião, enviar-tas-ei logo que te decidas...” 
Tudo caminhava depressa demais! Carmen não era de decisões rápidas, irreflectidas, a não ser em situações drásticas, a quente, como sabemos. Mas a frio, pesava e media demais. E de tanto pesar e medir actos, consequências e efeitos, adiava, protelava ao máximo as decisões. Por outro lado, era torturada por uma auto-análise constante, uma voz interior que lhe segredava: “Não passas de uma pensadora, uma teórica. Mesmo sabendo que te assiste a razão, não avançarás nunca, deixar-te-ás morrer tentando decifrar os teus enigmas, desenredar os teus novelos, estática perante o próprio sofrimento; perseguindo a utopia de achares soluções que não magoem ninguém. Uma fraca, é o que tu és!!! Escudas-te com as perseguições de teu marido, as chantagens sobre o teu filho, defendes-te com sentimentos de pena, comiserações vãs – pérolas a porcos! Só porque te recusas a admitir que talvez ames o homem que te humilha, possível verdade que te rebaixa aos teus próprios olhos, ou então, porque te tomas por um génio capaz de modificar naturezas humanas menos perfeitas, seres primários no início do caminho, acreditando que água mole em pedra dura... etc., etc. Ou, ainda, (o mais provável) porque és cobarde, medrosa, preferes o mal conhecido, a paz podre, a correres riscos... Não te iludas! És tu, tu que tens de modificar-te, ou nunca romperás o círculo de sombras que te aprisiona, jamais conseguirás ver claro!” 
Carmen reage. Cerra os ouvidos, tranca a ferros a sua voz interior – vozinha estúpida a dar-se ares de omnisciente – corre a cortina dos pesadelos e deixa levedar o sonho. Veste a couraça de gelo que lhe petrifica os sentimentos e deixa-se arrefecer até ao âmago da consciência. Agora, sim! Está apta a raciocinar, fria e calculadamente! Irá! Está decidido! 
Escreve ao irmão, comunicando-lhe o seu propósito firme. 
Ele adverte: “Vê lá, Carmen, pensa bem! Está em jogo o empenhamento da minha palavra com o meu amigo que te dará o emprego, a vaga reservada no colégio para o Pedro, o custo elevado das passagens… Não podes desistir à última hora! Terás de tratar das vossas vacinas – as normais mais as da cólera e febre amarela. Terás de deslocar-te ao único sítio onde estas últimas são feitas: o Hospital do Ultramar, em Belém. E sem que Jorge suspeite, ou deitarás tudo por terra. Só depois de teres feito tudo isso, poderei marcar as viagens.” 
Cartas iam e vinham diariamente. De cá partiam mil perguntas e dúvidas, de lá chegavam respostas, indicações precisas, palavras de força e ânimo. O processo tinha iniciado a sua marcha – às tantas, irreversível. 
Mas Carmen, uma vez decidida, não era de voltar com a palavra atrás, e começa então a maquinar na sombra, às ocultas do marido, a sua partida.  
Às vezes, a couraça de gelo de que se revestira abria fendas e ela sentia-se como um criminoso sem escrúpulos que arquitectava, fria e premeditadamente, o plano do seu crime. Esses degelos ocasionais penetravam-na, provocavam-lhe arrepios gélidos por todo o corpo, e um medo terrível se apossava dela, um medo de que os olhos a traíssem, uma palavra solta a atraiçoasse. Não podia partilhar com ninguém os seus projectos nem os seus receios, todo o cuidado era pouco... Nem com a própria mãe, aliás, muito menos com ela! Isso era o que mais lhe doía; teria de abandoná-la, sem um beijo, uma despedida. Como ela iria sofrer... 
A pouco e pouco, corajosamente, foi dando os passos necessários. E que passos... Dispensas pedidas no Serviço sob vários pretextos, corridas ao colégio para buscar Pedro, táxis tomados à pressa, horas intermináveis nas filas para as vacinas.  
Depois, o regresso a casa, o jantar cozinhado e posto na mesa à hora habitual, o semblante sem a mínima alteração... 
Carmen sentia-se sufocada. Pesava-lhe tanta dissimulação. Abriu-se com a prima Lurdes. Ela não merecia ficar na ignorância de passo tão importante na vida daquela menina que ela vira crescer, tornar-se mulher, e que tantas vezes confortara. Lurdes deu-lhe coragem e, abraçadas, verteram as lágrimas de uma saudade antecipada. 
Viagem marcada, de Luanda chega a última carta de Vítor. As mesmas palavras de apoio e incentivo, repetidas até à exaustão, e as instruções para Carmen levantar, nesse mesmo dia, os bilhetes na TAP, em Lisboa.
O voo seria no dia seguinte, às cinco da tarde.

 

 
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