Carmo Vasconcelos

 

 

O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
 

por

Carmo Vasconcelos


 
II PARTE
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Capítulo XVI

 

Depois de uma noite de insónia e sobressaltos, Carmen levantou-se mais cedo do que o costume. Olhou a manhã carregada de nuvens. Era uma sexta-feira de um daqueles dias de Novembro, tristes e cinzentos, o último que passaria em Lisboa. Por momentos, deixou-se invadir pela atmosfera melancólica. Jorge e Pedro dormiam ainda. Aproveita para certificar-se de que os bilhetes de avião e os boletins de vacinas estão no lugar onde os escondera. Recapitula de memória os passos estudados. Marca com os olhos um ou outro “bibelot” de estimação que há-de incluir na bagagem apenas no último momento. E dá início à rotina de todos os dias. O café da manhã, o preparar de Pedro, o alinhavar do almoço. Depois, a saída apressada para o emprego, acompanhada de Jorge e do pequeno, que sempre levavam à escola, de caminho. 
Nove horas: Carmen assina o Ponto e entra ao Serviço. 
Meio-dia: Sai da Repartição, apanha o Metro, vai buscar o filho à escola, prepara a refeição; Jorge chega, almoçam. 
Treze horas e trinta minutos: Saem de casa, deixam Pedro no colégio, apanham o Metro. Como sempre, Carmen sai na paragem da Avenida, Jorge segue para o Rossio.  
– Até logo! – Dizem ambos, maquinalmente, como era hábito. 
Catorze horas: Carmen não chega a entrar no Serviço. Muda de gare e volta a apanhar o Metro. Chega a casa, abre uma mala de viagem e enche-a com algumas peças de vestuário, já prévia e mentalmente escolhidas – apenas roupas leves, de Verão, porque em fins de Novembro queima o calor em Luanda; três ou quatro molduras com fotos queridas; meia dúzia de livros; minúsculos objectos de valor sentimental. Depois, muda de roupa, ajeita o cabelo, mete na carteira os bilhetes e os outros documentos necessários, pega na mala de viagem e, sem uma lágrima, deixa para trás o passado de má memória. Na caixa do correio, coloca uma breve carta para Jorge:
“Desta vez é inútil seguires-me, pois, quando leres esta carta já estarei muito longe, onde não poderás alcançar-me. Verás que é melhor assim, jamais seríamos felizes juntos!”  
Quinze horas: Carmen toma um táxi e diz ao motorista:  
– Para o Aeroporto, por favor! Mas, primeiro, temos de fazer uma pequena paragem nessa rua à esquerda, para eu apanhar o meu filho no colégio.  
– Com certeza, minha senhora!   
– Vieste tão cedo, mamã!? Onde vamos? – Pergunta Pedro, surpreendido ao ser encaminhado para o táxi.
– Vamos dar um passeio, filho, vou levar-te a ver os aviões! 
– Que bom, mamã! E posso andar neles? 
– Não sei ainda, vamos ver... 
Carmen trabalhara, até poucas horas atrás, numa Direcção Geral ligada à Aviação Civil. Conhecia vários pilotos. E Pedro sabia isso. Muitas vezes tinha pedido à mãe para o levar a andar de avião, mas nunca se proporcionara, apesar de ela ter sido diversas vezes convidada a fazê-lo. Na verdade, sempre sentira um certo medo... Mas, naquele momento, não podia pensar nisso. 
Dezasseis horas: Chegam ao Aeroporto. Pedro, ao ver a mala de viagem, pergunta: 
– Para que é essa mala, mamã? 
– Pelo sim, pelo não, a mamã trouxe alguma roupa, porque se for possível darmos a tal volta de avião, aproveitamos para fazer uma visita aos tios e ao avô que estão em Luanda. Podemos até ficar lá de férias algum tempo... 
– Mas eles estão muito longe! 
– E tu não sabes como os aviões voam rápido? 
Carmen estudava as respostas a dar ao filho. Não queria enganá-lo nem dizer-lhe a verdade exacta. Precisava de o ir preparando lentamente, para que ele fosse absorvendo a realidade aos poucos. E debatia-se entre essa preocupação e o seu próprio medo. Um medo feito de muitos medos... Temia estar a ser seguida, receava que à última hora algum documento faltasse ou estivesse incorrecto; que não deixassem embarcar Pedro sem uma autorização do pai; que lhe dissessem: “Onde pensa a senhora que vai? Já fomos avisados. Volte mas é para casa, que o seu lugar é ao lado do seu marido. Onde já se viu roubar um filho ao pai?”  
Trémula, julgava ver em todos os olhares uma acusação, ou um brilho de escárnio, pela mulher que ousava tentar a sua libertação. Amedrontada, olhava furtivamente em todas as direcções, sentindo-se como uma ladra que tenta romper as malhas da justiça. 
De súbito, um aceno. Porém, um aceno tranquilizador. Era a prima Lurdes que, de longe, lhe enviava beijos e um gesto de coragem, como que a dizer-lhe: “Vai! Vai! Segue em frente!” 
Carmen ganhou alento, aos poucos foi dominando os seus terrores e, menos insegura, cumpriu todos os trâmites pedidos rotineiramente a quem embarca.  
Pedro não parava de fazer perguntas: “Para que é isto? Para que é aquilo? Então, sempre podemos ir, mamã?” E exultava com a ideia de ir ver um avião de perto e por dentro. 
Finalmente, a apresentação dos documentos. 
– Pode seguir, minha senhora! Está tudo em ordem. Boa viagem!    
Carmen respirou fundo! Esqueceu até o velho medo de voar! 
Dezasseis horas e quarenta minutos: Carmen ajuda o seu menino a tomar lugar no carro de pista que os levará até ao Boeing 747. Pedro, extasiado, parecia um boneco articulado, cabeça para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita. Enquanto o veículo fazia o trajecto pela longa pista, viam-se aviões que levantavam voo, outros que aterravam, outros ainda, parados em serviço de manutenção. E todos eles pareciam a Pedro, monstros enormes, comparados com os seus aviõezinhos de brinquedo, ou mesmo com aqueles que estava habituado a ver rasgarem o céu. 
