Capítulo XII
De posse do material que Carmen me deixou, constatei que
abrangia cerca de cinco anos da sua juventude, mais ou menos
entre 1955 e 1960, calculo que entre os seus dezassete e vinte e
dois anos. Tentarei resumi-los.
Em simultâneo, é de assinalar em 1955, o início das lutas pela
independência da Argélia, conflito que durou até 1962, data em
que o Presidente De Gaulle proclamou a independência daquela
colónia.
Também em 1955, Portugal vê os seus territórios ameaçados com a
tentativa frustrada da invasão civil de Goa, Damão e Diu, por
parte de seis mil indianos.
Começa, então, o envio de
grandes contigentes de tropas portuguesas para a Índia!
De novo, os lenços brancos, os dolorosos adeus! E Diolinda que
novamente repetia: “Já não volto a ver-te, meu filho!”
Foi a vez de Vítor Manuel partir.
Carmen, com dezassete anos, despede-se de mais um irmão. Era o
terceiro que a vida, em rajadas, lhe roubava. Como que assolada
por ventos cíclicos, a sua árvore ia-se despojando de ramos...
Agora, presos ao tronco, só Carmen e Eduardo. Mas que afinidades
podiam existir entre um rapazinho de treze anos e uma senhorinha
de dezassete? Nessas idades, uma diferença de quatro anos toma
as proporções de um abismo.
Não liam os mesmos livros, não tinham os mesmos interesses, e os
amigos, como é óbvio, também não se coadunavam.
Carmen acaba o seu Curso Geral de Comércio. Sendo um curso
prático, destinado a um objectivo de emprego imediato, era muito
extenso e diversificado. Depois de passar em todos os exames,
havia ainda uma prova de “Aptidão Profissional”, e só Carmen e
um colega obtiveram o almejado diploma final. Nem Conceição o
conseguiu – ficando mais um ano para o repetir – o que deu azo a
que as duas amigas tivessem de seguir rumos diferentes!
Depois dos irmãos, até a amiga! Eram muitas perdas!
Sensivelmente por essa altura, Diolinda contrai uma grave doença
de olhos, uma úlcera da córnea, que lhe provocava dores
lancinantes. Consultados vários oftalmologistas, todos são de
opinião de que teria de ser operada. Entretanto, alguém lhe
indicou um grande especialista que tinha um porém: cobrava caro.
Mas entre a luz dos olhos e as jóias que lhe restavam, Diolinda
não hesitou. Vendeu algumas e correu a consultá-lo. Depois de a
observar atentamente, o médico disse-lhe:
– Vai ser demorado, mas curo-a sem precisar submeter-se a
operação! Só precisará de ter muita paciência e cumprir à risca
as minhas indicações.
Diolinda cumpriu. De olhos vendados, é obrigada a permanecer de
cama, completamente às escuras. Do quarto apenas saía para ir
aos tratamentos, e mesmo assim, de cabeça coberta, os olhos
totalmente protegidos.
Durante esse período, Carmen tomou sobre si todas as tarefas
caseiras: o arranjo da casa, das roupas, as compras, a cozinha.
Dava as refeições a sua mãe e ministrava-lhe os pingos e pomadas
às horas prescritas.
Se para Diolinda foi difícil, para Carmen também não foi fácil.
Embora a mãe lhe desse todas as indicações, a jovem dona-de-casa
andava numa roda-viva. Felizmente, seu padrinho tomava as
refeições no hotel, mas tinha de cuidar de Eduardo, para que
tivesse as refeições a tempo de não chegar atrasado à escola.
Carmen quase se esquecia de comer. De comer e de outras
coisas... pois até Edgar andava um pouco esquecido.
Com algumas falhas, Carmen levou muito a sério aquela inesperada
responsabilidade, talvez para provar a sua mãe como a amava,
apesar das divergências entre elas.
Na verdade, conforme o médico prometera, Diolinda sarou, e até
ao fim da sua vida nunca usou óculos, nem mesmo para ler o
jornal, leitura que não dispensava!
Todavia, o responder às cartas que chegavam da Índia, enviadas
por Vítor Manuel, era tarefa que Diolinda delegava na filha e
que esta protelava o mais que podia. Não porque Carmen não
gostasse de escrever, mas porque sua mãe a obrigava a sentar-se
a seu lado horas intermináveis, ditando-lhe o teor das cartas. O
mesmo se passava com as cartas para Carlos Alberto. Carmen tinha
de relatar o que sua mãe ditava, sem tirar nem pôr: banalidades,
lugares comuns, trivialidades que Carmen achava insuportáveis.