Dezassete horas: Ei-los a bordo. Carmen, nervos esfarrapados, está à beira das lágrimas. Um nó na garganta embarga-lhe a voz quando vê fechar-se, atrás de si, a porta do pássaro de aço que a levará, irrevogavelmente, para o desconhecido. 
– Senhores passageiros, queiram apertar os cintos, por favor, vamos descolar dentro de minutos! Convosco o Comandante N... que deseja a todos uma óptima viagem! 
E o monstro a jacto começa a elevar-se no ar. 
Para os nossos dois protagonistas, uma iniciação! Porém, cedo se deram conta que viajarem num Boeing 747 era como estarem calmamente sentados no salão de um grande hotel. Apenas uma sensação de vácuo no estômago faz Carmen lembrar que aquele “hotel” se encontra suspenso no espaço. Acomodando Pedro, respondendo às suas mil e uma perguntas, mirando ela própria tudo o que a rodeava, rapidamente perdeu a noção de que estava no ar. Hospedeiras e comissários de bordo movimentavam-se numa azáfama, dando explicações: os assentos que podiam reclinar-se para dormir, as máscaras de oxigénio a despoletar em caso de necessidade, os botões para ouvir música através de auscultadores, a pequena lâmpada individual para leitura. Ao fundo do salão, um ecrã gigante. Nele seriam projectados filmes, a seguir ao jantar. 
Pedro estava encantado. Logo quis accionar botões, colocar os auscultadores – o que o aquietou por um tempo e o fez deixar Carmen em sossego para se entregar aos pensamentos que a assaltavam em turbilhão: “Jorge já teria chegado a casa? Costumava ver sempre o correio antes de subir, já teria lido a carta?” 
Uma estranha sensação se apoderou dela, um aperto que lhe doía no peito. E continuava a interrogar-se: “Que fizera? Que seria dele agora, tão vulnerável, tão inseguro?” 
Pegou num livro. Inútil! Não conseguia concentrar-se. Puxou conversa com Pedro: 
– Estás a gostar da música? Não preferes ler um dos teus livros? Às sete vão servir o jantar, depois vai haver cinema! 
Mas Pedro, já meio ensonado, preferiu continuar com a novidade dos auscultadores. 
Carmen atordoava-se, tentando apagar da memória tudo o que ficara para trás, como se não soubesse que traumas, estigmas e recordações, viajam connosco nem que seja até ao fim do mundo, colam-se a nós como uma segunda pele, até ao fim da vida! Como disse Horácio: “As penas montam à garupa e galopam connosco”. O mesmo quis dizer Pérsio: “Por acaso o cão que, após longos esforços, logra por fim escapar, não leva quase sempre consigo um pedaço da sua corrente?” 
Dezanove horas: O jantar começa a ser servido. Pedro, a instâncias da mãe, comeu apenas duas ou três colheres de sopa e uma fruta, e ela, porque tinha de dar o exemplo, fez o mesmo. 
Já levavam duas horas de viagem. Carmen levantou-se, foi ao quarto de banho, espreitou através do vidro de uma janela. Um arrepio gélido percorreu-a até à alma. Lá fora, um vácuo de vida, uma vastidão de nada. Nem mar nem céu. Apenas o absoluto irreal de brancuras impalpáveis! Como a existência se lhe afigurou efémera! Como lhe pareceu pesada, suja e torpe, a cruz terrena! Por segundos, desejou fazer parte daquele mundo puro e diáfano – ser irmã da nuvem que deslizava ao sabor da aragem adivinhada... 
De súbito, a voz de Pedro chamou-a à realidade. Uma hospedeira trouxera-o até ela. 
– Mamã, quero fazer chichi! Posso espreitar à janela? Por que é que as janelas não se abrem? 
Carmen esqueceu nuvens e devaneios. Seu filho era, indubitavelmente, o cordão real que a prendia à Terra! 
Voltaram aos seus lugares que, situados na ala central do avião, ficavam, felizmente, longe das pequenas janelas denunciadoras da fragilidade humana perante a imensidão do Universo. Pedro ainda perguntou:
– Mamã, falta muito para chegarmos? 
– Não, querido, já falta pouco. 
Não tardou que Pedro cedesse ao cansaço de tanta novidade e emoção. Adormeceu de mão dada com a mãe e aconchegado ao seu peito. Também aconchegados a Carmen, porém bem despertos, os mesmos pensamentos torturantes: “Jorge já deve ter lido a carta... Decerto correu a contar aos pais... Nem deve ter jantado... A minha mãe também já deve saber...” E como lhe pesou naquele momento dar-lhe mais esse desgosto! 
Vinte e uma horas: O filme, entretanto posto a correr, tomou a dianteira na sua mente. Carmen enredou-se na trama do argumento, refugiou-se na pele da protagonista, riu e chorou com ela, lutou com a rival, beijou e fez amor com o galã apaixonado, até que, exausta, adormeceu. 
Uma e quinze da madrugada: Carmen acordou sobressaltada com a potente voz do comandante que se fazia ouvir através dos altifalantes: 
– Senhores passageiros, dentro de quinze minutos aterraremos no aeroporto de Luanda! Terão ainda tempo para contemplar a maravilhosa panorâmica nocturna sobre a baía. De seguida, regressem aos seus lugares e apertem os cintos, por favor! Foi um prazer viajar convosco! O comandante N... despede-se, desejando a todos uma boa-noite!             
Passageiros de pé formavam fila junto às janelas laterais. Carmen pegou Pedro ao colo.  
– Acorda, Pedro, estamos a chegar! Vem ver! 
A visão nocturna da baía de Luanda encheu-lhe os olhos de uma beleza indescritível. – Era então aquela, a nova terra-mãe que calorosamente lhe abria os braços?... 
Era uma e quarenta e cinco da madrugada, hora de Lisboa, desse Novembro de 1972, quando Carmen pisou, pela primeira vez, o solo africano. A noite, fechada e quente, envolveu-a no seu amplexo cálido e aqueceu-lhe o sangue. E as suaves vozes de um silêncio misterioso e murmurante, sussurraram promessas de esperança à sua alma amargurada. Vítor e a companheira já os esperavam. E quente como a noite foi o seu abraço fraterno.