Era o género de escrita que a entediava, pois não lhe dava azo a
qualquer tipo de criatividade, além de que lhe roubava um tempo
precioso... Precioso para ler os seus romances, escrevinhar os
seus versos, idealizar os seus sonhos! Contudo, abria
ansiosamente as cartas que chegavam, e lê-las, sim, era um
prazer. Sempre lhe traziam algo de novo: imagens de terras
longínquas, descrições de povos distantes, costumes e rituais
diferentes. As cartas de Vítor Manuel eram autênticos
“testamentos”. Cada uma delas era como que uma viagem dilatadora
de horizontes, e Carmen, ingenuamente, invejava os irmãos e a
sorte deles por terem nascido homens.
Dentro de si, viajar era o sonho maior! E sentia-se tão
aprisionada... Senão, vejam esta poesia feita na sua juventude:
PÁSSARO FERIDO
|
Pássaro ferido
de asas cortadas…
Faz longos voos
pelo imaginário.
Ninguém entende
o seu cantar
nem seu fadário!
Pássaro ferido
de asas cortadas... |
Da Índia chegavam-lhe os
presentes de seu irmão: tabuleiros e caixinhas de charão, álbuns
com música, colares de missanga, tecidos finos e leves onde se
entrelaçavam fios dourados e prateados. De um desses tecidos –
branco com fios de prata – Carmen mandou fazer um vestido de
noite que usou no baile de fim de curso, na senhorial Casa do
Alentejo E, segundo as suas palavras: “Só aquele maravilhoso
vestido pode ter sido o responsável por me terem atribuído o
título de Princesa da Festa!”
Carmen foi guardando, carinhosamente ao longo dos anos, todos os
“mimos” de seus irmãos. Tal como as estampas sagradas de Carlos
Alberto, o álbum para fotos, enviado por Vítor Manuel, também
resistiu ao tempo, e ainda hoje deixa ouvir a sua música.

E, mais uma vez, o cais. O cais que Carmen já apelidara de “o
cais das lágrimas”. Mas, desta vez, vestido de festa, o que não
evitava uma constante: as lágrimas! Mas estas de alegria. Tal
como antes, os mesmos olhares colados ao rio, fixando os
barquitos minúsculos que, agora, ao invés de se afastarem, se
aproximavam, crescendo, crescendo, à medida da comoção dos seres
que os esperavam. E no momento em que já atracados se tornavam
navios, o mar devolvia-lhes os entes queridos que um dia levara!
Então, eram abraços e beijos, saudades de anos despejadas de
rompante, pais conhecendo os filhos que tinham deixado no colo
ou nas barrigas prenhes das mulheres amadas. Não obstante, para
alguns que voltavam, a alegria era ensombrada pela ausência de
um ou outro ente querido que, entretanto, se finara.
Carmen lá estava com sua mãe, como sempre! Tantas foram as vezes
que pisou aquele chão e sentiu aquela mistura de sentimentos,
que dois quadros ficaram profundamente gravados na sua mente:
um, eivado dos choros negros das partidas, outro, profusamente
colorido com as alegrias das chegadas.
Desta vez, era Carlos Alberto que voltava! Porém, o serviço
militar, a sua estada em Macau e o castigo em Cabo Verde, não o
fizeram “mais homem”, como é uso dizer-se dos mancebos que vão à
tropa. Pelo contrário, transformaram-no num ser mais sofrido,
mais revoltado! E a paixão precocemente abandonada em Macau,
fê-lo talvez mais carente do que nunca... Anos desenraizado da
pátria, ela não o recebeu de braços abertos. Mais velho e sem
uma profissão definida, difícil se tornou a integração na terra
que o vira nascer. Os vícios adquiridos em terras de além-mar –
álcool e mulheres – acharam nele o habitat perfeito. Para lhes
fazer face deitou a mão a várias profissões. De notar, que as
suas capacidades de resistência, de improviso, de adaptação,
eram excepcionais (tal como seu pai). Mas nunca conseguiu mais
do que ocupações incertas. Como incerta seria toda a sua vida!