 

  – Bravo, Carmen! Finalmente, conseguiu! – Exclamei, batendo palmas e dando largas à emoção que dificilmente contivera até aqui.
Carmen olhou-me, com ar melancólico e enigmático. 
– Palmas, minha amiga? Só se forem para si! Pela paciência que teve em me escutar e pela habilidade com que soube pôr ordem nas minhas palavras revoltas e dispersas, nos meus sentimentos conturbados. Quanto a eu ter conseguido…? – Bem, digamos que venci uma batalha, o que, como sabemos, não equivale a ganhar a guerra...   
E, com estas palavras, Carmen deu por finda a sua longa narrativa, deixando-nos um último poema.
 

UMA ATRIZ ENTRE UM MILHÃO


Eu te saúdo, mulher de coragem,
que ousaste encetar nova viagem,
malas vazias, mãos cheias de nada…
deixando para trás a paz apodrecida,
a farsa de bairro mal representada,
a que só os cobardes chamam vida!
 
Eu te saúdo, actriz, palhaço meu irmão,
que ousaste soprar luas em bolas de sabão,
abandonando um palco que contigo não diz.
Que te deste o direito de sonhar e ser criança,
de aspirar outro ar, renovar a tua esperança,
acreditando que podias ser feliz!
 
Eu te saúdo, actriz entre um milhão,
que ousaste recusar-te à exibição
da peça desgastada e sem interesse,
que te entregaste de alma e coração
a um novo papel que não esse…
Actriz, sim! Mas nessa peça, não!

 
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